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Juros futuros disparam e colocam corte maior da Selic em dúvida

Escalada do petróleo após tensões no Oriente Médio eleva risco inflacionário, pressiona a curva de juros e muda as expectativas do mercado sobre a próxima decisão do Copom

por Camila Braga
06/03/2026 às 21h39
em Economia
Taxa Selic: Galípolo Defende “Calibragem” E Dis Recuam Em Dia De Otimismo No Mercado - Gazeta Mercantil

Juros futuros disparam e mercado passa a duvidar de corte maior da Selic em março

O avanço dos juros futuros negociados na B3 voltou a dominar o radar do mercado financeiro nesta sexta-feira (6). Em uma sessão marcada por forte volatilidade, os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) registraram nova rodada de alta, indicando que investidores passaram a revisar rapidamente as apostas sobre o rumo da política monetária brasileira.

O movimento ocorreu mesmo com a queda do dólar ao longo da tarde e desempenho relativamente mais estável de outros ativos domésticos. Para profissionais do mercado, a disparada dos juros futuros reflete uma combinação de fatores: aumento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, salto no preço do petróleo e ajustes técnicos em posições de investidores que apostavam na queda das taxas.

Leia também: JPMorgan eleva recomendação da Log CP (LOGG3) e prevê alta com cortes na Selic.

Até poucos dias atrás, o cenário predominante apontava para um corte de 0,5 ponto percentual da taxa Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para este mês. No entanto, o comportamento recente da curva de juros passou a indicar um cenário mais incerto, com chances crescentes de redução menor — ou até mesmo manutenção do juro básico.

Curva de juros abre forte na B3

A curva de juros futuros apresentou forte inclinação durante o pregão, com destaque para os vencimentos intermediários e longos.

No fechamento da sessão, os principais contratos registraram as seguintes taxas:

O DI com vencimento em janeiro de 2027 subiu de 13,505% para 13,67%.
O DI para janeiro de 2029 avançou de 13,079% para 13,30%.
O DI com vencimento em janeiro de 2031 passou de 13,469% para 13,715%.

A movimentação revela uma reprecificação relevante do risco macroeconômico no Brasil. Quando os juros futuros sobem, o mercado passa a exigir taxas maiores para financiar o governo e as empresas no futuro, refletindo expectativas de inflação mais persistente ou de política monetária mais cautelosa.

O comportamento da curva nesta sessão foi particularmente significativo porque ocorreu mesmo em um ambiente em que o câmbio mostrou alívio. Isso reforça a avaliação de que a pressão veio principalmente de fatores externos e do reposicionamento de investidores.

Petróleo entra no centro das atenções do mercado

O principal gatilho para a alta dos juros futuros foi o avanço do preço do petróleo no mercado internacional. O barril do tipo Brent, referência global, chegou a ser negociado a US$ 92,63 no contrato para maio.

A disparada ocorreu em meio ao agravamento do conflito no Oriente Médio, que elevou preocupações sobre possíveis interrupções na oferta global de energia.

Um dos pontos mais sensíveis para o mercado é a situação do Estreito de Ormuz. A região é considerada estratégica para o comércio internacional de petróleo, já que cerca de 20% da produção mundial da commodity passa pelo local.

Com a intensificação das tensões militares, investidores passaram a avaliar que o risco de interrupção no fluxo de petróleo aumentou. Ataques a instalações energéticas na região também ampliaram o temor de redução da oferta global.

Esse cenário tem impacto direto nas expectativas de inflação em diversos países, incluindo o Brasil. O aumento do preço do petróleo tende a pressionar combustíveis, fretes e custos logísticos, o que pode se espalhar por diferentes setores da economia.

Diante disso, os juros futuros passaram a refletir a possibilidade de um ambiente inflacionário mais desafiador nos próximos meses.

Expectativa de corte da Selic perde força

A mudança no cenário internacional provocou uma rápida revisão nas expectativas para a política monetária brasileira.

Até recentemente, grande parte dos economistas considerava praticamente certo um corte de 0,5 ponto percentual na Selic na reunião de março do Copom. O movimento seria parte do processo de flexibilização monetária iniciado após o ciclo de aperto adotado para conter a inflação.

Contudo, a disparada recente dos juros futuros indica que o mercado passou a trabalhar com um cenário mais conservador.

Agora, ganha força a avaliação de que o Banco Central pode optar por uma redução menor da taxa básica, de 0,25 ponto percentual. Em um cenário mais cauteloso, também não está descartada a possibilidade de manutenção da Selic.

A mudança de percepção ocorre porque o Banco Central costuma reagir de forma prudente diante de choques inflacionários globais, especialmente aqueles relacionados a energia e commodities.

Ajustes técnicos ampliam volatilidade da curva

Além do impacto do petróleo e do cenário geopolítico, profissionais do mercado destacam que fatores técnicos também contribuíram para a disparada dos juros futuros.

Nos últimos meses, muitos investidores vinham apostando na queda das taxas, posicionando-se na chamada “ponta aplicada” da curva de juros. Com a mudança abrupta do cenário externo, parte desses participantes decidiu encerrar posições para evitar perdas maiores.

Esse processo é conhecido no mercado como “stop” de posição.

Quando vários investidores encerram apostas ao mesmo tempo, a pressão sobre a curva pode se intensificar rapidamente, ampliando o movimento de alta das taxas.

A dinâmica também foi agravada pela redução da liquidez, típica de momentos de forte incerteza no mercado financeiro.

Liquidez reduzida favorece movimentos abruptos

Em períodos de turbulência global, muitos investidores preferem reduzir exposição a ativos mais sensíveis ao risco.

Esse comportamento diminui a liquidez do mercado e torna os preços mais voláteis. Nesse ambiente, pequenas ordens de compra ou venda podem gerar grandes oscilações nas taxas.

Foi exatamente esse tipo de dinâmica que marcou a sessão desta sexta-feira. Os juros futuros registraram alta mais intensa do que outros ativos domésticos, refletindo a dificuldade de encontrar contraparte disposta a assumir posições contrárias.

Especialistas destacam que esse tipo de movimento é comum em momentos de choque geopolítico ou mudanças abruptas no cenário macroeconômico global.

Semana termina com forte alta na curva de juros

O avanço das taxas não se limitou ao pregão desta sexta-feira. No acumulado da semana, a curva de juros futuros registrou uma das maiores altas recentes.

Em relação ao fechamento da sexta-feira anterior, os contratos apresentaram os seguintes movimentos:

O DI para janeiro de 2027 subiu 39 pontos-base.
O DI para janeiro de 2029 avançou 65 pontos-base.
O DI para janeiro de 2031 saltou 68 pontos-base.

Além da alta das taxas, o mercado observou uma inclinação mais acentuada da curva de juros, fenômeno que ocorre quando os vencimentos mais longos sobem mais do que os curtos.

Esse comportamento costuma indicar aumento da percepção de risco no horizonte mais longo da economia.

Banco Central entra em momento delicado

O comportamento recente dos juros futuros coloca o Banco Central brasileiro diante de um cenário mais complexo para a condução da política monetária.

De um lado, a inflação doméstica vinha apresentando sinais de desaceleração, o que justificava a continuidade do ciclo de cortes da Selic.

Por outro lado, o choque de preços do petróleo pode alterar rapidamente esse quadro, sobretudo se os preços da energia permanecerem elevados por um período prolongado.

Em situações desse tipo, autoridades monetárias costumam adotar postura cautelosa, evitando movimentos agressivos que possam comprometer o controle da inflação.

Essa avaliação ajuda a explicar por que o mercado passou a questionar a magnitude do corte esperado para a próxima reunião do Copom.

Investidores acompanham petróleo e cenário geopolítico

A trajetória dos juros futuros nas próximas semanas dependerá principalmente da evolução do cenário internacional.

O comportamento do petróleo deve permanecer como variável central para o mercado financeiro global. Caso os preços da commodity continuem subindo, a pressão inflacionária poderá se intensificar.

Por outro lado, qualquer sinal de redução das tensões no Oriente Médio ou normalização do fluxo de petróleo poderia aliviar parte da pressão sobre os mercados.

Enquanto isso, investidores acompanham atentamente as sinalizações do Banco Central e a evolução das expectativas de inflação.

Mercado financeiro reavalia cenário para os próximos meses

A disparada recente dos juros futuros sinaliza que o mercado financeiro entrou em um processo de reavaliação mais amplo do cenário econômico.

Eventos geopolíticos costumam provocar mudanças rápidas nas projeções de crescimento, inflação e política monetária.

No caso brasileiro, o impacto foi imediato na curva de juros, que passou a refletir um ambiente mais incerto para a trajetória da Selic.

Esse processo de reprecificação tende a continuar nos próximos dias, à medida que novas informações sobre o conflito no Oriente Médio e o comportamento do petróleo forem incorporadas pelos investidores.

Para o mercado, o principal ponto de atenção agora é entender se a recente escalada das taxas representa apenas um ajuste temporário ou o início de uma mudança mais duradoura no cenário de política monetária.

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