terça-feira, 15 de setembro de 2026
contato@gazetamercantil.com
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
Home Empresas

Raízen (RAIZ4) tem bloqueio judicial após transferência bancária

Decisão solidária da 7ª Vara Criminal incluiu a companhia em inquérito sobre lavagem ligada ao PCC; empresa comprovou origem comercial e obteve revogação da medida

por João Souza
12/08/2026 às 10h19
em Empresas
Justiça Bloqueia R$ 10,3 Bilhões E Atinge Raízen (Raiz4) Por Pagamento De R$ 120 Mil A Rede Ligada Ao Pcc-Gazeta Mercantil

A Justiça de São Paulo determinou no último fim de semana o bloqueio solidário e o sequestro de R$ 10,3 bilhões em contas e bens de 86 investigados por lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional e incluiu, entre os alvos, a Raízen (RAIZ4), maior produtora de açúcar, etanol e distribuição de combustíveis do país. A medida foi proferida pelo juiz Paulo Cezar Duran, da 7ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, e teve como origem um pagamento de R$ 120 mil recebido pela companhia em 2023 de empresa atribuída ao doleiro Victor Henrique de Oliveira Shimada, apontado pelas autoridades brasileiras e americanas como operador financeiro do Primeiro Comando da Capital.

O despacho atingiu 13 pessoas físicas e 73 pessoas jurídicas e determinou o bloqueio de valores em contas bancárias, além de indisponibilidade de outros ativos. No caso da Raízen, o valor constrito correspondeu à totalidade do montante solidário, e não apenas aos R$ 120 mil objeto da transferência investigada. A empresa, joint venture entre Shell e Cosan em processo de recuperação extrajudicial de R$ 65,1 bilhões, informou que não possui qualquer relação com os fatos investigados, que apresentou documentação comprobatória da regularidade comercial da operação e que obteve, ainda no dia 10 de agosto, nova decisão revogando a ordem em relação aos seus ativos.

A inclusão de uma companhia de capital aberto com receita anual na casa de dezenas de bilhões de reais em um processo cautelar lastreado em uma única transação de baixo valor expôs a extensão da estratégia adotada pela investigação para rastrear e interromper fluxos financeiros atribuídos à organização criminosa. A decisão também levantou debate sobre proporcionalidade de medidas cautelares patrimoniais quando há descompasso entre o valor investigado e o valor bloqueado.

Bloqueio solidário alcança 86 alvos e impõe indisponibilidade máxima

A ordem de sequestro e bloqueio foi decretada no âmbito de inquérito que apura crimes de lavagem de capitais, organização criminosa e associação para o tráfico transnacional. De acordo com os registros judiciais consultados, o juízo determinou o sequestro de bens e valores até o limite de R$ 10,3 bilhões de forma solidária entre todos os investigados. Na prática, cada CPF e CNPJ incluído responde pela totalidade do montante, até que haja individualização posterior.

O modelo de bloqueio solidário é instrumento previsto no Código de Processo Penal para garantir eventual reparação e evitar a dilapidação patrimonial durante a investigação. A efetivação ocorre via Sistema de Busca de Ativos do Poder Judiciário, com comunicação direta ao Banco Central e às instituições financeiras. Quando a ordem é cumprida, a conta permanece ativa para créditos, mas os valores ficam indisponíveis para movimentação até nova deliberação judicial.

No despacho, o magistrado listou indícios de que recursos teriam circulado por uma cadeia de empresas de fachada e contas de terceiros para ocultar origem ilícita. A inclusão da Raízen decorreu de uma transferência identificada em 2023. A defesa da companhia, ao peticionar pelo desbloqueio, sustentou ausência de vínculo com os investigados e desproporção entre o valor da transação comercial e a extensão da constrição.

Pagamento de R$ 120 mil em 2023 está no centro do inquérito contra a Raízen

O fato que levou a Raízen ao processo ocorreu em 2023 e envolve R$ 120 mil. Segundo a Polícia Federal, um colaborador de Shimada identificado como João Gilberto Codognotto teria encaminhado dados bancários da Raízen a outro integrante do grupo, com orientação para que fosse realizado um depósito naquele valor.

Para os investigadores, o uso de dados bancários de uma empresa de grande porte do setor energético como destinatária de recursos, em um contexto de movimentações fracionadas, poderia indicar, em tese, triangulação para dissimular origem e destino do dinheiro. A hipótese foi registrada em relatório técnico que compõe o inquérito.

A análise pericial citada nos autos confirma a saída de recursos da empresa Hi Quality Importação Comércio e Distribuição Ltda. para conta de titularidade da Raízen. A defesa da companhia sustenta que o laudo confirma apenas a existência da transferência bancária, mas não atribui ilicitude à operação, e que a documentação fiscal e contratual anexada aos autos comprova que o pagamento correspondeu à quitação de obrigação comercial regularmente constituída, sem qualquer participação de gestores ou empregados da Raízen no esquema investigado.

PF aponta uso de empresa de grande porte para dissimular fluxo ilícito

A investigação que deu origem ao bloqueio integra um esforço mais amplo de descapitalização de redes de lavagem vinculadas ao PCC. De acordo com a Polícia Federal, Shimada operava uma rede de empresas de fachada para movimentar e ocultar recursos provenientes do tráfico internacional de drogas, utilizando transferências bancárias, intermediação de pagamentos, operações com criptoativos e contratos simulados de importação e exportação.

No modelo descrito pela corporação, o grupo captava dinheiro em espécie em cidades americanas, especialmente na Flórida, convertia em criptoativos e repatriava os valores por meio de empresas brasileiras. Parte dos recursos seria então pulverizada em contas de terceiros. A utilização de uma pessoa jurídica com alto volume de transações, segundo os investigadores, aumentaria a dificuldade de rastreamento, porque diluiria a operação em meio ao fluxo operacional normal.

É nesse contexto que a transferência de R$ 120 mil para a Raízen foi inserida nos autos como possível caso de triangulação. A empresa contesta a interpretação e afirma que a operação mercantil jamais poderia justificar bloqueio solidário de mais de R$ 10 bilhões imposto de forma indistinta a todos os destinatários da decisão, sem fundamentação individualizada e sem vinculação estrita entre o patrimônio constrito e os fatos investigados.

Doleiro é alvo de sanções americanas e de operação da PF no Brasil

Victor Henrique de Oliveira Shimada, nascido em Santos em 11 de fevereiro de 1985, é apontado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos como elo central entre operadores do PCC na Flórida e traficantes estrangeiros. Em 1º de julho de 2026, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, o OFAC, designou Shimada e sua parente e colaboradora Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, além de quatro empresas ligadas a ele, com base nas Ordens Executivas 14059 e 13224, que tratam de proliferação de drogas ilícitas e de apoio a organizações terroristas e criminosas transnacionais.

Segundo o comunicado oficial do Tesouro americano, Shimada e sua organização lavaram mais de US$ 30 milhões em receitas ilícitas geradas nos Estados Unidos, utilizando criptomoedas para transferir fundos ao Brasil em nome do PCC. O texto cita ainda que uma de suas empresas, a Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda., havia sido usada em 2025 para lavar dinheiro roubado de um clube de futebol brasileiro em esquema de fraude publicitária.

Como consequência das sanções, todos os bens e interesses em bens dos sancionados que estejam nos Estados Unidos ou sob posse ou controle de pessoas americanas ficam bloqueados e devem ser reportados ao OFAC. Instituições financeiras que realizem transações significativas em nome dos designados podem ser alvo de sanções secundárias. As empresas listadas foram Victory Trading, Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda., Wave Construções Inteligentes Ltda., no Brasil, e Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda., em Portugal.

No Brasil, a Polícia Federal deflagrou em 3 de julho de 2026 a Operação Exchange para desarticular o braço financeiro da rede. A ação foi antecipada, segundo o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, após a publicidade das sanções americanas. Na operação, seis integrantes do núcleo da Flórida já haviam sido presos em janeiro de 2026 pelo FBI no Distrito Sul da Flórida. No país, foram cumpridos mandados de busca e apreensão e de prisão em São Paulo, com bloqueio judicial de até R$ 10,4 bilhões em bens, valores e criptoativos. Sete pessoas foram presas, entre elas Stella Stefanie, posteriormente solta por decisão judicial em 7 de julho com conversão da prisão de Shimada em preventiva. Shimada permanece foragido.

Defesa da Raízen alega operação comercial regular e obtém revogação

Em petição protocolada na 7ª Vara Criminal, os advogados da Raízen sustentaram que a companhia foi incluída indevidamente no rol de investigados e que a medida cautelar violava os requisitos de indícios de autoria e de proporcionalidade. O argumento central foi que o pagamento de R$ 120 mil jamais poderia acarretar bloqueio solidário de mais de R$ 10 bilhões e que a decisão carecia de fundamentação individualizada sobre o vínculo entre o patrimônio da empresa e os fatos investigados.

A defesa apresentou notas fiscais, comprovantes de entrega e correspondência comercial para demonstrar que a Hi Quality era fornecedora ou cliente em operação de pequeno valor dentro do giro da companhia, compatível com quitação de obrigação mercantil. Destacou ainda que a Raízen não ignora a gravidade dos fatos objeto da investigação originária, mas que medidas de tal intensidade devem observar rigorosamente os pressupostos legais.

Em nota divulgada na tarde de 10 de agosto, a companhia afirmou que esclareceu e documentou os fatos para que a decisão fosse revista e que foi proferida nova decisão determinando a revogação da ordem de bloqueio de cerca de R$ 10 bilhões em relação aos seus ativos. A empresa reforçou que atua de forma ética, transparente e responsável e que não compactua com qualquer prática ilegal ou indevida.

O caso ocorre em momento sensível para a Raízen (RAIZ4). A empresa, maior processadora de cana do mundo e uma das maiores distribuidoras de combustíveis da América Latina, protocolou em junho de 2026 pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar R$ 65,1 bilhões em dívidas quirografárias, o maior processo do gênero já registrado no país. O plano prevê aporte de R$ 3,5 bilhões da Shell e potencial injeção de R$ 500 milhões por veículo controlado pela Cosan, além de venda de ativos como a operação downstream na Argentina para a Mercuria por US$ 1,42 bilhão. As ações da companhia negociam abaixo de R$ 1,00 desde o início do ano, e a empresa obteve em julho prazo até 2027 para reenquadrar a cotação mínima exigida pela B3.

Para investidores e credores, a revogação do bloqueio reduz o risco de contágio operacional imediato, mas mantém o ponto de atenção sobre compliance e controles de terceiros. Para o processo criminal, a exclusão da companhia não altera o núcleo da investigação sobre lavagem de dinheiro do tráfico internacional, que segue concentrada nos operadores financeiros designados pelo OFAC e alvos da Operação Exchange, com análise pericial em curso sobre a cadeia completa de transferências.

LEIA MAIS

Orçamento De 2027 Prevê R$ 133,8 Bi Em Investimentos E R$ 61,5 Bi Para O Novo Pac - Gazeta Mercantil - Economia
Economia

Orçamento de 2027 prevê R$ 133,8 bi em investimentos e R$ 61,5 bi para o Novo PAC

O Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027 reserva R$ 61,5 bilhões ao Novo Programa de Aceleração do Crescimento e eleva para R$ 133,8 bilhões o volume considerado...

Leia MaisDetails
Basf Prepara Ipo De Divisão Agrícola Com Quatro Bancos E Mira Bolsa De Frankfurt-Gazeta Mercantil
Agronegócio

BASF prepara IPO de divisão agrícola com quatro bancos e mira Bolsa de Frankfurt

A BASF iniciou uma nova etapa para separar e preparar sua divisão de soluções agrícolas para uma eventual abertura de capital ao contratar Citi, Deutsche Bank, Goldman Sachs...

Leia MaisDetails
Buser É Alvo De Reclamações Por Vender Leito E Colocar Passageiros Em Semi-Leito
Empresas

Buser é alvo de reclamações por vender leito e colocar passageiros em semi-leito

A Buser passou a ser alvo de forte insatisfação de passageiros que afirmam ter comprado viagens em ônibus leito ou leito individual e, posteriormente, recebido a informação de...

Leia MaisDetails
Operação Da Pf Fragiliza Mais Um Aliado De Flávio Bolsonaro No Rj
Política

Mendonça abriu inquérito contra Flávio Bolsonaro por corrupção, lavagem e evasão no caso Dark Horse

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou em 22 de julho a abertura de um inquérito para investigar o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro...

Leia MaisDetails
Nubank Inicia Operação Nos Eua Com Conta Remunerada E Cartão Sem Anuidade-Gazeta Mercantil
Empresas

Nubank inicia operação nos EUA com conta remunerada e cartão sem anuidade

O Nubank inicia nesta quinta-feira (10) sua operação nos Estados Unidos com uma oferta voltada ao relacionamento bancário cotidiano, combinando conta remunerada em dólar, cartão de crédito sem...

Leia MaisDetails

GAZETA MERCANTIL ENCERRADO

01:15:05
IBOV

IBOVESPA

B3
Consultando... buscando última cotação
$

DÓLAR

USD/BRL
Consultando... buscando última cotação
€

EURO

EUR/BRL
Consultando... buscando última cotação
₿

BITCOIN

BRL
Consultando... buscando última cotação
Gazeta Mercantil · dados de mercado
Sênior Sistemas Sênior Sistemas Sênior Sistemas
PUBLICIDADE

Veja Também

Diretor De Dark Horse Diz Que Us$ 24 Milhões Incluíam Marketing; Pf Apura Destino De Repasses
Política

Diretor de Dark Horse diz que US$ 24 milhões incluíam marketing; PF apura destino de repasses

Leia MaisDetails
Varejo Brasileiro Enfrenta Juros Altos E Muda Foco Para Geração De Caixa E Produtividade-Gazeta Mercantil
Economia

Varejo brasileiro enfrenta juros altos e muda foco para geração de caixa e produtividade

Leia MaisDetails
Salário Mínimo Paulista 2026 É De R$ 1.874,36; Veja Quem Tem Direito - Gazeta Mercantil - Economia
Trabalho

Salário mínimo paulista 2026 é de R$ 1.874,36; veja quem tem direito

Leia MaisDetails
Mensagens De Vorcaro Mostram Cobrança Por Aporte No Tayayá E Citam R$ 35 Milhões Em Operações - Gazeta Mercantil - Economia
Política

Mensagens de Vorcaro mostram cobrança por aporte no Tayayá e citam R$ 35 milhões em operações

Leia MaisDetails
Orçamento De 2027 Prevê R$ 133,8 Bi Em Investimentos E R$ 61,5 Bi Para O Novo Pac - Gazeta Mercantil - Economia
Economia

Orçamento de 2027 prevê R$ 133,8 bi em investimentos e R$ 61,5 bi para o Novo PAC

Leia MaisDetails

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco
Gazeta Mercantil Logo White

contato@gazetamercantil.com

Gazeta Mercantil — marca jornalística fundada em 1920, com continuidade editorial contemporânea no ambiente digital por meio do domínio oficial gazetamercantil.com.

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

Veja Também:

Diretor de Dark Horse diz que US$ 24 milhões incluíam marketing; PF apura destino de repasses

Varejo brasileiro enfrenta juros altos e muda foco para geração de caixa e produtividade

Salário mínimo paulista 2026 é de R$ 1.874,36; veja quem tem direito

Mensagens de Vorcaro mostram cobrança por aporte no Tayayá e citam R$ 35 milhões em operações

Orçamento de 2027 prevê R$ 133,8 bi em investimentos e R$ 61,5 bi para o Novo PAC

BASF prepara IPO de divisão agrícola com quatro bancos e mira Bolsa de Frankfurt

  • Anuncie Conosco
  • Política de Correções
  • Política Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso
  • Sobre a Gazeta Mercantil
  • Expediente
  • Política de Conflitos de Interesse

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP