Atualizado em 20/08/2026 às 12h19
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou o filho Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, a se colocar à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos sobre as investigações conduzidas pela Polícia Federal. A orientação foi transmitida durante reunião realizada na noite de quarta-feira (19), no Palácio da Alvorada, segundo relato do advogado Marco Aurélio de Carvalho, responsável pela defesa do empresário.
Marco Aurélio afirmou nesta quinta-feira (20) que o encontro tinha como pauta principal a organização da campanha eleitoral de Lula em São Paulo e não os três inquéritos que envolvem Fábio Luís. As investigações, contudo, foram abordadas durante a conversa, que também contou com a participação de Fernando Haddad, candidato do PT ao governo paulista.
Segundo o advogado, Lula deixou claro que não pretende que o filho seja tratado como alguém acima da lei e defendeu que Fábio Luís dê os esclarecimentos necessários às autoridades. Marco Aurélio também atribuiu ao presidente a afirmação de que não deseja uma Polícia Federal destinada a proteger aliados ou perseguir adversários.
“Não ganhei as eleições para aparelhar nenhuma instituição”, afirmou Lula, de acordo com o relato feito pelo advogado após a reunião.
A declaração acrescenta um elemento novo ao encontro realizado no Alvorada. Até então, o foco público estava na reunião de Lula com um dos principais integrantes da defesa do filho em meio ao avanço das investigações da PF. Agora, o relato de Marco Aurélio mostra que o presidente tratou diretamente da situação jurídica de Fábio Luís e orientou que ele colabore com as autoridades.
Lula diz que filho deve prestar esclarecimentos
Marco Aurélio de Carvalho afirmou que Lula não quer qualquer tratamento privilegiado para Fábio Luís.
A orientação transmitida ao advogado é para que o empresário se coloque à disposição das autoridades responsáveis pelos inquéritos e apresente sua versão sobre os fatos investigados.
A posição acompanha declarações anteriores do próprio presidente. Lula já havia afirmado publicamente que acredita no que o filho lhe diz, mas que cabe ao empresário demonstrar sua inocência perante as instituições responsáveis pelas investigações.
O presidente também tem defendido que os procedimentos prossigam sem interferência do Palácio do Planalto. A preocupação política, entretanto, cresceu à medida que novas informações extraídas das investigações passaram a ser divulgadas durante a campanha eleitoral de 2026.
A situação ganhou ainda mais relevância porque Marco Aurélio acumula duas funções diretamente ligadas ao caso. Além de atuar na defesa de Fábio Luís, ele integra a coordenação da campanha de Lula em São Paulo e é um dos fundadores do grupo Prerrogativas.
A presença de Fernando Haddad na reunião reforça a natureza eleitoral originalmente prevista para o encontro. Segundo Marco Aurélio, a agenda no Alvorada trataria das atividades do presidente em São Paulo, onde Haddad disputa o governo estadual.
Lulinha é alvo de três inquéritos
Fábio Luís tornou-se alvo de três inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal em um intervalo de poucos dias entre o fim de julho e o início de agosto.
As investigações procuram esclarecer suspeitas de tráfico de influência e eventual atuação para favorecer interesses privados dentro de órgãos do governo federal. A abertura dos procedimentos não significa que os crimes tenham sido comprovados, e Fábio Luís não foi condenado pelos fatos apurados.
Uma das principais frentes envolve uma tentativa de levar ao Ministério da Saúde um projeto relacionado a medicamentos à base de canabidiol.
A Polícia Federal analisa diálogos da empresária e lobista Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís, que mantinha relações comerciais com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
Antunes ganhou projeção nacional por sua presença nas investigações sobre descontos irregulares em aposentadorias e pensões, mas a frente relacionada ao canabidiol possui objeto próprio.
Segundo informações reunidas pela PF, Roberta participou de tratativas envolvendo a possível comercialização de medicamentos derivados de cannabis para o poder público e teria mencionado Fábio Luís durante essas negociações.
PF analisa mensagens de Roberta Luchsinger
Diálogos obtidos pela Polícia Federal passaram a ocupar posição central nas investigações.
Em uma das conversas, Roberta teria afirmado a um interlocutor que representava Fábio Luís. A frase utilizada pela empresária passou a ser analisada pelos investigadores como possível indicação de que ela buscava transmitir a terceiros a ideia de que atuava com autorização do filho do presidente.
A investigação também encontrou referências a uma participação de 20% em eventual negócio envolvendo medicamentos à base de canabidiol.
A existência das mensagens, entretanto, não comprova isoladamente que Fábio Luís tenha autorizado Roberta a falar em seu nome nem que tenha praticado tráfico de influência. A PF procura justamente determinar o contexto das conversas, a atuação de cada pessoa envolvida e se houve tentativa concreta de obter vantagens utilizando acesso ao governo.
A defesa de Lulinha contesta a forma como o material vem sendo divulgado e afirma que informações protegidas por sigilo estão chegando à imprensa de maneira fragmentada.
Marco Aurélio sustenta que a defesa não dispõe, em alguns casos, do conteúdo integral necessário para verificar o contexto e a autenticidade de todos os elementos divulgados.
Defesa reclama de vazamentos da PF
Durante a reunião com Lula, Marco Aurélio também apresentou reclamações sobre supostos vazamentos relacionados às investigações.
A defesa afirma que a divulgação seletiva de informações prejudica o direito de resposta de Fábio Luís e produz consequências políticas em pleno período eleitoral.
Os advogados avaliam inclusive solicitar ao Supremo Tribunal Federal uma abertura mais ampla do conteúdo atualmente protegido por sigilo para permitir que as acusações sejam respondidas de maneira pública.
Essa discussão não altera, contudo, a orientação atribuída a Lula nesta quinta-feira. Segundo Marco Aurélio, o presidente defende que o filho se apresente às autoridades e esclareça os fatos investigados.
A posição cria uma separação entre duas linhas de atuação: de um lado, a defesa contesta a maneira como informações dos inquéritos estariam chegando ao público; de outro, Lula sustenta que o mérito das suspeitas deve ser esclarecido institucionalmente.
Projeto de canabidiol não virou contrato
As investigações sobre medicamentos incluem uma minuta de contrato relacionada à possível venda de produtos à base de canabidiol.
O documento chegou a Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que ocupava a chefia de gabinete de Lula. Ele afirma que recebeu o material, mas não o encaminhou para autoridades responsáveis pela contratação.
O negócio não foi concretizado.
O Ministério da Saúde informou que não firmou contrato relacionado à proposta investigada e que não houve repasse de recursos públicos decorrente daquele projeto.
Isso não encerra a investigação porque o crime de tráfico de influência, quando caracterizado, não depende necessariamente da conclusão do negócio pretendido.
O Código Penal prevê a responsabilização de quem solicita, exige, cobra ou obtém vantagem ou promessa de vantagem sob o argumento de influenciar ato praticado por funcionário público.
A investigação precisa determinar, portanto, se alguém efetivamente explorou suposta capacidade de interferir em decisões do governo e se houve vantagem ou promessa de vantagem relacionada a essa atuação.
Outro inquérito envolve negócios relacionados à Dataprev
Outra frente investigativa procura esclarecer eventuais tentativas de utilização de influência para viabilizar negócios ligados à Dataprev, empresa pública responsável por sistemas e bancos de dados utilizados pela Previdência Social.
A Polícia Federal investiga relações entre Fábio Luís e empresários interessados em contratos públicos e analisa circunstâncias envolvendo viagens e tratativas comerciais.
A Dataprev informou não manter contrato com uma das empresas mencionadas nessa frente de investigação.
Como ocorre no caso do canabidiol, a existência de contatos ou relações pessoais não é suficiente, por si só, para caracterizar crime. A PF procura estabelecer se houve uso de influência vinculada à proximidade de Fábio Luís com o presidente da República para obter vantagens no governo.
PGR quer um dos casos fora do STF
Um dos inquéritos envolvendo Fábio Luís também poderá mudar de instância.
A Procuradoria-Geral da República pediu que a investigação relacionada às tratativas sobre canabidiol deixe o Supremo Tribunal Federal e seja remetida à primeira instância da Justiça.
O argumento é que, naquele procedimento específico, não haveria investigado com foro por prerrogativa de função que justificasse a competência originária do STF.
A decisão caberá ao ministro André Mendonça.
Fábio Luís não possui foro privilegiado pelo fato de ser filho do presidente da República. Para que uma investigação permaneça no Supremo, é necessário existir fundamento jurídico que estabeleça a competência da Corte, normalmente relacionado à presença de autoridade com prerrogativa de foro e à conexão dos fatos investigados.
Se o pedido da PGR for aceito, a investigação continuará, mas sob responsabilidade da primeira instância.
A remessa não significa arquivamento, absolvição ou reconhecimento de irregularidade na investigação. Trata-se de uma definição sobre qual órgão judicial possui competência para acompanhar o caso.
Investigação sobre vazamentos é procedimento separado
Outro ponto importante é distinguir os três inquéritos que envolvem Fábio Luís da investigação relacionada à divulgação de informações protegidas por sigilo.
O ministro Flávio Dino autorizou uma apuração separada sobre possíveis vazamentos de dados das investigações.
Essa investigação foi provocada por reclamações da própria defesa e não representa uma quarta investigação criminal contra Lulinha.
A diferença é essencial: nos três inquéritos principais, Fábio Luís aparece entre os investigados; no procedimento sobre vazamentos, o objetivo é identificar quem eventualmente divulgou informações sigilosas de maneira irregular.
Caso aumenta pressão sobre campanha de Lula
O avanço das investigações ocorre no início da fase mais intensa da eleição presidencial de 2026.
Lula disputa a reeleição e enfrenta Flávio Bolsonaro na principal polarização da corrida presidencial. O surgimento de novas informações relacionadas ao filho do presidente tornou-se uma preocupação adicional para integrantes da campanha petista.
A oposição tenta utilizar os inquéritos para pressionar Lula e cobrar explicações sobre a atuação de Fábio Luís.
Ao mesmo tempo, o próprio Flávio Bolsonaro enfrenta questionamentos relacionados ao caso Dark Horse, investigação que envolve recursos destinados à produção de um filme sobre Jair Bolsonaro.
A existência de investigações envolvendo pessoas próximas aos dois principais candidatos aumenta a pressão sobre as campanhas para demonstrar independência em relação às instituições responsáveis pelas apurações.
No caso de Lula, a resposta apresentada nesta quinta-feira busca estabelecer essa distância.
Segundo Marco Aurélio de Carvalho, a orientação do presidente é que Fábio Luís não seja protegido por sua relação familiar com o chefe do Executivo e responda às questões apresentadas pela Justiça.
Próximo movimento depende da defesa e das investigações
Apesar da orientação relatada pelo advogado, ainda não havia, até a atualização desta reportagem, informação pública de que Fábio Luís tivesse comparecido espontaneamente à Polícia Federal ou à Justiça para prestar depoimento em decorrência da conversa realizada no Alvorada.
Também não significa que exista uma ordem judicial determinando sua apresentação imediata.
A declaração indica a posição política e pessoal atribuída ao presidente diante das investigações: o filho deve se colocar à disposição das instituições e apresentar os esclarecimentos solicitados.
Os próximos movimentos dependerão das decisões judiciais, de eventuais solicitações da Polícia Federal, das manifestações da Procuradoria-Geral da República e da estratégia adotada pela defesa.
A reunião de quarta-feira, portanto, ganhou um significado diferente depois das declarações feitas por Marco Aurélio nesta quinta.
O encontro não tratou apenas da campanha eleitoral em São Paulo. Segundo o próprio advogado de Fábio Luís, Lula abordou diretamente a situação do filho, rejeitou a possibilidade de tratamento privilegiado e orientou que ele se apresente às autoridades para responder às investigações.
Fontes: Polícia Federal; Supremo Tribunal Federal; Procuradoria-Geral da República; Ministério da Saúde.








