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M. Dias Branco (MDIA3) deve vender mais, mas margem pode encolher; Safra corta alvo para R$ 21,50

Banco projeta crescimento de 2% no volume do 2T26, mas estima queda da receita e do Ebitda diante de preços menores, consumo pressionado e aumento das despesas.

por João Souza
24/07/2026 às 11h18
em Empresas,Destaque,Notícias
M. Dias Branco (Mdia3) - Gazeta Mercantil

Foto: Divulgação/ M. Dias Branco

O Banco Safra reduziu de R$ 29 para R$ 21,50 o preço-alvo das ações da M. Dias Branco (MDIA3) e manteve recomendação neutra para os papéis, antes da divulgação do balanço do segundo trimestre de 2026. A revisão reflete a expectativa de que o aumento do volume de vendas não será suficiente para compensar preços médios menores, demanda enfraquecida por biscoitos e massas e crescimento das despesas com pessoal, marketing e logística.

A instituição projeta que a fabricante de alimentos encerre o período entre abril e junho com receita líquida de R$ 2,695 bilhões, queda de 1% na comparação anual. O volume vendido deve crescer 2%, para 466 mil toneladas, enquanto o preço médio deve recuar aproximadamente 3%.

O Ebitda ajustado é estimado em R$ 326 milhões, redução de 9% diante do segundo trimestre de 2025. A margem Ebitda projetada cai de 13,1% para 12,1%, contração de cerca de um ponto percentual.

As projeções ainda não representam resultados divulgados pela companhia. A M. Dias Branco publicará o balanço do 2T26 em 13 de agosto, depois do fechamento do mercado, e realizará a apresentação a investidores no dia seguinte.

Até lá, o mercado deverá avaliar se o aumento das vendas físicas consegue preservar a rentabilidade em um ambiente no qual a empresa enfrenta menor capacidade de reajustar preços, consumidores mais cautelosos e despesas operacionais em crescimento.

Volume cresce, mas preço médio limita receita

O principal ponto positivo da projeção para o segundo trimestre é o avanço de 2% no volume vendido. A estimativa indica que a M. Dias Branco pode alcançar aproximadamente 466 mil toneladas no período.

A expansão, porém, deverá ocorrer com preço médio menor. O Safra estima queda de 3%, movimento associado à demanda enfraquecida e à intensa concorrência nos mercados de biscoitos e massas.

Essa combinação ajuda a explicar por que o volume pode aumentar enquanto a receita líquida recua. Quando a quantidade vendida cresce menos que a redução dos preços, o faturamento total pode permanecer estável ou apresentar queda.

A dinâmica já apareceu no primeiro trimestre. Entre janeiro e março, a companhia vendeu 407,5 mil toneladas, alta de 3,4% em relação ao mesmo período de 2025. O preço médio, entretanto, caiu 2,9%, para R$ 5,40 por quilo.

Como resultado, a receita líquida cresceu apenas 0,4%, para R$ 2,217 bilhões. O desempenho mostrou que a recuperação dos volumes ainda não se converteu em expansão proporcional do faturamento.

Para o segundo trimestre, o Safra prevê a continuidade desse comportamento. A empresa deve vender mais produtos, mas com menor receita obtida por quilo comercializado.

Consumo pressionado reduz espaço para reajustes

A própria M. Dias Branco reconheceu, no balanço do primeiro trimestre, que o ambiente de consumo permanecia pressionado.

A companhia citou a queda da confiança dos consumidores, o elevado endividamento das famílias e uma postura mais conservadora do varejo, principalmente nos primeiros meses do ano.

Biscoitos e massas possuem grande presença no orçamento das famílias, mas operam em categorias altamente competitivas. O consumidor pode trocar marcas, buscar embalagens mais baratas, reduzir compras ou migrar para produtos promocionais.

Esse comportamento limita a capacidade da indústria de repassar custos. A tentativa de elevar preços pode provocar perda de volume ou de participação de mercado, especialmente em regiões onde concorrentes locais mantêm ofertas mais agressivas.

A M. Dias Branco conseguiu aumentar sua participação em biscoitos e farinha de trigo no primeiro trimestre, além de manter estabilidade em massas. A recuperação comercial, no entanto, foi acompanhada por redução do preço médio.

O desafio do 2T26 será sustentar esses ganhos sem comprometer excessivamente a margem. Vender mais por meio de promoções ou preços menores pode preservar espaço nas prateleiras, mas produz retorno inferior caso os custos operacionais não recuem na mesma proporção.

Trigo oferece alívio, mas mão de obra e frete avançam

Os custos das matérias-primas formam uma das principais variáveis do resultado da M. Dias Branco. Trigo e óleos vegetais possuem participação relevante na fabricação de massas, biscoitos, margarinas e farinhas.

No primeiro trimestre, a despesa com matérias-primas caiu 5%, para R$ 992,3 milhões, mesmo com o crescimento do volume vendido. A redução refletiu principalmente preços menores das commodities quando convertidos para reais.

O custo total dos produtos vendidos recuou 1,5%, para R$ 1,598 bilhão. A melhora permitiu que a margem bruta avançasse de 30,9% para 32,4%.

O Safra considera que o trigo permanece em condição favorável para a empresa no curto prazo. A queda da commodity reduz o custo da farinha utilizada internamente e pode proteger parte da rentabilidade.

O óleo de palma também apresentou alívio depois de um período de valorização. A trajetória futura, contudo, continua sujeita à oferta internacional, às condições climáticas e aos efeitos de fenômenos como o El Niño.

A redução das matérias-primas não elimina as demais pressões. No primeiro trimestre, os custos com mão de obra cresceram 10,8%, para R$ 235,8 milhões, influenciados, entre outros fatores, pela reabertura parcial da unidade de Lençóis Paulista.

O petróleo mais caro também pode atingir a empresa por meio dos combustíveis, embalagens e fretes. A M. Dias Branco possui uma estrutura industrial e de distribuição de alcance nacional, o que aumenta sua exposição ao custo do transporte rodoviário.

Despesas comerciais consomem parte do ganho de custos

A companhia ampliou os investimentos comerciais para recuperar volumes, fortalecer marcas e melhorar a execução nos pontos de venda.

No primeiro trimestre, as despesas com vendas cresceram 7,2%, para R$ 453,8 milhões. Somadas às despesas administrativas, alcançaram R$ 550,5 milhões, alta de 6,6%.

O valor representou 24,8% da receita líquida, ante 23,4% um ano antes. A elevação mostra que parte da economia obtida com matérias-primas foi consumida por gastos necessários para sustentar o crescimento comercial.

A estratégia inclui campanhas promocionais, ampliação da presença nas lojas, reorganização das equipes e ações de marketing para marcas como Piraquê, Adria, Isabela, Fortaleza, Vitarella, Richester e Jasmine.

Segundo a empresa, uma de suas campanhas já havia alcançado mais de 5 mil lojas e gerado crescimento médio de 20% no volume vendido ao consumidor nesses estabelecimentos.

O esforço pode contribuir para recuperar participação de mercado e melhorar a utilização das fábricas. O retorno financeiro, porém, depende da capacidade de manter os clientes depois do encerramento das promoções e de vender produtos com margem suficiente para cobrir as despesas adicionais.

O Safra espera que os gastos com marketing e pessoal continuem pressionando o segundo trimestre. Essa avaliação ajuda a explicar a projeção de queda do Ebitda, mesmo com crescimento das toneladas vendidas.

Ebitda pode cair 9% no segundo trimestre

O Safra estima Ebitda ajustado de R$ 326 milhões no 2T26, resultado 9% inferior ao registrado um ano antes.

A margem projetada de 12,1% permanece superior aos 8,8% reportados no primeiro trimestre, mas representa deterioração diante dos 13,1% observados no 2T25.

Parte dessa diferença entre o primeiro e o segundo trimestre está relacionada à sazonalidade. A M. Dias Branco costuma apresentar volumes e resultados distintos ao longo do ano, conforme o comportamento do consumo, das campanhas comerciais e das compras do varejo.

No primeiro trimestre, o Ebitda atingiu R$ 195,9 milhões, crescimento de 21,8%. O lucro líquido avançou 53,2%, para R$ 106,3 milhões.

A melhora foi favorecida por custos menores, margem bruta mais alta e resultado financeiro positivo, decorrente da posição de caixa líquido da companhia.

O desempenho oficial do início do ano oferece uma base de comparação mais favorável do que a leitura projetada para o 2T26. A questão será verificar se a queda dos preços médios e o aumento das despesas impediram a manutenção da recuperação das margens.

Caixa líquido reduz risco financeiro

A M. Dias Branco encerrou março com caixa líquido de R$ 688 milhões. Isso significa que suas disponibilidades financeiras superavam as dívidas consideradas no cálculo.

A posição oferece proteção em um período de Selic elevada. Empresas com dívida líquida precisam desembolsar mais recursos com juros, enquanto companhias com caixa podem obter receitas financeiras sobre suas aplicações.

No primeiro trimestre, o resultado financeiro foi positivo em R$ 18,6 milhões. Essa condição ajuda a preservar o lucro mesmo quando o desempenho operacional apresenta pressão.

O caixa também aumenta a flexibilidade para financiar investimentos sem depender integralmente de novas dívidas. A companhia pode modernizar fábricas, automatizar processos e ampliar sua infraestrutura com menor exposição ao custo do crédito.

A vantagem, entretanto, precisa ser analisada junto com a geração de caixa operacional. No 1T26, esse indicador caiu 30,6%, para R$ 194,5 milhões, apesar do avanço do Ebitda e do lucro.

A diferença pode refletir oscilações no capital de giro, estoques, pagamentos a fornecedores e recebimentos de clientes. Para os investidores, a conversão do lucro em dinheiro será um dos principais pontos do próximo balanço.

Automação eleva investimento no curto prazo

O Safra aumentou em 63% suas estimativas de investimento da M. Dias Branco para o período entre 2026 e 2027.

A revisão considera gastos maiores com automação e modernização da infraestrutura industrial. Esses projetos podem reduzir custos, elevar produtividade e melhorar a regularidade das operações ao longo dos próximos anos.

No curto prazo, porém, o investimento consome caixa. A companhia precisa desembolsar recursos antes de capturar integralmente os ganhos de eficiência.

No primeiro trimestre, o investimento em ativos fixos chegou a R$ 171,7 milhões, aumento de 90,6% na comparação anual. O valor ficou próximo da geração de caixa operacional registrada no mesmo período.

A empresa ainda preservou caixa líquido, mas a continuidade desse ritmo pode reduzir a disponibilidade de recursos para dividendos, recompras ou aquisições.

O Safra projeta rendimento de fluxo de caixa livre de aproximadamente 4% para 2026, abaixo dos 20% estimados para 2025. A redução está ligada à combinação de margens pressionadas e investimentos mais altos.

Verticalização protege a companhia das commodities

A estrutura industrial da M. Dias Branco oferece uma proteção que diferencia a companhia de concorrentes menores.

No primeiro trimestre, a verticalização atingiu 99,1% na produção de farinha e 100% em gorduras. A empresa processa internamente grande parte dos principais insumos utilizados na fabricação de seus produtos.

Essa integração permite controlar qualidade, reduzir dependência de fornecedores intermediários e capturar parte da margem que seria transferida a terceiros.

A verticalização não elimina a exposição ao trigo e aos óleos vegetais. A companhia ainda precisa adquirir as matérias-primas no mercado, e os preços variam conforme produção global, câmbio, clima e logística.

A vantagem está na capacidade de transformar os insumos dentro da própria estrutura, organizar estoques e administrar o momento das compras.

O Brasil ainda depende de importações para atender parte relevante do consumo de trigo. Dados acompanhados pela própria companhia indicam que a produção nacional correspondeu a aproximadamente 65% da demanda no ano comercial de 2024/25.

Essa dependência mantém o câmbio como uma variável importante. A desvalorização do real pode encarecer o trigo importado, mesmo quando o preço internacional da commodity recua.

Produtos saudáveis e food service sustentam novas frentes

A M. Dias Branco procura reduzir a dependência das categorias tradicionais por meio da expansão de produtos saudáveis, snacks, molhos, temperos e vendas para o mercado profissional.

No primeiro trimestre, a receita das chamadas adjacências cresceu 10,4%, mantendo uma sequência de expansão de dois dígitos.

A empresa destacou o desempenho de Jasmine, Fit Food e Frontera, além de lançamentos em granolas, pães sem glúten e snacks.

O food service também avançou com farinhas, farelos e gorduras destinados a padarias, restaurantes e indústrias. A estratégia inclui distribuidores especializados, assistência técnica e portfólio direcionado aos clientes profissionais.

Essas operações ainda possuem peso menor que biscoitos, massas e margarinas, mas podem oferecer taxas de crescimento superiores e reduzir a exposição ao consumo doméstico tradicional.

A consolidação dessas frentes será importante para a avaliação do Safra sobre o crescimento a partir de 2027. O banco considera que as expectativas do mercado para os próximos anos estão excessivamente otimistas e não identifica, por enquanto, sinais suficientes de expansão consistente dos lucros.

Desconto da ação não garante reavaliação rápida

De acordo com as estimativas do Safra, as ações MDIA3 negociavam a 8,9 vezes o lucro esperado para 2026, desconto de aproximadamente 23% diante da média dos cinco anos anteriores.

O múltiplo menor pode indicar que parte das dificuldades já está refletida na cotação. Também pode mostrar que os investidores exigem um desconto enquanto aguardam sinais mais claros de recuperação das margens.

O banco manteve recomendação neutra porque não vê um gatilho imediato capaz de produzir uma reavaliação consistente. A redução do preço-alvo para R$ 21,50 incorpora projeções menores de Ebitda e maior necessidade de investimento.

Entre os riscos estão novas oscilações do trigo e do óleo de palma, desvalorização cambial, aumento dos combustíveis, mudanças tributárias e deterioração adicional do consumo.

No sentido oposto, custos de matérias-primas abaixo do esperado, ganho mais rápido de participação de mercado e melhor conversão dos investimentos em eficiência poderiam favorecer o resultado.

Balanço de agosto testará recuperação da M. Dias Branco

O balanço de 13 de agosto mostrará se a estratégia de recuperar volumes conseguiu avançar sem comprometer a rentabilidade.

O mercado deverá comparar o volume vendido com o comportamento dos preços médios e a evolução das despesas comerciais. Também serão observados margem bruta, Ebitda, lucro líquido, capital de giro e geração de caixa.

A empresa começou o ano vendendo mais, ganhando participação em categorias relevantes e reduzindo o custo das matérias-primas. Ao mesmo tempo, precisou ampliar despesas com marketing, pessoal e estrutura comercial.

A combinação projetada pelo Safra para o segundo trimestre é semelhante: volume em alta, preço menor e margem pressionada.

Para as ações MDIA3, o principal ponto não será apenas confirmar a venda de 466 mil toneladas. A reação dependerá da capacidade de transformar esse volume em rentabilidade e caixa suficientes para financiar a modernização das fábricas e sustentar o crescimento futuro.

Tags: ações MDIA3balanço 2T26Banco SafrabiscoitosEmpresasindústria de alimentosM. Dias BrancomassasMDIA3óleo de palmatrigo

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