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Magalu (MGLU3) muda estratégia, reforça lojas e aposta na Amazon para recuperar vendas online

Magazine Luiza prioriza rentabilidade após vendas físicas crescerem 10,3% e e-commerce recuar 11,9% no segundo trimestre de 2026.

por João Souza
10/08/2026 às 17h57
em Empresas
Magazine Luiza, Mglu3 - Gazeta Mercantil

O Magazine Luiza (MGLU3) entrou no segundo semestre de 2026 com uma mudança relevante na forma de buscar crescimento. Depois de anos em que a expansão digital ocupou o centro da estratégia, a varejista voltou a colocar as lojas físicas entre seus principais motores de vendas e passou a usar plataformas de terceiros, especialmente a Amazon, como instrumento para recuperar volume no comércio eletrônico sem recorrer a uma disputa agressiva de preços.

Os números do segundo trimestre mostram a dimensão desse movimento. As vendas totais do ecossistema Magalu somaram R$ 14,5 bilhões, queda de 5,1% em relação ao mesmo período de 2025. A composição, porém, foi bastante diferente entre os canais: enquanto as lojas físicas cresceram 10,3%, com avanço de 9,7% no conceito de mesmas lojas, o e-commerce recuou 11,9%.

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A mudança de mix foi deliberada. A administração reduziu a busca por participação de mercado em segmentos do comércio eletrônico nos quais a competição por preço pressionava a rentabilidade. Em paralelo, concentrou esforços nas operações físicas, onde a companhia considera possuir melhores condições para preservar margens, utilizar instrumentos próprios de financiamento e aproveitar a integração entre lojas, plataformas digitais e logística.

A receita bruta do trimestre chegou a R$ 11,11 bilhões, retração de 2,2% na comparação anual, enquanto a receita líquida ficou em R$ 8,90 bilhões, queda de 2,6%. Mesmo diante do menor volume de negócios, a margem bruta avançou 0,1 ponto percentual, para 30,6%, indicando que a estratégia de privilegiar rentabilidade compensou parcialmente a retração das vendas.

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Lojas físicas voltam ao centro da estratégia do Magalu

As lojas físicas venderam aproximadamente R$ 5,2 bilhões no segundo trimestre. O crescimento foi favorecido pela Copa do Mundo, principalmente pela procura por televisores, mas não ficou restrito à categoria.

Na comparação com o segundo trimestre de 2025, as vendas de televisores avançaram 39%, enquanto linha branca cresceu 15% e móveis, 10%. Apenas em junho, as vendas realizadas nas unidades físicas aumentaram 18% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

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Para a administração, o desempenho reforça a tese de que a rede física continua representando uma vantagem competitiva em categorias de bens duráveis, nas quais atendimento presencial, retirada de produtos, concessão de crédito e integração logística podem influenciar diretamente a decisão de compra.

Ao fim de junho, o grupo operava 1.246 lojas, sendo 1.016 convencionais e 230 virtuais. A infraestrutura também passou a exercer uma função logística dentro da estratégia digital, deixando de representar exclusivamente um canal tradicional de comercialização.

O novo ciclo estratégico apresentado pela companhia prevê acelerar o crescimento das lojas físicas não apenas nos segmentos históricos de bens duráveis, mas também em categorias adjacentes, como esportes, beleza e games, aproveitando marcas e operações que integram o ecossistema do grupo.

E-commerce cai 11,9%, mas Magalu evita guerra de preços

A dinâmica foi diferente no comércio eletrônico. As vendas digitais somaram aproximadamente R$ 9,3 bilhões no segundo trimestre, considerando tanto a operação com estoque próprio quanto o marketplace.

A venda de produtos próprios pelo canal digital atingiu cerca de R$ 5,8 bilhões, enquanto o marketplace respondeu por aproximadamente R$ 3,6 bilhões. No total, o e-commerce registrou retração de 11,9% em relação ao mesmo período de 2025.

Parte desse desempenho está relacionada à política comercial adotada pela administração. A companhia decidiu repassar aumentos de custos provocados pela elevação global dos preços de componentes de memória, movimento que atingiu especialmente segmentos como telefonia, informática e games, em vez de absorver integralmente a pressão para defender participação de mercado.

A estratégia indica que a administração deixou de considerar expansão de vendas digitais como objetivo isolado. A prioridade passou a ser recuperar crescimento dentro de uma estrutura na qual cada novo canal ou operação apresente contribuição adequada para a rentabilidade.

Essa decisão ajuda a explicar por que o Magazine Luiza aceita perder temporariamente participação em determinadas categorias online enquanto desenvolve alternativas para alcançar consumidores presentes em outras plataformas digitais.

Amazon vira principal teste da nova estratégia digital

A parceria com a Amazon é uma das principais aplicações dessa estratégia.

As vendas começaram em junho e tiveram o primeiro mês completo de operação em julho. Segundo a administração do Magazine Luiza, o desempenho inicial ficou acima das expectativas da empresa, mesmo antes de os produtos do grupo terem acesso integral aos benefícios associados ao ecossistema da Amazon.

A iniciativa permite que produtos do Magazine Luiza e de outras marcas pertencentes ao grupo sejam comercializados dentro da plataforma da Amazon, ampliando o alcance para consumidores que não necessariamente iniciariam sua jornada de compra nos canais próprios da varejista.

A operação, entretanto, vai além da colocação de mercadorias em outro marketplace. A parceria também possui dimensão logística. A Magalog foi homologada como parceira logística da Amazon, criando a possibilidade de incorporar volumes adicionais de entregas e aumentar a utilização da infraestrutura mantida pelo grupo.

A expectativa da administração é avançar para uma nova etapa a partir do quarto trimestre, quando produtos comercializados pelo Magalu poderão ganhar elegibilidade ao Prime. A mudança pode ampliar exposição, competitividade e conveniência das ofertas dentro da plataforma.

O Magazine Luiza também indicou que trabalha em novos acordos com outras plataformas. A estratégia estabelece que essas vendas precisam apresentar margem de contribuição compatível com os objetivos do grupo e, sempre que possível, gerar negócios adicionais para outros braços do ecossistema Magalu.

Magalog transforma logística em nova frente de crescimento

A relação com plataformas externas também evidencia uma transformação da estrutura logística do Magazine Luiza.

A empresa não pretende utilizar sua rede apenas para entregar mercadorias vendidas em seus próprios canais. A estratégia prevê transformar a capacidade logística construída pelo grupo em um serviço oferecido para terceiros.

A Magalog registrou crescimento de 15% nos pedidos entregues para clientes externos durante o segundo trimestre, antes mesmo da incorporação completa dos volumes associados à parceria com a Amazon. A companhia também informou ter conquistado clientes como TPL Logística, Fini, Nestlé e Samsung.

A estrutura foi ampliada com 27 novas bases, levando a operação a aproximadamente 200 unidades entre bases logísticas, centros de distribuição e demais pontos vinculados à malha.

Quanto maior o volume processado para terceiros, maior tende a ser a densidade logística da operação. O aumento de escala pode contribuir para diluir custos fixos e elevar a eficiência das entregas realizadas tanto para clientes externos quanto para o próprio comércio eletrônico do Magalu.

O modelo representa uma mudança relevante em relação à estratégia de expansão digital baseada predominantemente no crescimento das vendas realizadas dentro do site e do aplicativo da companhia.

WhatsApp da Lu ganha peso na estratégia de inteligência artificial

Se a Amazon funciona como instrumento para acelerar a recuperação das vendas digitais no curto prazo, o WhatsApp da Lu aparece como uma das principais apostas do Magazine Luiza para transformar a experiência de comércio eletrônico no médio e longo prazo.

A ferramenta, lançada no fim de 2025, já ultrapassou R$ 100 milhões em volume bruto de mercadorias acumulado e superou 18 milhões de conversas com consumidores.

O sistema permite que o cliente percorra diferentes etapas da jornada comercial — incluindo autenticação, descoberta de produtos, recomendação, compra e pós-venda — dentro do próprio WhatsApp, reduzindo a necessidade de migrar para o aplicativo ou para o site da varejista.

Durante o segundo trimestre, a taxa de conversão registrada no canal foi três vezes superior à observada no aplicativo do Magalu. A companhia informou ainda que aproximadamente 20% dos consumidores que compraram por meio da ferramenta voltaram a realizar novas aquisições.

O NPS, indicador utilizado pelas empresas para medir a disposição dos clientes em recomendar determinada experiência, chegou a 85.

A administração pretende levar elementos dessa experiência baseada em inteligência artificial também para o aplicativo do Magazine Luiza ao longo do segundo semestre de 2026.

Serviços passam a ter peso maior na geração de valor

O reposicionamento estratégico também busca diminuir a dependência dos resultados provenientes exclusivamente da venda de mercadorias.

Além do varejo tradicional e digital, negócios como MagaluPay, Luizacred, Magalog, Magalu Ads e Magalu Cloud ganharam espaço na estrutura de geração de receitas e resultados do grupo.

A Luizacred registrou lucro líquido de R$ 135,3 milhões no segundo trimestre, com retorno anualizado sobre o patrimônio de 23,5%. A carteira de cartões de crédito atingiu R$ 20,2 bilhões, enquanto a base chegou a 5,7 milhões de cartões.

No MagaluPay, a companhia transferiu integralmente para sua estrutura financeira a originação do crediário utilizado nas lojas físicas. A carteira líquida de crédito da operação alcançou R$ 429 milhões e o lucro líquido ficou em R$ 17 milhões no trimestre.

A migração do crediário para uma instituição financeira própria pode alterar a economia dessa atividade ao permitir maior controle sobre funding, tributação, concessão de crédito e crescimento da carteira.

A companhia também iniciou captações por meio de CDBs e pretende ampliar gradualmente a utilização dessa estrutura como fonte de financiamento.

Magalu Cloud recebe impulso de R$ 300 milhões

Outra frente considerada estratégica pela companhia é a Magalu Cloud.

A operação superou a marca de 1,7 mil clientes e registrou crescimento de 24% entre clientes externos. O grupo também obteve aprovação para uma linha de R$ 300 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinada a investimentos na plataforma.

De acordo com a administração, os recursos deverão ser liberados progressivamente, com uma primeira parcela próxima de R$ 100 milhões, tendo projetos de pesquisa e desenvolvimento entre os principais destinos.

O grupo aposta especialmente em soberania de dados, infraestrutura nacional de computação em nuvem e soluções relacionadas à inteligência artificial como diferenciais para conquistar empresas privadas, instituições sujeitas a maior regulação e contratos vinculados ao setor público.

Magalu tem prejuízo de R$ 72,5 milhões no 2T26

Apesar dos avanços operacionais observados em diferentes segmentos, o Magazine Luiza encerrou o segundo trimestre de 2026 com resultado líquido negativo.

O prejuízo líquido contábil foi de R$ 72,5 milhões, ante resultado negativo de R$ 24,4 milhões no mesmo período de 2025. No critério ajustado, que exclui determinados efeitos considerados não recorrentes, o prejuízo chegou a R$ 50,4 milhões.

O Ebitda ajustado atingiu R$ 708,8 milhões, com margem de aproximadamente 8%. A geração de caixa operacional foi de R$ 258,8 milhões no trimestre e alcançou R$ 1,6 bilhão no acumulado de 12 meses.

A posição total de caixa encerrou junho em aproximadamente R$ 5,8 bilhões, enquanto o caixa líquido ajustado ficou próximo de R$ 800 milhões.

A companhia também reduziu seus estoques em quase R$ 600 milhões durante o trimestre e trabalha com a perspectiva de diminuir o peso das despesas financeiras ao longo do segundo semestre por meio da redução do endividamento, da melhora do capital de giro e da menor utilização de antecipações de recebíveis.

Novo ciclo do Magalu será testado pela retomada das vendas digitais

O movimento do Magazine Luiza indica que o novo ciclo da companhia não está baseado simplesmente em recuperar crescimento a qualquer custo. A estratégia procura redefinir as fontes de geração de valor dentro do grupo.

Isso significa ampliar vendas nas lojas físicas em categorias nas quais a companhia identifica melhores condições de rentabilidade, distribuir produtos próprios também por plataformas concorrentes, transformar infraestrutura logística em serviço, expandir operações financeiras e utilizar inteligência artificial para aumentar conversão e recorrência no comércio eletrônico.

A evolução das vendas digitais durante os próximos trimestres será um dos principais testes dessa estratégia.

A expansão da parceria com a Amazon, a eventual elegibilidade dos produtos ao Prime, o amadurecimento do WhatsApp da Lu, a entrada de novos parceiros externos e a contribuição dos serviços mostrarão se o Magazine Luiza conseguirá converter a força de sua estrutura física e de seu ecossistema em retomada consistente do e-commerce sem sacrificar as margens que decidiu preservar.

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