O Mercado Livre (MELI) apresentou às autoridades sanitárias do Chile um plano para operar uma farmácia própria e exclusivamente online no país, ampliando sua presença no setor de saúde após iniciar um projeto semelhante no Brasil. A proposta, discutida em uma série de reuniões ao longo do último ano, depende de mudanças ou de uma nova interpretação das normas chilenas, que atualmente não permitem o funcionamento de farmácias sem um estabelecimento físico autorizado.
O projeto marca uma mudança relevante na estratégia do Mercado Livre. Em vez de apenas conectar consumidores a farmácias independentes por meio de seu marketplace, a companhia pretende comprar medicamentos, administrar o estoque, realizar diretamente as vendas e controlar a entrega dos produtos.
Registros das reuniões mostram que o Mercado Livre se encontrou pelo menos seis vezes com representantes do governo chileno para apresentar o modelo. A proposta prevê uma operação integralmente digital, sem atendimento presencial, apoiada na estrutura tecnológica e logística construída pela empresa no comércio eletrônico.
O Instituto de Saúde Pública do Chile, conhecido pela sigla ISP, informou que o Mercado Livre não possui autorização para operar uma farmácia própria no país. O órgão acrescentou que as regras vigentes não admitem farmácias exclusivamente online, o que impede a implementação imediata do projeto.
Governo chileno recomenda análise técnica do projeto
Após conhecer a proposta, o Ministério da Saúde do Chile recomendou que o Mercado Livre solicitasse uma avaliação técnica ao Instituto de Saúde Pública. O procedimento serviria para determinar se a operação poderia ser enquadrada na legislação atual ou se dependeria de uma alteração regulatória.
O ISP não informou se o pedido de análise foi formalmente apresentado pela companhia. O Ministério da Saúde chileno também não divulgou uma posição pública sobre o andamento das discussões.
Sem a manifestação favorável das autoridades, o Mercado Livre não pode avançar para a abertura da farmácia. A companhia também não anunciou prazo, volume de investimento ou data estimada para o início da operação.
Em posicionamento sobre sua atuação no setor, o Mercado Livre afirmou que trabalha para ampliar gradualmente a oferta de produtos de saúde, adaptando seu modelo às normas de cada país. A empresa não detalhou as negociações específicas mantidas no Chile.
Atualmente, medicamentos já são comercializados na plataforma chilena, mas as vendas são realizadas por farmácias terceirizadas. Esses estabelecimentos precisam manter autorização sanitária e cumprir as exigências aplicáveis ao setor farmacêutico.
A proposta altera essa relação. Caso obtenha o aval regulatório, o Mercado Livre passará da condição de intermediário para a de varejista direto, assumindo responsabilidades sobre aquisição, armazenamento, controle de lotes, venda e distribuição dos medicamentos.
Operação própria aumenta controle sobre preços e entregas
A entrada direta no varejo farmacêutico permitiria ao Mercado Livre controlar uma parcela maior da experiência de compra. A empresa poderia definir o estoque disponível, administrar preços, organizar promoções e integrar os pedidos à sua própria rede de distribuição.
O plano apresentado no Chile inclui entregas em poucas horas em determinadas regiões. A velocidade é um dos principais elementos da estratégia, pois aproxima a compra de medicamentos do modelo de conveniência já utilizado pela companhia em outras categorias.
Produtos farmacêuticos, porém, estão sujeitos a controles mais rigorosos do que mercadorias tradicionais do comércio eletrônico. Uma farmácia precisa cumprir normas relacionadas ao armazenamento, à conservação, à rastreabilidade, à responsabilidade técnica e à segurança durante a dispensação.
O transporte também representa uma área sensível. As condições de temperatura, a integridade das embalagens e a identificação correta dos produtos precisam ser preservadas até a entrega ao consumidor.
Essas obrigações aumentam a complexidade operacional e os riscos jurídicos do projeto. Falhas no controle sanitário podem resultar em multas, suspensão das atividades, recolhimento de produtos e danos à reputação do Mercado Livre.
A proposta inicial está concentrada em medicamentos que não exigem prescrição. A limitação reduz parte dos riscos relacionados à retenção e à verificação de receitas, mas não elimina as exigências sanitárias aplicáveis ao armazenamento e à venda.
Projeto brasileiro funciona como teste para a expansão
A negociação no Chile ocorre depois de o Mercado Livre iniciar sua entrada direta no varejo farmacêutico brasileiro. Em 2025, a companhia adquiriu uma farmácia física para atender às normas nacionais, que exigem um estabelecimento autorizado para a comercialização de medicamentos pela internet.
O projeto-piloto começou em março de 2026, na cidade de São Paulo, com a oferta de medicamentos isentos de prescrição e a promessa de entrega em prazo médio de até três horas.
A operação ainda não foi expandida para outras regiões do Brasil. Nesta fase, o Mercado Livre avalia a administração dos estoques, a integração com a logística, o cumprimento das obrigações sanitárias e a resposta dos consumidores.
O Brasil é o maior mercado da companhia e concentra sua operação mais robusta na América Latina. Por essa razão, o piloto paulista funciona como uma referência para a entrada do Mercado Livre em uma atividade regulada e dominada por grandes redes nacionais.
No Chile, a companhia procura adotar uma estrutura diferente. Em vez de adquirir ou abrir uma unidade com atendimento presencial, pretende obter autorização para manter uma farmácia exclusivamente digital.
Esse modelo reduziria a necessidade de uma rede de lojas físicas e permitiria concentrar a operação em centros de armazenamento e distribuição. O ganho de eficiência, entretanto, dependerá das condições impostas pelo regulador chileno.
Uma eventual autorização poderia dar ao Mercado Livre um formato mais facilmente replicável em outros países. A companhia já permite que farmácias terceirizadas vendam medicamentos em mercados como Argentina, México e Chile, mas ainda não opera diretamente nesses países.
Avanço coloca empresa em disputa com vendedores da plataforma
A operação própria também modifica a relação do Mercado Livre com os comerciantes que utilizam o marketplace. Ao vender medicamentos diretamente, a companhia passaria a concorrer com farmácias que pagam para anunciar produtos e acessar seus serviços logísticos e financeiros.
A sobreposição entre plataforma e varejista não é exclusiva do setor de saúde. O Mercado Livre vem ampliando operações próprias em segmentos como beleza e eletrodomésticos, nos quais compra mercadorias e realiza a revenda ao consumidor.
Para a companhia, o modelo oferece maior controle sobre a disponibilidade dos produtos e o prazo de entrega. Também permite utilizar informações sobre comportamento de consumo para selecionar categorias, marcas e regiões com maior potencial de vendas.
Para os lojistas, a mudança pode intensificar a concorrência dentro da própria plataforma. O Mercado Livre reúne dados sobre preços, volume de pedidos, conversão de vendas e procura dos consumidores, informações estratégicas que não estão disponíveis com a mesma profundidade para os comerciantes independentes.
A expansão exigirá regras de governança capazes de separar a administração do marketplace das decisões comerciais da operação própria. A forma como os produtos são exibidos, recomendados e posicionados nas buscas internas será acompanhada por vendedores e órgãos de defesa da concorrência.
No setor farmacêutico, essa discussão ganha relevância adicional porque o acesso a medicamentos envolve interesses sanitários e sociais. Preço e rapidez são importantes, mas precisam conviver com orientação adequada, segurança e continuidade do atendimento.
Estratégia amplia receitas, mas pressiona margens
A entrada na área de saúde faz parte da transformação do Mercado Livre em um ecossistema que reúne comércio eletrônico, logística, publicidade, pagamentos, crédito e serviços financeiros.
O setor farmacêutico apresenta características atraentes para essa estratégia. Medicamentos isentos de prescrição, itens de higiene e produtos de cuidado pessoal possuem demanda recorrente, o que pode aumentar a frequência de compras e o uso dos serviços do Mercado Pago.
A operação própria também permite ao Mercado Livre capturar a margem do varejo, além das receitas obtidas com comissões, publicidade e logística. Esse benefício vem acompanhado de maior necessidade de capital.
No modelo tradicional de marketplace, o estoque permanece sob responsabilidade dos vendedores. Quando compra mercadorias para revender, o Mercado Livre assume o risco de encalhe, deterioração, variação de preços e custos de armazenamento.
Os investimentos em operações próprias já têm pressionado a rentabilidade da companhia. As ações do Mercado Livre acumulavam queda próxima de 11% em 2026 e eram negociadas ao redor de US$ 1.799 no momento da divulgação das negociações com o governo chileno.
A reação dos investidores reflete uma preocupação mais ampla com o equilíbrio entre crescimento e margem. O Mercado Livre continua expandindo receitas, logística e serviços financeiros, mas precisa demonstrar que os novos investimentos produzirão retorno compatível com o capital empregado.
A área farmacêutica pode fortalecer a presença da companhia em uma categoria de consumo frequente. Ao mesmo tempo, eleva a exposição a despesas operacionais, fiscalização sanitária e possíveis mudanças regulatórias.
Chile pode servir de modelo para outros mercados
Embora tenha uma operação menor do que Brasil, México e Argentina, o Chile ocupa uma posição estratégica nos planos regionais do Mercado Livre. O país possui consumidores digitalizados, infraestrutura logística desenvolvida e elevada penetração do comércio eletrônico.
A companhia também vem ampliando sua capacidade de distribuição no mercado chileno. Um novo centro de armazenamento de aproximadamente 100 mil metros quadrados deverá dobrar a capacidade local de estocagem e sustentar o crescimento das entregas rápidas.
Essa infraestrutura pode apoiar a futura operação farmacêutica, desde que sejam cumpridas as exigências específicas para medicamentos. Estoques desse tipo não podem ser tratados da mesma forma que eletrônicos, roupas ou produtos para o lar.
Caso o Chile autorize uma farmácia exclusivamente online, a decisão poderá abrir precedente para outras empresas digitais e provocar uma revisão mais ampla das regras do varejo farmacêutico.
Redes tradicionais seriam pressionadas a acelerar investimentos em tecnologia, sistemas de entrega e integração de estoques. Operadores menores também poderiam ganhar novos canais de distribuição, mas enfrentariam concorrência maior de plataformas com escala regional.
Para o Mercado Livre, o resultado das negociações indicará até onde a companhia poderá avançar no comércio de produtos regulados sem depender de uma extensa estrutura física.
Decisão regulatória definirá expansão regional da farmácia
A proposta ainda está em uma fase preliminar e não há garantia de que será autorizada. O Mercado Livre precisará demonstrar que o modelo digital oferece condições adequadas de supervisão técnica, conservação, rastreabilidade e atendimento ao consumidor.
As autoridades chilenas também terão de avaliar como seriam fiscalizadas as instalações, quais medicamentos poderiam ser vendidos e como funcionariam procedimentos de devolução, reclamação e recolhimento de produtos.
Outro ponto será a presença de profissionais farmacêuticos. Mesmo sem atendimento físico, a operação poderá precisar oferecer canais permanentes de orientação e cumprir regras de responsabilidade técnica semelhantes às exigidas das farmácias tradicionais.
Enquanto não houver uma decisão, o Mercado Livre continuará atuando no Chile como plataforma para vendedores farmacêuticos autorizados. A operação direta permanece condicionada ao parecer do Instituto de Saúde Pública e a eventuais mudanças nas normas do país.
O desfecho terá impacto além do mercado chileno. Uma autorização permitiria ao Mercado Livre testar uma farmácia própria sem lojas abertas ao público e transformar o país em referência para sua expansão na América Latina.
Uma negativa, por outro lado, reforçaria a necessidade de adquirir ou instalar estabelecimentos físicos em cada mercado, como ocorreu no Brasil. A decisão das autoridades chilenas definirá o alcance de uma das novas frentes de crescimento da companhia e o ritmo de sua entrada direta no varejo farmacêutico regional.








