A Meta Platforms, dona de Facebook, Instagram e WhatsApp, divulgou nesta quarta-feira, 29 de julho, resultados do segundo trimestre de 2026 com sinais opostos. A receita superou as projeções do mercado e avançou 28%, para US$ 60,8 bilhões, sustentada pelo negócio de publicidade. O lucro, porém, frustrou expectativas ao recuar 14%, para US$ 15,85 bilhões, pressionado por encargos com processos judiciais e por despesas de reestruturação. O caixa livre encolheu para US$ 784 milhões, ante US$ 8,55 bilhões um ano antes.
O fato novo foi divulgado após o fechamento do mercado em Nova York. O lucro por ação ficou em US$ 6,18, queda de 13% na comparação anual, abaixo do consenso de analistas de US$ 7,19 apurado pela FactSet. A receita veio acima dos US$ 60,2 bilhões esperados. As ações da companhia caíam cerca de 5% a 6% no after hours da Nasdaq, refletindo a combinação de guidance mais fraco e escalada de investimentos.
Segundo a empresa, o resultado operacional foi distorcido por itens não recorrentes. Sem os encargos judiciais e de rescisão, o lucro operacional teria crescido 9% no ano, conforme informou a diretora financeira Susan Li na teleconferência de resultados.
Encargos judiciais de US$ 2,4 bilhões e demissões derrubam margem operacional
As despesas totais dispararam 55% no trimestre, para US$ 42,03 bilhões. De acordo com a Meta, o aumento foi liderado por compensação de funcionários, custos de infraestrutura, incluindo depreciação e operação de data centers, gastos com computação em nuvem de terceiros e custos com tokens de inteligência artificial.
Dentro desse total, a companhia reconheceu US$ 2,4 bilhões em encargos relacionados a processos judiciais no segundo trimestre e US$ 1,18 bilhão em despesas de rescisão ligadas ao corte de cerca de 8 mil funcionários anunciado em 20 de maio. O programa equivale a 10% da força de trabalho global de 78.865 empregados e incluiu o fechamento de 6 mil vagas abertas e o remanejamento de 7 mil pessoas para iniciativas prioritárias de IA.
Com isso, a margem operacional caiu de 43% um ano antes para 31% no trimestre. A empresa afirmou que segue monitorando disputas legais e regulatórias ativas que podem impactar significativamente negócios e resultados, com destaque para julgamentos ligados ao público jovem nos Estados Unidos marcados para 2026, que podem resultar em perda material.
A redução de pessoal ocorre em meio a uma reorganização profunda em torno de IA. Segundo comunicados internos, não há nova rodada ampla de demissões prevista para o restante de 2026. A Meta contesta em processos judiciais que o uso de ferramentas de IA para selecionar desligamentos teria sido discriminatório, conforme alegações de ex-funcionários, e afirma que decisões de gestão foram tomadas por pessoas, não por sistemas automatizados.
Publicidade cresce 27% e sustenta receita com mais volume e preço de anúncios
Apesar da pressão nos custos, o motor de receita da Meta continuou acelerando. A publicidade, que responde por quase a totalidade do faturamento, gerou US$ 59,36 bilhões, avanço de 27% na comparação anual. De acordo com a empresa, o crescimento foi sustentado por alta de 14% no volume de anúncios entregues e de 12% no preço médio por anúncio.
No primeiro trimestre, a companhia já havia reportado alta de 19% em impressões e de 12% no preço, com receita de US$ 56,3 bilhões. A manutenção de crescimento em dois dígitos em impressões e preço no segundo trimestre indica que melhorias de segmentação com IA estão ampliando inventário e monetização simultaneamente.
O número de pessoas que usam diariamente ao menos um aplicativo da companhia, métrica DAP, chegou a 3,60 bilhões em junho, alta de 3% em um ano, segundo dados divulgados pela empresa. Em março, o indicador era de 3,56 bilhões, com leve recuo trimestral atribuído pela companhia a interrupções temporárias de internet no Irã e restrições ao WhatsApp na Rússia.
A divisão Family of Apps, que reúne Facebook, Instagram, Messenger, WhatsApp e Threads, gerou US$ 23,39 bilhões de lucro operacional no trimestre. O segmento segue responsável por 98% a 99% da receita total. Projeções de mercado compiladas por consultorias indicam que a Meta deve superar o Google em receita global de publicidade digital em 2026 pela primeira vez, com cerca de US$ 243 bilhões contra US$ 240 bilhões.
Reality Labs tem receita de US$ 431 milhões e prejuízo de US$ 4,6 bilhões no trimestre
A divisão de realidade virtual e aumentada, a Reality Labs, voltou a pesar no balanço. A unidade responsável pelos óculos Ray-Ban Meta e pelos headsets Quest registrou receita de US$ 431 milhões no trimestre e prejuízo operacional de US$ 4,62 bilhões. Analistas esperavam perda de US$ 5,07 bilhões, portanto menor que o previsto.
Desde 2020, as perdas acumuladas do braço de hardware superam US$ 80 bilhões, com média histórica próxima de US$ 4 bilhões por trimestre. A empresa informou que está direcionando a maior parte dos investimentos para óculos e wearables e para tornar o Horizon um sucesso em dispositivos móveis, além de buscar transformar a realidade virtual em ecossistema lucrativo nos próximos anos.
No ano de 2025, a Reality Labs havia acumulado prejuízo de US$ 19,1 bilhões com receita de US$ 2,2 bilhões. A melhora relativa do prejuízo no segundo trimestre de 2026 não altera a característica da divisão como centro de custo estratégico de longo prazo.
Caixa livre encolhe com capex de US$ 31 bilhões em data centers para IA
O sinal mais claro do custo da aposta em inteligência artificial aparece no fluxo de caixa. O caixa gerado pelas operações somou US$ 31,86 bilhões no trimestre, mas os investimentos em capital, o chamado capex, consumiram US$ 31,08 bilhões. O grosso desse valor foi destinado à construção de data centers e compra de chips de IA.
Com isso, o fluxo de caixa livre ficou em US$ 784 milhões, ante US$ 8,55 bilhões no mesmo período do ano passado, queda de 91%. No primeiro trimestre, o fluxo livre ainda havia sido de US$ 13,2 bilhões, caindo para menos de US$ 1 bilhão no segundo trimestre, embora sem ficar negativo como alguns analistas projetavam.
Para o ano, a companhia estreitou a faixa prevista de investimentos, elevando o piso. Agora projeta capex entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões, contra estimativa anterior de US$ 125 bilhões a US$ 145 bilhões. O teto foi mantido. No primeiro trimestre, a empresa já havia elevado a projeção de US$ 115 bilhões a US$ 135 bilhões para a faixa atual, refletindo aceleração na construção de infraestrutura para o projeto de superinteligência.
A empresa também elevou o piso da estimativa de despesas totais para o ano, para incorporar os encargos judiciais, e agora prevê custos entre US$ 165 bilhões e US$ 169 bilhões, ante faixa anterior de US$ 162 bilhões a US$ 169 bilhões. Segundo analistas ouvidos pela Reuters, a Meta está investindo tudo em capacidade de IA, e isso tem assustado investidores a cada divulgação, mesmo com o negócio principal ainda performando bem.
O movimento espelha o ciclo de todo o setor. A Alphabet informou na semana anterior fluxo de caixa negativo pela primeira vez em sua história ao gastar US$ 5,9 bilhões no segundo trimestre. A soma de gastos de Big Techs em data centers deve superar US$ 700 bilhões em 2026, segundo estimativas de mercado compiladas pela Reuters, com projeção do Morgan Stanley de mais de US$ 1 trilhão no próximo ano.
Projeções para o terceiro trimestre ficam abaixo do consenso e ação cai no after hours
Para o terceiro trimestre, a Meta projeta receita entre US$ 61 bilhões e US$ 64 bilhões. O ponto médio de US$ 62,5 bilhões ficou abaixo dos US$ 63,14 bilhões esperados por analistas acompanhados pela FactSet. Para o segundo trimestre, a empresa havia projetado inicialmente entre US$ 58 bilhões e US$ 61 bilhões, faixa que foi superada com os US$ 60,8 bilhões entregues.
A empresa afirmou que espera entregar em 2026 lucro operacional superior ao de 2025, apesar da pressão de custos. No primeiro trimestre, a Meta havia superado projeções de lucro com margem operacional de 41%, mesmo com investimentos elevados. O padrão de gasto pesado em infraestrutura já havia marcado o terceiro trimestre de 2025, quando as ações recuaram após resultados.
Em comunicado, o presidente-executivo Mark Zuckerberg afirmou que a IA está acelerando o negócio principal, impulsionando a próxima geração de produtos e abrindo novas oportunidades empresariais. A estratégia inclui venda de capacidade ociosa de computação para outras empresas de IA, tema que deve ser detalhado em chamadas futuras, e expansão do assistente Meta AI, que vem ganhando uso real segundo analistas.
Do ponto de vista regulatório, a empresa alertou que julgamentos ligados a redes sociais e público jovem nos Estados Unidos podem resultar em perdas relevantes adicionais. A companhia mantém US$ 81,18 bilhões em caixa e equivalentes contra US$ 58,7 bilhões em dívida, conforme balanço do primeiro trimestre, o que dá suporte para sustentar o ciclo de investimentos mesmo com fluxo livre pressionado.
Analistas avaliam que a ação pode enfrentar fluxo de caixa livre negativo em 2026 pela primeira vez como empresa aberta, caso o ritmo médio de capex de US$ 38 bilhões a US$ 42 bilhões por trimestre se mantenha nos próximos períodos. A recuperação do indicador dependerá de monetização de novos produtos de IA para anunciantes e de disciplina na expansão de capacidade.









