O Bank of America (BofA) elevou a recomendação das ações da Movida (MOVI3) de neutra para compra, após incluir pela primeira vez os efeitos da reforma tributária em suas projeções financeiras. Na avaliação da instituição, o novo modelo baseado no Imposto sobre Valor Agregado (IVA) deve beneficiar as
empresas de locação de veículos mais do que o mercado já precificou, com destaque para a expansão da geração de caixa livre ao longo da próxima década.
Além da mudança para a Movida, o banco reiterou a recomendação de compra para a Localiza (RENT3), líder do setor no Brasil. Os analistas, liderados por Rogério Araujo, destacam que embora os lucros contábeis possam sofrer reduções nos primeiros anos da transição, a capacidade de gerar recursos disponíveis para investimentos e remuneração de acionistas deve se tornar o principal indicador de valor das companhias.
Créditos tributários ampliam fluxo de caixa
A reforma tributária altera a forma de cobrança e aproveitamento de impostos sobre consumo e investimentos, com a substituição de tributos cumulativos por um modelo não cumulativo, no qual os valores pagos na etapa anterior da cadeia podem ser usados como crédito. Para as locadoras, que renovam constantemente suas frotas e mantêm grande volume de ativos, essa mudança representa um ponto de inflexão.
Segundo o BofA, entre 2027 e 2028, a Localiza deve capturar R$ 3,3 bilhões em fluxo de caixa adicional com a nova regra, montante equivalente a cerca de 7,5% do valor de
mercado atual da empresa. Para a Movida, o ganho estimado chega a R$ 1,2 bilhão, o que corresponde a aproximadamente 31% da sua capitalização de mercado.
“Os créditos tributários sobre investimentos de expansão e renovação de frota aumentam de forma relevante, enquanto os benefícios relacionados à venda de veículos seminovos levam mais tempo para se refletir no caixa”, explicam os analistas no relatório. Essa diferença de ritmo faz com que o impacto positivo apareça mais cedo na capacidade de gerar recursos, mesmo que o lucro por ação apresente pressão de queda no início da transição.
A projeção do banco também indica que ambas as empresas devem continuar pagando uma carga tributária efetiva baixa até 2033 — praticamente zero sobre suas operações de venda e prestação de serviços nesse período. Apenas em um cenário de longo prazo, a alíquota efetiva deve subir para cerca de 8%, patamar considerado administrável diante da capacidade de ajuste de preços.
Repasse de custos é viável sem comprometer retorno
Um dos pontos centrais da análise é a avaliação de que as locadoras terão condições de repassar parte da elevação da carga tributária aos clientes sem comprometer o retorno sobre o capital investido (ROIC), indicador fundamental para os acionistas.
Para manter o mesmo nível de rentabilidade projetado antes da reforma, a Localiza precisaria elevar suas tarifas em cerca de 9% no segmento de aluguel de carros e em 5% na área de gestão de frotas até 2036. Já a Movida necessitaria de ajustes um pouco menores: aproximadamente 8% no aluguel e 4% na gestão de frotas.
Os analistas lembram que o setor já demonstrou resiliência em momentos anteriores de pressão de custos,
como na alta dos preços de veículos e de combustíveis, o que reforça a tese de que os reajustes necessários são factíveis dentro da dinâmica competitiva do mercado.
Com esse cenário, o BofA definiu novos preços-alvo para as ações: R$ 41,80 para a Localiza e R$ 9,60 para a Movida. “Mesmo com revisões de lucro que podem ser negativas no curto prazo, acreditamos que o resultado contábil deve se tornar uma referência menos relevante, enquanto a geração consistente de caixa oferece uma visão mais construtiva para os próximos anos”, afirma o documento.
Transição tributária redefine métricas de avaliação
A mudança de modelo tributário traz também uma alteração na forma como o mercado deve analisar as empresas do setor. Tradicionalmente, o lucro líquido e o resultado por ação eram os indicadores mais acompanhados, mas com a entrada em vigor do IVA, o fluxo de caixa livre passa a ser considerado a principal âncora para definir o valor das ações.
Isso ocorre porque a contabilidade dos impostos passa a registrar os créditos de forma diferente ao longo do tempo, gerando uma descasamento temporário entre o que é apurado como lucro e o que realmente entra e sai do caixa. Para investidores, a capacidade de gerar recursos disponíveis para pagar dívidas, renovar a frota, distribuir dividendos ou fazer novas aquisições se torna mais decisiva.
A Movida, em especial, deve ver uma ampliação proporcionalmente maior do seu fluxo de caixa adicional, em razão da sua estrutura de capital e da taxa de renovação de frota. O ganho estimado de 31% sobre o valor de mercado sugere que as ações ainda não refletem todo o potencial da reforma, o que justifica a elevação da recomendação pelo BofA.
Cenário competitivo mantém dinâmica estável
Mesmo com os ajustes esperados, a reforma não deve alterar substancialmente a estrutura de concorrência do setor. Localiza e Movida seguem como as duas maiores operadoras, com modelos de negócio que combinam aluguel de curto prazo, gestão de frotas corporativas e venda de veículos seminovos — segmentos que se beneficiam de forma distinta, mas complementar, com as novas regras.
A venda de seminovos, que representa uma parcela significativa da receita e da margem das empresas, terá seus benefícios tributários estendidos ao longo do tempo, mas com efeito mais gradual. Já os investimentos em novos veículos, feitos de forma contínua para manter a qualidade da frota, terão seus créditos liberados mais rapidamente, acelerando a recuperação do capital aplicado.
Analistas de outras instituições financeiras ainda estão em processo de incorporar os detalhes da reforma em suas estimativas, mas a avaliação inicial segue a mesma linha: o impacto é positivo, mas sua materialização depende da implementação das regras complementares e do cronograma de transição definido pelo governo e pelo Congresso Nacional.
Bolsa reage com alta moderada no pregão desta quinta
No pregão desta quinta-feira (25), as ações da Movida operavam com valorização de cerca de 2,1% por volta das 16h40, negociadas a R$ 7,32, enquanto o
Ibovespa registrava alta de 0,87%, aos 171.990 pontos. Os papéis da Localiza subiam 1,4%, cotados a R$ 36,90.
A elevação da recomendação reforça a percepção de que o setor de locação de veículos tem uma exposição favorável às mudanças tributárias, ao contrário de segmentos onde a carga pode aumentar sem contrapartida de créditos expressivos. Para os investidores, o foco passa a ser acompanhar a evolução da geração de caixa a cada trimestre, além da velocidade com que os ajustes de preços serão implementados.
A reforma tributária segue em fase de regulamentação, com detalhes que ainda serão definidos por decretos e normas complementares nos próximos meses. Essas definições poderão trazer ajustes pontuais nas projeções, mas o arcabouço principal já indica uma trajetória mais favorável para empresas com alto volume de investimentos e estrutura operacional como a da Movida e da Localiza.