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City Football Group compra 90% da SAF do Bahia e estrutura plano de R$ 1 bilhão até 2038

Aquisição em maio de 2023 fortaleceu as finanças do Bahia e ampliou sua projeção global.

por João Souza
23/07/2026 às 14h20
em Empresas
City Football Group Compra 90% E Estrutura R$ 1 Bilhão Em 15 Anos-Gazeta Mercantil

O Esporte Clube Bahia virou empresa de futebol com dono estrangeiro em 4 de maio de 2023, quando o City Football Group oficializou na Arena Fonte Nova a compra de 90% da Bahia SAF. O acordo criou o segundo maior investimento da história do conglomerado, atrás apenas do Manchester City, e amarrou um compromisso de aporte que pode chegar a R$ 1 bilhão em 15 anos. Para um clube fundado em 1931, duas vezes campeão brasileiro e com passivo que sufocava o caixa, a mudança não foi apenas esportiva. Foi uma troca de modelo econômico.

O fechamento ocorreu cinco meses depois de uma votação histórica. Em 3 de dezembro de 2022, 98,6% dos sócios aprovaram a venda da SAF ao Grupo City. Com isso, o Bahia se tornou o 13º clube da rede global que tem o Manchester City como principal ativo. A associação civil manteve 10% e preservou direitos sobre escudo, cores e hino, com trava estatutária para qualquer alteração. O controle do futebol profissional, das categorias de base, do feminino e da gestão passou ao investidor por prazo determinado de 90 anos, renovável.

Contrato de R$ 1 bilhão foi desenhado para 15 anos, não para uma temporada

O número que circula em manchetes esconde a engenharia financeira. Segundo documento detalhado pela diretoria na Arena Fonte Nova e publicado no site oficial do clube, o Grupo City se compromete a investir um total de R$ 1 bilhão no futebol do Bahia. A divisão contratual prevê R$ 500 milhões para compra de jogadores, R$ 300 milhões para pagar dívidas e R$ 200 milhões para investimentos em infraestrutura, capital de giro e divisões de base. O prazo para executar tudo é de 15 anos.

A Gazeta Mercantil apurou que essa fatiamento é proposital. Ao contrário de SAFs feitas em situação de insolvência aguda, o Bahia negociou cláusulas de sustentabilidade. Há obrigação de manter folha salarial do futebol no que for maior entre R$ 120 milhões por ano se o time estiver na Série A, R$ 77 milhões na Série B ou 60% da receita bruta da SAF. Há também regra de que valores para compra de atletas só entram na conta do aporte obrigatório quando o jogador atinge metas como dez jogos como titular e uma temporada registrado no profissional. Se o investidor não cumprir a obrigação em um ano, a diferença é cobrada no seguinte.

A marca ficou com a associação. O uso pela SAF está condicionado ao pagamento de R$ 2,5 milhões por ano em royalties. É um mecanismo que garante receita mínima ao clube social e, ao mesmo tempo, cria incentivo para valorizar a marca no mercado comercial, já que o grupo passa a ter interesse direto em aumentar patrocínios e licenciamento.

De associação endividada a empresa com governança internacional

O ponto de partida explica por que o Bahia aceitou diluir 90%. Antes da SAF, o clube operava como associação sem fins lucrativos, com receita concentrada em direitos de transmissão e dificuldade para alongar dívida bancária e trabalhista. A Lei nº 14.193, de 6 de agosto de 2021, criou a Sociedade Anônima do Futebol como modelo especial de empresa voltada para o futebol, permitindo separar o departamento de futebol, transferir bens, emitir títulos e negociar passivo com regras de governança e transparência.

No caso baiano, o efeito foi imediato. Menos de um ano após o closing, a SAF informou redução de 86% da dívida total, com os R$ 300 milhões em débitos caindo para R$ 42 milhões após acordão trabalhista. A melhora de balanço devolveu crédito no mercado. Fornecedores que antes exigiam pagamento antecipado voltaram a dar prazo. Bancos que não financiavam associação passaram a analisar a empresa. Para o credor, a mudança significou trocar um devedor sem garantia por uma companhia com fluxo contratual de aporte e acionista com grau de investimento indireto.

O clube também ganhou outro patamar de receita. Depois de anos entre R$ 90 milhões e R$ 190 milhões, a SAF ultrapassou R$ 300 milhões em 2024 e projeta mais de R$ 400 milhões em 2025 com premiações de Copa Libertadores, venda de atletas e novos contratos comerciais. O crescimento de 40% a 45% citado pela diretoria em apresentações recentes reflete justamente a combinação de direitos de transmissão renegociados, sócio torcedor e internacionalização da marca dentro da rede City.

Quem realmente está por trás do cheque e por que Ferrari entrou na história errada

A confusão sobre dono da Ferrari nasceu de uma simplificação. Sheikh Mansour bin Zayed Al Nahyan, vice presidente dos Emirados Árabes Unidos e membro da família real de Abu Dhabi, não é proprietário da Ferrari. Ele controla o City Football Group por meio do Abu Dhabi United Group, que detém 81% do CFG, enquanto a americana Silver Lake tem 18% e o restante está com investidores chineses como CITIC Group. O ADUG, por sua vez, é de propriedade de Sheikh Mansour.

A Ferrari N.V. tem estrutura acionária completamente diferente. De acordo com documentos arquivados na SEC e comunicados oficiais, a Exor N.V., holding da família Agnelli, detém cerca de 20% do capital e Piero Ferrari, filho do fundador Enzo Ferrari, detém cerca de 10,6%. Juntos, por meio de voto em lealdade, controlam mais de 48% dos direitos de voto. John Elkann, presidente da Ferrari e da Stellantis, preside o conselho. Mansour não aparece na cadeia de controle da montadora italiana, que tem ações listadas em Nova York e Milão e valor de mercado superior a US$ 80 bilhões.

Por que isso importa para o Bahia. Porque o investimento não vem da conta pessoal de um bilionário, mas de uma holding com governança corporativa, comitê de investimento e fundo de private equity americano como sócio. A lógica não é de mecenas, é de alocação de capital com retorno esperado via valorização de ativos, venda de jogadores e crescimento de receitas de mídia. A fortuna pessoal estimada em R$ 121 bilhões, citada em manchetes, não é caixa disponível, é patrimônio ligado a participações estatais, fundos soberanos e ativos ilíquidos, que oscila com câmbio e avaliação.

Por que o Bahia interessa mais que muitos clubes europeus para o balanço do grupo

Ferran Soriano, CEO do City Football Group, disse em Salvador que o Bahia seria excepcional por seu tamanho e torcida e que se tornaria o segundo maior clube do grupo após o Manchester City. A frase não foi retórica. Dentro da estratégia de multiclubes, o Brasil é tratado como maior oportunidade de crescimento do mundo, nas palavras do próprio executivo, porque combina três fatores raros: produção contínua de talentos com valor de revenda em euro, torcida em escala nacional e liga ainda sub monetizada em relação à Premier League.

O grupo já operava em 2023 com 13 clubes em quatro continentes, incluindo New York City FC, Melbourne City, Girona, Troyes, Lommel, Palermo, Yokohama Marinos, Mumbai City e Montevideo City Torque. A lógica é industrial. Jogadores circulam entre clubes sem passar pelo mercado aberto, dados de scout e saúde são compartilhados, patrocínios são negociados em bloco e conhecimento sobre formação e prevenção de lesões é replicado. Para o Bahia, isso significou acesso imediato a plataforma de análise de desempenho, metodologia de base e crédito para contratar acima do que seu balanço isolado permitiria.

O efeito setorial é relevante. O Brasil exporta mais de mil jogadores por ano e ainda tem direitos de transmissão domésticos e internacionais com potencial de valorização se a liga se organizar em modelo similar ao inglês. Soriano afirmou na época que a Premier League só se tornou o que é por como foi estruturada, e que o grupo queria participar das discussões sobre a nova liga brasileira. Para a Gazeta Mercantil, o recado é claro: o City não comprou apenas um time, comprou uma opção sobre o crescimento do futebol brasileiro como negócio de mídia.

O efeito econômico que já aparece em Salvador

A conta econômica da SAF não se limita ao balanço do clube. A Fonte Nova, com capacidade para 48 mil pessoas, voltou a ter média superior a 35 mil pagantes em 2024, com impacto direto em bares, transporte por aplicativo, hotelaria e comércio no entorno do Dique do Toropé. O centro de treinamento, que já era considerado bom quando comparado a Palermo e Girona, entrou em plano de expansão para virar City Football Academy Bahia, com investimento estimado em R$ 300 milhões segundo projeções internas, o maior da América do Sul dentro do grupo.

A cadeia de fornecedores também mudou. Material esportivo, tecnologia de GPS, software de análise e até uniformes de base passaram a ser comprados em escala global, reduzindo custo unitário. Ao mesmo tempo, o clube ampliou contratação local para funções de apoio, manutenção, segurança e hospitalidade em dias de jogo. A Bahia SAF passou a recolher tributos pelo Regime de Tributação Específica do Futebol, com alíquota unificada, aumentando previsibilidade fiscal e reduzindo contencioso.

Para o mercado de transferências, a SAF alterou o comportamento. O Bahia deixou de ser vendedor por necessidade de caixa e passou a ser comprador com capacidade de segurar ativos até janela europeia. O investimento de R$ 170 milhões em contratações nas temporadas 2023 e 2024, informado pelo clube no balanço de um ano de SAF, mostra ritmo mais agressivo que o teto de R$ 80 milhões a R$ 88 milhões de folha observado nos últimos anos como associação.

O que muda na prática e quais são os riscos de um acordo de 90 anos

Na prática, o torcedor continua vendo o mesmo escudo, as mesmas cores e o mesmo hino. O que muda é a forma como decisões são tomadas. Contratações passam por comitê que inclui representantes do grupo global, orçamento é plurianual e não anual, e metas esportivas estão ligadas a metas financeiras. Se o Bahia cair para a Série B, há gatilho que aumenta em 10% a folha mínima para forçar retorno rápido, mas também há cláusulas que permitem redução de investimento em caso de queda brusca de receita de TV, suspensão de campeonatos ou mudança tributária relevante.

O risco cambial existe. Receitas de venda de jogadores são em euro e dólar, custos de elenco e operação são em real, o que cria descasamento natural. Há também risco regulatório. A FIFA e a CBF discutem limites para multiclubes em competições continentais, o que poderia afetar eventual encontro entre Bahia e Girona ou Manchester City em Mundial de Clubes. E há risco esportivo, que é o mais caro: rebaixamento corta receita de TV e premiação e pressiona o retorno sobre o capital investido.

O contrato de 90 anos tenta blindar ambos os lados. Para o grupo, garante estabilidade para investir em infraestrutura que só se paga em década. Para a associação, garante royalties, participação minoritária e poder de veto sobre identidade. O prazo pode ser ajustado para o máximo permitido por lei, o que na prática o torna quase perpétuo dentro do marco legal brasileiro.

O próximo ciclo será de prova. O Bahia precisa transformar capital em performance continental, aumentar receita recorrente sem depender apenas de venda de atletas e concluir a nova academia. Se conseguir, cria um precedente raro no Brasil: um clube nordestino com balanço auditado, dívida controlada e acesso a rede global de distribuição de talentos. Se não, repetirá a história de outros projetos de SAF que trocaram endividamento bancário por dependência de acionista. A diferença, neste caso, é o tamanho do acionista e o horizonte de 15 anos para executar o plano de R$ 1 bilhão que foi assinado não como promessa de campanha, mas como obrigação contratual registrada em CNPJ novo, com governança de companhia aberta e fiscalização da CVM.

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