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Nike (NKE) cai 47,8% em 12 meses a US$ 39 e Bernstein mantém alvo de US$ 72 com potencial de 84%

Papel negocia com consenso em US$ 50,66 e prêmio de 42% entre média e alvo mais otimista, com China em queda de 17% e Converse em retração de 32%

por Lucas Correa
19/08/2026 às 08h10
em Empresas
Atualização De Shooting – Refação E Próximos Agendamentos-Gazeta Mercantil

Nike | Divulgação

A Nike (NKE) entrou no segundo ano do plano de recuperação liderado pelo presidente-executivo Elliott Hill com um retrato pouco usual para a maior marca de calçados esportivos do mundo: queda de 47,81% em 12 meses, recuo de 37,68% no acumulado do ano e perda de 7,17% apenas na última semana. Na faixa de US$ 39,09, o papel negocia a 19 vezes o lucro dos últimos 12 meses e a 23 vezes o lucro projetado, com dividend yield de 3,95%, patamar que transformou a companhia em caso de valor para parte do mercado e em alerta para outra.

O contraste está na distância entre o preço atual e as projeções. A média de 39 analistas compilada pelo mercado aponta para US$ 50,66, o que implica alta potencial de cerca de 30%. No topo da distribuição, Bernstein, com Aneesha Sherman e Nick Anderson, sustenta alvo de US$ 72, potencial de 84% sobre a cotação de referência. Esse intervalo de US$ 21,34 entre o consenso e o alvo mais otimista, equivalente a 42% acima da média, é hoje o principal vetor da tese.

Leia também: STF mantém aumento do IOF proposto pelo governo: entenda os efeitos fiscais e políticos.

O que mostram os números mais recentes

O primeiro trimestre do ano fiscal de 2027, encerrado em agosto, cristalizou a tensão entre lucro contábil e operação. A receita somou US$ 11,589 bilhões, queda de 10,4% na comparação anual e de cerca de 1% na métrica ajustada citada pela companhia no release preliminar, levemente acima das estimativas de US$ 11,49 bilhões para o período.

O lucro por ação foi de US$ 0,70 em base GAAP, ante US$ 0,94 um ano antes, com lucro líquido de US$ 1,05 bilhão contra US$ 1,45 bilhão. O mercado, porém, focou no lucro ajustado. Sem considerar itens não recorrentes, o resultado foi de US$ 0,20 por ação. O número divulgado como batida de 465% nas projeções incluiu recuperação de tarifa IEEPA de US$ 986 milhões, que adicionou US$ 0,52 por ação. Em termos práticos, 72% do EPS reportado veio desse crédito tarifário, que representa 8,5% da receita do trimestre.

Leia também: Eleição 2006 – Apuração Parcial.

A margem bruta atingiu 49,2%, expansão de 890 pontos-base na comparação anual. A maior parte do avanço decorre justamente da reversão tarifária. Descontado esse efeito, a margem subjacente ficaria próxima de 44%, ainda em recuperação, mas longe do salto divulgado. O diretor financeiro Matt Friend afirmou que a expansão de margem bruta deve começar de fato no primeiro trimestre fiscal de 2027, antecipando cronograma anterior, e que este será o último trimestre com impacto material de tarifas como fator de distorção.

A leitura de canal ajuda a explicar o movimento. As vendas diretas ao consumidor recuaram 4%, com queda de 9% no digital da marca Nike e de 5% nas lojas próprias. A companhia vem reduzindo a distribuição de modelos clássicos como Air Force 1 e Dunk para limpar o estoque no atacado, estratégia que pressiona receita no curto prazo e alivia promoções.

Por que Bernstein vê 84% de alta

A tese de US$ 72 se apoia em três pilares que não dependem de retomada imediata de receita. Primeiro, a redução de clássicos superdistribuídos. Segundo, a normalização de margem bruta antes da receita, à medida que a liquidação promocional perde peso. Terceiro, a continuidade do crescimento em performance, com corrida e basquete avançando em regiões-chave enquanto lifestyle recua.

Os dados de corrida sustentam parte do argumento. A categoria registra cinco trimestres consecutivos de crescimento de dois dígitos, com incremento de aproximadamente US$ 1 bilhão no ano fiscal de 2026. A empresa cita ganho de 5 pontos de participação em calçados de destaque na Europa Ocidental e América do Norte, onde a disputa com novas marcas de performance se intensificou.

Do ponto de vista de capital, a companhia mantém programa de recompra de US$ 18 bilhões. A US$ 39, a recompra aposenta ações a um valor 76% abaixo do pico de fechamento de US$ 163,63 registrado em 5 de novembro de 2021. No preço atual, a capitalização gira em torno de US$ 60 bilhões, ante cerca de US$ 242 bilhões no topo histórico. A perda de valor de mercado no intervalo supera US$ 180 bilhões. O rendimento de dividendo de 3,95% implica provento anualizado próximo de US$ 1,54 por ação, em linha com a expectativa de 25º aumento consecutivo em 2026 citada por parte do mercado.

A cobertura geral permanece cautelosa. O agregado aponta 1 recomendação de Compra Forte, 11 de Compra, 25 de Manutenção, 1 de Venda e 1 de Venda Forte. Nesse contexto, o alvo de Bernstein funciona como outlier otimista, e não como consenso.

Vendas de insiders e troca no comando financeiro

Entre meados de junho e início de agosto, foram registradas 13 transações de venda por insiders na faixa de US$ 41 a US$ 46, envolvendo o diretor financeiro Matt Friend, a presidente de produto Amy Montagne e outros três executivos seniores. Não houve compras no mercado aberto por executivos no mesmo período. Em 5 de agosto, Friend vendeu 2.463 ações, operação divulgada em formulário regulatório.

A movimentação ocorre em meio à transição no financeiro. A Nike anunciou David Denton, ex-CFO da Pfizer e ex-CFO da Lowe’s, como novo vice-presidente executivo e diretor financeiro a partir de 16 de agosto de 2026. Friend, que ingressou na Nike em 2009 e assumiu o CFO em 2020, permanece como conselheiro até 4 de setembro para garantir a transição. A companhia informou que os resultados do quarto trimestre fiscal de 2026 incluirão benefício adicional de reembolso tarifário, último ajuste desse tipo antes da normalização esperada.

China e Converse pressionam resultado

A Grande China segue como ponto de maior fragilidade. No primeiro trimestre fiscal de 2027, as vendas na região caíram 17% em moeda neutra. A região responde por aproximadamente 15% da receita anual da Nike e é o terceiro maior mercado, atrás de América do Norte e Europa, Oriente Médio e África. O desempenho reflete competição doméstica mais acirrada, com marcas como Anta, e ajustes na operação com parceiros de varejo para reduzir excesso de inventário.

O CFO projetou queda adicional de até 20% na China no trimestre corrente e fraqueza ao longo do próximo ano fiscal, mesmo com corrida crescendo dois dígitos na região. A empresa interrompeu vendas online por parceiros atacadistas no país e prioriza limpeza de canal.

A Converse, que representa parcela menor do grupo, recuou cerca de 32% no trimestre, para US$ 244 milhões. A divisão vinha de base mais fraca e sofreu com menor tráfego e retração no lifestyle, segmento que historicamente sustenta modelos como Chuck Taylor.

Para o primeiro semestre fiscal de 2027, a Nike orienta queda de receita em um dígito baixo a médio, com segundo trimestre sequencialmente mais fraco que o primeiro. Não há expectativa de benefício cambial relevante no período.

Pares do setor também recuam, mas menos

O grupo de calçados esportivos vendeu de forma generalizada nos últimos 12 meses, mas a Nike liderou as perdas.

A Lululemon (LULU) negocia a US$ 115,74 contra alvo médio de US$ 127,92, potencial de 10,5%. A ação acumula queda de 41,68% em um ano, pressionada por comparáveis fracos nos Estados Unidos. A cobertura indica 1 Compra, 29 Manutenção, 3 Venda e 1 Venda Forte.

A On Holding (ONON) negocia a US$ 31,31 contra alvo de US$ 45,40, potencial de cerca de 45%. Mesmo com crescimento de receita de 13,5% no segundo trimestre e margem bruta de 65,4%, a ação recua 30,94% em 12 meses. A distribuição de recomendações é mais construtiva, com 6 Compra Forte, 18 Compra, 3 Manutenção e 1 Venda.

A Deckers (DECK) negocia a US$ 90,11 contra alvo de US$ 122,81, potencial de 36%. A marca HOKA segue crescendo em dois dígitos e a administração elevou a projeção de lucro por ação para o ano fiscal de 2027. A queda em 12 meses é de 12,48%, a menor do grupo, com cobertura de 5 Compra Forte, 8 Compra, 11 Manutenção e 2 Venda.

Apenas pela média de alvos, a On lidera com 45% de valorização implícita. A chamada de US$ 72 para Nike, isoladamente, supera todos os consensos do setor.

O que pode mudar a tese

Hill afirmou que o programa Win Now será encerrado no final do calendário de 2026, com Investor Day marcado para 16 e 17 de novembro. Esse encontro é tratado como janela de 12 a 18 meses para a tese de recuperação ganhar tração. A administração planeja mais de uma dezena de lançamentos de calçados no segundo semestre fiscal, mas ressalva que a conversão em crescimento sustentado leva tempo.

No cenário de alta, a companhia entrega expansão de margem no primeiro trimestre fiscal de 2027 sem depender de créditos tarifários, estabiliza o canal direto e desacelera a queda na Grande China nos próximos dois trimestres, enquanto a ativação ligada à Copa do Mundo sustenta tráfego na América do Norte. O período da Copa está contido no primeiro trimestre fiscal, para o qual o mercado projeta cerca de US$ 5,1 bilhões em receita na América do Norte.

No cenário de baixa, a deterioração da Converse se amplia, a China acelera a queda e a receita subjacente, excluída a recuperação tarifária, segue em retração. Nesse caso, as oito batidas consecutivas de lucro por ação perdem relevância, pois o lucro líquido segue dependente de reversões não recorrentes, e as vendas de insiders em cada recuperação de preço reforçam a percepção de risco.

A US$ 39, a combinação de balanço ainda sólido, rendimento próximo de 4% e crescimento real em corrida sustenta a leitura de reconstrução gradual. O alvo de US$ 72 exige execução simultânea em margem, inventário e China, com pouca margem para novo escorregão operacional.

Fontes:

Nike Inc. – comunicado de resultados do primeiro trimestre do ano fiscal de 2027 e teleconferência com guidance de receita e margem

Securities and Exchange Commission – formulários 8-K e 10-Q da Nike com detalhamento de receita por canal e impacto tarifário

Bernstein – relatório de análise de Aneesha Sherman com manutenção de recomendação de Compra e preço-alvo de 72 dólares

Reuters – reportagens sobre projeções de receita para o primeiro semestre fiscal de 2027 e desempenho na Grande China

Finnhub e Zacks – dados de mercado sobre cotação, valor de mercado, múltiplos e histórico de preços da Nike

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