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Nubank (NU) recebe aval final para virar banco no México e ampliar crédito

Operação com 15 milhões de clientes terá 30 dias para concluir a transformação; licença abre caminho para novos produtos após investimento previsto de US$ 4,2 bilhões

por Alice Nascimento
13/07/2026 às 11h48
em Empresas
Nubank (Nu) Recebe Aval Final Para Virar Banco No México E Ampliar Crédito - Gazeta Mercantil

A Nu Holdings (NU), controladora do Nubank, recebeu a autorização operacional definitiva para transformar sua subsidiária mexicana em banco múltiplo, encerrando um processo regulatório iniciado em abril de 2025. A decisão da Comisión Nacional Bancaria y de Valores foi comunicada à companhia na noite de quinta-feira, 9 de julho, e obriga a instituição a iniciar as atividades sob o novo regime em até 30 dias corridos. Com a mudança, o grupo poderá ampliar a oferta de crédito, pagamentos e produtos de poupança em seu maior mercado internacional.

A licença chega quando o Nubank México já ultrapassou 15 milhões de clientes, volume equivalente a aproximadamente 15% da população adulta do país. A operação encerrou o primeiro trimestre de 2026 com US$ 5,9 bilhões em depósitos e atingiu o ponto de equilíbrio, segundo dados apresentados pela companhia.

Mais do que uma alteração societária, a transformação muda o alcance econômico da subsidiária. O Nubank deixa de depender exclusivamente da estrutura de uma Sociedade Financeira Popular, conhecida no México pela sigla Sofipo, e passa a operar sob o marco regulatório destinado aos bancos.

A nova licença permitirá ao grupo aprofundar o relacionamento com clientes que hoje utilizam principalmente o cartão de crédito, a Cuenta Nu, empréstimos pessoais e produtos de poupança. O objetivo é capturar uma parcela maior da vida financeira dos usuários, elevar receitas por cliente e utilizar os depósitos locais como fonte para financiar a expansão do crédito.

Autorização conclui processo iniciado em 2025

O Nubank México recebeu em 24 de abril de 2025 a autorização para organizar-se como instituição de banca múltipla. A aprovação foi concedida pela CNBV em coordenação com o Banco do México e a Secretaria de Hacienda y Crédito Público.

O ato foi posteriormente publicado no Diário Oficial da Federação mexicana. Na ocasião, a autorização permitiu a constituição da Nubank, S.A., Institución de Banca Múltiple, mas ainda condicionava o início efetivo das operações à conclusão de etapas técnicas, societárias e regulatórias.

Ao longo dos meses seguintes, a companhia precisou adaptar sistemas, controles internos, governança, processos de gestão de risco e estruturas de atendimento. A etapa encerrada agora corresponde à autorização de funcionamento, último requisito para a entrada em operação como banco.

No comunicado enviado ao mercado e arquivado na Securities and Exchange Commission, a Nu Holdings (NU) informou que o aval é final e conclusivo. A companhia afirmou ainda que a licença reforça seu compromisso de longo prazo com o México e cria as condições para ampliar o portfólio de crédito, pagamentos e poupança.

A transição não deverá alterar imediatamente a experiência dos clientes. Durante o período de até 30 dias, o Nubank México informou que manterá seus canais de atendimento e comunicará aos usuários as etapas necessárias para concluir a migração.

Licença amplia capacidade de monetizar a base de clientes

A principal consequência econômica da transformação será a possibilidade de oferecer uma estrutura mais completa de produtos financeiros.

O Nubank entrou no mercado mexicano em 2019 e lançou seu primeiro cartão de crédito no ano seguinte. A estratégia inicial repetiu parte do modelo usado no Brasil: entrada por um produto simples, sem anuidade e administrado integralmente pelo aplicativo.

A companhia avançou depois sobre depósitos com a Cuenta Nu e as Cajitas, espaços digitais nos quais os clientes podem separar recursos e receber remuneração. Também passou a oferecer empréstimos pessoais, cartões garantidos e ferramentas voltadas à construção de histórico de crédito.

Esse portfólio permitiu uma expansão rápida, mas ainda não transforma automaticamente o Nubank na instituição financeira principal de seus usuários. Parte dos clientes pode continuar recebendo salários, pagando contas recorrentes, contratando financiamentos e mantendo investimentos em bancos tradicionais.

A licença bancária cria condições para disputar esse relacionamento. Quanto maior a concentração da movimentação financeira no aplicativo, maior tende a ser a capacidade de o Nubank compreender renda, despesas e comportamento de pagamento.

Essa informação pode ser utilizada para ajustar limites, precificar empréstimos e oferecer produtos mais adequados ao perfil de risco de cada cliente. A ampliação da oferta, entretanto, também aumenta a exposição à inadimplência e exige controles de crédito compatíveis com a nova escala.

México oferece mercado de US$ 43 bilhões em lucro bruto

O México ocupa uma posição central na estratégia de internacionalização da Nu Holdings (NU). A própria companhia estima que o mercado mexicano de serviços financeiros ao consumidor gere aproximadamente US$ 43 bilhões em lucro bruto por ano.

A participação do Nubank nesse conjunto ainda é inferior a 1%, apesar dos 15 milhões de clientes. Para a administração, a diferença entre escala de usuários e participação econômica mostra o espaço disponível para ampliar receitas dentro da própria base.

Os cartões representam a maior fatia desse mercado, com um conjunto estimado em US$ 14 bilhões. A margem financeira associada aos depósitos responde por cerca de US$ 8 bilhões, enquanto seguros, crédito consignado, empréstimos pessoais, investimentos e tarifas formam outras fontes relevantes de resultado.

A licença não garante acesso automático a essas receitas, mas remove limitações regulatórias que dificultavam a expansão. O Nubank passa a ter uma plataforma capaz de competir em mais categorias e de aumentar o número médio de produtos contratados por cliente.

Esse processo é decisivo para o retorno dos investimentos realizados no país. A aquisição de usuários exige gastos com tecnologia, marketing, atendimento e estrutura regulatória. A rentabilidade melhora quando a instituição consegue distribuir esses custos sobre uma base mais ampla de produtos e receitas.

No primeiro trimestre de 2026, a receita média mensal por cliente ativo no México chegou a US$ 12,40, quase o dobro dos US$ 6,50 registrados no primeiro trimestre de 2022. O avanço indica maior monetização, embora o indicador ainda dependa da expansão do crédito e da capacidade de manter os usuários ativos.

Depósitos de US$ 5,9 bilhões financiam crescimento do crédito

A formação de uma base de depósitos tornou-se um dos principais pilares da operação mexicana.

O saldo captado pelo Nubank México chegou a US$ 5,9 bilhões ao fim de março. O montante havia sido de US$ 4,5 bilhões no encerramento de 2024 e alcançado US$ 6,3 bilhões em dezembro de 2025, antes de recuar no primeiro trimestre.

A variação reflete, entre outros fatores, o comportamento dos clientes e as taxas oferecidas pelas Cajitas. No fim de 2025, esses produtos remuneravam os saldos a taxas entre 7,3% e 15% ao ano, dependendo das condições de liquidez e prazo.

Os depósitos podem ser usados como fonte de financiamento para as operações de cartão e crédito, respeitadas as exigências regulatórias. Essa estrutura reduz a necessidade de sustentar todo o crescimento por meio de aportes da controladora ou captações no mercado.

O desafio está no custo. Para atrair recursos, o Nubank ofereceu remuneração competitiva em relação às taxas de referência mexicanas. Quanto maior o rendimento pago ao cliente, maior o custo da captação e menor a margem obtida pela instituição, caso não haja expansão suficiente dos ativos de crédito.

No primeiro trimestre, o custo consolidado dos depósitos da Nu Holdings (NU) correspondia a 88% das taxas interbancárias dos países onde o grupo atua. O indicador mostra que a companhia ainda utiliza remuneração elevada como instrumento de aquisição e retenção de recursos.

A transformação em banco pode ajudar a mudar gradualmente essa composição. Contas usadas para salários, pagamentos e despesas cotidianas tendem a apresentar saldos mais estáveis e menos dependentes da oferta da maior taxa disponível no mercado.

Proteção dos depósitos aumenta 16 vezes

A migração para o regime bancário também modifica a proteção oferecida aos recursos dos clientes.

Como Sofipo, os depósitos elegíveis do Nubank México estavam sujeitos ao fundo de proteção do setor de poupança e crédito popular, com cobertura de até 25 mil Unidades de Inversión por cliente.

Ao operar como banco, os produtos enquadrados nas regras mexicanas poderão passar para o seguro administrado pelo Instituto para la Protección al Ahorro Bancario. O IPAB garante até 400 mil UDIs por pessoa e por instituição.

Em unidades de referência, a cobertura bancária é 16 vezes superior à oferecida às Sofipos. Como a UDI é atualizada pela inflação, o valor correspondente em pesos varia ao longo do tempo.

A ampliação da garantia pode tornar a instituição mais competitiva entre clientes com volumes maiores de recursos. Sob a estrutura anterior, uma parcela relevante dos saldos poderia permanecer acima do limite protegido, o que criava uma barreira para a concentração de depósitos.

A proteção mais elevada também aproxima o Nubank das condições oferecidas pelos bancos tradicionais. O benefício não elimina riscos financeiros, mas reduz a exposição do depositante elegível caso uma instituição venha a enfrentar problemas de solvência.

Para a companhia, a capacidade de receber saldos maiores fortalece a base de financiamento e amplia o potencial de venda de produtos de investimentos, crédito e pagamentos.

Operação alcança ponto de equilíbrio após sete anos

O aval regulatório foi concedido depois de o negócio mexicano atingir uma inflexão financeira importante.

A operação alcançou o ponto de equilíbrio no primeiro trimestre de 2026. Isso significa que as receitas geradas no período foram suficientes para cobrir os custos atribuídos ao negócio, embora não assegure que a subsidiária permanecerá lucrativa em todos os trimestres seguintes.

O índice de eficiência caiu de 120% no primeiro trimestre de 2022 para 42% quatro anos depois. A redução de 78 pontos percentuais mostra que as despesas passaram a consumir uma parcela menor da receita à medida que a base de clientes cresceu.

O custo mensal de atendimento também recuou. A Nu informou que o indicador caiu de cerca de US$ 3 por cliente no terceiro trimestre de 2021 para US$ 1 no terceiro trimestre de 2025.

A combinação entre mais clientes, receitas maiores por usuário e custos operacionais diluídos é o centro do modelo econômico do grupo. A expansão da operação bancária tende a reforçar esse mecanismo, desde que os novos produtos mantenham qualidade de crédito e margem suficiente.

O México já responde pela segunda maior base de clientes do Nubank, atrás apenas do Brasil. No fim de março, a Nu Holdings (NU) reunia mais de 135 milhões de clientes nos três principais mercados, incluindo mais de 115 milhões no Brasil e uma operação colombiana próxima de 5 milhões.

Conversão também aumenta exigências de capital e controle

A nova licença não traz apenas oportunidades comerciais. O Nubank México passará a cumprir as regras da Lei de Instituições de Crédito e as normas gerais aplicáveis aos bancos mexicanos.

Essas obrigações incluem requisitos de capital, liquidez, gestão de riscos, governança, prevenção à lavagem de dinheiro, segurança operacional e proteção ao consumidor. A supervisão será exercida pela CNBV, pelo Banco do México e pelas demais autoridades competentes.

No fim de março, ainda sob o regime de Sofipo, a subsidiária apresentava capital regulatório de US$ 440,3 milhões e índice de capitalização de 16,4%, acima do mínimo de 10,5% aplicável à sua categoria.

A conversão poderá exigir ajustes na estrutura de capital à medida que a carteira de crédito e os ativos ponderados pelo risco crescerem. A Nu Holdings (NU) precisará equilibrar a expansão comercial com o capital necessário para absorver perdas inesperadas.

O aumento do crédito será acompanhado de perto pelos investidores. Uma carteira maior pode elevar a receita financeira, mas também exige provisões contra inadimplência e maior disciplina na concessão.

A empresa usa modelos próprios de inteligência artificial para decisões de cartão no Brasil e no México. Segundo a companhia, os sistemas estimam risco e valor econômico antes da definição dos limites. O desempenho dessa tecnologia em um ciclo de expansão será determinante para a rentabilidade da subsidiária.

Investimentos devem chegar a US$ 4,2 bilhões até 2030

O Nubank prevê que o investimento acumulado no México alcançará US$ 4,2 bilhões até 2030. O montante inclui capital já aportado e aproximadamente US$ 2,5 bilhões em despesas estratégicas e investimentos operacionais previstos para os próximos anos.

Os recursos serão direcionados ao desenvolvimento de produtos, tecnologia, expansão da equipe, atendimento e atendimento às exigências regulatórias. O plano mostra que a transformação bancária não é um movimento isolado, mas parte de uma estratégia de longo prazo.

O México combina uma população de cerca de 130 milhões de habitantes com baixa penetração de alguns serviços financeiros. A estrutura cria espaço para bancos digitais, mas também atrai concorrentes locais e internacionais.

A vantagem do Nubank está na escala já alcançada. Com 15 milhões de clientes, a empresa inicia a fase bancária com uma base maior do que aquela disponível para muitos novos entrantes.

O grupo ainda terá de demonstrar que consegue converter alcance em participação relevante no lucro do sistema. Apesar de ser uma das maiores instituições em número de clientes, sua fatia no mercado mexicano de lucro bruto permanece inferior a 1%.

Essa distância resume a oportunidade e o risco. O potencial de expansão é amplo, mas a companhia precisa avançar em produtos mais rentáveis sem comprometer a qualidade da carteira nem elevar excessivamente o custo dos depósitos.

México se torna principal teste da expansão internacional

A autorização definitiva transforma o México no principal teste da capacidade do Nubank de reproduzir fora do Brasil o modelo que sustentou seu crescimento.

A companhia já provou que consegue adquirir clientes em ritmo elevado. Segundo seus dados, cerca de 12 mil novos usuários são adicionados por dia, e a plataforma está presente em 98% dos municípios mexicanos.

Mais da metade dos clientes recebeu do Nubank seu primeiro cartão de crédito. O dado reforça a atuação da empresa na inclusão financeira, mas também indica exposição a consumidores com histórico limitado nos sistemas tradicionais de avaliação de risco.

A fase seguinte será mais exigente. O grupo precisará ampliar os produtos contratados, captar recursos a custos competitivos e aumentar a carteira de crédito sem repetir os níveis de inadimplência que historicamente afetam os empréstimos sem garantia na América Latina.

Para os acionistas da Nu Holdings (NU), a licença representa uma opção de crescimento em um mercado de grande escala. O valor econômico dependerá, contudo, da velocidade de monetização e do volume de capital necessário para sustentar o avanço.

Com o aval final da CNBV, o Nubank México deixa de ser apenas uma plataforma financeira apoiada por uma licença de Sofipo e passa a disputar espaço como banco completo. Os próximos 30 dias encerrarão a transição regulatória; os próximos trimestres mostrarão se a companhia conseguirá transformar 15 milhões de clientes e US$ 5,9 bilhões em depósitos em uma nova fonte relevante de lucro para o grupo.

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