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PF mira lavagem de R$ 10 bilhões e prende alvo sancionada pelos EUA

Operação Exchange cumpre 11 mandados de prisão e determina bloqueio de até R$ 10,4 bilhões; governo americano atribui a investigados suposto elo financeiro com o PCC

por Daniel Wicker - Repórter
03/07/2026 às 11h11 - Atualizado em 16/07/2026 às 19h39
em Brasil,Destaque,Notícias
Pf Deflagra Operação Contra Lavagem De Dinheiro - Gazeta Mercantil

Foto: Divulgação/PF

A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira, 3 de julho, a Operação Exchange para desarticular uma organização suspeita de movimentar mais de R$ 10 bilhões por meio de um sistema de lavagem de dinheiro abastecido por recursos do tráfico internacional de drogas. Mais de 50 agentes cumpriram mandados em São Paulo, Santos, Praia Grande e Santana de Parnaíba, enquanto a Justiça Federal determinou o sequestro de bens, valores e criptoativos até o limite de R$ 10,4 bilhões.

Entre as pessoas presas está Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, incluída dois dias antes na lista de sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Segundo as autoridades americanas, ela teria prestado apoio logístico a uma rede financeira suspeita de operar em favor do Primeiro Comando da Capital, o PCC.

Victor Henrique de Oliveira Shimada, também sancionado pelos Estados Unidos e apontado pelo governo americano como um dos responsáveis pelo núcleo paulista da estrutura, não havia sido localizado pela Polícia Federal até a manhã desta sexta-feira. A defesa informou à imprensa que ainda não teve acesso integral às decisões judiciais e aos elementos que fundamentaram a operação.

A Operação Exchange cumpre 13 mandados de busca e apreensão e 11 mandados de prisão temporária. As ordens foram expedidas pela 7ª Vara Federal Criminal de São Paulo.

Os investigados poderão responder, em tese, por associação criminosa, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e outros delitos que venham a ser identificados. As suspeitas ainda serão submetidas ao contraditório, e todos os envolvidos têm direito à defesa.

Esquema combinava criptoativos, dinheiro em espécie e operações bancárias

A investigação da Operação Exchange identificou, segundo a Polícia Federal, uma estrutura financeira diversificada para movimentar, ocultar e converter recursos de origem supostamente ilícita.

O modelo investigado não estava restrito a transações com criptomoedas. A apuração cita transferências de criptoativos, transporte de valores em espécie, operações bancárias de alto valor e repasses sucessivos entre pessoas físicas e jurídicas.

Esse tipo de estrutura pode ser usado para dificultar a identificação da origem e do beneficiário final do dinheiro. Os valores passam por diferentes contas, empresas, carteiras digitais ou intermediários antes de retornar aos controladores aparentando ter origem legítima.

A estimativa preliminar da Polícia Federal aponta movimentações superiores a R$ 10 bilhões. O montante não corresponde necessariamente ao patrimônio disponível dos investigados nem significa que todo o valor tenha sido movimentado em criptoativos.

Trata-se do volume financeiro identificado até esta etapa da apuração, que ainda poderá ser revisto conforme o avanço da análise de contas bancárias, equipamentos eletrônicos, documentos e carteiras de ativos virtuais.

A Justiça autorizou o bloqueio e o sequestro de bens, valores e criptoativos até R$ 10,4 bilhões. A medida tem caráter cautelar e busca preservar recursos que poderão ser utilizados para ressarcimento, confisco ou pagamento de sanções caso as suspeitas sejam confirmadas judicialmente.

Stella havia sido sancionada dois dias antes da prisão

A prisão de Stella Stefanie ocorreu dois dias após sua inclusão na lista de pessoas especialmente designadas do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, o Ofac, unidade do Departamento do Tesouro americano responsável pela aplicação de sanções econômicas.

O governo dos Estados Unidos descreve Stella como parente e colaboradora próxima de Victor Shimada. Segundo a acusação americana, ela teria atuado como secretária e intermediária na coleta de grandes quantias em dinheiro vivo, prestando suporte logístico à suposta rede de lavagem de dinheiro.

A designação administrativa americana não equivale a uma condenação criminal ou a uma ordem de prisão no Brasil. A medida bloqueia, no entanto, bens e interesses financeiros que estejam nos Estados Unidos ou sob controle de cidadãos e instituições sujeitas à jurisdição americana.

Pessoas e empresas americanas também ficam, em regra, proibidas de realizar transações com os sancionados. Instituições financeiras estrangeiras podem adotar restrições adicionais para evitar exposição ao sistema de sanções.

Na prática, a inclusão na lista do Ofac costuma produzir efeitos além do território dos Estados Unidos. Bancos, corretoras, empresas de pagamentos e plataformas de ativos digitais com operações em dólar podem suspender relacionamentos, contas e transações envolvendo os nomes designados.

A Operação Exchange, porém, decorre de investigação brasileira e está amparada em ordens expedidas pela Justiça Federal. A coincidência temporal entre a ação da PF e as sanções americanas reforça o caráter transnacional da apuração, mas os dois procedimentos obedecem a bases jurídicas distintas.

Governo americano aponta conexão entre São Paulo e Flórida

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos afirma que a rede investigada mantinha dois núcleos principais: um na Flórida e outro no Estado de São Paulo.

Segundo o comunicado americano, seis integrantes do grupo baseado na Flórida foram presos pelo FBI em janeiro de 2026 e posteriormente denunciados por lavagem de dinheiro no Tribunal Federal do Distrito Sul da Flórida.

O núcleo paulista seria comandado, segundo a acusação dos Estados Unidos, por Victor Henrique de Oliveira Shimada, com o apoio de Stella Stefanie. Shimada é descrito como um elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais.

As autoridades americanas sustentam que a organização ligada a Shimada teria lavado mais de US$ 30 milhões gerados em diferentes cidades dos Estados Unidos. Parte dos recursos teria sido convertida em criptoativos e transferida ao Brasil.

Esse valor integra a apuração conduzida pelos Estados Unidos e não deve ser confundido com os mais de R$ 10 bilhões mencionados pela Polícia Federal na Operação Exchange. Os números possuem origens, períodos e metodologias diferentes.

O Departamento do Tesouro afirma que a investigação americana foi coordenada por uma força-tarefa de segurança interna, com participação do escritório do FBI em Miami e da área de lavagem de dinheiro, narcóticos e confisco do Departamento de Justiça.

A atuação conjunta busca atingir não apenas os responsáveis pelo transporte e pela venda de drogas, mas também intermediários financeiros, empresas, operadores cambiais e estruturas digitais utilizadas para movimentar o dinheiro.

Empresas foram incluídas na lista de sanções dos EUA

Além de Stella e Shimada, o Ofac incluiu quatro empresas na lista de sanções: Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia, Pixwave Soluções de Pagamentos, Wave Construções Inteligentes e Avenidas Flutuantes Unipessoal.

As três primeiras têm sede no Brasil. A Avenidas Flutuantes está registrada em Portugal e atua no setor de transporte e armazenagem.

De acordo com o governo americano, as companhias seriam controladas por Shimada ou teriam atuado em seu nome. A estrutura empresarial teria sido empregada para receber, transferir e ocultar recursos de origem supostamente criminosa.

A inclusão das empresas na lista americana significa que seus bens e interesses patrimoniais sob jurisdição dos Estados Unidos ficam bloqueados. Empresas controladas em pelo menos 50% por pessoas sancionadas também podem ser atingidas, ainda que não apareçam nominalmente na relação.

O alcance das sanções aumenta o risco para bancos e prestadores de serviços financeiros que mantenham relacionamento com os alvos. Instituições expostas ao mercado americano costumam adotar controles rigorosos para evitar transações que possam resultar em multas ou restrições.

Isso pode dificultar movimentações internacionais, operações em dólar, abertura de contas, contratação de fornecedores e relacionamento com plataformas de pagamentos ou de criptoativos.

As sanções, contudo, permanecem sujeitas a procedimentos administrativos nos Estados Unidos. Os designados podem apresentar pedidos de revisão e solicitar a retirada de seus nomes da lista, conforme as regras do Ofac.

Criptoativos ampliam velocidade e alcance das transferências

A utilização de criptoativos aparece como um dos eixos da Operação Exchange, mas não como o único instrumento financeiro investigado.

Ativos virtuais permitem transferências internacionais rápidas, sem os horários e os procedimentos tradicionais das remessas bancárias. Dependendo da moeda, da plataforma e do modo de operação, os recursos podem atravessar diferentes carteiras e jurisdições em poucos minutos.

A tecnologia blockchain, entretanto, não torna todas as operações anônimas. Redes públicas mantêm registros permanentes das transações, o que permite o rastreamento de valores quando investigadores conseguem relacionar endereços digitais a pessoas, empresas ou contas abertas em corretoras.

Organizações criminosas podem tentar dificultar esse trabalho utilizando múltiplas carteiras, moedas com maior grau de privacidade, plataformas estrangeiras, transações entre particulares e intermediários que convertem dinheiro em espécie em ativos virtuais.

A Operação Exchange investiga justamente uma combinação de mecanismos tradicionais e digitais. Segundo a PF, a estrutura incluía operações bancárias, dinheiro vivo, repasses empresariais e criptoativos.

Essa integração é relevante porque a lavagem de dinheiro costuma ocorrer em diferentes etapas. Primeiro, os recursos são inseridos no sistema financeiro. Depois, passam por transações destinadas a dificultar seu rastreamento. Por fim, retornam ao controle dos beneficiários com aparência de legalidade.

A identificação de movimentações superiores a R$ 10 bilhões indica que a investigação deverá exigir análise extensa de dados financeiros, societários e digitais. A apreensão de celulares, computadores, documentos e dispositivos de armazenamento pode ajudar a reconstruir as rotas dos valores.

Sanções americanas elevam risco para instituições financeiras

As medidas adotadas pelos Estados Unidos ampliam a dimensão financeira do caso. Embora a sanção não seja uma condenação criminal, seus efeitos podem atingir bancos, empresas de pagamentos, corretoras de criptoativos e parceiros comerciais.

Instituições americanas estão proibidas, salvo autorização específica, de disponibilizar recursos, bens ou serviços às pessoas e empresas designadas.

Bancos estrangeiros também podem enfrentar sanções secundárias caso realizem transações significativas em benefício dos alvos. Entre as medidas possíveis estão restrições ao uso de contas de correspondência mantidas nos Estados Unidos.

O sistema de correspondentes bancários é essencial para operações internacionais em dólar. Por isso, mesmo instituições sem sede nos Estados Unidos costumam observar as listas do Ofac e interromper relacionamentos considerados de alto risco.

As consequências podem alcançar contas empresariais, transferências internacionais, cartões, serviços de custódia e operações realizadas em plataformas globais de criptoativos.

A combinação entre ordens judiciais brasileiras e sanções americanas aumenta a pressão sobre a rede financeira investigada. Enquanto a Justiça brasileira busca localizar e preservar bens, o governo dos Estados Unidos impõe barreiras à utilização de ativos sob sua jurisdição.

Defesa de Shimada diz não conhecer fundamentos da operação

Após a deflagração da Operação Exchange, a defesa de Victor Shimada informou que ainda não tinha acesso às decisões judiciais e aos elementos que fundamentaram o pedido de prisão temporária.

O advogado afirmou que realizará a análise técnica quando tiver acesso aos autos e adotará as medidas jurídicas consideradas adequadas. Até a manhã desta sexta-feira, Shimada não havia sido encontrado pelos agentes e era considerado foragido.

A Polícia Federal não identificou nominalmente os alvos em seu comunicado oficial inicial. Os nomes de Stella e Shimada foram confirmados por reportagens que acompanharam o cumprimento das ordens e por fontes ligadas à investigação.

Não havia, até a publicação desta reportagem, manifestação pública detalhada da defesa de Stella sobre as acusações apresentadas pela Polícia Federal e pelo governo dos Estados Unidos.

A prisão temporária é uma medida cautelar, adotada durante a investigação, e não representa antecipação de culpa. Seu objetivo é permitir a realização de diligências e impedir possíveis interferências na coleta de provas quando os requisitos legais são reconhecidos pela Justiça.

Operação Exchange abre nova frente contra finanças do crime organizado

A investigação deverá avançar agora sobre o material recolhido durante as buscas, os ativos bloqueados e as informações obtidas em instituições financeiras e plataformas digitais.

A PF poderá solicitar novas medidas à Justiça caso identifique outros operadores, empresas, contas bancárias, carteiras de criptoativos ou beneficiários ligados às movimentações.

A cooperação internacional também deverá permanecer no centro da Operação Exchange. Parte das suspeitas envolve recursos gerados nos Estados Unidos, intermediários na Flórida, empresas brasileiras e uma companhia sediada em Portugal.

O caso mostra uma estratégia voltada a atingir a estrutura econômica que sustenta o tráfico internacional de drogas. Em vez de se limitar à apreensão de entorpecentes, a investigação busca interromper os canais responsáveis pela circulação, ocultação e reinserção dos lucros no mercado formal.

O bloqueio de até R$ 10,4 bilhões, as sanções econômicas americanas e a prisão de uma das pessoas designadas pelo Ofac colocam a Operação Exchange entre as maiores ofensivas recentes contra suspeitas de lavagem de dinheiro associadas ao crime organizado.

A dimensão efetiva dos recursos, a responsabilidade individual dos investigados e a eventual vinculação da estrutura ao PCC ainda dependerão da conclusão das investigações e da análise do Poder Judiciário.

Fontes da apuração

Polícia Federal — “PF deflagra Operação Exchange”, publicada em 3 de julho de 2026. Fonte primária para os dados sobre os 13 mandados de busca e apreensão, 11 prisões temporárias, cidades alcançadas, movimentação superior a R$ 10 bilhões e bloqueio de até R$ 10,4 bilhões.

Departamento do Tesouro dos Estados Unidos — comunicado sobre sanções à rede financeira brasileira, publicado em 1º de julho de 2026. Fonte primária para as acusações americanas, a estrutura entre São Paulo e Flórida, o uso de criptomoedas e a estimativa de mais de US$ 30 milhões movimentados nos Estados Unidos.

Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos Estados Unidos — atualização da lista de pessoas especialmente designadas, de 1º de julho de 2026. Fonte primária para os nomes de Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, Victor Henrique de Oliveira Shimada e das quatro empresas sancionadas.

Tags: BrasilcriptoativosLAVAGEM DE DINHEIROOFACOperação ExchangePCCPolícia Federalsanções dos EUA.Stella Stefanietráfico internacional de drogasVictor Shimada

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