O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (14) que acredita na inocência do filho Fábio Luís Lula da Silva, mas disse que não atuará para interromper as investigações que o envolvem. Em entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs, Lula declarou ter orientado advogados a não pedir o encerramento dos inquéritos e afirmou que o filho deverá responder caso alguma irregularidade seja comprovada.
“Meu filho sabe que ele não pode fazer nada errado, ele jura, por tudo que é sagrado, que ele não tem nada. Eu acredito nele, mas eu já disse aos advogados que ninguém vai pedir fechamento de inquérito contra o meu filho”, afirmou o presidente durante a entrevista transmitida nesta sexta-feira.
A declaração coloca Lula diante de uma situação politicamente sensível às vésperas do início formal da propaganda eleitoral de 2026. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu 16 de agosto como a data a partir da qual a propaganda eleitoral passa a ser permitida. O prazo para partidos, federações e coligações apresentarem os pedidos de registro de candidaturas termina neste sábado (15), às 19h.
Ao comentar a situação do filho, Lula procurou separar sua convicção pessoal sobre a inocência de Fábio Luís da obrigação institucional de permitir o avanço das apurações. “Se meu filho tiver culpa, ele pagará”, disse. Em outro trecho, afirmou que apenas o próprio filho conhece integralmente os fatos e que, se não tiver cometido irregularidades, deverá se defender.
Investigações sobre o INSS chegaram ao Congresso
Documentos públicos do Congresso mostram que Fábio Luís passou a aparecer formalmente em iniciativas parlamentares relacionadas às investigações sobre desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em fevereiro, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS aprovou o Requerimento 2939/2026, de autoria do deputado Alfredo Gaspar, para elaboração de Relatórios de Inteligência Financeira e quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís no período de 1º de janeiro de 2022 a 31 de janeiro de 2026.
O requerimento integrou um conjunto de 87 pedidos aprovados em bloco pela CPMI. O procedimento gerou contestação de parlamentares governistas sobre a contagem dos votos e a forma de proclamação do resultado. O registro oficial da comissão, contudo, manteve o requerimento como aprovado.
Em ofício encaminhado ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em 26 de fevereiro, a CPMI incluiu Fábio Luís na relação de investigados cuja movimentação bancária havia sido requisitada. O documento determinou o encaminhamento de informações referentes ao período especificado no requerimento e relacionou o filho de Lula entre dezenas de pessoas físicas, empresas e entidades incluídas nas diligências do colegiado.
A medida da CPMI não representa condenação nem, isoladamente, comprovação de crime. A investigação parlamentar e as apurações policiais são procedimentos distintos. A inclusão de uma pessoa em diligências, pedidos de informação ou levantamentos financeiros serve à obtenção e análise de elementos, que posteriormente precisam ser avaliados dentro dos respectivos processos.
Essa distinção ganha importância no caso de Fábio Luís porque parte das discussões políticas sobre o episódio mistura providências tomadas pela CPMI, investigações da Polícia Federal e eventuais decisões judiciais. Cada uma dessas frentes possui finalidade própria e não permite antecipar, por si só, uma conclusão sobre responsabilidade criminal.
A Câmara dos Deputados também registra oficialmente a existência de apurações policiais relacionadas ao nome de Fábio Luís. Em maio, o Requerimento de Informação 1306/2026 solicitou ao Ministério da Justiça e Segurança Pública esclarecimentos sobre a condução de inquéritos da Polícia Federal que apuram desvios no INSS, especificamente quanto às investigações envolvendo o filho do presidente. O pedido foi aprovado pela Mesa da Câmara, encaminhado ao ministério em junho e recebeu resposta em julho.
Os registros públicos permitem estabelecer, portanto, que o nome de Fábio Luís aparece em procedimentos investigativos relacionados ao caso INSS, mas não autorizam tratar suspeitas como fatos comprovados. Até eventual responsabilização pelas autoridades competentes, prevalecem a presunção de inocência, o direito de defesa e a necessidade de que qualquer acusação seja sustentada por provas.
Lula diz que não haverá proteção presidencial
Na entrevista, Lula afirmou que sua posição é a mesma que diz adotar quando aliados ou pessoas próximas se tornam alvo de investigações. Segundo o presidente, não caberia usar a posição que ocupa para impedir uma apuração envolvendo um familiar.
“Se você é inocente, vá à luta. Se for culpado, contrate um advogado”, afirmou. Em seguida, disse esperar que o filho enfrente as acusações sem buscar proteção política. “Só quero que ele faça como eu fiz. Fiquei 580 dias na cadeia e saí com a cabeça mais erguida do que quando entrei. Só ele sabe a verdade, eu não sei a verdade. Ele jura que não fez, se não fez, então brigue, não se acovarde.”
A referência aos 580 dias remete à prisão de Lula entre abril de 2018 e novembro de 2019, decorrente de condenações da Operação Lava Jato. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal confirmou a anulação das condenações impostas pela 13ª Vara Federal de Curitiba, após reconhecer que aquele juízo não tinha competência para julgar os processos. Com a decisão, foram anulados os atos decisórios praticados nos casos abrangidos pelo julgamento.
O presidente também voltou a relacionar o impacto da Lava Jato à experiência vivida por sua família. Durante a entrevista, afirmou que Fábio Luís acompanhou de perto o período em que ele foi investigado e preso e mencionou a ex-primeira-dama Marisa Letícia. Lula associou pessoalmente o sofrimento da mulher às consequências da operação, apresentando sua própria avaliação sobre aquele período.
A fala foi acompanhada de uma tentativa de estabelecer uma linha entre solidariedade familiar e responsabilidade pública. Lula disse acreditar no filho, mas reiterou que não conhece todos os fatos sob investigação. Essa distinção foi um dos pontos centrais da entrevista: o presidente apresentou confiança pessoal na versão de Fábio Luís sem afirmar que as apurações já tenham sido esclarecidas.
“Só ele sabe a verdade, eu não sei a verdade”, afirmou Lula. A frase delimita a posição pública adotada pelo presidente: confiança na versão apresentada pelo filho, mas sem reivindicar que essa versão seja tomada como conclusão das autoridades responsáveis pelos inquéritos.
Caso ganha peso na abertura da campanha eleitoral
O momento da declaração amplia a repercussão política do episódio. O calendário eleitoral entra neste fim de semana em uma nova fase, com o encerramento do prazo para registros de candidaturas e a liberação da propaganda eleitoral a partir de domingo. O TSE prevê que o registro formaliza perante a Justiça Eleitoral as candidaturas escolhidas nas convenções partidárias realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto.
Lula afirmou que acusações contra o filho costumam surgir em períodos eleitorais. “Se meu filho tiver culpa, ele pagará. Agora, ele já foi acusado de muitas coisas. Toda eleição aparece meu filho”, declarou.
A afirmação introduz uma interpretação política do presidente sobre o momento em que as suspeitas ganham repercussão. Isso, porém, não modifica a natureza dos procedimentos registrados em órgãos públicos, que precisam seguir seus respectivos ritos e ser avaliados com base nos elementos reunidos durante a investigação.
Para o governo, o tema reúne três frentes de alta sensibilidade: as investigações sobre fraudes envolvendo aposentados e pensionistas, a atuação da Polícia Federal e a proximidade do processo eleitoral. Uma interferência política em apuração envolvendo um familiar do presidente poderia provocar questionamentos sobre a autonomia das instituições responsáveis pela investigação.
É nesse contexto que a declaração de que ninguém pedirá o encerramento dos inquéritos assume peso político maior do que a simples defesa pessoal do filho. Lula sinaliza que pretende sustentar simultaneamente duas posições: dizer publicamente que acredita em Fábio Luís e aceitar que as autoridades prossigam com as diligências destinadas a esclarecer as suspeitas.
A oposição, por sua vez, encontra nas apurações envolvendo o filho do presidente um tema com potencial de ser explorado durante a campanha. Já o governo e seus aliados podem concentrar a defesa na ausência de condenação e na necessidade de distinguir investigação, acusação e responsabilidade efetivamente comprovada.
Lula evita avançar sobre tensões envolvendo o STF
Na mesma entrevista, Lula foi questionado sobre investigações relacionadas ao Banco Master e sobre o ambiente de tensão entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. O presidente evitou entrar no mérito de acusações contra ministros e disse não querer contribuir para a deterioração da imagem das instituições.
“Sei da guerra que existe hoje entre o Congresso e a Suprema Corte, eu sei das ameaças de impeachment de ministros e sei das denúncias que envolvem ministros. Eu não quero compartilhar com o aguçamento da deterioração da imagem das instituições”, afirmou.
A resposta manteve Lula distante de uma avaliação sobre o mérito de investigações ou acusações envolvendo integrantes de outros Poderes. No caso do próprio filho, entretanto, o presidente foi mais explícito ao afirmar que não pretende apoiar uma estratégia destinada simplesmente a impedir a continuidade das apurações.
O resultado das investigações dependerá agora das diligências realizadas pelos órgãos responsáveis e das decisões tomadas nos respectivos procedimentos. A manifestação presidencial não altera o mérito das suspeitas nem antecipa uma conclusão sobre Fábio Luís.
Politicamente, porém, Lula estabeleceu uma posição que deverá acompanhá-lo durante a campanha: afirma acreditar que o filho não cometeu irregularidades, reconhece não conhecer integralmente os fatos e diz que não haverá atuação de sua parte para evitar que as investigações cheguem a uma conclusão.
Fontes:
Senado Federal — Requerimento 2939/2026, registros da CPMI do INSS e ofício sobre transferência de sigilo bancário.
Câmara dos Deputados — Requerimento de Informação 1306/2026 e respectiva tramitação legislativa.
Supremo Tribunal Federal — decisões sobre a anulação das condenações de Luiz Inácio Lula da Silva na Operação Lava Jato.
Tribunal Superior Eleitoral — calendário, registro de candidaturas e regras para o início da propaganda nas Eleições 2026.








