O empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tentou negociar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal condicionado à anulação da liquidação da instituição financeira determinada pelo Banco Central. Segundo apuração divulgada pela imprensa, os investigadores rejeitaram a proposta por entenderem que o banqueiro não apresentou colaboração efetiva nem informações inéditas capazes de ampliar as investigações sobre supostas fraudes financeiras envolvendo o banco.
Durante as conversas com a PF, Vorcaro também afirmou que não sabia da participação indireta do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), no resort de luxo Tayayá. O empreendimento era administrado por empresa controlada por irmãos do magistrado em parceria com um fundo relacionado ao ex-banqueiro, segundo relatos sobre a apuração.
Daniel Vorcaro é investigado no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras, operações irregulares, uso de fundos de investimento e movimentações consideradas atípicas pelas autoridades. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, em uma das intervenções mais relevantes dos últimos anos no sistema financeiro nacional. A Reuters informou, em fevereiro, que o Banco Central apontou crise severa de liquidez, deterioração financeira e violações graves de regras ao tratar da liquidação da instituição.
Vorcaro tentou recuperar controle do Banco Master
Segundo a apuração, Daniel Vorcaro condicionou o avanço da delação premiada à reversão da liquidação do Banco Master. A exigência chamou atenção dos investigadores porque a medida foi determinada pelo Banco Central e não está sob competência da Polícia Federal.
A proposta foi considerada inviável do ponto de vista jurídico e institucional. Na avaliação da PF, o empresário pretendia retomar o controle da instituição mesmo após a decisão do órgão regulador de encerrar as atividades do banco.
Investigadores também concluíram que Vorcaro não demonstrou disposição concreta de colaboração. A avaliação foi de que o material apresentado repetia informações já conhecidas e não oferecia elementos novos para aprofundar as apurações.
Em acordos de colaboração premiada, as autoridades costumam exigir provas inéditas, detalhamento operacional, identificação de novos envolvidos e dados capazes de ampliar o alcance da investigação. No caso de Vorcaro, a PF entendeu que esses requisitos não foram atendidos.
PF já tinha acesso a celular com conversas relevantes
Outro fator que pesou contra a proposta foi o volume de provas já obtido pela Polícia Federal. Ao longo da investigação, os agentes apreenderam aparelhos eletrônicos ligados a Daniel Vorcaro.
Segundo investigadores citados na apuração, a maior parte das negociações consideradas relevantes estava concentrada em um celular cujo conteúdo já havia sido extraído pelas autoridades. Parte do material ainda segue em análise.
Esse ponto reduziu o valor prático da colaboração oferecida pelo empresário. Para a PF, uma delação só faria sentido se trouxesse informações que os investigadores ainda não tivessem ou que ajudassem a comprovar fatos de forma mais robusta.
Sem esse conteúdo adicional, a proposta foi considerada insuficiente.
Banco Master virou foco de tensão política
A crise do Banco Master ultrapassou o ambiente financeiro e passou a produzir efeitos políticos em Brasília. A Operação Compliance Zero avançou sobre empresários, operadores financeiros, agentes públicos e aliados de figuras influentes.
Durante as conversas com a Polícia Federal, Vorcaro teria sido questionado sobre conexões políticas. Segundo a apuração, ele afirmou manter apenas relações de amizade com integrantes do meio político, entre eles o senador Ciro Nogueira.
O parlamentar foi alvo de buscas em fase recente da Operação Compliance Zero, que investiga supostas irregularidades financeiras envolvendo o Banco Master e fundos relacionados à instituição. Até o momento, os citados permanecem amparados pela presunção de inocência e podem contestar as interpretações dos investigadores.
O caso também atingiu o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, em operação relacionada a aportes do Rioprevidência em fundos ligados ao Banco Master. A investigação apura se recursos previdenciários estaduais foram aplicados de forma irregular em produtos associados ao banco.
Banco Central manteve liquidação da instituição
O Banco Central sustenta que a liquidação do Banco Master teve fundamento técnico. A medida foi tomada após a autoridade monetária concluir que a instituição não apresentava condições de recuperação financeira.
A decisão colocou em debate a supervisão sobre bancos de médio porte, fundos estruturados, carteiras de crédito e produtos financeiros de maior risco. Apesar da repercussão política, o Banco Central afirmou que a liquidação do Master não gerou risco sistêmico para o sistema financeiro nacional.
Ainda assim, o episódio aumentou a atenção de investidores, reguladores e autoridades sobre estruturas financeiras consideradas agressivas e sobre relações entre instituições privadas e agentes públicos.
No mercado, operadores acompanham os desdobramentos para avaliar possíveis mudanças regulatórias, efeitos reputacionais e impactos sobre fundos com exposição a ativos ligados ao Master.
Menção a Toffoli amplia repercussão institucional
A menção ao ministro Dias Toffoli elevou a sensibilidade institucional do caso. Segundo a apuração, Vorcaro disse à PF que desconhecia qualquer vínculo indireto do magistrado com o resort Tayayá e afirmou que investiu no empreendimento por considerar o negócio financeiramente atrativo.
Não há acusação formal contra Toffoli nesse recorte da investigação. Em fevereiro, a Reuters informou que o ministro decidiu se afastar da relatoria do caso Banco Master após menções em relatório da PF, embora tenha negado ter recebido pagamentos ou manter relação com Vorcaro. O processo foi redistribuído ao ministro André Mendonça.
A declaração de Vorcaro sobre o resort foi recebida com cautela pelos investigadores. Para a Polícia Federal, ela não agregou elementos suficientes para justificar avanço nas tratativas de delação premiada.
Operação Compliance Zero mantém pressão sobre mercado e política
A Operação Compliance Zero consolidou o Banco Master como um dos principais focos recentes de tensão entre mercado financeiro, sistema político e órgãos de investigação.
A apuração envolve suspeitas de emissão de títulos de crédito falsos, gestão fraudulenta, uso irregular de fundos de investimento, lavagem de dinheiro e organização criminosa, entre outros crimes em investigação.
O caso também aumentou a pressão sobre o Banco Central, a Polícia Federal e setores do Judiciário, diante da dimensão institucional alcançada pela investigação.
Nos bastidores do Congresso, lideranças políticas acompanham o caso com preocupação por causa do potencial de desgaste eleitoral e dos reflexos sobre grupos econômicos próximos de parlamentares.
Novas fases podem ampliar alcance do caso
Com parte do material apreendido ainda em análise, investigadores avaliam que novas fases da operação podem ampliar o alcance político e financeiro do caso nas próximas semanas.
A tentativa frustrada de delação de Daniel Vorcaro mostra que a Polícia Federal considera ter avançado significativamente na coleta de provas. Ao mesmo tempo, a rejeição do acordo indica que, para os investigadores, eventual colaboração só será aceita se trouxer fatos novos, documentos verificáveis e elementos capazes de atingir novas frentes da apuração.
Enquanto isso, a liquidação do Banco Master permanece como ponto central da crise. A tentativa de condicionar a delação à reversão dessa medida reforça o grau de disputa em torno do futuro da instituição e da responsabilização de seus antigos controladores.
Até decisão definitiva, Daniel Vorcaro e os demais citados permanecem amparados pela presunção de inocência. A investigação segue sob análise da Polícia Federal, do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal.









