A Polícia Federal recebeu autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 30 de julho de 2026, para investigar se Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, teria atuado como intermediário de interesses privados dentro do governo federal. O foco da nova apuração é esclarecer se o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou sua proximidade com autoridades para facilitar o acesso do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, ao Ministério da Saúde e a integrantes da Presidência da República em negociações envolvendo medicamentos à base de cannabis.
Em termos objetivos, Lulinha está sendo investigado porque a PF suspeita que ele possa ter ajudado Antunes e a empresária Roberta Luchsinger a abrir portas no governo para um projeto comercial da World Cannabis, empresa ligada ao Careca do INSS. A companhia pretendia apresentar ao poder público medicamentos à base de canabidiol e prospectava oportunidades de fornecimento para programas federais de saúde.
A investigação procura saber se essa aproximação foi apenas uma atividade empresarial legítima, sem participação de Lulinha, ou se o filho do presidente teria oferecido, prometido ou efetivamente utilizado sua influência política em benefício do grupo. Também será apurado se houve pagamento, promessa de vantagem, repasse financeiro ou alguma contrapartida associada a essa possível intermediação.
Não há denúncia apresentada contra Lulinha, tampouco conclusão de que ele praticou algum crime. A autorização do Supremo permite que a Polícia Federal reúna documentos, analise comunicações, acompanhe o fluxo de recursos e ouça pessoas ligadas ao caso. Lulinha, Roberta Luchsinger, Antônio Antunes e os agentes públicos eventualmente mencionados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.
Investigação não trata diretamente dos descontos no INSS
A nova investigação contra Lulinha nasceu a partir de elementos reunidos na Operação Sem Desconto, que apura um esquema de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social. Apesar dessa origem, o novo procedimento não tem como objeto principal verificar se Lulinha participou das fraudes contra beneficiários do INSS.
A distinção é fundamental. Antônio Carlos Camilo Antunes tornou-se conhecido nacionalmente por ser apontado pela PF como um dos operadores do sistema de empresas, associações e prestadores de serviços investigado no caso dos descontos previdenciários. Durante o avanço dessa apuração, os investigadores tiveram acesso a informações financeiras, mensagens e outros registros relacionados ao empresário.
Parte desse material teria revelado fatos diferentes daqueles investigados na Operação Sem Desconto. Em vez de descontos sobre aposentadorias, os novos elementos indicariam uma possível movimentação destinada a aproximar empresas de Antunes do Ministério da Saúde, especialmente em projetos envolvendo cannabis medicinal.
Por essa razão, a PF pediu que as informações fossem compartilhadas com uma investigação autônoma. A Procuradoria-Geral da República avaliou que os elementos poderiam indicar crimes sem relação direta com o objeto original da Operação Sem Desconto e defendeu a distribuição de um novo procedimento no STF.
O caso foi sorteado para André Mendonça, que autorizou a continuidade das diligências. A decisão não confirma a versão da PF, mas reconhece que existem elementos suficientes para que os fatos sejam formalmente esclarecidos.
Suspeita envolve acesso ao Ministério da Saúde
O centro da investigação contra Lulinha é uma possível intermediação em favor da World Cannabis. A empresa ligada a Antônio Antunes buscava espaço no mercado brasileiro de medicamentos à base de cannabis e tentou apresentar seus produtos e projetos a representantes do Ministério da Saúde.
A PF pretende verificar se Lulinha teria participado dessa articulação ao lado de Roberta Luchsinger, empresária que mantém relação de amizade com ele. Roberta reconheceu ter prestado consultoria a Antunes no setor de canabidiol, mas afirma que sua atividade foi regular e que nunca transferiu recursos ao filho do presidente.
Os investigadores procuram determinar como foram marcadas as reuniões, quem solicitou os encontros, quais autoridades foram procuradas e qual papel teria sido atribuído a cada integrante do grupo. Também está sob análise a possibilidade de que os contatos tenham alcançado servidores ligados ao gabinete presidencial.
O fato de empresários procurarem integrantes do governo para apresentar produtos ou projetos não constitui crime por si só. Empresas de diferentes setores mantêm áreas de relações governamentais justamente para acompanhar políticas públicas, apresentar soluções e participar de processos administrativos.
A irregularidade surgiria caso alguém tivesse solicitado ou recebido uma vantagem sob o argumento de que poderia influenciar uma decisão de autoridade pública. Esse é um dos elementos do crime de tráfico de influência que a PF pretende verificar na investigação contra Lulinha.
O que significa a suspeita de tráfico de influência
O Código Penal define tráfico de influência como solicitar, exigir, cobrar ou obter uma vantagem ou promessa de vantagem sob o pretexto de influenciar um ato praticado por funcionário público. O investigado não precisa ocupar cargo no governo para que o crime seja analisado.
Na prática, a PF terá de descobrir se Lulinha teria apresentado sua proximidade familiar com o presidente ou seu acesso a autoridades como um instrumento capaz de favorecer os negócios de Antunes. A simples condição de filho do presidente, uma amizade ou a participação em encontros sociais não bastam para caracterizar o delito.
Será necessário demonstrar que houve uma ação concreta de intermediação e que essa atuação estava relacionada a alguma vantagem. A investigação poderá buscar mensagens nas quais tenham sido discutidos pagamentos, pedidos de reunião, promessas de influência, participação em contratos ou divisão de resultados.
A inexistência de um contrato assinado com o Ministério da Saúde não impede a apuração. O tráfico de influência pode ser investigado mesmo quando o resultado pretendido não é alcançado, desde que exista uma solicitação, cobrança ou obtenção de vantagem vinculada à promessa de influenciar um servidor.
Ao mesmo tempo, o insucesso do projeto é um elemento importante para a defesa. Os advogados poderão sustentar que não houve benefício ao grupo, interferência administrativa, repasse de dinheiro público ou decisão governamental favorável à World Cannabis.
World Cannabis buscava negócios com medicamentos
Uma das iniciativas examinadas envolvia a tentativa de viabilizar um projeto para fornecimento de medicamentos à base de canabidiol. Antônio Antunes teria contratado Roberta Luchsinger para prospectar oportunidades e representar interesses empresariais perante o governo.
Roberta também apareceu em registros de reuniões relacionadas a outros empreendimentos de saúde. Documentos reunidos pela CPMI do INSS indicaram que ela atuou na representação institucional da empresa de telessaúde DuoSystem, enquanto Antunes também participou de agendas vinculadas à companhia.
Em 2025, o empresário voltou ao Ministério da Saúde apresentando-se como presidente da World Cannabis. A PF quer reconstruir a sequência dessas iniciativas para estabelecer se havia apenas uma relação profissional entre Antunes e Roberta ou uma estrutura mais ampla destinada a obter acesso privilegiado ao governo.
Entre as agendas examinadas está uma reunião com Swedenberger Barbosa, que ocupava a Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde. Conhecido como Berger, ele posteriormente passou a integrar a estrutura da Presidência da República.
Barbosa afirmou que recebeu representantes empresariais no exercício de suas atribuições e que não houve interferência externa. Segundo sua versão, o projeto não teve continuidade porque o Ministério da Saúde não demonstrou interesse na contratação.
A pasta também informou que não manteve contrato com a World Cannabis ou com os acionistas citados e que não realizou repasses de recursos públicos à empresa. Essas informações afastam, até o momento, a existência de uma contratação concluída, mas não eliminam a necessidade de esclarecer como os contatos foram obtidos.
Pagamentos à consultoria de Roberta entram na apuração
O pedido encaminhado ao Supremo também menciona pagamentos feitos por empresas de Antônio Antunes à RL Consultoria, ligada a Roberta Luchsinger. Os investigadores pretendem verificar a natureza dos serviços prestados e o destino final dos valores.
A existência de pagamentos entre duas empresas não constitui prova de irregularidade. Para que essas operações tenham relevância criminal, será necessário demonstrar que os valores não correspondiam a serviços efetivamente executados ou que foram utilizados para remunerar uma intermediação ilícita.
A PF deverá examinar contratos, notas fiscais, relatórios de consultoria, extratos bancários, mensagens e comprovantes de entrega. Um dos objetivos será descobrir se alguma parcela dos recursos foi destinada a Lulinha, a servidores públicos ou a terceiros ligados às tratativas com o governo.
Roberta nega ter feito repasses ao filho do presidente. Sua defesa sustenta que ela foi contratada para prestar consultoria no segmento de canabidiol e que não participou de qualquer esquema de desvio de recursos públicos.
Os advogados também afirmam que o vínculo entre Roberta e Lulinha é pessoal e que a apresentação de Antônio Antunes ocorreu em um contexto social. Caberá à investigação confrontar essa versão com os registros financeiros e as comunicações apreendidas.
Viagem a Portugal aproximou Lulinha e Antunes
Outro fato considerado relevante é uma viagem realizada por Lulinha a Portugal, em novembro de 2024, na companhia de Antônio Antunes. A própria defesa confirmou que as despesas foram pagas pelo empresário investigado.
Segundo os advogados, Lulinha foi convidado para visitar uma fábrica de medicamentos e conhecer o processo de produção. A viagem, de acordo com a defesa, não resultou em contrato, investimento, sociedade ou participação do filho do presidente nos negócios da World Cannabis.
A PF deverá apurar por que Antunes custeou as despesas, quais compromissos foram cumpridos durante a viagem, quem participou das visitas e se houve alguma discussão comercial envolvendo Lulinha. O pagamento da viagem será analisado em conjunto com os demais contatos entre os envolvidos.
Sozinho, o custeio não comprova tráfico de influência ou corrupção. A relevância jurídica dependerá da existência de uma relação entre a viagem, uma eventual promessa de acesso ao governo e os interesses comerciais da World Cannabis.
A defesa sustenta que Lulinha não trabalhou no projeto, não investiu recursos, não recebeu participação societária e não participou das negociações com o Ministério da Saúde. Essa versão será confrontada com as provas reunidas pela PF.
Suspeita de corrupção depende de rastreamento financeiro
Além do tráfico de influência, o pedido policial menciona a apuração de possíveis crimes de corrupção. Nesse ponto, a investigação deverá determinar se algum agente público recebeu, solicitou ou aceitou promessa de vantagem para facilitar reuniões, produzir documentos ou favorecer uma contratação.
Também será necessário esclarecer se empresários ofereceram ou prometeram benefícios em troca de algum ato funcional. Até o momento, não foi divulgado nenhum contrato fechado, pagamento público à World Cannabis ou identificação de servidor que tenha recebido vantagem indevida.
A inclusão da suspeita de corrupção, portanto, representa uma linha investigativa, não uma acusação comprovada. O rastreamento financeiro será decisivo para verificar se os pagamentos permaneceram entre empresas privadas ou se chegaram a Lulinha, agentes públicos ou pessoas utilizadas como intermediárias.
A análise também deverá estabelecer se alguma autoridade adotou medida administrativa em benefício da World Cannabis. Reuniões sem consequência prática tendem a ter peso diferente de decisões, pareceres, termos de referência ou processos de contratação produzidos após uma intermediação.
Defesa aponta tentativa de prolongar investigação
Os advogados de Lulinha afirmam que a nova apuração pode representar uma “pescaria probatória”, expressão jurídica empregada para descrever investigações abertas sem objeto concreto, na expectativa de que alguma irregularidade seja encontrada.
A defesa argumenta que a PF não teria localizado elementos ligando o filho do presidente ao esquema de descontos indevidos do INSS e, por isso, estaria deslocando o foco para outro assunto. Também sustenta que será necessário esclarecer por que o procedimento tramita no Supremo, uma vez que Lulinha não possui foro por prerrogativa de função.
A competência do STF pode decorrer da presença de autoridades com foro entre os fatos investigados ou da conexão com procedimentos que já tramitam na Corte. Esse ponto deverá ser analisado à medida que o inquérito delimitar quem são os agentes públicos mencionados e quais atos estão sob suspeita.
A defesa de Antônio Antunes afirmou não ter acesso aos detalhes do novo procedimento. O empresário, preso desde setembro de 2025 no contexto da Operação Sem Desconto, nega participação em fraudes e sustenta que suas atividades empresariais foram legítimas.
Inquérito terá de provar se proximidade virou influência
A questão central da investigação contra Lulinha não é a existência de amizade, convivência ou contato com Antônio Antunes e Roberta Luchsinger. Esses vínculos foram reconhecidos, em diferentes graus, pelas próprias defesas.
O que a Polícia Federal precisa determinar é se essa proximidade foi convertida em influência sobre o governo. Para isso, os investigadores terão de demonstrar que Lulinha participou das articulações, conhecia os objetivos comerciais, realizou contatos com autoridades e recebeu ou esperava receber algum benefício.
Também será necessário apurar se servidores do Ministério da Saúde ou da Presidência foram procurados por intermédio dele e se adotaram alguma providência em resposta a essa atuação. Sem a comprovação desses elementos, relações pessoais, reuniões institucionais e viagens não bastam para sustentar uma acusação criminal.
O presidente Lula afirmou que não usará o cargo para proteger o filho e que Lulinha deverá ser tratado como qualquer outro cidadão. Disse acreditar na inocência dele, mas declarou que, se alguma irregularidade for comprovada, o empresário deverá responder por seus atos.
A autorização concedida por André Mendonça inaugura uma etapa de produção de provas. Ao fim das diligências, a PF poderá concluir pela existência de indícios, pedir novas medidas ou recomendar o arquivamento. A palavra final sobre uma eventual denúncia caberá ao Ministério Público e, posteriormente, ao Poder Judiciário.










