Os preços dos hortifrutis recuaram 6,5% em agosto nos supermercados do Estado de São Paulo, marcando o segundo mês consecutivo de queda da categoria. O movimento foi particularmente intenso entre tubérculos, legumes e verduras, com reduções de dois dígitos em produtos presentes com frequência na mesa dos consumidores, como batata, pepino, cebola, tomate e cenoura. Os dados fazem parte do Índice de Preços dos Supermercados (IPS), calculado pela Associação Paulista de Supermercados (APAS) em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).
A queda ganhou força em relação ao movimento observado no mês anterior. Em julho, os produtos in natura haviam recuado 3,44%, puxados principalmente pelos legumes, com baixa de 17,31%, e pelos tubérculos, que ficaram 7,69% mais baratos. Mesmo depois daquela redução, porém, o grupo ainda acumulava alta de 9,32% em 2026, mostrando que dois meses de preços menores não significam necessariamente reversão de toda a pressão acumulada ao longo do ano.
Em agosto, os tubérculos registraram a maior queda entre as subdivisões acompanhadas, com retração de 17,7%. Os legumes ficaram 10,9% mais baratos e as verduras recuaram 5,3%. Entre os produtos individuais, a batata comum liderou as reduções, com queda de 28,7%, seguida pelo pepino, que caiu 24,8%. Cebola e tomate tiveram retração de 15,3% cada, enquanto a cenoura ficou 13,3% mais barata.
Hortifrutis dominam lista das maiores quedas
A concentração dos hortifrutis entre os produtos que mais ficaram baratos ajuda a dimensionar a intensidade do movimento. Dos 25 itens com as maiores reduções de preços em agosto, 19 pertenciam ao grupo formado por frutas, legumes, verduras e outros produtos de hortifruti. Isso representa 76% dos itens presentes nessa lista.
Considerando apenas as cinco maiores quedas — batata, pepino, cebola, tomate e cenoura — a redução média foi de aproximadamente 19,5%. O resultado é três vezes superior à queda de 6,5% registrada pelo conjunto da categoria, mostrando que determinados produtos tiveram movimentos muito mais intensos do que a média dos hortifrutis.
Outros alimentos frescos também apresentaram redução relevante durante o mês. O quiabo caiu 9,8%, a abobrinha teve baixa de 9,4%, a laranja recuou 8,5%, a alface ficou 8,3% mais barata e a couve apresentou retração de 8,1%.
No caso da batata, a redução de 28,7% foi aproximadamente 4,4 vezes maior do que a queda média dos hortifrutis em agosto. Entre os cinco produtos com maiores recuos destacados pelo levantamento, a diferença entre a batata, na primeira posição, e a cenoura, na quinta, chegou a 15,4 pontos percentuais.
Maior oferta pressionou os preços
A APAS associa o movimento principalmente às condições de oferta. Temperaturas elevadas e condições climáticas favoráveis em importantes regiões produtoras contribuíram para acelerar a maturação e antecipar a colheita de algumas culturas, aumentando a quantidade de mercadoria disponível no mercado em um período relativamente curto.
Esse efeito tende a aparecer rapidamente nos hortifrutis por causa das características da cadeia de alimentos frescos. Diferentemente de produtos industrializados, que podem permanecer armazenados por períodos mais longos, frutas, legumes e verduras possuem vida útil limitada e precisam chegar rapidamente ao consumidor. Quando a oferta aumenta de forma significativa, produtores, distribuidores e varejistas têm menos espaço para reter mercadoria à espera de preços melhores.
A maior disponibilidade pode, dessa forma, pressionar os preços desde as regiões produtoras até as gôndolas dos supermercados. Isso ajuda a explicar por que produtos como batata e pepino apresentaram quedas superiores a 20% em apenas um mês.
O movimento não significa necessariamente que os custos de produção agrícola tenham caído na mesma proporção. Fertilizantes, mão de obra, energia, transporte e outros componentes possuem dinâmicas próprias. A redução registrada pelo IPS reflete principalmente os preços encontrados pelo consumidor no varejo paulista e a relação entre oferta e demanda no período pesquisado.
Queda não representa deflação de todos os alimentos
O recuo de 6,5% também não deve ser interpretado como uma redução equivalente no preço de toda a alimentação consumida pelas famílias. O IPS acompanha diferentes categorias de mercadorias comercializadas nos supermercados, e cada grupo possui comportamento próprio.
Em julho, por exemplo, o índice geral dos supermercados paulistas havia caído 0,86%, enquanto alimentação e bebidas apresentaram redução de 0,99%. Os produtos in natura tiveram queda de 3,44%, mas outros itens ainda carregavam aumentos relevantes no acumulado do ano. As carnes bovinas apresentavam alta de 8,41%, enquanto o leite acumulava avanço de 22,10%.
Mesmo dentro dos alimentos frescos houve movimentos em direções diferentes. Enquanto legumes e tubérculos ficaram mais baratos em julho, as frutas avançaram 3,82%. Isso mostra que fatores específicos de cada cultura, período de colheita e região produtora podem produzir variações bastante distintas dentro de uma mesma categoria.
O IPS também não deve ser confundido com os índices oficiais de inflação do país. O indicador é voltado ao setor supermercadista paulista e acompanha a evolução dos preços de produtos comercializados em supermercados do Estado de São Paulo. Segundo a APAS, sua estrutura reúne 225 itens distribuídos em seis categorias.
El Niño já está ativo e pode ganhar força
O cenário climático representa agora uma das principais fontes de incerteza para a oferta de alimentos frescos nos próximos meses. O El Niño foi confirmado em junho e continua em processo de intensificação, segundo o painel elaborado conjuntamente por instituições federais responsáveis pelo monitoramento climático e hidrológico do país.
O boletim mais recente aponta probabilidade superior a 95% de que o fenômeno alcance intensidade muito forte no trimestre formado por outubro, novembro e dezembro. As projeções indicam ainda que o El Niño deverá persistir pelo menos até o primeiro trimestre de 2027 e, caso o cenário de maior intensidade se confirme, poderá figurar entre os eventos mais fortes registrados desde 1950.
A previsão sazonal aponta condições diferentes de acordo com a região. O Sul apresenta maior probabilidade de chuvas acima da média, com possibilidade de cheias, enquanto áreas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste podem enfrentar precipitações abaixo do padrão histórico. Temperaturas acima da média também são previstas para grande parte do território nacional.
Para a produção agrícola, entretanto, não existe uma relação automática entre El Niño e aumento dos preços. O efeito depende da cultura, da localização das lavouras, do estágio de desenvolvimento das plantas, da disponibilidade de água e da distribuição das chuvas.
Uma cultura pode ser prejudicada pelo excesso de precipitação em determinada região enquanto outra pode se beneficiar de temperaturas maiores ou de condições mais secas em outro ponto do país. O principal risco para os hortifrútis é o aumento da volatilidade da oferta caso calor intenso, estiagem ou excesso de chuva coincidam com períodos sensíveis de plantio, desenvolvimento ou colheita.
Preços dos frescos podem mudar rapidamente
Essa sensibilidade ao clima explica por que os preços de frutas, legumes e verduras podem apresentar movimentos muito fortes em intervalos relativamente curtos. A mesma combinação de oferta abundante e colheita antecipada que derrubou os preços em agosto pode se inverter se problemas climáticos reduzirem a produção ou prejudicarem o transporte.
Produtos perecíveis têm ainda menor possibilidade de formação de estoques de segurança. Quando existe excesso de oferta, preços tendem a cair rapidamente para permitir o escoamento da produção. Quando ocorre quebra de safra ou interrupção no abastecimento, o efeito contrário também pode chegar às gôndolas em pouco tempo.
Para supermercados e distribuidores, essas oscilações exigem ajustes constantes nas compras e nos estoques. Uma quantidade excessiva aumenta o risco de perdas por deterioração, enquanto uma oferta insuficiente pode provocar falta de produto e preços maiores ao consumidor.
A queda registrada em agosto, portanto, representa um alívio relevante para quem compra hortifrútis, mas ainda não permite estabelecer uma tendência duradoura de preços baixos para os próximos meses.
Batata lidera queda com recuo de quase 29%
A batata comum foi o produto de maior destaque em agosto, com retração de 28,7%. Isso significa que sua queda percentual foi mais de quatro vezes superior à redução média registrada para toda a categoria de hortifrutis.
O pepino veio logo depois, com baixa de 24,8%. Cebola e tomate caíram 15,3%, enquanto a cenoura registrou redução de 13,3%. Os números reforçam a importância de observar cada produto separadamente, já que a média da categoria esconde diferenças significativas entre as culturas.
O próprio comportamento dos alimentos frescos no mês anterior demonstra essa diversidade. Em julho, os legumes chegaram a cair 17,31% e os tubérculos, 7,69%, enquanto as frutas subiram 3,82%. A composição das compras de cada família determina, portanto, quanto da queda média efetivamente se traduz em economia.
Para consumidores que compram com frequência os produtos que lideraram as reduções de agosto, o alívio tende a ser mais perceptível. Para famílias cuja cesta está mais concentrada em carnes, laticínios e alimentos industrializados, o efeito pode ser significativamente menor.
Continuidade da queda dependerá da oferta
A redução dos preços pode estimular a compra de alimentos frescos e abrir espaço para maior presença de frutas, legumes e verduras na cesta das famílias. Para o varejo, preços menores também podem elevar o giro desses produtos, reduzindo perdas e facilitando a comercialização dos volumes maiores disponíveis.
A continuidade desse cenário dependerá, entretanto, das condições de abastecimento. O El Niño muito forte previsto para o último trimestre adiciona incerteza justamente em uma cadeia na qual mudanças climáticas podem alterar rapidamente produtividade, calendário de colheita e volume disponível.
Os dados de agosto mostram que, por enquanto, a combinação entre clima favorável e maior oferta beneficiou o consumidor paulista. Depois da queda já registrada em julho, os hortifrútis recuaram outros 6,5%, com reduções especialmente fortes em tubérculos e legumes.
O movimento representa um alívio importante, mas ainda localizado. A trajetória dos próximos meses será determinada pela sazonalidade de cada cultura, pelo ritmo das colheitas e, principalmente, pela forma como o El Niño afetará as diferentes regiões produtoras durante a primavera e o início do verão.
Fontes
Associação Paulista de Supermercados — Índice de Preços dos Supermercados de agosto de 2026 e levantamento das variações dos produtos de hortifruti.
Associação Paulista de Supermercados — Índice de Preços dos Supermercados de julho de 2026.
Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas — parceria técnica para elaboração do Índice de Preços dos Supermercados.
Instituto Nacional de Meteorologia, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Cemaden, ANA, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e Censipam — Painel El Niño 2026-2027, Boletim nº 4.









