As eleições presidenciais de 2026 chegam à fase decisiva com uma questão econômica que vai acompanhar o próximo governo desde o primeiro dia: como reduzir o desequilíbrio das contas públicas sem interromper investimentos e políticas obrigatórias em um país que já carrega dívida elevada e juros reais entre os maiores do mundo. A discussão ganhou dimensão concreta nesta semana, depois que novos números do Tesouro mostraram a Dívida Pública Federal em R$ 9,298 trilhões e um déficit primário de R$ 81,3 bilhões do Governo Central acumulado entre janeiro e julho.
A fotografia de 2026 não significa que o Brasil esteja sem qualquer melhora fiscal. Somente em julho, o Governo Central registrou superávit de R$ 10,8 bilhões, revertendo o déficit de R$ 59,1 bilhões observado no mesmo mês do ano passado. A receita líquida cresceu 7,7% em termos reais, enquanto as despesas recuaram 20,7%. No acumulado de sete meses, porém, a despesa total ainda aumentou 6,2% em termos reais, ligeiramente acima dos 5,9% de crescimento da receita líquida.
É essa combinação que transforma 2027 em um ano particularmente importante para a política econômica. O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias enviado pelo governo ao Congresso estabelece uma meta de superávit primário de R$ 73,2 bilhões, equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto. O número, à primeira vista, representa um salto relevante em relação ao resultado fiscal atual. Uma leitura mais detalhada dos documentos orçamentários, contudo, mostra que o esforço efetivo previsto é bem menor.
Meta de R$ 73,2 bilhões depende de R$ 65,7 bilhões em exclusões
As consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado calcularam que o próprio PLDO de 2027 projeta um resultado primário efetivo de aproximadamente R$ 8 bilhões, equivalente a apenas 0,05% do PIB.
O governo chega ao superávit de aproximadamente R$ 73,6 bilhões considerado para o cumprimento da meta depois de excluir R$ 65,7 bilhões em despesas autorizadas a ficar fora do cálculo fiscal.
Entram nesse grupo principalmente precatórios e requisições de pequeno valor, além de despesas relacionadas a projetos estratégicos de defesa e gastos temporários de saúde e educação financiados por recursos do Fundo Social.
A diferença é relevante. O resultado primário efetivo projetado de R$ 8 bilhões corresponde a cerca de 11% da meta formal de R$ 73,2 bilhões. Em sentido inverso, as despesas excluídas representam quase 90% do valor necessário para transformar a projeção fiscal em um resultado compatível com o centro da meta.
Isso não significa que as exclusões sejam irregulares. Elas estão previstas na Constituição e em leis complementares aprovadas pelo Congresso. A consequência econômica, entretanto, é que o resultado usado para verificar o cumprimento da meta pode ser substancialmente diferente do saldo efetivo entre receitas e despesas primárias.
O intervalo de tolerância também reduz a distância necessária para que o governo seja considerado formalmente dentro da regra. Para 2027, o limite inferior da meta corresponde a um superávit de R$ 36,6 bilhões. Um resultado abaixo desse valor caracterizaria descumprimento da meta, considerando as exclusões previstas.
Dívida pode chegar a 86% do PIB já em 2027
A dificuldade fiscal aparece de maneira mais clara quando a análise sai do resultado primário de um único ano e passa para a dívida.
O próprio governo projeta que a Dívida Bruta do Governo Geral alcance 83,5% do PIB em 2026. No PLDO, a estimativa para 2027 chega a aproximadamente 86% do PIB. A trajetória ainda continuaria subindo nos anos seguintes, alcançando perto de 88% do PIB em 2029 antes de iniciar uma redução gradual.
Isso significa que mesmo o cenário oficial de consolidação fiscal não prevê uma queda imediata do endividamento. O governo trabalha com a hipótese de que serão necessários vários anos de melhora progressiva do resultado primário antes de inverter de forma consistente a relação entre dívida e PIB.
O Tesouro atribui grande parte dessa dinâmica ao diferencial entre a taxa de juros e o crescimento nominal da economia. Quando o custo médio da dívida permanece elevado por muito tempo, o estoque cresce mesmo que o governo consiga melhorar o saldo entre receitas e despesas não financeiras.
Esse é o ponto em que política fiscal e política monetária se encontram. Um cenário fiscal percebido como mais arriscado pode elevar os juros exigidos pelos investidores para financiar o governo. Juros maiores, por sua vez, aumentam as despesas financeiras e tornam mais difícil estabilizar a dívida.
Quase metade da dívida caminha para permanecer ligada à Selic
A estrutura da própria Dívida Pública Federal aumentou sua sensibilidade aos juros.
O Tesouro revisou nesta semana o Plano Anual de Financiamento de 2026 e passou a prever que os títulos remunerados por taxas flutuantes, principalmente papéis indexados à Selic, terminarão o ano representando entre 49% e 53% do estoque da dívida.
No início do ano, a projeção era de uma participação entre 46% e 50%.
A alteração reflete um ambiente no qual investidores passaram a exigir prêmio maior para títulos prefixados e de vencimentos longos. Com maior volatilidade internacional e juros elevados, cresce a preferência por papéis que acompanham a Selic e apresentam menor risco de perda em caso de mudanças nas taxas.
Para o Tesouro, isso facilita a colocação dos títulos no curto prazo, mas aumenta a exposição das contas públicas ao nível da taxa básica. Quanto maior a parcela da dívida vinculada à Selic, mais rapidamente mudanças na política monetária afetam o custo de financiamento do governo.
Esse efeito ajuda a explicar por que uma consolidação fiscal crível pode produzir consequências que vão além da execução do Orçamento. Se o mercado perceber menor risco de crescimento descontrolado da dívida, os prêmios exigidos nos títulos públicos podem diminuir. Essa redução tende a se espalhar para diferentes taxas usadas no financiamento de empresas, famílias e investimentos.
Julho melhorou, mas acumulado ainda mostra déficit de R$ 81,3 bilhões
Os números mais recentes do Tesouro mostram como essa transição ainda está em andamento.
O superávit de R$ 10,8 bilhões registrado em julho foi significativamente melhor que o resultado do mesmo mês de 2025. No acumulado de janeiro a julho, contudo, o Governo Central apresentou déficit de R$ 81,3 bilhões, acima dos R$ 70,3 bilhões negativos registrados no mesmo intervalo do ano passado em valores correntes.
A composição também revela uma pressão estrutural. Tesouro Nacional e Banco Central apresentaram, juntos, superávit de R$ 177,1 bilhões nos sete primeiros meses do ano. A Previdência Social, em sentido contrário, registrou déficit de R$ 258,4 bilhões.
A diferença entre os dois números praticamente explica todo o resultado negativo do Governo Central no período.
Do lado das receitas, houve crescimento relevante do Imposto de Renda, IOF, Cofins, CSLL e receitas ligadas à exploração de recursos naturais. A arrecadação previdenciária também avançou, beneficiada pelo aumento da massa salarial, geração de empregos formais e reoneração gradual da folha.
Ainda assim, o crescimento das despesas no acumulado superou ligeiramente o avanço das receitas.
Governo mantém R$ 17,9 bilhões em despesas bloqueadas
O controle das despesas também já exige intervenção durante a execução do Orçamento de 2026.
Na avaliação referente ao terceiro bimestre, o governo reduziu o volume de despesas bloqueadas em R$ 5,7 bilhões, depois de revisar para baixo projeções de gastos obrigatórios com pessoal, Previdência e benefícios assistenciais.
Mesmo após a liberação, R$ 17,9 bilhões permanecem bloqueados.
Além disso, o decreto de programação financeira mantém uma restrição de aproximadamente R$ 29,5 bilhões no ritmo de empenho das despesas discricionárias do Poder Executivo até novembro.
A diferença entre bloqueio e contingenciamento é importante. O bloqueio está associado principalmente ao limite de crescimento das despesas estabelecido pelo arcabouço fiscal. O contingenciamento ocorre quando há risco de descumprimento da meta de resultado primário.
Na última avaliação, o governo projetava superávit de R$ 10,8 bilhões para 2026 e não considerava necessário realizar contingenciamento por insuficiência de receita. O bloqueio permaneceu necessário para atender ao limite de despesas.
Eleição definirá como produzir o ajuste a partir de 2027
A discussão eleitoral tende, portanto, a se concentrar menos na existência do problema e mais na forma de enfrentá-lo.
Há três grandes caminhos disponíveis para melhorar estruturalmente o resultado primário: ampliar receitas, reduzir o crescimento das despesas ou combinar as duas estratégias.
Nos últimos anos, parcela relevante da consolidação fiscal foi construída pelo lado da arrecadação, com alterações tributárias, recuperação de receitas e revisão de benefícios. Ao mesmo tempo, despesas obrigatórias como Previdência, benefícios sociais, pisos constitucionais e gastos vinculados restringem a velocidade de ajuste pelo lado do gasto.
O próximo governo encontrará ainda uma dificuldade adicional. O espaço para despesas discricionárias é limitado e concentra justamente investimentos públicos e recursos necessários ao funcionamento administrativo. Cortes excessivos nessa parcela podem produzir economia imediata, mas também comprometer políticas públicas e infraestrutura.
Por isso, um ajuste mais duradouro depende de medidas capazes de modificar a trajetória das despesas obrigatórias ou elevar receitas de maneira recorrente, e não apenas de bloqueios temporários ao longo do exercício.
Fiscal pode determinar trajetória dos juros e do câmbio
Para o mercado financeiro, a importância das contas públicas está na transmissão desse risco para outras variáveis.
Uma trajetória de dívida percebida como sustentável tende a reduzir o prêmio cobrado para financiar o governo. Em condições normais, isso abre espaço para queda dos juros de longo prazo, melhora o custo de capital das empresas e aumenta a atratividade relativa de ativos brasileiros.
O movimento contrário também é possível. Se as projeções indicarem dívida crescente sem perspectiva de estabilização, investidores podem exigir taxas maiores para comprar títulos públicos. Essa mudança costuma pressionar a curva de juros, afetar a taxa de câmbio e reduzir o valor presente de empresas e investimentos de longo prazo.
O Tesouro reconhece essa relação em seu próprio relatório de projeções fiscais. O cenário oficial considera a dívida em alta no curto prazo e afirma que sua estabilização depende da continuidade do esforço de consolidação, que poderá exigir recuperação adicional de receitas ou revisão das despesas.
O debate de 2027, portanto, não começará depois da eleição. Ele já está embutido nos preços dos títulos públicos, nas expectativas de juros e nas decisões de investimento tomadas neste segundo semestre.
Congresso ainda precisa votar a LDO de 2027
Existe ainda uma etapa institucional importante antes que as metas do próximo ano sejam definitivas.
O Congresso entrou no segundo semestre sem ter aprovado a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027. A expectativa é que a proposta seja analisada praticamente em paralelo ao Orçamento anual, que precisa ser enviado pelo Executivo até 31 de agosto.
Deputados e senadores podem modificar parâmetros, regras e prioridades durante a tramitação.
O resultado transforma os próximos meses em uma combinação incomum de calendário eleitoral e decisão orçamentária. Enquanto candidatos apresentam suas propostas para o próximo mandato, o Congresso terá de definir as regras fiscais que orientarão justamente o primeiro ano do governo eleito em outubro.
Independentemente de quem vença a eleição, o ponto de partida já está estabelecido: déficit acumulado no ano, dívida acima de R$ 9 trilhões, custo elevado de financiamento e uma meta de superávit para 2027 cuja execução depende de exclusões relevantes.
A escolha política estará em como preencher a distância entre esses números. O tamanho do ajuste, a composição entre receitas e despesas e a capacidade de convencer investidores de que a dívida pode ser estabilizada deverão ser alguns dos fatores com maior influência sobre juros, câmbio e crescimento econômico no início do próximo mandato.
Fontes:
Tesouro Nacional — Resultado do Tesouro Nacional de julho de 2026 e dados acumulados do Governo Central entre janeiro e julho
Tesouro Nacional — Relatório Mensal da Dívida Pública Federal de julho de 2026 e revisão do Plano Anual de Financiamento
Tesouro Nacional — Relatório de Projeções Fiscais do primeiro semestre de 2026, com estimativas para dívida, resultado primário e sustentabilidade fiscal
Ministério do Planejamento e Orçamento — Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 e Anexo de Metas Fiscais
Consultorias de Orçamento da Câmara dos Deputados e do Senado Federal — Nota Técnica Conjunta sobre o PLDO de 2027 e cálculo do resultado primário efetivo e das exclusões fiscais
Ministério do Planejamento e Orçamento — Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias do terceiro bimestre de 2026 e Decreto de Programação Orçamentária e Financeira
Senado Federal — tramitação da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 e cronograma de análise junto ao Orçamento de 2027







