A Prefeitura de São Paulo anunciou nesta quinta-feira (25) a intervenção na empresa de ônibus Transunião, concessionária responsável por parte da operação do transporte público da capital, após a companhia se tornar alvo da Operação Última Parada, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e pela Polícia Civil. A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), além de possíveis irregularidades relacionadas à gestão da empresa e à participação em contratos públicos.
O decreto de intervenção foi confirmado pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) e será publicado em edição extraordinária do Diário Oficial do Município. Com a medida, a São Paulo Transporte (SPTrans) assumirá a gestão da concessionária, enquanto o funcionário de carreira Ângelo Fêde, servidor da empresa pública há 49 anos, foi nomeado interventor.
Segundo a administração municipal, a decisão busca garantir a continuidade da prestação do serviço à população e preservar a operação do sistema de transporte coletivo diante das investigações em curso.
A Transunião atende principalmente a região leste da cidade de São Paulo, opera três garagens e transporta cerca de 262 mil passageiros diariamente por meio de 50 linhas de ônibus.
Prefeitura repete estratégia adotada em casos anteriores
A intervenção na Transunião segue o mesmo modelo aplicado pela Prefeitura de São Paulo em 2024 contra as empresas Transwolff e Upbus, que também foram alvo da Operação Fim da Linha por suspeitas de vínculos com integrantes do PCC.
Durante agenda pública realizada nesta quinta-feira, Ricardo Nunes afirmou que a administração municipal manterá uma postura de rigor em relação a empresas concessionárias que venham a ser investigadas por suposta ligação com organizações criminosas.
Segundo o prefeito, a experiência anterior mostrou a necessidade de preservar a operação dos serviços públicos enquanto as investigações e os processos judiciais seguem em andamento.
Nunes destacou ainda que a medida administrativa não representa julgamento antecipado dos envolvidos, mas uma ação preventiva para proteger o interesse público e assegurar o funcionamento do sistema de transporte da cidade.
A Prefeitura ressaltou que os serviços prestados pela Transunião continuarão operando normalmente durante o período de intervenção e que não haverá interrupção das linhas atendidas pela empresa.
Operação Última Parada mira suposto esquema de lavagem de dinheiro
A decisão municipal ocorreu poucas horas após a deflagração da Operação Última Parada, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Polícia Civil.
A investigação tem como foco um suposto esquema de lavagem de dinheiro atribuído ao PCC por meio de empresas ligadas ao setor de transporte coletivo urbano.
Ao todo, cinco pessoas foram alvo de mandados de prisão temporária expedidos pela Justiça. Entre os investigados está o vereador paulistano Senival Pereira de Moura (PT), preso durante a operação.
Também são alvos Jair Ramos de Freitas, conhecido como “Cachorrão”, apontado pelos investigadores como articulador de operações financeiras relacionadas ao grupo criminoso; Leonel Moreira Martins, identificado como operador financeiro; Lourival de França Monário, atual diretor-presidente formal da Transunião; e Devanil de Souza Nascimento, conhecido como “Sapo”.
Segundo o Ministério Público, as apurações identificaram a existência de um núcleo paralelo que teria exercido influência sobre decisões estratégicas da empresa e promovido transferências de recursos para integrantes da organização criminosa.
Os investigados têm direito à ampla defesa e ao contraditório.
Justiça determina bloqueio de R$ 194 milhões
Como parte das medidas cautelares autorizadas pela Justiça, foram determinados o sequestro e o bloqueio de aproximadamente R$ 194 milhões em contas bancárias ligadas aos investigados.
A decisão também alcança um amplo conjunto de bens patrimoniais, incluindo 117 veículos, 21 imóveis e três embarcações.
Além das prisões temporárias, a Justiça autorizou o afastamento de dirigentes da Transunião de suas funções administrativas.
Entre os nomes afastados estão o diretor-presidente Lourival de França Monário, o diretor financeiro William Remorini Freitas, a diretora comercial Kelly Cristina Santos Ribeiro, além de integrantes do conselho de administração da empresa.
As autoridades também solicitaram o acesso a dados telefônicos e telemáticos relacionados aos investigados como parte do aprofundamento das apurações.
Investigação aponta suspeita de uso de recursos ilícitos em licitação
De acordo com a investigação conduzida pelo Ministério Público e pela Polícia Civil, há suspeita de que recursos ligados ao PCC tenham sido utilizados para fortalecer financeiramente a Transunião durante o processo que resultou na obtenção de contratos para operar linhas do transporte público municipal.
Segundo os investigadores, a empresa teria promovido sucessivas alterações societárias entre 2015 e 2019, elevando seu capital social de R$ 100 mil para R$ 50 milhões.
Na avaliação das autoridades, essa capitalização teria contribuído para adequar a companhia aos requisitos exigidos nos processos licitatórios do setor.
O Ministério Público sustenta que parte dos recursos utilizados nessa expansão financeira pode ter origem ilícita, hipótese que segue sob investigação.
As suspeitas ainda serão analisadas no decorrer do processo judicial e não representam condenação dos envolvidos.
Assassinato de empresário impulsionou avanço das investigações
Segundo o Ministério Público, as investigações ganharam força após o assassinato de Adauto Soares Jorge, ocorrido em março de 2020, no bairro do Lajeado, na zona leste da capital paulista.
A vítima foi morta a tiros em uma padaria da região. Durante as apurações, investigadores passaram a examinar movimentações financeiras e societárias relacionadas à Transunião.
Conforme a investigação, indícios reunidos ao longo dos anos apontariam que Adauto teria atuado como suposto intermediário ligado à estrutura societária da empresa.
A partir da análise de documentos, registros financeiros e depoimentos, os investigadores ampliaram o escopo das apurações até chegar aos atuais alvos da Operação Última Parada.
Durante entrevista coletiva, o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira, afirmou que elementos relacionados à Transunião já eram conhecidos pelas autoridades durante investigações anteriores, mas que ainda não havia material probatório suficiente para inclusão da empresa em operações passadas.
Caso amplia pressão sobre fiscalização das concessionárias de transporte
A nova operação reforça o debate sobre os mecanismos de fiscalização das empresas responsáveis pelo transporte coletivo urbano em São Paulo, um dos maiores sistemas de ônibus da América Latina.
Nos últimos anos, sucessivas investigações envolvendo concessionárias do setor têm levado autoridades municipais e estaduais a revisar processos de monitoramento financeiro, governança corporativa e controle societário das empresas que operam serviços públicos.
Para especialistas em gestão pública, casos envolvendo suspeitas de infiltração do crime organizado em contratos públicos aumentam a necessidade de mecanismos mais rigorosos de compliance, transparência e acompanhamento patrimonial das concessionárias.
Enquanto as investigações avançam, a Prefeitura de São Paulo afirma que manterá a operação da Transunião sob supervisão direta da SPTrans para evitar impactos aos milhares de passageiros que dependem diariamente do serviço na zona leste da capital.
A administração municipal informou que aguarda a notificação oficial das decisões judiciais para definir eventuais medidas adicionais relacionadas ao futuro da concessionária e aos contratos atualmente em vigor.








