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Queda de ações Ambipar: papéis AMBP3 despencam 38% em meio à crise financeira

por Gabriel Monteiro
03/10/2025 às 14h06
em Negócios
Queda De Ações Ambipar: Papéis Ambp3 Despencam 38% Em Meio À Crise Financeira - Gazeta Mercantil

Ação da Ambipar despenca 38% em meio à crise financeira e governança

As ações da Ambipar (AMBP3) sofreram uma queda significativa nesta sexta-feira, refletindo a instabilidade financeira e a crise de governança que a empresa enfrenta após a saída de diretores e o pedido de proteção judicial contra credores. Por volta das 11h50, os papéis recuavam 38%, cotados a R$ 1,63, após terem caído 60% na sessão anterior. No acumulado de 2025, a companhia já registra uma queda expressiva de 86% em sua valorização.

Contexto da crise

A crise da Ambipar se intensificou nos últimos dias, motivada por incertezas sobre o caixa da empresa e movimentações estratégicas questionáveis. Fontes indicam que apenas cerca de US$ 80 milhões foram localizados, gerando preocupação entre credores sobre a real disponibilidade de recursos da companhia. O cenário se torna ainda mais preocupante quando se considera que a Ambipar reportou valores em seus demonstrativos financeiros que não correspondem exatamente à liquidez disponível, levando a questionamentos sobre a transparência e consistência das informações.

Além disso, fundos de investimento (FIDC) relacionados à companhia realizaram movimentações recentes, incluindo captação de R$ 1,2 bilhão e aumento de provisões para possíveis calotes. Gestores financeiros apontam que se os valores forem considerados como caixa, o impacto real no fluxo da empresa ainda é limitado, visto que se tratam de créditos a receber e não de recursos líquidos imediatos.

Possível caminho para recuperação judicial

O cenário de liquidez frágil e endividamento elevado pode ativar cláusulas de covenants, levando a Ambipar a uma disputa judicial significativa e potencialmente a um pedido formal de recuperação judicial (RJ). A alternativa de recuperação extrajudicial, por sua vez, tem sido considerada por especialistas como um caminho mais rápido e estratégico, permitindo renegociações de dívida sem a necessidade de intervenção judicial prolongada.

O endividamento líquido da Ambipar ao final do segundo trimestre atingiu quase R$ 6 bilhões, com projeção de dívida líquida/Ebitda de 3,2 vezes para 2025, segundo estimativas de instituições financeiras como UBS BB. A alavancagem histórica, combinada à governança centralizadora, tornou a empresa vulnerável a pressões externas do mercado e dificuldades em honrar compromissos.

Deutsche Bank e operações de derivativos

A situação ganhou contornos ainda mais complexos com a intervenção do Deutsche Bank. Segundo documentos obtidos, o banco solicitou depósitos de margem devido à valorização do real frente ao dólar, mecanismos comuns em operações de hedge. O Deutsche Bank argumenta que tais exigências não representam risco relevante, considerando os R$ 4,7 bilhões reportados em caixa.

Além disso, o banco buscou autorização judicial para vencimento antecipado das operações de derivativos, contestando alegações de que a situação da Ambipar estaria diretamente ligada a essas operações financeiras. Segundo especialistas, a narrativa de risco exagerado foi criticada por criar uma “cortina de fumaça”, desviando a atenção do problema central: a alavancagem e a governança da companhia.

Vendas de ativos como alternativa

Diante da crise, gestores da empresa avaliam a possibilidade de vender ativos para melhorar o fluxo de caixa, mas a estratégia é controversa. A venda imediata poderia reduzir drasticamente o valuation da companhia, prejudicando acionistas e limitando a capacidade de negociação com credores. Muitos analistas sugerem que o uso de ativos como garantia para captação de recursos seja uma alternativa mais estratégica e menos impactante para o valor de mercado.

A contratação da BR Partners (BRBI11) pela Ambipar para assessoramento na crise demonstra a intenção da companhia de buscar soluções negociadas e evitar a recuperação judicial. Fontes internas indicam que negociações amigáveis ainda são possíveis, desde que os credores concordem com condições ajustadas à realidade financeira da empresa.

Problemas de governança e crescimento acelerado

A Ambipar se destacou desde o IPO em 2020 por uma estratégia de crescimento agressivo, com a aquisição de mais de 70 empresas em poucos anos. No entanto, a integração dessas aquisições foi lenta e a geração de caixa insuficiente para sustentar a expansão. A governança centralizadora e a falta de transparência gerencial tornaram a empresa vulnerável às flutuações do mercado e à pressão de credores.

O mercado inicialmente abraçou a tese de crescimento da Ambipar, com apelo ESG, mas rapidamente percebeu os riscos operacionais e de governança. A centralização das decisões pelos controladores e a falta de empatia com investidores contribuíram para o colapso da confiança do mercado. Especialistas destacam que os pilares fundamentais — governança, operação e finanças — não conseguiram se sustentar juntos, resultando em queda drástica no preço das ações.

Lições para investidores

O caso da Ambipar ilustra um descolamento clássico entre preço de ações e fundamentos financeiros. Durante 2024 e parte de 2025, os papéis chegaram a negociar a múltiplos extremamente altos em relação ao lucro, chegando a 100 vezes ganhos, sem fundamentos sólidos que justificassem a valorização. Essa discrepância evidencia a necessidade de avaliação cuidadosa por investidores, mesmo em empresas com narrativa de crescimento promissora ou alinhamento ESG.

Analistas recomendam atenção especial ao monitoramento de liquidez, dívida e governança corporativa antes de investir em companhias de rápido crescimento. O episódio da Ambipar reforça que o preço das ações não pode permanecer desconectado dos fundamentos de forma indefinida, e que movimentos de queda podem ser abruptos e severos.

Cenário futuro

Para 2025, a Ambipar enfrenta desafios significativos para estabilizar suas operações e recuperar a confiança do mercado. A renegociação de dívidas, ajustes na governança e reestruturação financeira serão fundamentais para que a companhia consiga superar a crise e retomar crescimento sustentável.

A continuidade das operações dependerá também da habilidade de gestores em gerenciar ativos estratégicos, otimizar fluxo de caixa e apresentar resultados transparentes aos investidores. A atuação eficiente da equipe de assessoria e negociações com credores será decisiva para definir se a Ambipar evitará uma recuperação judicial prolongada e custosa.

A queda de 38% nas ações da Ambipar nesta sexta-feira é um reflexo da combinação de alta alavancagem, governança fragilizada e percepção de risco pelos investidores. A empresa enfrenta o desafio de restabelecer confiança, negociar dívidas e reestruturar suas operações, enquanto lida com um mercado exigente que monitora de perto cada movimentação financeira.

O caso serve como alerta para investidores, gestores e o mercado financeiro sobre os perigos de expansão rápida sem suporte financeiro robusto e governança eficiente. A trajetória da Ambipar evidencia que crescimento acelerado, apelo ESG e narrativa promissora não substituem gestão prudente, planejamento financeiro rigoroso e transparência corporativa.

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