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Receita Federal usa IA para identificar itens suspeitos em malas e encomendas

Sistema integrado ao raio-X em Guarulhos usa inteligência artificial para apoiar auditores fiscais e acelerar a liberação de remessas internacionais.

por Daniel Soto - Repórter de Tecnologia
28/06/2026 às 23h12
em Tecnologia,Notícias
Receita Federal Usa Ia Para Identificar Itens Suspeitos Em Malas E Encomendas - Gazeta Mercantil - Tecnologia

A Receita Federal passou a usar inteligência artificial para analisar imagens de raio-X de bagagens e encomendas internacionais no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, desde dezembro de 2024, com o objetivo de acelerar a fiscalização aduaneira, identificar itens suspeitos e reduzir o tempo de liberação de compras vindas do exterior. A tecnologia, ligada ao modelo Gemini, do Google Cloud, funciona como uma camada de apoio aos auditores fiscais, sinalizando possíveis irregularidades antes da abertura física das malas ou pacotes.

O sistema representa uma mudança relevante na forma como a Receita Federal conduz a fiscalização de mercadorias que entram no país. Em vez de depender exclusivamente da análise visual feita por servidores diante das imagens de raio-X, a ferramenta de inteligência artificial interpreta padrões, objetos, densidades e formatos considerados incompatíveis com a declaração apresentada pelo passageiro ou pela empresa responsável pela remessa.

A operação ocorre em tempo real. Quando uma bagagem ou encomenda passa pelo equipamento de raio-X, a imagem é processada pela inteligência artificial. Se houver indício de arma, droga, medicamento sem documentação, peça automotiva ou outro produto sujeito a controle, o auditor recebe um alerta. A decisão final, no entanto, permanece sob responsabilidade do fiscal da Receita Federal.

Inteligência artificial amplia fiscalização em Guarulhos

O Aeroporto Internacional de Guarulhos é o principal ponto de entrada aérea do país e concentra parte expressiva do fluxo de passageiros, cargas e encomendas internacionais. Por isso, tornou-se o primeiro ambiente de aplicação da nova tecnologia em escala operacional.

A inteligência artificial não substitui o trabalho humano, mas reorganiza a triagem. A ferramenta permite que os fiscais concentrem atenção nos volumes com maior risco, reduzindo inspeções desnecessárias e acelerando a liberação de itens regulares.

Na prática, o sistema atua como um filtro inicial. Ele cruza a imagem captada pelo raio-X com parâmetros previamente treinados e aponta inconsistências. Essa capacidade é especialmente importante em um cenário de forte crescimento das compras internacionais e do comércio eletrônico transfronteiriço.

Antes da adoção de ferramentas de análise automatizada, o processo era mais lento. O volume de encomendas podia chegar a centenas de milhares de pacotes por dia, o que pressionava a estrutura operacional da Receita Federal e dos operadores logísticos. Em períodos de maior demanda, compras internacionais podiam levar semanas ou até meses para serem liberadas.

Com a combinação entre dados antecipados, análise de risco e inteligência artificial no raio-X, a Receita afirma ter conseguido reduzir significativamente os prazos. Em alguns casos, a entrega de remessas internacionais passou de até dois meses para menos de uma semana.

Gemini é usado como apoio à análise dos auditores

A tecnologia usada pela Receita Federal está ligada ao Gemini, modelo de inteligência artificial generativa desenvolvido pelo Google e operado na infraestrutura do Google Cloud. A solução foi apresentada como um exemplo de aplicação de IA no setor público brasileiro, especialmente na área de controle aduaneiro.

Diferentemente de sistemas tradicionais de reconhecimento de imagem, a inteligência artificial generativa permite interação em linguagem natural. Isso significa que o auditor pode fazer perguntas diretamente ao sistema, sem necessidade de comandos técnicos complexos.

Um fiscal pode, por exemplo, consultar se há indícios de arma dentro de uma bagagem ou se determinado volume apresenta objeto incompatível com a declaração. A resposta é gerada a partir da leitura da imagem e dos padrões identificados pela ferramenta.

Esse tipo de interação tende a reduzir a dependência de especialistas em tecnologia durante a rotina de fiscalização. A ferramenta aproxima a análise automatizada do fluxo de trabalho dos auditores, que continuam responsáveis por validar ou descartar cada alerta.

A Receita Federal também criou mecanismos internos para acompanhar o uso da inteligência artificial. Entre eles está a figura do curador de IA generativa, responsável por monitorar respostas, corrigir distorções e aprimorar o desempenho da ferramenta ao longo do tempo.

Sistema identifica armas, drogas, remédios e peças automotivas

A inteligência artificial usada pela Receita Federal foi treinada para reconhecer diferentes tipos de objetos que podem representar risco, fraude ou descumprimento das regras de importação. Entre os itens monitorados estão armas, munições, drogas, medicamentos sem nota, equipamentos médicos, peças de automóveis e mercadorias não declaradas.

No caso de armas e munições, a tecnologia procura formatos compatíveis com pistolas, facas, carregadores, cartuchos e outros objetos cortantes ou de fogo. Esses itens podem aparecer escondidos em bolsos internos, compartimentos falsos ou misturados a outros produtos.

Em relação a drogas e entorpecentes, o sistema busca padrões de densidade, volume e acondicionamento frequentemente associados a substâncias ilegais. A identificação automática não significa confirmação de crime, mas gera um alerta para inspeção mais detalhada.

Medicamentos, produtos hospitalares e insumos de saúde também entram no escopo da fiscalização. A importação desse tipo de item exige documentação específica e pode depender de autorização de órgãos reguladores. Quando o sistema identifica produtos médicos sem correspondência com a declaração, o auditor pode determinar uma verificação adicional.

Peças automotivas aparecem como outro foco de atenção. A Receita Federal monitora esse tipo de mercadoria por causa de fraudes relacionadas à importação sem nota fiscal, subfaturamento ou tentativa de entrada irregular de produtos sujeitos à tributação.

Remessa Conforme mudou a lógica da fiscalização

A adoção de inteligência artificial no raio-X está ligada a uma transformação mais ampla da fiscalização de encomendas internacionais. O Programa Remessa Conforme, criado pela Receita Federal em 2023, alterou a forma como plataformas de comércio eletrônico enviam informações ao Fisco.

Empresas como Shein, Shopee, AliExpress e Amazon passaram a encaminhar dados das compras antes da chegada dos pacotes ao Brasil. Com isso, a Receita Federal consegue realizar análise de risco antecipada, cruzando informações sobre remetente, destinatário, valor declarado, tipo de mercadoria e histórico de operações.

Esse modelo reduz a necessidade de avaliar cada encomenda apenas no momento da chegada ao país. A fiscalização começa ainda antes do desembarque, com base nos dados fornecidos pelas plataformas participantes do programa.

A inteligência artificial no raio-X funciona como a etapa final desse processo. Depois da análise documental e da classificação de risco, o sistema examina fisicamente a imagem da mercadoria. Quando há compatibilidade entre os dados declarados e o conteúdo identificado, a liberação tende a ser mais rápida.

Quando surgem inconsistências, a carga pode ser separada para conferência. Esse desenho permite que a Receita Federal combine agilidade logística com maior capacidade de controle.

Compras internacionais passam por triagem mais rápida

Para o consumidor que compra em sites internacionais, a principal mudança está no prazo de liberação. Encomendas que antes ficavam paradas por longos períodos podem avançar mais rapidamente quando as informações estão corretas e não há sinal de irregularidade.

O ganho de tempo decorre de três fatores. O primeiro é o envio antecipado dos dados da compra. O segundo é a análise de risco antes da chegada ao Brasil. O terceiro é o uso da inteligência artificial para verificar a imagem da encomenda no raio-X.

Esse processo reduz gargalos em remessas consideradas de baixo risco. Ao mesmo tempo, permite que a Receita Federal concentre recursos humanos nos casos com maior probabilidade de fraude, contrabando ou erro de declaração.

A mudança também afeta operadores logísticos, empresas de comércio eletrônico e plataformas internacionais. A previsibilidade nos prazos de entrega melhora a experiência do consumidor, mas aumenta a exigência de dados corretos e compatíveis com a mercadoria enviada.

Para o varejo internacional, o novo modelo reforça a importância da conformidade fiscal. Informações incompletas, valores subdeclarados ou descrições genéricas podem elevar o risco de retenção e fiscalização.

Auditor fiscal continua responsável pela decisão

Apesar do avanço tecnológico, a Receita Federal afirma que a inteligência artificial não tem autonomia para liberar ou barrar mercadorias. O sistema opera como ferramenta de apoio, e não como substituto da autoridade fiscal.

A política de inteligência artificial da Receita estabelece princípios de responsabilidade, transparência e supervisão humana. Isso significa que qualquer alerta gerado pela ferramenta precisa ser avaliado por um servidor antes de resultar em retenção, autuação ou liberação.

Esse ponto é central para reduzir riscos jurídicos e operacionais. Sistemas de inteligência artificial podem cometer erros, interpretar imagens de forma imprecisa ou gerar alertas sem correspondência com uma infração real.

Por essa razão, a decisão administrativa continua vinculada à atuação do auditor fiscal. Cabe ao servidor confirmar a suspeita, solicitar abertura da bagagem, exigir documentação ou liberar o item após análise.

A supervisão humana também é necessária para corrigir vieses e aprimorar o treinamento do sistema. Quanto mais casos são revisados, maior tende a ser a capacidade da ferramenta de diferenciar objetos regulares de itens suspeitos.

Uso de IA no setor público avança sob pressão por eficiência

A aplicação da inteligência artificial pela Receita Federal ocorre em um momento de expansão do uso de tecnologias generativas no setor público. Órgãos federais têm buscado automatizar tarefas repetitivas, melhorar a análise de dados e acelerar serviços de grande volume.

No caso da Receita, a pressão operacional é elevada. A instituição precisa fiscalizar comércio exterior, tributos federais, remessas postais, cargas, bagagens e operações financeiras. O crescimento do comércio eletrônico aumentou ainda mais o desafio.

A adoção de inteligência artificial permite ampliar a capacidade de análise sem depender exclusivamente de aumento de pessoal. Em áreas como aduana, esse ganho pode ter efeito direto sobre arrecadação, segurança e fluidez logística.

Ao mesmo tempo, o uso de IA por órgãos públicos exige governança. Sistemas que afetam cidadãos, empresas e passageiros precisam ter critérios auditáveis, supervisão humana e mecanismos de correção.

A Receita Federal tem mais de 40 projetos de inteligência artificial em diferentes áreas, segundo informações atribuídas a integrantes do órgão. A tendência é que ferramentas semelhantes sejam aplicadas em outras frentes de fiscalização, atendimento e análise de risco.

Expansão pode alcançar outros aeroportos e pontos de entrada

A experiência em Guarulhos é tratada como projeto pioneiro no Brasil. O aeroporto reúne grande volume de operações internacionais e oferece ambiente adequado para testar a integração entre raio-X, análise de dados e inteligência artificial generativa.

Com os resultados iniciais, a tendência é que a Receita Federal avalie a expansão da tecnologia para outros aeroportos, centros de distribuição e pontos de entrada de mercadorias no país.

A ampliação dependerá de infraestrutura, integração com equipamentos existentes, treinamento de equipes e avaliação de custos. Também será necessário garantir que o sistema opere de forma padronizada em diferentes unidades da fiscalização aduaneira.

Para passageiros, a expansão pode significar inspeções mais direcionadas e menos demora na liberação de bagagens regulares. Para empresas, o recado é de que a fiscalização tende a ficar mais automatizada, mais rápida e menos tolerante a inconsistências documentais.

No comércio exterior, a tecnologia reforça uma mudança estrutural. A Receita Federal passa a atuar com mais dados antes da chegada da mercadoria e com maior capacidade de verificar o conteúdo físico depois do desembarque.

Fiscalização digital reforça controle sobre encomendas internacionais

O uso de inteligência artificial no raio-X de Guarulhos consolida uma nova etapa da fiscalização aduaneira no Brasil. A Receita Federal combina informações antecipadas, análise de risco, tecnologia generativa e decisão humana para tentar reduzir atrasos sem abrir mão do controle sobre mercadorias.

O avanço ocorre em meio à popularização das compras internacionais e ao aumento da pressão sobre plataformas digitais, operadores logísticos e consumidores. A fiscalização passa a depender menos da inspeção aleatória e mais da identificação automatizada de sinais de risco.

A mudança também indica que a entrada de produtos no país será cada vez mais acompanhada por sistemas digitais. Para quem declara corretamente e cumpre as regras, a tendência é de liberação mais rápida. Para operações suspeitas, a probabilidade de detecção aumenta.

A Receita Federal aposta na inteligência artificial como instrumento para tornar a aduana mais eficiente, preservar arrecadação e reforçar a segurança na entrada de mercadorias. Em Guarulhos, essa nova lógica já faz parte da rotina de passageiros, encomendas e fiscais, mesmo quando passa despercebida por quem apenas espera a mala ou acompanha o rastreamento de uma compra internacional.

Tags: aduanacomércio exteriorcompras internacionaisencomendas internacionaisGeminiGoogle CloudGuarulhosInteligência Artificialraio-XReceita federalRemessa Conformetecnologia

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