O senador Romário (PL-RJ) comunicou à Presidência do Senado que abrirá mão da remuneração parlamentar durante o período em que estiver nos Estados Unidos trabalhando como comentarista da Copa do Mundo de 2026. O ex-jogador também afirmou que decidiu não se licenciar do mandato para poder votar a favor da proposta que reduz a jornada semanal e busca acabar com a escala de trabalho 6×1.
Em pronunciamento por videoconferência no plenário do Senado na terça-feira, 30 de junho, Romário disse ter enviado um ofício ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), solicitando a suspensão dos pagamentos relativos ao período do Mundial.
A Copa do Mundo começou em 11 de junho e terminará em 19 de julho. Romário está nos Estados Unidos como comentarista da CazéTV, mas permanece formalmente no exercício do mandato parlamentar.
“Voluntariamente, abri mão do meu salário por todo o período em que estarei acompanhando a Copa. Não receberei salário desde o primeiro dia da Copa. O que for pago será devolvido aos cofres públicos”, declarou o senador.
Segundo o ofício citado pela revista Veja, Romário autorizou que qualquer valor eventualmente creditado durante o período seja integralmente descontado de pagamentos posteriores, sem necessidade de uma nova autorização.
Senador diz que não pediu licença por causa da PEC da escala 6×1
Romário afirmou que uma das razões para permanecer no exercício do mandato foi a possibilidade de participar de uma eventual votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019.
A proposta reduz de 44 para 40 horas a jornada semanal máxima, sem diminuição salarial, e estabelece dois dias de descanso por semana. Na prática, o texto busca impedir jornadas regulares organizadas em seis dias de trabalho para apenas um dia de folga.
“O dia da votação ainda não foi marcado. Pelo compromisso que assumi de votar favoravelmente a essa matéria é que decidi não tirar licença do Senado nesse período em que estou acompanhando a Copa do Mundo”, afirmou Romário.
O senador sustentou que as ferramentas de participação remota permitem que ele acompanhe as sessões, faça pronunciamentos e vote mesmo fora do Brasil.
As sessões do Senado têm funcionado em formato semipresencial, permitindo que parlamentares participem por videoconferência e registrem votos pelo sistema eletrônico do Congresso. Romário utilizou esse mecanismo para falar durante a sessão de terça-feira.
Apoio coloca Romário em posição diferente da liderança do PL
A defesa da PEC 221/2019 coloca Romário em posição distinta da estratégia adotada por parte da oposição e por lideranças de seu próprio partido.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado, apresentou a PEC 12/2026 como alternativa à proposta apoiada pelo governo. O texto da oposição prevê um modelo mais flexível de contratação e remuneração conforme as horas trabalhadas, em vez de estabelecer diretamente uma jornada menor sem redução dos salários.
A divergência mostra que o debate sobre a escala 6×1 não está dividido apenas entre governo e oposição. Dentro do próprio PL existem posições diferentes sobre o formato da mudança constitucional e seus efeitos sobre trabalhadores e empresas.
Romário declarou apoio explícito ao fim da escala, apesar de ser filiado ao partido do ex-presidente Jair Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro.
A posição individual do parlamentar, entretanto, não significa que o PL tenha alterado oficialmente sua orientação sobre a proposta.
O que prevê a PEC 221/2019
A PEC 221/2019 altera o artigo 7º da Constituição Federal para reduzir a duração normal do trabalho para até oito horas diárias e 40 horas semanais.
O texto também prevê, como regra, pelo menos dois dias de descanso remunerado por semana, preferencialmente aos sábados e domingos. Atualmente, a Constituição estabelece o limite de oito horas diárias e 44 horas semanais.
A proposta é de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS) e foi apresentada originalmente em 2019. O tema ganhou maior visibilidade nos últimos anos com a mobilização de trabalhadores e organizações que defendem o fim da escala 6×1.
A medida não elimina todas as possibilidades de trabalho aos fins de semana. Setores com funcionamento contínuo, como saúde, segurança, comércio, transporte e serviços essenciais, continuariam dependendo de escalas, acordos coletivos e regulamentações específicas.
O efeito central seria exigir reorganização da jornada para garantir uma quantidade maior de descanso semanal sem redução proporcional do salário.
Proposta ainda precisa avançar no Senado
A PEC ainda não está pronta para produzir efeitos sobre os contratos de trabalho. Uma proposta de emenda à Constituição precisa passar por diversas etapas no Congresso.
No Senado, o texto deve ser analisado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania antes de seguir ao plenário. Para ser aprovado, precisa receber pelo menos 49 votos favoráveis em dois turnos, o equivalente a três quintos dos 81 senadores.
Depois, caso não tenha sido aprovada anteriormente pela Câmara em texto idêntico, a proposta também precisa passar por dois turnos entre os deputados, com apoio mínimo de 308 parlamentares.
A mudança só entra em vigor depois da promulgação pelo Congresso Nacional. O presidente da República não sanciona nem veta emendas constitucionais.
Romário afirmou que ainda não existe data marcada para a votação. Por isso, sua permanência formal no mandato garante apenas a possibilidade de participar caso a proposta seja incluída na pauta.
Romário trabalha como comentarista durante o Mundial
Campeão da Copa do Mundo de 1994, Romário foi contratado pela CazéTV para participar da cobertura do torneio de 2026, realizado nos Estados Unidos, Canadá e México.
A presença do senador no exterior durante o funcionamento do Congresso provocou críticas e questionamentos sobre o recebimento da remuneração parlamentar.
O salário bruto de um senador é de aproximadamente R$ 46,4 mil mensais. Como a permanência de Romário nos Estados Unidos abrange partes de junho e julho, a quantia efetivamente suspensa ou devolvida dependerá dos cálculos administrativos do Senado e dos dias considerados no ofício.
A decisão anunciada não envolve a devolução da remuneração de servidores do gabinete nem o fechamento de suas estruturas parlamentares em Brasília e no Rio de Janeiro.
Segundo a assessoria do senador, os gabinetes permanecerão em funcionamento e Romário continuará participando das atividades legislativas a distância durante a competição.
Ofício prevê desconto caso salário seja depositado
O pedido enviado a Davi Alcolumbre abrange os vencimentos referentes ao período entre 11 de junho e 19 de julho, conforme informado pela Veja.
Romário declarou que, se houver algum pagamento por razões operacionais, o Senado poderá descontar integralmente os valores de remunerações futuras.
A iniciativa é voluntária. Parlamentares que participam das sessões e permanecem no exercício do mandato não perdem automaticamente o salário pelo fato de estarem fora de Brasília.
A possibilidade de presença remota também significa que a ausência física não equivale necessariamente a falta parlamentar. A análise depende do registro de presença, da participação nas sessões e das normas internas adotadas pela Casa.
O anúncio de Romário procura responder às críticas de que o parlamentar receberia normalmente enquanto exercia uma atividade profissional privada no exterior.
Alcolumbre defende Romário após críticas
Depois do pronunciamento, Davi Alcolumbre afirmou que a devolução do salário foi uma decisão pessoal e elogiou a trajetória do ex-jogador.
O presidente do Senado disse que Romário vinha sendo alvo de agressões por acompanhar o Mundial e trabalhar como comentarista.
“Vossa Excelência tomou uma decisão pessoal, individual, sobre a devolução do salário”, afirmou Alcolumbre durante a sessão. O presidente da Casa acrescentou que o senador continuava representando o Brasil em um evento esportivo internacional.
O elogio de Alcolumbre, no entanto, não substitui os procedimentos administrativos necessários para que a remuneração seja efetivamente suspensa ou devolvida.
O Senado deverá processar o ofício apresentado por Romário e calcular os valores correspondentes ao período indicado.
Senador já havia cumprido licença de 120 dias
Romário retornou às atividades legislativas em abril, depois de permanecer afastado por 120 dias entre o final de 2025 e o início de 2026.
Durante a licença, o suplente Bruno Bonetti (PL-RJ) ocupou temporariamente a cadeira no Senado. A assessoria do parlamentar informou que o afastamento anterior estava relacionado a compromissos no Rio de Janeiro.
A licença de 120 dias também tem efeito político relevante. Quando o afastamento por interesse particular supera 120 dias, o suplente pode ser convocado. Períodos menores seguem regras distintas previstas pela Constituição e pelo regimento parlamentar.
Romário afirmou que a decisão de não solicitar novo afastamento durante a Copa está ligada principalmente ao compromisso de votar pela redução da jornada de trabalho.
A permanência no mandato permite que ele participe de outras deliberações que sejam incluídas na pauta até o término do Mundial.
Escala 6×1 ganha espaço no debate eleitoral
A discussão sobre a jornada de trabalho ganhou peso político com a aproximação das eleições de 2026.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoia a redução da jornada sem diminuição dos salários. Parlamentares governistas apresentam a mudança como uma política de saúde, qualidade de vida e distribuição dos ganhos de produtividade.
Representantes empresariais e setores da oposição alertam para possíveis aumentos de custos, especialmente em atividades que dependem de funcionamento diário, mão de obra intensiva e escalas contínuas.
Os defensores da proposta argumentam que a transição pode elevar a produtividade, reduzir afastamentos por problemas de saúde e ampliar o consumo e o tempo disponível para qualificação e convivência familiar.
Os críticos defendem negociações setoriais e maior flexibilidade, sob o argumento de que uma regra constitucional uniforme poderia afetar de maneira desigual empresas de portes e atividades diferentes.
A posição de Romário reforça o grupo de parlamentares do campo conservador que admitem apoiar o fim da escala 6×1, mesmo sem aderir integralmente à agenda econômica do governo.
Votação continua sem data definida
A declaração do senador não altera o estágio formal da PEC 221/2019. A proposta ainda depende de tramitação nas comissões e da decisão da Presidência do Senado sobre sua inclusão na pauta.
O Senado promove debates sobre o tema e reúne posições de trabalhadores, empresários, sindicatos e especialistas antes de uma eventual votação.
Romário afirmou que acompanhará o processo e votará favoravelmente caso a proposta chegue ao plenário durante sua permanência nos Estados Unidos.
Até 19 de julho, ele continuará conciliando a participação remota no Senado com a atuação como comentarista da Copa do Mundo.
A efetivação da renúncia temporária à remuneração dependerá agora do processamento do ofício. Caso ocorram depósitos relativos ao período, o senador autorizou o desconto integral nos pagamentos seguintes.
Fontes e documentos
- Romário defende fim da escala 6×1 e anuncia devolução de salário — Agência Senado — 30 de junho de 2026 — https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/06/30/romario-defende-fim-da-escala-6×1-e-anuncia-devolucao-de-salario
- Notas taquigráficas da sessão deliberativa de 30 de junho de 2026 — Senado Federal — 30 de junho de 2026 — https://www25.senado.leg.br/web/atividade/notas-taquigraficas/-/notas/s/564622
- Proposta de Emenda à Constituição nº 221, de 2019 — Senado Federal — consulta realizada em 1º de julho de 2026 — https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/174386
- Oposição apresenta proposta alternativa à PEC que reduz jornada de trabalho — Agência Senado — 29 de maio de 2026 — https://www12.senado.leg.br/noticias/audios/2026/05/oposicao-apresenta-proposta-alternativa-a-pec-que-reduz-jornada-de-trabalho
Como apuramos
Esta reportagem foi produzida a partir do pronunciamento de Romário registrado nas notas taquigráficas do Senado, da notícia oficial publicada pela Agência Senado, da tramitação da PEC 221/2019 e de informações sobre o ofício enviado à Presidência da Casa. O estágio legislativo da proposta foi verificado no sistema de atividades do Senado Federal.








