O Banco Safra elevou nesta segunda-feira, 27 de julho, as recomendações para as ações da Sabesp (SBSP3) e da Copasa (CSMG3) de neutra para outperform, classificação equivalente a compra, após revisar suas projeções para custos, investimentos, margens e geração de caixa das duas empresas de saneamento. O banco estabeleceu preço-alvo de R$ 33 para a companhia paulista e de R$ 76 para a mineira ao fim de 2026, o que representa potenciais de valorização de aproximadamente 16% e 23%, respectivamente.
A revisão coloca Sabesp e Copasa entre as principais escolhas do Safra no setor de infraestrutura. Na avaliação dos analistas Daniel Travitzky e Ricardo Bello, as empresas combinam receitas relativamente previsíveis, demanda pouco sensível ao ciclo econômico e capacidade de crescimento sustentada pelas metas de universalização dos serviços de água e esgoto.
O banco também considera que a nova estrutura societária das duas companhias abriu espaço para ganhos operacionais que ainda não estariam integralmente refletidos nas cotações. A Sabesp foi privatizada em 2024. A desestatização da Copasa, por sua vez, foi concluída em junho deste ano.
As ações da Copasa (CSMG3) receberam o maior potencial de valorização. O preço-alvo passou de R$ 65 para R$ 76. Para a Sabesp (SBSP3), a estimativa subiu de R$ 29 para R$ 33.
A recomendação não elimina riscos. O Safra aponta que o volume de investimentos, a execução das metas de expansão, a regulação tarifária e o ambiente político nos dois Estados continuarão determinantes para o desempenho das ações da Sabesp e da Copasa.
Copasa tem preço-alvo elevado para R$ 76
A Copasa (CSMG3) ocupa o centro da revisão por apresentar a maior diferença entre a cotação considerada pelo banco e o novo preço-alvo. O potencial de aproximadamente 23% está associado, principalmente, à expectativa de que a companhia mineira consiga acelerar ganhos de eficiência após a transferência do controle ao setor privado.
A desestatização foi concluída em 16 de junho, por meio de uma oferta que movimentou R$ 8,38 bilhões, com preço de R$ 49,03 por ação. Após a operação, a Equatorial passou a deter 30% do capital da empresa, enquanto fundos administrados pela Perfin ficaram com 20,11%.
O Estado de Minas Gerais manteve participação de 5,03%, incluindo uma ação preferencial especial, conhecida como golden share. Esse instrumento preserva poder de veto sobre determinadas alterações estratégicas previstas no estatuto, mas não restabelece o controle estatal sobre a gestão cotidiana.
Para o Safra, a mudança de controle pode destravar uma revisão mais ampla da estrutura de custos da Copasa. O banco incorporou ao modelo os efeitos esperados de medidas de eficiência, novas estratégias comerciais, revisão de contratos e maior disciplina na alocação de capital.
Essas alterações levaram a um aumento de aproximadamente 8% nas estimativas de Ebitda da Copasa para 2027 e 2028. A projeção pode avançar ainda mais conforme os benefícios da privatização sejam confirmados nos resultados trimestrais.
A tese, contudo, exige execução. O investidor acompanhará a velocidade de redução de despesas, a capacidade de ampliar investimentos sem deteriorar o endividamento e o cumprimento das metas estabelecidas nos contratos de concessão.
Municípios sem rede de esgoto abrem frente de expansão
Além da eficiência operacional, o Safra identifica espaço relevante para crescimento da Copasa (CSMG3) dentro da própria área de atuação da companhia.
A empresa fornece água em cerca de 300 municípios mineiros nos quais não opera integralmente os serviços de esgotamento sanitário. A ampliação dessas concessões pode aumentar a base de clientes, elevar os investimentos reconhecidos pela regulação e criar novas fontes de receita.
O avanço depende de acordos com as prefeituras e da regularização dos contratos. Os municípios são titulares dos serviços de saneamento e exercem papel decisivo na definição de operadores, metas, prazos e condições tarifárias.
A expansão do esgoto também exige mais capital do que a simples manutenção dos sistemas existentes. Redes coletoras, estações elevatórias e unidades de tratamento demandam obras de longa duração e podem pressionar inicialmente o fluxo de caixa.
Para o banco, porém, o modelo regulatório oferece instrumentos para remunerar investimentos considerados prudentes. A regulação da Copasa é baseada em reajustes anuais e revisões tarifárias periódicas, que reavaliam custos eficientes, qualidade dos serviços, perdas, investimentos e equilíbrio econômico-financeiro.
Esse mecanismo reduz parte do risco de implantação, desde que os projetos sejam reconhecidos pelo regulador e executados de acordo com os parâmetros estabelecidos. A previsibilidade regulatória é um dos fatores usados pelo Safra para justificar a recomendação de compra.
Sabesp ganha impulso com redução de custos
Na Sabesp (SBSP3), o banco elevou o preço-alvo de R$ 29 para R$ 33, com potencial de valorização estimado em aproximadamente 16%.
A análise incorpora uma redução mais rápida de custos após a privatização, além dos resultados financeiros recentes e do novo cenário macroeconômico. Mesmo com juros, inflação e taxa de desconto mais elevados, o Safra concluiu que os ganhos operacionais compensam parte da pressão exercida pelo custo de capital.
As evidências iniciais aparecem nos números do primeiro trimestre de 2026. A Sabesp registrou queda de 7,7% nos custos e despesas operacionais, uma economia de R$ 188 milhões em comparação com o mesmo período de 2025.
A redução foi impulsionada por menores gastos com pessoal, reorganização de funções, ajustes em benefícios e migração do consumo de energia do mercado cativo para o ambiente de contratação livre. Ao final de março, 86% da energia utilizada pela companhia já estava vinculada ao mercado livre.
O quadro médio de funcionários caiu 13% na comparação anual. A economia com salários, encargos e benefícios alcançou R$ 170 milhões no trimestre.
Esses movimentos contribuíram para que o Ebitda ajustado avançasse 26%, para R$ 3,8 bilhões. O lucro líquido ajustado cresceu 32%, atingindo R$ 1,6 bilhão.
Diante desses dados, o Safra elevou em aproximadamente 3% suas estimativas de Ebitda para a Sabesp em 2027 e 2028. O ajuste é menor do que o aplicado à Copasa, porque parte dos ganhos da empresa paulista já começou a aparecer nos resultados.
Investimentos da Sabesp avançam 31%
A expansão dos investimentos é outro pilar da recomendação para Sabesp e Copasa. No caso da companhia paulista, os desembolsos somaram R$ 3,7 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 31% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Do total, R$ 2,5 bilhões foram destinados a projetos relacionados a esgoto e R$ 1,2 bilhão a sistemas de abastecimento de água. O volume mostra que a redução de custos não ocorreu por meio de uma retração dos investimentos.
A Sabesp trabalha com um programa de cerca de R$ 70 bilhões entre 2024 e 2029. A meta contratual é antecipar a universalização dos serviços nas regiões atendidas para o fim de 2029, quatro anos antes do prazo nacional estabelecido pelo marco legal do saneamento.
Em junho de 2026, os indicadores divulgados pela companhia mostravam que as metas urbanas acumuladas de novas ligações de água haviam sido superadas. No esgoto urbano, o cumprimento estava próximo de 100% do objetivo previsto para o período.
Os maiores desafios permaneciam nas áreas informais e rurais e no tratamento de esgoto. Essas frentes exigem obras mais complexas, regularização territorial, acesso a comunidades de difícil atendimento e coordenação com órgãos municipais e ambientais.
Para os acionistas, o avanço dos investimentos tem efeito duplo. A execução bem-sucedida amplia a base de ativos e a capacidade de geração futura de receitas, mas também aumenta a necessidade de financiamento e eleva a exposição a atrasos, custos de construção e mudanças regulatórias.
Regulação reduz ciclicidade, mas não elimina riscos
O Safra considera o setor de saneamento defensivo porque o consumo de água e os serviços de esgoto apresentam baixa sensibilidade às oscilações do PIB. Famílias e empresas continuam utilizando os serviços mesmo em períodos de desaceleração econômica.
A expansão também está amparada por metas legais. O marco do saneamento determina atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até o fim de 2033.
No caso da Sabesp, os contratos celebrados após a privatização anteciparam o prazo para 2029. Na Copasa, a ampliação das redes dependerá da adaptação dos contratos municipais e da execução da estratégia definida após a mudança de controle.
A estrutura tarifária oferece outra camada de previsibilidade. Sabesp e Copasa estão submetidas a agências reguladoras que analisam custos, investimentos, qualidade e equilíbrio econômico-financeiro antes de definir reajustes ou revisões de tarifas.
Isso não significa que todo investimento será automaticamente incorporado à tarifa. Projetos podem ser questionados, glosados ou reconhecidos em prazos diferentes dos previstos pelas companhias.
Também existe risco de pressão política sobre reajustes. Água e esgoto são serviços essenciais e qualquer aumento tarifário tem repercussão direta sobre consumidores, governos estaduais, prefeituras e órgãos de defesa do usuário.
A capacidade de manter tarifas socialmente acessíveis e, ao mesmo tempo, financiar os investimentos será um dos principais testes para as novas administrações.
Eleições mantêm volatilidade no radar
O ambiente eleitoral de 2026 aparece como um dos riscos indicados pelo Safra. Embora Sabesp e Copasa tenham sido privatizadas, os governos de São Paulo e Minas Gerais continuam acionistas das empresas e preservam ações especiais com direitos sobre decisões estratégicas.
Na Sabesp, o Estado de São Paulo detinha 18% do capital em julho. A Equatorial, investidora de referência, possuía 15%. Os demais acionistas concentravam a maior parcela das ações em circulação.
Na Copasa, o Estado de Minas Gerais ficou com pouco mais de 5% após a oferta. Equatorial e Perfin passaram a ocupar as posições mais relevantes na composição acionária.
A presença estatal pode aumentar a sensibilidade das ações ao debate político, sobretudo em temas como tarifas, investimentos regionais, contratos municipais e regras de governança.
O Safra avalia, entretanto, que os estatutos reformulados, a presença de investidores privados de referência e os mecanismos de proteção societária limitam o espaço para interferências que prejudiquem a estratégia das empresas.
O efeito das eleições sobre Sabesp e Copasa deve depender menos de declarações isoladas e mais de eventuais propostas capazes de alterar contratos, competências regulatórias ou políticas tarifárias.
Novas áreas podem ampliar atuação da Sabesp
Além da execução do programa atual, o banco identifica possibilidade de expansão territorial para a Sabesp (SBSP3).
O mercado acompanha a eventual realização de leilões para incluir novas áreas de São Paulo que não fizeram parte originalmente dos contratos da Unidade Regional de Serviços de Abastecimento de Água Potável e Esgotamento Sanitário do Sudeste, a Urae-1.
Uma ampliação da área de cobertura permitiria à companhia aumentar sua escala, incorporar novos consumidores e diluir despesas administrativas. Em contrapartida, novos contratos exigiriam investimentos adicionais e poderiam ter condições regulatórias diferentes das concessões existentes.
A Sabesp já atende 376 municípios do Estado, abastecendo aproximadamente 30,4 milhões de pessoas com água e 27,5 milhões com coleta de esgoto. O porte da operação favorece ganhos de escala, mas torna a execução mais complexa.
O interesse por novas concessões também poderá aumentar a concorrência com grupos privados que ampliaram presença no saneamento depois do marco legal de 2020. Empresas como Aegea, Iguá e BRK disputam projetos municipais e regionais em diferentes partes do país.
Privatizações colocam execução no centro da tese
A elevação das recomendações para Sabesp e Copasa reflete uma mudança no estágio da tese de investimento. Antes das privatizações, parte relevante da valorização estava associada à expectativa de mudança de controle. Agora, o mercado passa a cobrar resultados concretos.
Na Sabesp, redução de custos, crescimento do Ebitda e aceleração dos investimentos já oferecem referências para medir a execução. A companhia terá de preservar esses ganhos enquanto amplia redes, tratamento e segurança hídrica.
Na Copasa, o processo está em fase inicial. As expectativas do Safra dependem de a nova estrutura de controle transformar oportunidades de eficiência em resultados financeiros, sem comprometer qualidade, tarifas ou capacidade de investimento.
Os preços-alvo de R$ 33 para Sabesp (SBSP3) e R$ 76 para Copasa (CSMG3) incorporam esse cenário de melhora, mas permanecem sujeitos a juros, inflação, custo de capital, revisões regulatórias e desempenho operacional.
A recomendação de compra indica que o banco considera favorável a relação entre riscos e retorno potencial. Não representa, porém, garantia de que as ações alcançarão os valores projetados até o fim do ano.
Para os investidores, os próximos balanços serão decisivos para verificar se Sabesp e Copasa conseguem combinar expansão, disciplina financeira e ganhos de margem. A resposta determinará se a valorização esperada pelo Safra será sustentada por resultados ou permanecerá dependente das expectativas abertas pelas privatizações.









