O mercado financeiro entra em uma semana decisiva para definir se o Banco Central terá espaço para reduzir novamente a Selic antes do fim de 2026. Entre terça-feira, 22, e sexta-feira, 25 de setembro, serão divulgados a Ata da última reunião do Copom, o Relatório de Política Monetária e o IPCA-15 de setembro, três referências capazes de alterar as expectativas para juros, inflação e atividade econômica.
A importância da sequência aumentou nesta segunda-feira, 21, depois que o Relatório Focus passou a mostrar Selic de 13,50% no encerramento de 2026, abaixo dos 13,75% projetados anteriormente. Como a taxa básica está atualmente em 13,75%, a mediana do mercado passou a incorporar uma redução líquida adicional de 0,25 ponto percentual até dezembro.
O movimento ocorre cinco dias depois de o Copom cortar a Selic de 14% para 13,75%, na quinta redução consecutiva do atual ciclo. Em sentido contrário, a expectativa para o IPCA de 2026 subiu de 4,90% para 4,92%, enquanto a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto recuou de 1,89% para 1,88%.
O resultado é um cenário dividido: a desaceleração da atividade e o nível ainda elevado dos juros favorecem alguma flexibilização adicional, mas as expectativas de inflação permanecem acima da faixa de tolerância da meta e limitam a velocidade do processo.
Ata do Copom será divulgada às 11h de terça-feira
O primeiro documento da semana será a Ata da 281ª reunião do Comitê de Política Monetária, marcada pelo Banco Central para terça-feira, 22 de setembro, às 11h.
O texto detalhará a discussão que levou o Comitê a reduzir a taxa básica para 13,75% na reunião encerrada em 16 de setembro.
A atenção estará concentrada na avaliação do Copom sobre atividade econômica, mercado de trabalho, inflação corrente, medidas subjacentes de preços, expectativas e cenário externo.
Mais importante será a forma como o documento tratará os próximos passos da política monetária.
O histórico oficial do Banco Central mostra que a Selic começou 2026 em 15% ao ano. Depois da manutenção em janeiro, o ciclo de cortes começou em março, com redução para 14,75%. A taxa caiu posteriormente para 14,50% em abril, 14,25% em junho, 14% em agosto e 13,75% em setembro.
A redução acumulada desde março é de 1,25 ponto percentual.
Se a previsão atual do Focus de 13,50% para dezembro se confirmar, o corte total no ano chegará a 1,50 ponto percentual. Isso significa que 83,3% da redução atualmente projetada pelo mercado já ocorreu, restando o equivalente a 0,25 ponto.
Esse cálculo descreve apenas a trajetória implícita nas expectativas atuais. Não representa compromisso do Banco Central com uma nova redução.
Focus projeta apenas mais 0,25 ponto de corte
A mudança da mediana de 13,75% para 13,50% é relevante porque coloca a taxa esperada para dezembro abaixo do patamar atualmente vigente.
Na prática, o mercado passou a trabalhar com algum alívio adicional.
A magnitude, porém, é pequena.
Depois de cinco cortes consecutivos, a expectativa predominante registrada pelo Focus sugere que o ciclo está mais próximo do fim do que do início, caso as projeções atuais sejam confirmadas.
A principal restrição continua sendo a inflação.
O Focus desta segunda-feira elevou a previsão do IPCA de 2026 para 4,92%.
A meta de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. O limite superior, portanto, é de 4,5%.
A projeção do mercado está 0,42 ponto percentual acima desse limite e 1,92 ponto percentual acima do centro da meta.
Para 2027, a mediana permanece em 4,30%, também acima do objetivo central de 3%.
Esse quadro ajuda a explicar por que o mercado não projeta uma sequência agressiva de reduções mesmo diante da desaceleração da atividade.
Relatório de Política Monetária sai na quinta-feira
O segundo grande evento ocorre na quinta-feira, 24 de setembro, às 11h, quando o Banco Central publica o Relatório de Política Monetária referente ao terceiro trimestre.
O documento tem função diferente do Focus.
O Focus reúne expectativas enviadas por instituições participantes do Sistema de Expectativas de Mercado. O Relatório de Política Monetária apresenta a análise e as projeções produzidas pelo próprio Banco Central.
A publicação deverá atualizar a avaliação da autoridade monetária sobre inflação, crescimento econômico, mercado de trabalho, crédito, condições financeiras, cenário internacional e balanço de riscos.
As projeções oficiais de inflação serão especialmente acompanhadas.
Se o cenário do Banco Central mostrar maior convergência dos preços para a meta, aumentará a discussão sobre espaço para uma redução adicional dos juros. Se as projeções permanecerem pressionadas, o Copom terá argumento para avançar de forma mais cautelosa.
O relatório também permitirá comparar a leitura da autoridade monetária com as estimativas do setor privado.
Mercado está mais pessimista com PIB que Fazenda e FMI
O crescimento econômico será outro ponto central do documento.
O Focus desta segunda-feira reduziu para 1,88% a expectativa mediana de expansão do PIB brasileiro em 2026.
A projeção é inferior às estimativas mais recentes do Ministério da Fazenda e do Fundo Monetário Internacional.
A Secretaria de Política Econômica manteve, no Boletim Macrofiscal de julho, previsão de 2,3% para o crescimento brasileiro em 2026.
O FMI, na Consulta do Artigo IV concluída em julho, projeta expansão de 2,4% neste ano e crescimento próximo de 2,5% no médio prazo.
A diferença é significativa.
A projeção do mercado está 0,42 ponto percentual abaixo da estimativa da Fazenda e 0,52 ponto abaixo da previsão do FMI.
Essas divergências mostram a incerteza em torno da intensidade da desaceleração brasileira.
Para a política monetária, crescimento menor pode contribuir para reduzir pressões sobre preços, mas não determina sozinho a trajetória dos juros. O Copom também acompanha emprego, salários, inflação de serviços, expectativas e condições financeiras.
FMI vê economia resiliente, mas juros ainda restritivos
O diagnóstico mais recente do FMI descreve a economia brasileira como resiliente diante dos choques internacionais.
O organismo projeta crescimento de 2,4% em 2026 e considera que os cortes de juros realizados pelo Banco Central são compatíveis com o regime de metas de inflação.
Ao mesmo tempo, o Fundo avalia que a política monetária continua restritiva e defende flexibilidade para os próximos movimentos diante das incertezas globais e das pressões inflacionárias associadas principalmente aos preços de energia.
O FMI projeta inflação de 5,6% no fim de 2026 em sua metodologia, acima da mediana atual do Focus.
As duas estimativas não devem ser comparadas mecanicamente sem considerar metodologia, data de elaboração e hipóteses utilizadas.
Ainda assim, ambas mostram que a inflação permanece como um dos principais condicionantes da política monetária.
Estudo sobre tarifas dos EUA precisa ser lido no contexto de 2025
O cenário externo também deverá aparecer no Relatório de Política Monetária.
Um dos elementos presentes nas análises econômicas é o impacto das tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos às exportações brasileiras.
Em estudo divulgado em setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica estimou que o conjunto de tarifas adicionais então vigente poderia reduzir o nível do PIB brasileiro em aproximadamente 0,2 ponto percentual entre agosto de 2025 e dezembro de 2026, na comparação com um cenário sem essas medidas.
A estimativa também apontava impacto negativo de 0,2 ponto sobre investimento e de 0,1 ponto sobre exportações líquidas, além de efeitos menores sobre inflação, câmbio e desemprego.
Esses números devem ser tratados como resultado de uma simulação realizada naquele momento, com base na estrutura tarifária e nas hipóteses utilizadas pela SPE em 2025.
Não representam necessariamente uma fotografia das tarifas vigentes em setembro de 2026 nem uma nova previsão produzida nesta semana.
Essa distinção evita transformar um estudo de cenário em dado corrente.
IPCA-15 será divulgado na sexta-feira
O terceiro teste da semana será o IPCA-15 de setembro, que o IBGE divulgará na sexta-feira, 25.
O indicador é calculado pela mesma metodologia geral do IPCA, mas possui período de coleta e abrangência geográfica diferentes.
Para o resultado de setembro de 2026, os preços foram coletados entre 15 de agosto e 15 de setembro e comparados com os valores observados entre 16 de julho e 14 de agosto.
Isso significa que acontecimentos posteriores ao encerramento da coleta não podem ser apresentados como responsáveis diretos pelo índice que será divulgado na sexta-feira.
No mês anterior, o IPCA-15 registrou deflação de 0,40% em agosto.
A leitura de setembro deverá ser analisada não apenas pelo resultado cheio, mas também pela composição dos grupos e pela evolução das medidas mais associadas à inflação persistente.
Serviços, preços administrados e componentes subjacentes estarão no radar porque ajudam a avaliar se a desinflação está se espalhando pela economia.
Não existe número do IPCA-15 que determine automaticamente a Selic
A divulgação de sexta-feira terá potencial para alterar as expectativas de juros, mas não existe um nível oficial do IPCA-15 que determine automaticamente a decisão do Copom.
Uma leitura abaixo ou acima das previsões do mercado pode movimentar a curva de juros, especialmente se a surpresa vier acompanhada de mudança relevante na composição do índice.
O Banco Central, porém, toma suas decisões com base em um conjunto amplo de informações.
Além da inflação corrente, considera projeções para o horizonte relevante, expectativas, atividade, mercado de trabalho, crédito, cenário fiscal, câmbio e ambiente internacional.
Por isso, não é metodologicamente correto afirmar que um IPCA-15 abaixo de determinada taxa garantirá um novo corte ou que uma leitura acima de outro patamar eliminará essa possibilidade.
O impacto depende da natureza da surpresa e da forma como ela altera o cenário prospectivo.
Próximo Copom ocorre em 3 e 4 de novembro
Depois da semana de divulgações, o mercado terá pouco mais de um mês para assimilar novos indicadores antes da próxima reunião do Comitê.
O calendário oficial do Banco Central marca o próximo Copom para 3 e 4 de novembro.
Até lá, estarão disponíveis novos dados de inflação, atividade econômica, mercado de trabalho, crédito e expectativas.
A Ata desta terça-feira fornecerá a explicação detalhada da decisão de setembro. O Relatório de Política Monetária, na quinta, apresentará as projeções atualizadas do Banco Central. E o IPCA-15, na sexta, adicionará uma nova leitura da inflação corrente.
A combinação dos três documentos ajudará a determinar se a projeção de Selic a 13,50% em dezembro continuará predominante.
O cenário atual mostra um Banco Central que já reduziu a taxa em 1,25 ponto percentual desde março e um mercado que, por enquanto, espera apenas mais 0,25 ponto de flexibilização.
Ao mesmo tempo, a inflação projetada de 4,92% permanece acima do limite superior da faixa da meta, enquanto a expectativa de crescimento do PIB caiu para 1,88%.
Essa é a equação que dominará a semana: atividade perdendo força suficiente para justificar juros menores, mas inflação ainda alta o bastante para impedir uma flexibilização acelerada.
Fontes:
Banco Central do Brasil — calendário oficial de divulgações e reuniões do Comitê de Política Monetária
Banco Central do Brasil — histórico oficial da Taxa Selic e decisões do Copom em 2026
Banco Central do Brasil — Relatório Focus divulgado em 21 de setembro de 2026 e Sistema de Expectativas de Mercado
Banco Central do Brasil — informações institucionais e calendário do Relatório de Política Monetária
IBGE — calendário, metodologia, período de coleta e resultados do IPCA-15
Fundo Monetário Internacional — Consulta do Artigo IV de 2026 para o Brasil
Ministério da Fazenda — Boletim Macrofiscal de julho de 2026, da Secretaria de Política Econômica
Ministério da Fazenda — estudo da Secretaria de Política Econômica divulgado em setembro de 2025 sobre os efeitos das tarifas adicionais dos Estados Unidos









