O Banco Central reduziu de 2% para 1,8% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026 e estimou uma expansão de apenas 1,4% em 2027, reforçando a percepção de que os efeitos acumulados dos juros elevados já produzem uma desaceleração mais ampla da economia. Ao mesmo tempo, a autoridade monetária projeta uma convergência lenta da inflação para a meta, fator que limita a velocidade do ciclo de redução da taxa básica.
As estimativas constam do Relatório de PolÃtica Monetária divulgado nesta quinta-feira (24). O documento combina duas mensagens que delimitam o cenário para os próximos trimestres: a atividade econômica está perdendo força, mas a inflação ainda não cedeu em velocidade suficiente para permitir uma flexibilização mais rápida da polÃtica monetária.
A Selic está em 13,75% ao ano, depois de cinco reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual promovidas pelo Comitê de PolÃtica Monetária (Copom). Portanto, o Banco Central já se encontra em um ciclo de cortes de juros, mas considera que o nÃvel da taxa básica permanece restritivo e que os efeitos defasados do perÃodo de juros elevados continuam sendo transmitidos para atividade, crédito e consumo.
A revisão do PIB incorpora o desempenho menos favorável da economia no segundo trimestre e os primeiros indicadores referentes ao terceiro trimestre. Dados recentes reforçaram a percepção de perda de velocidade da atividade, também observada na indústria, nos serviços, no consumo das famÃlias e no mercado de crédito.
A nova projeção também aproxima o diagnóstico do Banco Central daquele predominante entre instituições financeiras. No Focus divulgado na segunda-feira (21), a mediana das estimativas apontava crescimento de 1,43% para 2027, praticamente em linha com os 1,4% projetados pelo BC. A distância é significativamente maior em relação às estimativas oficiais do Ministério da Fazenda.
BC e mercado se afastam da projeção do governo para 2027
O Ministério da Fazenda também reduziu sua estimativa de crescimento para 2027, mas ainda trabalha com expansão de 2,3%. Isso significa uma diferença de 0,9 ponto percentual em relação à projeção do Banco Central.
A divergência está principalmente nas premissas sobre a velocidade com que as condições monetárias e financeiras serão transmitidas para a economia. O Banco Central considera que a atividade continuará limitada pelo nÃvel ainda elevado da Selic, pela reduzida ociosidade dos fatores de produção e por um cenário externo marcado por elevada incerteza.
A instituição também prevê contribuição mais limitada da agropecuária e da indústria extrativa em 2027, além de apontar riscos climáticos associados à possibilidade de um El Niño intenso e condições financeiras desfavoráveis para produtores, como custos elevados e alto endividamento.
A leitura do BC não significa que os juros estejam subindo. Ao contrário: o Copom já iniciou um processo gradual de redução da Selic. O ponto central do relatório é que, mesmo depois dos cortes realizados, a taxa permanece em patamar suficientemente elevado para exercer efeito contracionista sobre a economia.
Essa distinção é importante porque os efeitos da polÃtica monetária ocorrem com defasagem. FamÃlias e empresas continuam sentindo no presente as consequências do perÃodo anterior de juros mais altos por meio do custo dos financiamentos, do refinanciamento de dÃvidas e de critérios mais restritivos para concessão de crédito.
Inflação converge lentamente e limita cortes mais rápidos
A desaceleração da atividade ainda não foi suficiente para produzir convergência rápida da inflação ao centro da meta. Segundo o relatório, o Banco Central não espera que a inflação atinja o objetivo central de 3% antes de março de 2029, último perÃodo considerado em suas projeções.
No primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante para as decisões da polÃtica monetária, a inflação projetada pelo BC está em 3,2%. Para o primeiro trimestre de 2029, a estimativa é de 3,1%, ainda ligeiramente acima do centro da meta.
O Banco Central também elevou de 79% para 90% a probabilidade calculada de o IPCA superar o limite superior do intervalo de tolerância em 2026. Para 2027, a probabilidade passou de 28% para 33%.
Esses números, porém, não representam automaticamente a probabilidade de descumprimento formal da meta. No regime contÃnuo atualmente em vigor, a meta é considerada descumprida quando a inflação permanece durante seis meses consecutivos fora do intervalo de tolerância, que vai de 1,5% a 4,5%.
A combinação entre inflação ainda resistente e desaceleração econômica explica a estratégia gradual adotada pelo Copom. A perda de força da atividade cria condições para continuar reduzindo a Selic, mas a inflação projetada acima do centro da meta impede que o Banco Central acelere necessariamente o ritmo dos cortes.
Assim, não há contradição entre a redução atual dos juros e a avaliação de que a polÃtica monetária permanece restritiva. A Selic pode cair e, ao mesmo tempo, continuar em um patamar suficientemente alto para conter consumo, investimento e crédito.
Crédito mostra efeitos defasados dos juros elevados
O mercado de crédito aparece no relatório como um dos canais mais visÃveis da transmissão da polÃtica monetária. O Banco Central elevou marginalmente a projeção de crescimento nominal do saldo total de crédito em 2026, de 9% para 9,1%, mas reduziu a expectativa para algumas modalidades de recursos livres, justamente aquelas mais diretamente afetadas pelas condições de mercado.
A projeção de expansão do crédito com recursos livres caiu para 7,2%, com perda de força especialmente nas operações destinadas à s pessoas fÃsicas. O BC identifica também maior participação de modalidades emergenciais ou de curto prazo entre as contratações realizadas por famÃlias e empresas.
Em sentido contrário, o crédito direcionado continua apresentando desempenho mais forte, sustentado por financiamento imobiliário e fundos garantidores voltados às empresas. Para 2027, o Banco Central projeta crescimento de 8,8% do saldo agregado de crédito.
A diferença entre crédito livre e direcionado mostra que a desaceleração não ocorre de maneira uniforme. Linhas dependentes diretamente dos juros de mercado reagem com maior intensidade ao nÃvel ainda restritivo da Selic, enquanto operações subsidiadas, direcionadas ou cobertas por mecanismos de garantia podem manter expansão mesmo nesse ambiente.
O comprometimento da renda das famÃlias e a inadimplência também permanecem elevados, segundo a avaliação do Banco Central. Esse quadro reduz a capacidade de transformar ganhos de renda em consumo adicional e reforça os efeitos defasados da polÃtica monetária sobre a demanda.
Fiscal e cenário externo aumentam a incerteza para juros
Outro ponto observado pelo Banco Central é a polÃtica fiscal. O relatório registra divergências importantes entre as projeções oficiais e as estimativas de mercado para o resultado primário de 2027 e para a trajetória da dÃvida pública.
Na avaliação da autoridade monetária, estÃmulos ao consumo podem dificultar o processo de redução da inflação e, consequentemente, restringir o espaço para cortes mais rápidos da Selic. Isso não significa interrupção necessária do ciclo de flexibilização, mas indica que sua velocidade dependerá do comportamento dos preços, das expectativas e das contas públicas.
O cenário externo adiciona outra camada de risco. O Banco Central elevou para US$ 60 bilhões sua projeção de déficit em transações correntes em 2026, equivalente a cerca de 2,3% do PIB. Para 2027, prevê déficit menor, de US$ 55 bilhões, ou aproximadamente 2% do PIB.
Ao mesmo tempo, estima ingresso lÃquido de US$ 75 bilhões em investimento direto no paÃs em cada um dos dois anos. Pelas projeções do BC, portanto, esses fluxos seriam superiores ao déficit em conta corrente.
A autoridade monetária também menciona riscos associados à s polÃticas comerciais adotadas por importantes parceiros do Brasil, aos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio e a eventos climáticos como o El Niño.
O relatório desenha, assim, um quadro de desaceleração econômica durante um ciclo gradual de redução de juros, e não de aumento do aperto monetário. Embora a Selic já tenha sido cortada cinco vezes e esteja em 13,75% ao ano, o Banco Central considera que ela continua em nÃvel restritivo e que seus efeitos defasados ainda pesam sobre crédito, consumo e atividade.
Para os próximos passos do Copom, essa combinação é decisiva: a economia mais fraca favorece a continuidade da flexibilização monetária, enquanto a inflação ainda acima do centro da meta, as expectativas e os riscos fiscais limitam a velocidade com que a Selic pode ser reduzida.
Fontes:
Banco Central do Brasil — Relatório de PolÃtica Monetária de setembro de 2026
Banco Central do Brasil — Focus – Relatório de Mercado de 21 de setembro de 2026
Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica — indicadores de atividade e inflação
Ministério da Fazenda — projeções macroeconômicas de setembro de 2026









