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SLC Agrícola (SLCE3) reduz compra de terras em MT, mas preço por hectare mantém cautela sobre a ação

Bank of America elevou o preço-alvo da SLC Agrícola (SLCE3), mas manteve recomendação de venda ao avaliar que a nova estrutura da aquisição alivia o caixa sem eliminar dúvidas sobre valuation, arrendamentos e commodities.

por Gabriel Monteiro
10/07/2026 às 12h52
em Mercados
Slc Agrícola (Slce3) Reduz Compra De Terras Em Mt, Mas Preço Por Hectare Mantém Cautela Sobre A Ação - Gazeta Mercantil

Reprodução

A SLC Agrícola (SLCE3) conseguiu reduzir o tamanho do cheque na compra de terras em Mato Grosso, mas não afastou completamente a desconfiança do mercado sobre a operação. A revisão do acordo com o Grupo Radar transformou uma aquisição inicialmente estimada em R$ 1,85 bilhão em uma transação de R$ 669 milhões, mas manteve no radar dos analistas o preço pago por hectare, a dependência de áreas arrendadas e o cenário ainda pressionado para commodities agrícolas.

O Bank of America revisou o preço-alvo das ações da SLC Agrícola (SLCE3) de R$ 13,50 para R$ 14,50 após a nova configuração do negócio. A melhora reflete principalmente o menor impacto esperado sobre o caixa da companhia. Ainda assim, o banco manteve recomendação underperform, equivalente a venda, por entender que a operação continua cara quando medida pelo valor da terra agricultável e que o ambiente para geração de caixa segue desafiador.

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O ponto central da mudança está no tamanho da aquisição. Em vez de comprar a totalidade do chamado Bloco Mato Grosso, composto por cerca de 41,2 mil hectares físicos e aproximadamente 28 mil hectares agricultáveis, a SLC Agrícola (SLCE3) ficará com 8,9 mil hectares agricultáveis. O valor total da transação será de R$ 669,04 milhões, incluindo infraestrutura existente nas propriedades, como silos, algodoeira e outras benfeitorias operacionais.

Descontada a infraestrutura, estimada em R$ 29,7 milhões, o valor atribuído à terra nua útil/agricultável soma R$ 639,3 milhões. Isso equivale a cerca de R$ 72 mil por hectare agricultável. É esse número que sustenta a cautela do BofA: embora o desembolso total tenha caído, o preço unitário implícito ficou acima do valuation da proposta original.

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Compra menor reduz pressão sobre o caixa

A nova composição do acordo resolve parte do problema financeiro imediato. A proposta inicial, de R$ 1,85 bilhão, aumentava a preocupação com alavancagem, fluxo de caixa e flexibilidade financeira da SLC Agrícola (SLCE3) em um momento de margens mais apertadas no agronegócio.

Pela nova estrutura, a companhia pagará R$ 255,15 milhões na assinatura do acordo, em conta vinculada, e o saldo de R$ 413,89 milhões até 30 de outubro de 2026. A conclusão da transação ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), quando aplicável, e do cumprimento das condições previstas nos documentos definitivos.

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Para a empresa, a compra tem uma lógica operacional clara. A SLC Agrícola (SLCE3) já cultivava soja, milho e algodão nessas áreas por meio de contratos de arrendamento. Ao adquirir parte das terras, passa a converter uma fração de sua operação arrendada em base própria, reduzindo a exposição a renegociações futuras de aluguel rural e ampliando o controle sobre ativos estratégicos.

O problema é que essa conversão foi parcial. Dos 17,6 mil hectares que a SLC operava no bloco, apenas 8,9 mil hectares passarão a ser próprios. Os 8,7 mil hectares restantes continuarão sob arrendamento, com contratos de diferentes prazos e condições.

Arrendamentos seguem como risco operacional

A manutenção de áreas arrendadas é um dos pontos que impedem uma leitura plenamente positiva da operação. A SLC Agrícola (SLCE3) continuará dependente de terras que agora ficarão sob controle de outros proprietários, incluindo grupos que também participaram da composição do Bloco Mato Grosso.

Segundo a estrutura divulgada ao mercado, 5,3 mil hectares seguirão arrendados até a safra 2029/30. Outros 900 hectares permanecem arrendados até a safra 2026/27. Uma área de 2,5 mil hectares será recontratada com a nova proprietária, Santa Maria Holding, por mais 15 anos após o término do contrato atual, ao custo de 19,5 sacas por hectare.

A leitura dos analistas é que a SLC Agrícola (SLCE3) reduziu o risco de desembolso, mas não eliminou o risco de continuidade operacional em parte das áreas. No médio prazo, a companhia poderá ter de renegociar contratos, buscar novas propriedades ou aceitar custos maiores de arrendamento para manter sua área plantada.

Esse ponto é relevante porque o modelo de grandes produtores agrícolas depende de escala. A rentabilidade vem da combinação entre área, produtividade, tecnologia, controle de custos, logística e hedge de preços. Qualquer perda de área operacional ou aumento estrutural no custo de arrendamento pode afetar a margem.

Preço da terra pesa na conta

A SLC Agrícola (SLCE3) tem uma característica que sempre divide o mercado: é ao mesmo tempo uma produtora de grãos e algodão e uma companhia com patrimônio relevante em terras. Em períodos de valorização fundiária, esse ativo pode funcionar como proteção. Em ciclos de commodities mais fracos, porém, o mercado tende a olhar menos para o valor patrimonial e mais para a geração de caixa.

É nesse ponto que o preço de R$ 72 mil por hectare agricultável se torna sensível. A compra aumenta a base própria, mas consome capital em um ciclo no qual soja, milho e algodão enfrentam pressão de preços internacionais, custos elevados e margens menos confortáveis do que em anos de boom agrícola.

Para o Bank of America, a aquisição menor é melhor do que a proposta original porque preserva caixa. Mas o banco não vê a revisão como suficiente para mudar a tese de investimento. A ação ainda carrega riscos ligados ao ciclo de commodities, ao custo de capital e à necessidade de manter disciplina financeira.

A avaliação cautelosa também reflete a diferença entre reduzir um problema e criar valor de forma clara. Ao cortar o desembolso total, a SLC diminui a pressão imediata. Mas, ao pagar um valor por hectare considerado elevado e manter dependência de arrendamentos, a companhia não transforma a transação em um gatilho inequívoco de valorização das ações.

Estratégia faz sentido, mas exige execução

Do ponto de vista estratégico, a compra de terras em áreas já operadas reduz incertezas produtivas. A empresa conhece o solo, a produtividade, a infraestrutura e a logística das propriedades. Isso diminui o risco de integração, comum em aquisições agrícolas feitas em novas fronteiras.

A presença de silos, algodoeira e outras benfeitorias também tem valor operacional. Em propriedades agrícolas de grande escala, infraestrutura instalada pode reduzir gargalos, melhorar eficiência no escoamento e dar mais controle sobre etapas críticas da safra, especialmente no algodão, cultura que exige processamento e armazenagem adequados.

Ainda assim, o retorno da operação dependerá da capacidade da companhia de transformar controle fundiário em margem. A compra só será bem recebida pelo mercado se contribuir para estabilidade operacional, ganhos de produtividade ou redução de custos no médio prazo.

Para investidores, o ponto de acompanhamento será a relação entre geração de caixa e investimentos. Se a companhia conseguir manter disciplina de capital e preservar balanço, a aquisição pode ser digerida com menor ruído. Se o ciclo de commodities continuar desfavorável, o mercado tende a cobrar mais fortemente o preço pago e a necessidade de capital imobilizado em terra.

Mercado olha para commodities e alavancagem

O pano de fundo continua desafiador para o agronegócio listado na Bolsa. A SLC Agrícola (SLCE3) está exposta a soja, milho e algodão, commodities cotadas em mercados internacionais e sensíveis a câmbio, clima, oferta global, demanda chinesa e estoques. Em um ambiente de preços menos favoráveis, a disciplina de custos ganha peso maior.

Leia também: Day trade hoje: Ágora indica compra de Embraer (EMBJ3) e venda de Assaí (ASAI3)

A ação também sofre com a percepção de que empresas agrícolas podem ter grande valor patrimonial, mas menor visibilidade de lucro em ciclos de baixa. Esse desconto é comum em companhias intensivas em terra, porque o investidor precisa avaliar simultaneamente ativo imobiliário, operação agrícola e fluxo de caixa.

A revisão do BofA mostra exatamente essa tensão. O banco reconhece que a compra menor melhora a equação financeira, mas mantém a recomendação negativa porque o conjunto da tese ainda não ficou suficientemente atrativo. Em outras palavras, o problema deixou de ser o tamanho absoluto do desembolso e passou a ser a qualidade do retorno esperado sobre o capital empregado.

Ação precisa de mais do que compra menor

A elevação do preço-alvo para R$ 14,50 indica que o novo acordo retirou parte do risco que estava embutido nas projeções. Mas a manutenção da recomendação de venda mostra que o mercado ainda quer sinais mais fortes de geração de valor.

Para que a percepção sobre a SLC Agrícola (SLCE3) melhore de forma consistente, a companhia precisará demonstrar que a compra das terras aumenta eficiência operacional sem comprometer caixa, endividamento e capacidade de atravessar um ciclo menos favorável de commodities.

A transação em Mato Grosso, portanto, não é negativa por si só. Ela resolve um impasse criado pelo exercício concorrente de direitos de preferência e preserva parte de uma área operacional relevante para a companhia. O ponto é que, para o investidor, a pergunta principal continua sem resposta definitiva: o retorno econômico da terra comprada compensará o capital imobilizado?

Enquanto essa resposta não aparecer nos resultados, a ação tende a seguir dependente de três variáveis: preço das commodities, custo de arrendamento e evolução do caixa. Foi por isso que o BofA melhorou o alvo, mas manteve o freio acionado.

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