O Banco Safra revisou para baixo sua avaliação sobre as ações de frigoríficos e passou a recomendar posição neutra para JBS (JBSS32) e MBRF (MBRF3), mantendo a Minerva Foods (BEEF3) como a única indicação de compra entre as três companhias. A instituição também cortou os preços-alvo dos papéis, em uma revisão marcada pela recuperação mais lenta das margens de carne bovina nos Estados Unidos e por sinais de enfraquecimento dos ciclos favoráveis de aves e suínos.
Para a JBS, o preço-alvo da ação negociada nos Estados Unidos foi reduzido de US$ 22 para US$ 15. No caso da MBRF, a estimativa caiu de R$ 30,50 para R$ 19 por ação. A avaliação da Minerva também sofreu um ajuste expressivo, de R$ 8,50 para R$ 5,50, embora o Safra tenha preservado a recomendação de compra.
A leitura do banco mostra que a escassez global de carne bovina não beneficia igualmente todas as empresas. Companhias expostas ao processamento nos Estados Unidos enfrentam custos elevados para adquirir gado, enquanto as operações instaladas na América do Sul contam com maior disponibilidade relativa de animais e custos de produção mais competitivos.
Essa diferença ajuda a explicar a preferência pela Minerva, concentrada em carne bovina sul-americana, e a maior cautela com JBS e MBRF, que possuem operações relevantes no mercado norte-americano.
Recomendações do Safra para os frigoríficos
JBS (JBSS32)
Recomendação: neutra
Preço-alvo anterior: US$ 22
Novo preço-alvo: US$ 15
Principal risco: margens pressionadas na carne bovina dos Estados Unidos
MBRF (MBRF3)
Recomendação: neutra
Preço-alvo anterior: R$ 30,50
Novo preço-alvo: R$ 19
Principal risco: exposição ao ciclo bovino norte-americano e alavancagem elevada
Minerva Foods (BEEF3)
Recomendação: compra
Preço-alvo anterior: R$ 8,50
Novo preço-alvo: R$ 5,50
Principal vantagem: maior exposição à oferta de gado da América do Sul
Os valores definidos para JBS e para as companhias brasileiras não são diretamente comparáveis. O preço-alvo em dólares se refere à ação da JBS negociada nos Estados Unidos, enquanto o JBSS32 representa o recibo depositário negociado na B3, cujo preço também sofre influência do câmbio e da proporção entre o BDR e o ativo estrangeiro.
Escassez de gado pressiona frigoríficos nos Estados Unidos
O principal ponto de preocupação do Safra é a demora na recuperação do ciclo pecuário norte-americano.
O rebanho dos Estados Unidos encerrou 2025 com 86,2 milhões de bovinos e bezerros, abaixo dos 86,5 milhões registrados um ano antes. A quantidade de vacas destinadas à produção de carne caiu 1%, para 27,6 milhões de cabeças, enquanto a produção de bezerros recuou 2%.
A redução da oferta eleva o preço pago pelos frigoríficos aos pecuaristas. Embora a carne mais cara possa favorecer a receita, as processadoras enfrentam dificuldade para repassar integralmente o aumento da matéria-prima aos clientes.
O resultado é uma compressão da diferença entre o preço da carne vendida e o custo do animal comprado para abate. Essa relação determina uma parcela importante da rentabilidade das operações de processamento.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos prevê que a oferta continuará restrita. A produção de carne bovina deverá permanecer pressionada, e os preços do gado devem continuar elevados durante o processo de recomposição do rebanho.
A recuperação é lenta porque o pecuarista precisa reter fêmeas que anteriormente seriam destinadas ao abate. Esses animais deixam de gerar oferta imediata de carne para formar a próxima geração do rebanho.
Na avaliação do Safra, uma melhora significativa das margens das processadoras pode demorar até 2028.
JBS enfrenta pressão na carne bovina norte-americana
A JBS é a companhia mais diversificada entre as três analisadas. O grupo possui operações em carne bovina, aves, suínos, alimentos preparados, aquicultura e produtos de maior valor agregado em diferentes regiões.
Essa diversificação reduz a dependência de um único ciclo, mas não elimina a relevância do negócio de carne bovina nos Estados Unidos.
No primeiro trimestre de 2026, a unidade Beef North America registrou receita de aproximadamente US$ 7,17 bilhões, com crescimento de 12% na comparação anual. Apesar da expansão das vendas, o Ebitda ajustado ficou negativo em US$ 267 milhões.
O desempenho refletiu o custo elevado dos animais, a baixa disponibilidade de gado, interrupções operacionais e uma greve em uma unidade no Colorado.
O lucro líquido consolidado da JBS caiu 56% no trimestre, para US$ 221 milhões. O Ebitda ajustado recuou 26%, para US$ 1,13 bilhão, mesmo com crescimento da receita total.
As operações brasileiras ajudaram a compensar parte da fraqueza norte-americana. A divisão de carne bovina no Brasil se beneficiou da demanda internacional e da maior disponibilidade de matéria-prima na América do Sul.
Aves e suínos perdem parte do impulso
As divisões de frango e carne suína continuam oferecendo proteção à JBS, mas o Safra entende que esses ciclos estão se aproximando de uma fase menos favorável.
O aumento da rentabilidade dessas operações ocorreu em um ambiente de oferta controlada, demanda firme e custos de alimentação relativamente favoráveis.
A continuidade do desempenho dependerá principalmente do preço do milho e da soja, utilizados na fabricação de ração, e do ritmo de expansão da produção mundial.
Quando as margens permanecem elevadas, produtores tendem a aumentar alojamentos e capacidade. A oferta adicional pode pressionar os preços da carne e reduzir a rentabilidade ao longo do tempo.
Uma alta dos grãos produziria um efeito adicional, elevando os custos justamente quando os preços dos produtos finais começassem a perder força.
O Safra considera que aves e suínos ainda apresentam resultados sólidos, mas vê uma redução gradual do benefício oferecido por esses segmentos.
Listagem nos Estados Unidos pode atrair fluxo para JBS
A presença da JBS no mercado norte-americano pode ampliar a base de investidores e abrir espaço para a inclusão das ações em índices internacionais.
Quando uma empresa passa a integrar um índice relevante, fundos que replicam essa carteira precisam adquirir suas ações. Esse movimento produz fluxo passivo, independentemente da avaliação individual de cada gestor.
O Safra reconhece essa possibilidade como um fator positivo para os papéis.
O banco, porém, avalia que a entrada de recursos decorrente da inclusão em índices dificilmente será suficiente para eliminar integralmente o desconto atribuído à companhia em relação a concorrentes internacionais.
A precificação continuará dependente da recuperação das margens, da geração de caixa, da alocação de capital e da capacidade da JBS de equilibrar os diferentes ciclos de proteína animal.
MBRF carrega exposição relevante à carne bovina dos EUA
A MBRF reúne as antigas operações de Marfrig e BRF em uma plataforma multProteína presente em 117 países. O grupo combina marcas de alimentos processados, aves, suínos e a participação na National Beef, uma das maiores processadoras de carne bovina dos Estados Unidos.
Essa estrutura oferece diversificação, mas também deixa a companhia exposta à mesma escassez de gado que pressiona a JBS.
A National Beef enfrenta custos elevados para comprar animais e margens reduzidas no processamento. Enquanto o rebanho norte-americano não iniciar uma recuperação consistente, a unidade deverá continuar limitando os resultados consolidados.
No primeiro trimestre de 2026, a MBRF registrou receita líquida de R$ 39,5 bilhões e Ebitda ajustado de R$ 3,1 bilhões, com margem de 7,8%.
O lucro líquido ficou em R$ 111 milhões, enquanto o fluxo de caixa operacional alcançou R$ 1,5 bilhão.
Os números demonstram a escala do grupo, mas a alavancagem financeira permaneceu elevada, em 3,37 vezes a relação entre dívida líquida e Ebitda dos últimos 12 meses.
Alavancagem limita potencial das ações da MBRF
O endividamento é um dos principais elementos considerados pelo Safra ao manter recomendação neutra para MBRF.
Empresas com alavancagem elevada destinam uma parcela maior da geração de caixa ao pagamento de juros e à redução da dívida. Esse processo limita os recursos disponíveis para dividendos, recompras de ações e novos investimentos.
A exposição aos juros também aumenta a sensibilidade da companhia a mudanças no custo de financiamento.
A MBRF pode reduzir a alavancagem por meio de crescimento do Ebitda, geração de caixa, venda de ativos ou operações envolvendo unidades do grupo.
O Safra considera que uma eventual abertura de capital de uma operação ligada à plataforma halal da companhia, mencionada para 2027, poderia funcionar como catalisador.
A transação poderia revelar valor e levantar recursos, mas o banco avalia que esse evento ainda não é suficiente para justificar uma recomendação de compra.
Além de depender das condições de mercado, uma oferta pública envolve decisões societárias, aprovações regulatórias e definição de estrutura e preço.
Minerva é a única compra entre as ações de frigoríficos
A Minerva permaneceu como a única recomendação positiva do Safra por estar mais diretamente posicionada para capturar os benefícios da escassez global de carne bovina.
A companhia possui uma plataforma concentrada na América do Sul, com unidades no Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina e Colômbia, além de operações em outros mercados.
A disponibilidade relativa de gado na região é superior à observada nos Estados Unidos. Os custos de produção também tendem a ser mais competitivos, embora variem de acordo com o país, o câmbio e a fase do ciclo pecuário.
Essa combinação permite comprar matéria-prima em condições potencialmente mais favoráveis e exportar para mercados nos quais a oferta de carne permanece limitada.
A Minerva é uma das maiores exportadoras de carne bovina da América do Sul e utiliza sua presença geográfica para direcionar produtos aos destinos que oferecem as melhores condições comerciais.
Resultados da Minerva sustentam tese do Safra
No primeiro trimestre de 2026, a Minerva registrou receita líquida de R$ 13,4 bilhões e Ebitda de R$ 1,1 bilhão.
A margem Ebitda ficou em 8,3%, enquanto o lucro líquido alcançou R$ 87,3 milhões.
A alavancagem líquida encerrou o período em 2,7 vezes o Ebitda, abaixo do indicador apresentado pela MBRF.
O Safra estima que a companhia possa entregar retorno de fluxo de caixa livre próximo de 10%. O indicador compara o caixa disponível depois de investimentos com o valor de mercado da empresa.
Um rendimento elevado pode sinalizar que a ação está barata, mas também pode refletir riscos percebidos pelos investidores.
No caso da Minerva, esses riscos incluem endividamento, integração de ativos adquiridos, exposição cambial, dependência das exportações e eventuais restrições comerciais.
China é oportunidade e risco para a Minerva
A China é um dos principais destinos da carne bovina produzida na América do Sul.
A demanda chinesa ajuda a sustentar volumes e preços de exportação, mas também cria uma concentração relevante para as empresas do setor.
Discussões sobre cotas de importação, medidas de proteção ao produtor local ou novas exigências sanitárias podem afetar os embarques.
Uma redução das compras chinesas obrigaria os frigoríficos a redirecionar volumes para outros mercados, possivelmente com preços inferiores.
O Safra reconhece esse risco, mas avalia que o déficit global de oferta deve continuar favorecendo os produtores sul-americanos.
A diversificação geográfica e o acesso a diferentes destinos são, portanto, elementos centrais da tese positiva para a Minerva.
Tarifas, câmbio e grãos permanecem no radar
As recomendações estão sujeitas a fatores que podem mudar rapidamente o desempenho das três companhias.
Tarifas comerciais podem reduzir a competitividade da carne brasileira ou alterar os fluxos internacionais. Restrições sanitárias também podem interromper temporariamente as exportações de determinadas unidades.
O câmbio possui efeito duplo. Um dólar mais forte aumenta, em reais, as receitas obtidas no exterior, mas também pode elevar dívidas e custos denominados na moeda norte-americana.
Os preços do milho e da soja influenciam diretamente as operações de aves e suínos. Secas, quebras de safra ou aumento da demanda por grãos podem reduzir as margens dessas divisões.
Na carne bovina, clima, disponibilidade de pastagens e retenção de fêmeas determinam a oferta futura de animais.
O nível de endividamento completa a lista de riscos. Quanto maior a alavancagem, menor a capacidade de absorver uma deterioração prolongada das margens.
Recomendação do Safra não representa garantia de retorno
Preços-alvo representam estimativas construídas a partir de projeções para resultados, fluxo de caixa, endividamento e múltiplos de mercado.
Esses valores podem ser alterados sempre que as premissas utilizadas pelos analistas mudarem.
A recomendação neutra indica que o banco não identifica uma relação suficientemente atrativa entre valorização potencial e risco no horizonte analisado.
A recomendação de compra para Minerva significa que, segundo os cálculos do Safra, o potencial esperado compensa os riscos identificados. Não existe, porém, garantia de que a ação alcançará o preço-alvo.
A redução das estimativas para as três companhias mostra que até mesmo a favorita do banco está inserida em um ambiente mais desafiador.
Esta matéria possui caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação própria da Gazeta Mercantil para compra ou venda de ações.










