O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos reduziu nesta segunda-feira, 27 de julho, a avaliação das lavouras de milho e soja do país após o avanço do calor e da deficiência de chuvas nas Grandes Planícies e em partes do Meio-Oeste. A parcela das duas culturas classificada como boa ou excelente caiu para 63% na semana encerrada no domingo, 26, justamente quando grande parte das plantas atravessa fases determinantes para a formação dos grãos.
A deterioração foi mais intensa no milho. O percentual de lavouras em boa ou excelente condição recuou quatro pontos em apenas uma semana, ante 67% no levantamento anterior. Na mesma etapa da temporada de 2025, a avaliação alcançava 73%.
Na soja, a classificação positiva caiu de 66% para 63%. Um ano antes, 70% das áreas eram consideradas boas ou excelentes.
Os resultados são os mais baixos para esta época do ano desde 2023 e aumentam a atenção do mercado sobre o clima de agosto. A piora, porém, ainda não representa uma estimativa de quebra da safra dos Estados Unidos. O relatório do USDA mede visualmente o estado das plantações e pode mudar rapidamente caso as chuvas retornem.
Milho perde quatro pontos durante a polinização
A condição do milho apresentou uma mudança relevante na composição das avaliações.
A parcela considerada excelente caiu de 16% para 13%, enquanto as lavouras em boa condição passaram de 51% para 50%. Ao mesmo tempo, o grupo classificado como ruim ou muito ruim aumentou de 9% para 12%.
O movimento ocorreu quando 78% das áreas já haviam alcançado a emissão dos estilos-estigmas, etapa conhecida como silking e diretamente ligada à polinização das espigas.
O desenvolvimento estava acima dos 74% observados, em média, nos cinco anos anteriores. Em relação à semana precedente, houve avanço de 19 pontos percentuais.
Outros 25% das lavouras já se encontravam na fase de grão leitoso ou farináceo, ante média histórica de 22%. O adiantamento torna a disponibilidade de água ainda mais importante porque uma parcela elevada da safra já entrou no período de definição do número e do peso dos grãos.
Durante a polinização, temperaturas excessivas podem reduzir a viabilidade do pólen e impedir a fecundação uniforme da espiga. A falta de umidade também leva a planta a limitar seu desenvolvimento para preservar energia, o que pode resultar em menos grãos.
O efeito depende da intensidade e da duração do estresse. Um episódio curto de calor seguido por chuvas regulares tende a causar menos danos do que uma sequência prolongada de temperaturas altas e solo seco.
Iowa sustenta média, mas Planícies apresentam fragilidade
A avaliação nacional encobre diferenças importantes entre os Estados produtores.
Iowa, maior produtor norte-americano de milho, mantinha 80% das lavouras em condição boa ou excelente. Minnesota apresentava 77%, enquanto Wisconsin registrava 74%.
Esses índices ajudaram a sustentar a média dos Estados Unidos, mas o quadro era mais frágil nas áreas atingidas por seca e calor nas Planícies.
No Colorado, apenas 31% das plantações estavam em boa condição e nenhuma parcela foi classificada como excelente. Outros 41% do milho eram considerados ruins ou muito ruins.
No Texas, o grupo bom ou excelente representava 42%, enquanto 30% das áreas estavam nas duas piores classificações.
Dakota do Norte tinha 50% das lavouras em condição boa ou excelente. Em Dakota do Sul, o índice também era de 50%, com 23% das áreas classificadas como ruins ou muito ruins.
Kansas apresentava 54% de avaliação positiva e Nebraska, 60%. A diferença entre as regiões mostra que uma eventual redução da produtividade nacional dependerá da capacidade dos Estados centrais de compensar perdas nas áreas mais secas.
Soja avança rapidamente para a formação de vagens
A soja também chegou a uma etapa em que a distribuição das chuvas passa a ter influência direta sobre o resultado da safra.
O USDA informou que 80% das lavouras estavam em floração, acima dos 74% registrados no mesmo período de 2025 e da média dos cinco anos anteriores.
A formação de vagens alcançava 47% das áreas. O índice superava os 39% observados tanto no ano anterior quanto na média histórica.
A soja possui maior capacidade de compensação do que o milho durante parte do ciclo. Chuvas em agosto ainda podem estimular o enchimento das vagens e preservar o peso dos grãos, mesmo depois de semanas menos favoráveis em julho.
Essa capacidade diminui à medida que as plantas avançam. Se a deficiência hídrica persistir durante a formação e o enchimento das vagens, a cultura pode abortar flores, limitar o número de sementes e encurtar o período de desenvolvimento.
A parcela da soja em condição ruim ou muito ruim subiu de 8% para 9%. Um ano antes, as duas categorias somavam 6%.
Dakota do Norte tem menos da metade da soja bem avaliada
Iowa e Minnesota continuavam entre os Estados com melhores condições para a soja. Ambos registravam 78% das áreas em condição boa ou excelente.
No outro extremo, apenas 46% das plantações de Dakota do Norte estavam nas duas melhores classificações. Outros 13% eram considerados ruins ou muito ruins e 41% permaneciam em condição regular.
Dakota do Sul tinha 52% das lavouras bem avaliadas, enquanto 20% apareciam nas categorias ruim ou muito ruim.
Em Illinois, um dos maiores produtores de soja dos Estados Unidos, a classificação boa ou excelente alcançava 57%. Michigan apresentava 53%.
Nebraska registrava 61%, e Kansas, 64%.
A distribuição geográfica será decisiva para o resultado nacional. Perdas nas áreas mais secas poderão ser parcialmente compensadas por produtividades elevadas em Iowa, Minnesota e outras regiões, desde que o clima continue favorável nesses Estados.
Umidade do solo piora nas Grandes Planícies
Os dados de umidade ajudam a explicar a queda das avaliações.
No Colorado, 89% do solo superficial estava com umidade curta ou muito curta. Em Dakota do Sul, o índice chegava a 75%, enquanto Nebraska apresentava 72%.
Dakota do Norte tinha 62% do solo superficial nas duas categorias de deficiência. Em Michigan, o percentual alcançava 63%.
Mesmo em Iowa, onde as lavouras mantinham condições relativamente boas, 36% do solo apresentava umidade curta ou muito curta.
O U.S. Drought Monitor registrou expansão e intensificação da seca em partes das Planícies e do Alto Meio-Oeste durante a semana anterior à divulgação do relatório.
A região enfrentou temperaturas entre aproximadamente 1°C e mais de 5°C acima da média em algumas áreas. O calor elevou a evaporação e acelerou a perda de umidade do solo.
A piora também atingiu pastagens. Em Nebraska, 66% das áreas de pasto estavam em condição ruim ou muito ruim. No Colorado, o percentual chegava a 77%.
O enfraquecimento das pastagens pode aumentar os custos dos pecuaristas, antecipar o uso de alimentos armazenados e ampliar a procura por milho e outros ingredientes destinados à alimentação dos rebanhos.
Previsão aponta risco de seca de início rápido
O Climate Prediction Center dos Estados Unidos indicou risco de desenvolvimento rápido de seca em partes das Grandes Planícies e do Cinturão do Milho no começo de agosto.
O fenômeno ocorre quando uma combinação de pouca chuva, temperaturas elevadas, vento e forte evaporação provoca perda acelerada de umidade.
Ao contrário de secas que se desenvolvem gradualmente durante meses, a chamada seca de início rápido pode alterar as condições agrícolas em poucas semanas.
O risco é maior quando o fenômeno coincide com as etapas reprodutivas das culturas. Milho em polinização e soja em formação de vagens podem perder potencial antes que uma eventual regularização das chuvas consiga restabelecer as condições anteriores.
As previsões, contudo, não indicam clima uniforme para toda a região produtora. Tempestades localizadas podem levar volumes elevados a determinados municípios enquanto propriedades próximas permanecem secas.
Por isso, além do total acumulado, o mercado acompanhará a distribuição geográfica e a frequência das precipitações.
Relatório mede condição, não produtividade final
As classificações semanais do USDA são um dos indicadores mais acompanhados pelo mercado de grãos, mas possuem limitações.
O levantamento utiliza informações de aproximadamente 3,6 mil pessoas cujas atividades permitem observar lavouras e manter contato frequente com produtores nos principais Estados agrícolas.
Os participantes avaliam visualmente o estágio de desenvolvimento e as condições das culturas. Os dados são reunidos em nível estadual e depois ponderados pela área plantada para formar o resultado nacional.
A avaliação é subjetiva. Uma lavoura classificada como boa por um observador pode receber uma interpretação diferente de outro profissional, embora o USDA adote definições padronizadas.
As estimativas também estão sujeitas a revisão na semana seguinte. Eventos meteorológicos ocorridos depois do envio de parte dos formulários podem alterar o quadro observado até o domingo de referência.
Apesar dessas limitações, uma queda simultânea de milho e soja durante fases críticas é relevante porque sinaliza deterioração disseminada, e não apenas um problema isolado em uma cultura.
A confirmação de perdas dependerá dos próximos relatórios de produtividade e produção, que combinam pesquisas com produtores, levantamentos de campo, imagens e modelos estatísticos.
Área menor deixa milho mais exposto ao clima
A sensibilidade da safra de milho aumentou porque os agricultores norte-americanos reduziram a área cultivada em 2026.
O USDA estima o plantio de 95,3 milhões de acres, cerca de 38,6 milhões de hectares, uma queda de 3% em relação ao ano anterior.
A área que deverá ser efetivamente colhida para produção de grãos foi calculada em 87,4 milhões de acres, redução de 4%.
Com menos hectares disponíveis, a produtividade passa a ter peso ainda maior sobre o volume final. Uma queda relevante do rendimento não poderá ser compensada pela expansão da área, como ocorreu em outras temporadas.
Os estoques oferecem algum amortecimento. Em 1º de junho, os Estados Unidos armazenavam 5,29 bilhões de bushels de milho, 14% acima do volume registrado um ano antes.
Os estoques mantidos nas propriedades cresceram 16%, enquanto os volumes em armazéns comerciais avançaram 12%.
Essa disponibilidade reduz o risco de escassez imediata, mas não elimina o impacto que uma safra menor poderia exercer sobre os preços ao longo do ciclo 2026/2027.
Soja tem mais área e estoques maiores
Na soja, os produtores adotaram uma estratégia diferente.
A área plantada foi estimada em 85,4 milhões de acres, aproximadamente 34,6 milhões de hectares, alta de 5% sobre 2025.
A área destinada à colheita também deverá crescer 5%, para 84,4 milhões de acres.
A ampliação oferece uma proteção parcial contra uma redução moderada de produtividade. Ainda assim, um período prolongado de seca durante agosto poderia impedir que o aumento da área se transformasse em produção maior.
Os estoques norte-americanos de soja somavam 1,06 bilhão de bushels em 1º de junho, avanço de 5% em relação ao ano anterior.
Dentro das propriedades rurais, o volume caiu 11%. Os estoques mantidos fora das fazendas aumentaram 16%.
A combinação de maior área e estoques elevados limita, inicialmente, o risco de falta do produto. O balanço poderá se apertar caso a produção recue e a demanda por exportação, esmagamento e biocombustíveis permaneça forte.
Trigo de primavera mantém nota, mas Planícies preocupam
O USDA manteve em 53% a parcela do trigo de primavera considerada boa ou excelente.
A estabilidade nacional escondeu diferenças regionais. Minnesota apresentava 88% das lavouras nas duas melhores categorias, enquanto Dakota do Sul registrava apenas 27%.
Em Dakota do Norte, maior produtor norte-americano da variedade, 52% das áreas eram boas ou excelentes. Outros 19% estavam classificadas como ruins ou muito ruins.
A cultura já se aproximava do fim do ciclo. Cerca de 92% das lavouras haviam espigado e 2% da área estava colhida.
O calor pode acelerar a maturação, reduzir o peso dos grãos e afetar a qualidade do trigo, especialmente quando ocorre junto com deficiência hídrica.
Risco climático pode elevar prêmio nos preços
A deterioração das lavouras tende a aumentar o prêmio climático dos contratos futuros de milho e soja negociados em Chicago.
Esse prêmio representa o valor adicional incorporado às cotações quando cresce a possibilidade de a oferta ficar abaixo do esperado.
A reação não depende apenas das classificações semanais. Estoques, exportações, demanda para ração, produção de etanol, esmagamento de soja, política de biocombustíveis, câmbio e relações comerciais também influenciam os preços.
A maior área de soja e os estoques elevados podem limitar altas mais fortes caso as chuvas retornem em agosto.
No milho, a redução da área plantada torna o balanço mais sensível a uma eventual queda de produtividade.
Uma recuperação rápida do clima poderá retirar parte do prêmio e pressionar as cotações. A continuidade do calor e da seca, por outro lado, obrigaria o mercado a trabalhar com estimativas menores de produção.
Brasil pode ganhar espaço, mas ração fica mais cara
Uma safra norte-americana abaixo do esperado poderia beneficiar exportadores brasileiros de soja e milho.
O Brasil disputa com os Estados Unidos os principais mercados globais das duas commodities e costuma ganhar competitividade quando a oferta norte-americana enfrenta restrições.
A Conab estima a produção brasileira de grãos em 360,1 milhões de toneladas na temporada 2025/2026.
A soja, cuja colheita já foi concluída, alcançou 180,6 milhões de toneladas, crescimento de 5,3%. A produção de milho foi estimada em 141,7 milhões de toneladas.
O volume coloca o país em posição para atender parte de uma eventual transferência da demanda internacional. O efeito dependerá do câmbio, dos preços em Chicago, dos custos portuários e da disponibilidade de produto para exportação.
A valorização dos grãos, porém, produz efeitos distintos dentro do agronegócio brasileiro.
Milho e farelo de soja são os principais ingredientes das rações utilizadas na produção de frangos, suínos, ovos, leite e bovinos confinados. Preços mais altos podem reduzir margens de frigoríficos e criadores.
A indústria de etanol de milho também enfrenta custo maior quando a matéria-prima se valoriza. Parte desse impacto pode ser compensada pela alta dos coprodutos, como o farelo de milho utilizado na alimentação animal.
Agosto definirá dimensão do risco para a oferta global
O relatório do USDA confirma que a condição da safra dos Estados Unidos piorou, mas o tamanho de uma eventual perda continua em aberto.
O milho atravessa a polinização e o início do enchimento dos grãos, enquanto a soja avança para a formação de vagens. As duas culturas chegaram ao período em que a disponibilidade de água exerce maior influência sobre a produtividade.
Chuvas regulares nas próximas semanas poderão estabilizar as avaliações e preservar parte relevante do potencial produtivo.
A persistência do calor e da seca aumentaria a probabilidade de revisões negativas nas estimativas de produção, com efeitos sobre os preços globais, as exportações e o custo das cadeias de proteína animal.
A próxima atualização semanal mostrará se a queda para 63% foi uma deterioração pontual ou o início de uma tendência mais longa.
Com a área de milho menor, a soja em ritmo acelerado de desenvolvimento e o risco oficial de seca rápida no Cinturão do Milho, o clima de agosto passou a ser o principal fator de definição da safra norte-americana e do equilíbrio mundial de grãos.











