A Strategy, companhia liderada por Michael Saylor e maior detentora corporativa de Bitcoin do mundo, voltou ao centro das atenções do mercado após um relatório da CryptoQuant apontar deterioração relevante de sua posição de liquidez. Segundo a empresa de análise de dados, a cobertura de dividendos da companhia caiu para apenas 14 meses, o menor nível registrado em sete anos, após uma redução de 38% nas reservas de caixa ao longo de 2026.
A avaliação reacende dúvidas sobre a sustentabilidade da estratégia que transformou a empresa em uma das maiores apostas institucionais no Bitcoin. Segundo a CryptoQuant, a Strategy deveria interromper temporariamente novas aquisições da criptomoeda e concentrar esforços na recomposição de caixa, diante do aumento expressivo das obrigações financeiras associadas aos seus programas de financiamento.
A empresa, que ficou conhecida pelo agressivo acúmulo de Bitcoin em seu balanço patrimonial, enfrenta agora um cenário em que a expansão das posições em criptoativos passa a competir diretamente com a necessidade de preservar liquidez e honrar compromissos com investidores.
CryptoQuant alerta para deterioração da cobertura financeira
De acordo com o relatório, a cobertura de dividendos da companhia caiu de aproximadamente sete anos para apenas 14 meses.
O movimento ocorreu em meio ao crescimento acelerado das obrigações associadas às ações preferenciais STRC, instrumento utilizado pela empresa para financiar parte de sua estratégia de aquisição de Bitcoin.
As obrigações anuais com dividendos praticamente quadruplicaram e alcançaram cerca de US$ 1,2 bilhão, impulsionadas principalmente pela emissão de novas ações preferenciais que oferecem rendimento anual de 11,5%.
Para Ki Young Ju, fundador e CEO da CryptoQuant, a empresa deveria rever sua política atual.
“Eles deveriam pausar as compras de bitcoin, reconstruir suas reservas de caixa e adotar uma estrutura sistemática para o momento certo de compra”, afirmou o executivo em publicação na rede social X.
Segundo ele, a companhia também deveria estabelecer critérios mais rigorosos para futuras vendas de ativos durante ciclos de valorização do mercado.
Recompra de dívida consumiu parte relevante da liquidez
A pressão sobre o caixa aumentou após a empresa utilizar aproximadamente US$ 1,5 bilhão para recomprar títulos seniores com vencimento em 2029.
A operação foi realizada com desconto e buscou reduzir obrigações futuras, mas consumiu parcela significativa dos recursos disponíveis.
Desde então, a companhia conseguiu recuperar parte da liquidez por meio da venda de ações ordinárias da MSTR. A operação adicionou aproximadamente US$ 300 milhões às reservas em dólares, elevando o caixa para cerca de US$ 1,4 bilhão.
Apesar da recuperação parcial, analistas observam que o nível atual continua próximo da menor cobertura de dividendos registrada pela empresa nos últimos anos.
Queda da STRC preocupa investidores
Outro ponto destacado pela CryptoQuant é o comportamento das ações preferenciais STRC.
Os papéis chegaram a ser negociados a US$ 82,50 recentemente, cerca de 17,5% abaixo do valor nominal de US$ 100.
A queda ocorreu em paralelo à correção do Bitcoin e ao aumento das preocupações com a capacidade da empresa de sustentar sua estrutura financeira no longo prazo.
O STRC tornou-se um dos principais mecanismos utilizados pela Strategy para captar recursos destinados à compra de Bitcoin. Quando o papel é negociado abaixo do valor nominal, a eficiência desse mecanismo diminui, dificultando novas emissões em condições favoráveis.
Segundo o relatório, a empresa pode ser forçada a oferecer dividendos ainda maiores para atrair investidores, elevando ainda mais suas obrigações financeiras futuras.
Empresa tenta reforçar confiança do mercado
Em comunicado recente, a Strategy afirmou que pretende continuar reforçando suas reservas em dólares para sustentar a qualidade de crédito dos instrumentos financeiros vinculados à sua estratégia digital.
A companhia não comentou diretamente as avaliações feitas pela CryptoQuant, mas sinalizou que a recomposição de liquidez permanece entre suas prioridades.
Analistas observam que a recuperação da confiança dos investidores depende não apenas da evolução do caixa, mas também da estabilidade do mercado de criptomoedas e da capacidade da empresa de manter acesso a fontes de financiamento.
Bitcoin continua sendo principal ativo da companhia
Apesar das preocupações sobre liquidez, a Strategy segue sendo uma das empresas mais expostas ao Bitcoin em todo o mundo.
A companhia construiu sua estratégia corporativa em torno da tese de que a criptomoeda representa uma reserva de valor superior aos ativos tradicionais de longo prazo.
Contudo, a própria CryptoQuant avalia que as reservas de Bitcoin oferecem proteção limitada em um cenário de necessidade urgente de liquidez.
Segundo a análise, a empresa acumula aproximadamente US$ 10,6 bilhões em perdas não realizadas sobre parte de suas posições. Uma eventual venda forçada dos ativos nos níveis atuais poderia cristalizar perdas significativas e gerar destruição de valor para os acionistas.
Debate sobre sustentabilidade da estratégia ganha força
A situação atual amplia o debate entre investidores sobre os limites do modelo adotado por Michael Saylor.
Nos últimos anos, a valorização do Bitcoin ajudou a impulsionar o valor de mercado da companhia e atraiu investidores interessados em exposição indireta à criptomoeda.
Entretanto, a dependência crescente de emissões de ações, instrumentos híbridos e dívida corporativa para financiar novas compras passou a gerar questionamentos sobre a sustentabilidade financeira da estratégia em períodos de maior volatilidade do mercado.
A combinação entre queda do Bitcoin, aumento das obrigações com dividendos e redução das reservas de caixa coloca a Strategy diante de um desafio que pode definir os próximos passos de sua política financeira.
Liquidez passa a ser o principal foco do mercado
Embora a empresa continue afirmando seu compromisso com a estratégia de acumulação de Bitcoin, os investidores passaram a monitorar com maior atenção a evolução do caixa e a capacidade de financiamento da companhia.
Para analistas, a reconstrução das reservas financeiras tornou-se condição fundamental para restaurar a confiança nos instrumentos emitidos pela empresa e reduzir a pressão sobre as ações preferenciais.
O episódio mostra que, mesmo para uma companhia que transformou o Bitcoin em peça central de sua estratégia corporativa, a gestão de liquidez continua sendo um dos fatores mais relevantes para a preservação de valor e estabilidade financeira.










