O governo de São Paulo autorizou o Banco Digimais, conhecido como o banco de Edir Macedo, a oferecer empréstimos consignados a integrantes da Polícia Militar paulista em 2025, período no qual a instituição financeira já enfrentava prejuízos, aumento da inadimplência e necessidade de aportes de capital.
O credenciamento permitiu que o banco realizasse operações com desconto direto na folha salarial de policiais militares e outros beneficiários habilitados. O contrato firmado com a Polícia Militar possui vigência vinculada ao credenciamento até fevereiro de 2030.
A autorização voltou ao centro do debate nesta terça-feira, 23 de junho, após a Polícia Federal deflagrar a Operação Miragem para investigar suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional na gestão do Banco Digimais.
A investigação apura possíveis manobras contábeis destinadas a apresentar uma situação financeira melhor do que a real, incluindo superavaliação de ativos, geração artificial de receitas e manutenção de informações supostamente incompatíveis com a realidade patrimonial da instituição.
Mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão em São Paulo. A Justiça Federal também autorizou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados e o bloqueio de até R$ 670,3 milhões em bens e valores.
Edir Macedo, controlador da instituição, foi incluído nas medidas patrimoniais e de quebra de sigilo. Ele não foi alvo de busca nesta etapa porque reside no exterior.
O Banco Digimais declarou que está à disposição das autoridades, reafirmou seu compromisso com a transparência e informou que colaborará com as investigações. As suspeitas ainda estão em fase de apuração e não representam condenação dos envolvidos.
Credenciamento do Digimais ocorreu em 2025
A entrada do Banco Digimais no sistema de consignações do governo paulista ocorreu por meio de uma sequência de atos administrativos.
Em junho de 2025, foi deferido o credenciamento ou recadastramento da instituição como consignatária.
No mês seguinte, o Comunicado DFP nº 006, de 16 de julho, autorizou a utilização de código de consignação pelo banco no sistema estadual.
Em 25 de agosto, foi firmado o contrato nº CIAF 011/2025, relacionado às consignações na folha da Polícia Militar do Estado de São Paulo.
A formalização foi divulgada em setembro de 2025. A vigência do acordo está vinculada ao credenciamento, previsto até 25 de fevereiro de 2030.
Na prática, a autorização permitiu que o banco de Edir Macedo oferecesse crédito consignado a integrantes da corporação e recebesse as parcelas diretamente por meio de descontos salariais.
O acesso a uma folha pública amplia a base potencial de clientes e reduz o risco de inadimplência da instituição financeira, uma vez que as prestações são descontadas antes de o salário ou benefício chegar ao tomador.
PM paulista oferece ampla base potencial de clientes
A Polícia Militar de São Paulo possui dezenas de milhares de servidores, entre policiais ativos, inativos e pensionistas ligados ao sistema estadual.
O tamanho da corporação transformou o convênio em uma oportunidade comercial relevante para o Banco Digimais.
Nem todos os servidores, contudo, contrataram ou necessariamente estavam aptos a contratar empréstimos com a instituição.
Para obter o crédito, o interessado precisa solicitar a operação, possuir margem consignável disponível e ser aprovado pela política interna do banco.
A autorização pública não equivale à contratação automática de empréstimos nem representa uma garantia estadual sobre o pagamento ou a qualidade dos produtos oferecidos.
Ainda assim, o credenciamento fornece ao banco acesso a um mercado considerado de menor risco, em razão da previsibilidade dos salários e da cobrança direta em folha.
Consignado tem menor risco para os bancos
O crédito consignado costuma apresentar taxas inferiores às de modalidades como cheque especial, rotativo do cartão e empréstimo pessoal sem garantia.
A diferença decorre principalmente do mecanismo de pagamento.
Como as parcelas são descontadas diretamente do salário, da aposentadoria ou da pensão, a possibilidade de atraso tende a ser menor.
Para a instituição financeira, isso significa maior previsibilidade de caixa e menor necessidade de provisões para perdas.
Por esse motivo, carteiras consignadas são frequentemente utilizadas por bancos como ativos capazes de sustentar captações e gerar receita recorrente.
Em momentos de dificuldade financeira, uma carteira desse tipo também pode ser vendida a outras instituições ou utilizada como parte de operações de reorganização do balanço.
A autorização para operar com servidores públicos, portanto, pode representar um ativo importante para um banco em busca de estabilidade e liquidez.
Banco já enfrentava dificuldades financeiras
O credenciamento ocorreu em um período no qual o Banco Digimais apresentava sinais de deterioração financeira.
Relatórios e balanços divulgados entre 2024 e 2026 indicaram aumento das perdas, inadimplência elevada em determinadas carteiras e necessidade de aportes realizados pelo controlador.
Na época da formalização do convênio estadual, o banco acumulava prejuízos estimados em aproximadamente R$ 250 milhões.
Nos meses seguintes, as perdas teriam aumentado. No primeiro trimestre de 2026, a instituição registrou resultado negativo superior a R$ 100 milhões, enquanto estimativas sobre o desequilíbrio patrimonial passaram a preocupar reguladores e participantes do mercado.
A situação levou o banco a procurar compradores e alternativas para reforçar sua estrutura de capital.
Uma primeira tentativa de transferência do controle para um grupo ligado ao empresário Maurício Quadrado não foi concluída.
Posteriormente, o BTG Pactual assinou documentos para uma possível aquisição da instituição, operação que ainda depende de condições contratuais e aprovações regulatórias.
Governo diz que credenciamento segue requisitos legais
O credenciamento de uma instituição para operar empréstimos consignados é realizado a partir do cumprimento de exigências administrativas e regulatórias.
Esses requisitos podem incluir autorização para funcionamento concedida pelo Banco Central, regularidade documental, adesão às normas estaduais e habilitação nos sistemas de processamento da folha.
O governo paulista não atua como garantidor das operações comerciais realizadas entre servidores e bancos.
A instituição pública responsável pela folha processa os descontos autorizados, mas não define necessariamente taxas de juros, prazos, valores ou critérios internos de aprovação de crédito.
Essa distinção é importante porque a autorização para acessar o sistema de consignações não corresponde a uma certificação permanente sobre a saúde financeira do banco.
A supervisão da solvência, da liquidez e do cumprimento das regras prudenciais das instituições financeiras pertence ao Banco Central.
SPPREV afirma que apenas processa os descontos
Após a repercussão do credenciamento, a São Paulo Previdência afirmou que sua atuação se limita ao processamento das consignações autorizadas pelos beneficiários.
Segundo a autarquia, ela não participa da celebração dos contratos e não interfere nas condições negociadas entre o servidor e a instituição financeira.
A SPPREV também declarou que o sistema conta com mais de 150 instituições habilitadas para operar consignações.
O credenciamento é realizado mediante o cumprimento dos requisitos previstos na legislação e nas normas administrativas aplicáveis.
A autarquia sustentou ainda que não lhe cabe realizar uma análise de mérito sobre os produtos oferecidos ou sobre as decisões comerciais de cada banco.
A posição procura afastar a interpretação de que o credenciamento representaria uma escolha política exclusiva ou uma recomendação específica do Digimais aos servidores.
Novo sistema exige autorização digital
O governo de São Paulo atualizou os procedimentos de consignação em folha para reforçar a segurança das operações.
A partir de 2026, beneficiários vinculados à SPPREV passaram a autorizar e validar consignações diretamente por ferramentas digitais integradas ao aplicativo SOU.SP.GOV.BR.
O modelo utiliza autenticação e validação biométrica para reduzir fraudes e impedir a inclusão de contratos sem consentimento do beneficiário.
O usuário pode acompanhar as operações vinculadas à folha, verificar descontos e identificar instituições credoras.
Esses controles são voltados principalmente à proteção contra contratações não reconhecidas.
Eles não eliminam, contudo, o risco financeiro da instituição que concede o empréstimo nem substituem a fiscalização realizada pelo Banco Central.
Operação Miragem investiga gestão do banco
A investigação da Polícia Federal não está concentrada especificamente nos empréstimos concedidos a policiais militares.
O foco da Operação Miragem são as práticas financeiras e contábeis utilizadas pela administração do Banco Digimais.
A PF suspeita que o banco tenha registrado ativos por valores muito superiores ao custo de aquisição e mantido receitas que deveriam ter sido revertidas após determinação do Banco Central.
Um dos casos envolve direitos de crédito ligados a uma antiga ação judicial contra a União.
Ativos adquiridos por cerca de R$ 71 milhões teriam sido reavaliados e contabilizados por R$ 741,3 milhões.
Após o Banco Central determinar a correção dos valores, as cotas teriam sido vendidas a prazo para a empresa controladora do banco, sem entrada imediata de dinheiro no caixa.
Para a investigação, a operação teria permitido que o valor continuasse registrado no balanço sob outra classificação.
PF apura possível operação de crédito com controladora
A venda dos ativos para a controladora teria prazo de pagamento até 2032, com correção pelo IPCA e juros reais.
Essa estrutura levou os investigadores a avaliar se o negócio funcionou, na prática, como uma operação de crédito concedida pelo banco à própria controladora.
A legislação financeira limita empréstimos e adiantamentos realizados em benefício de controladores, administradores e empresas relacionadas.
O objetivo é impedir que recursos captados de depositantes sejam direcionados aos proprietários da instituição sem garantias ou condições adequadas.
Segundo a PF, a operação também teria superado limites prudenciais definidos pelas normas do Conselho Monetário Nacional.
A investigação deverá identificar os responsáveis pela estrutura, as justificativas apresentadas e os beneficiários econômicos.
Caso levanta questionamentos sobre controle administrativo
O fato de o Banco Digimais ter sido credenciado enquanto apresentava dificuldades financeiras provocou questionamentos sobre os controles utilizados pelos governos para habilitar instituições consignatárias.
Uma linha de discussão envolve a diferença entre regularidade formal e situação econômica.
Um banco pode continuar autorizado a funcionar pelo Banco Central e cumprir os documentos exigidos por um órgão público, mesmo enfrentando perdas relevantes ou dificuldades de capital.
Enquanto não existe uma intervenção, liquidação ou restrição regulatória, o ente responsável pelo processamento da folha pode não ter fundamento jurídico para impedir o credenciamento.
Por outro lado, o acesso a salários de servidores exige atenção especial porque envolve dados pessoais, descontos automáticos e contratos de longo prazo.
O episódio poderá levar a uma revisão dos critérios de acompanhamento das instituições depois da habilitação inicial.
Credenciamento não transfere dinheiro público ao banco
O acordo de consignação não significa, por si só, repasse direto de recursos orçamentários do governo ao Banco Digimais.
O banco concede o empréstimo com recursos próprios ou obtidos no mercado.
Depois, recebe as prestações descontadas da remuneração dos servidores que contrataram o produto.
O Estado atua como processador da folha, retirando o valor autorizado e transferindo-o para a instituição credora.
A operação possui vantagem econômica para o banco porque reduz o risco de atraso, mas não equivale a um financiamento governamental.
Também não há indicação, até o momento, de que o governo paulista tenha assumido as dívidas dos tomadores ou oferecido garantia contra eventual insolvência da instituição.
Servidores devem acompanhar contratos e descontos
A investigação não invalida automaticamente os contratos de consignado firmados com o Banco Digimais.
Os tomadores continuam obrigados a cumprir as prestações enquanto não houver decisão administrativa ou judicial em sentido diferente.
Servidores que possuem contratos devem conferir os valores, as taxas, o número de parcelas e os descontos registrados na folha.
Em caso de cobrança não reconhecida, a orientação é utilizar os canais oficiais da SPPREV, registrar reclamação e, quando houver indício de fraude, comunicar as autoridades.
A eventual venda, intervenção ou liquidação de um banco também não extingue os empréstimos concedidos.
As carteiras podem ser transferidas para outra instituição, que passa a receber as parcelas nas mesmas condições contratuais, salvo renegociação.
Prefeitura também habilitou o Digimais
Além do governo estadual, a Prefeitura de São Paulo autorizou o Banco Digimais a operar consignações com servidores municipais.
O termo de adesão foi publicado em 2023 e permitiu a concessão de produtos com desconto em folha.
A administração municipal informou que o banco integra uma lista com dezenas de instituições consignatárias e responde por uma parcela limitada das operações.
O Hospital do Servidor Público Municipal também aceitou o credenciamento do Digimais para determinados produtos financeiros.
Essas autorizações mostram que a presença da instituição no crédito a servidores não estava restrita à Polícia Militar.
O banco buscava ampliar sua participação em carteiras de menor risco e maior previsibilidade de recebimento.
Volume de operações teria permanecido baixo
Apesar do acesso às folhas estadual e municipal, o volume efetivamente contratado com o Banco Digimais teria permanecido reduzido.
Executivos ligados às negociações para a venda da instituição afirmaram que os convênios não produziram o volume esperado.
A divulgação dos problemas financeiros e das tentativas de mudança de controle pode ter reduzido a disposição de servidores e correspondentes bancários para contratar novos empréstimos.
A queda da produção de consignado enfraquece uma fonte importante de receita e de geração de ativos para o banco.
Isso também reduz o valor comercial das autorizações, embora os convênios ainda possam ser considerados relevantes para um eventual comprador.
Investigação aumenta pressão sobre o governo paulista
O caso deverá produzir questionamentos políticos à administração de Tarcísio de Freitas sobre o momento e os critérios utilizados para credenciar o banco de Edir Macedo.
A autorização ocorreu antes da Operação Miragem, mas quando informações sobre perdas e aportes já circulavam no mercado.
O governo poderá argumentar que o Digimais estava autorizado pelo Banco Central e cumpriu as exigências formais para atuar como consignatário.
Críticos poderão sustentar que instituições com acesso à folha de servidores deveriam passar por avaliações adicionais de risco e acompanhamento contínuo.
Até o momento, não há evidência apresentada de participação do governador ou de integrantes do governo nas operações investigadas pela PF dentro do banco.
Também não há indicação de que o credenciamento faça parte do núcleo criminal apurado na Operação Miragem.
A relação existente é administrativa: o governo permitiu que uma instituição posteriormente investigada oferecesse crédito consignado a servidores.
Caso pode levar à revisão das regras de habilitação
A repercussão poderá estimular mudanças nos processos de credenciamento de bancos e financeiras.
Entre as medidas possíveis estão avaliações periódicas de solvência, comunicação mais rápida entre Banco Central e órgãos responsáveis pelas folhas e suspensão preventiva diante de determinados eventos regulatórios.
Também podem ser adotadas exigências adicionais de transparência sobre taxas, reclamações, capital e estrutura societária.
Qualquer endurecimento precisará respeitar as competências legais de cada órgão.
Estados e municípios não substituem o Banco Central na fiscalização bancária, mas podem definir critérios administrativos para o acesso aos seus sistemas de folha.
O desafio será evitar riscos aos servidores sem restringir indevidamente a concorrência entre instituições financeiras.
Banco de Edir Macedo entra no centro de crise financeira e política
A combinação entre a Operação Miragem e o credenciamento estadual amplia a dimensão pública do caso Digimais.
O banco de Edir Macedo não enfrenta apenas uma investigação sobre seus balanços e operações com a controladora.
A instituição também passa a ser examinada pelas relações mantidas com órgãos públicos, servidores e sistemas de consignação.
Para o governo de São Paulo, a questão central será demonstrar que a habilitação seguiu critérios objetivos e que não houve favorecimento político.
Para a SPPREV e a Polícia Militar, o foco estará na preservação dos contratos e na proteção dos dados e salários dos servidores.
Para a Polícia Federal, a investigação continua voltada à identificação de eventuais crimes praticados na gestão do banco.
O credenciamento não comprova irregularidade do governo paulista, assim como a autorização do Banco Central para funcionamento não elimina a possibilidade de crimes cometidos por administradores.
O episódio mostra, no entanto, como problemas internos de uma instituição financeira podem ultrapassar os limites do mercado e atingir contratos, folhas de pagamento e decisões administrativas do poder público.








