TarcÃsio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) fizeram na noite desta terça-feira, 29, o último confronto televisionado antes do primeiro turno da eleição para o governo de São Paulo, marcado para domingo, 4 de outubro. O debate promovido pela TV Globo foi marcado por acusações envolvendo o PCC, divergências sobre privatizações e transporte público, discussões sobre educação e saúde e uma tentativa recorrente dos dois candidatos de levar para a disputa estadual os legados dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro.
O crime organizado apareceu logo no inÃcio e produziu uma das discussões mais tensas da noite. Haddad cobrou TarcÃsio pela proximidade polÃtica mantida com integrantes da famÃlia do ex-vereador Milton Leite, ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo preso em setembro na Operação Vectura Corrupta, investigação da PolÃcia Civil e do Ministério Público paulista sobre suspeitas de infiltração do Primeiro Comando da Capital no sistema de transporte coletivo.
TarcÃsio rejeitou qualquer associação com as irregularidades investigadas e respondeu tentando vincular pessoas próximas ao campo polÃtico do adversário a casos envolvendo o crime organizado. O resultado foi uma sequência de acusações cruzadas na qual os dois candidatos passaram mais tempo discutindo relações polÃticas de terceiros do que apresentando propostas especÃficas para impedir a infiltração de organizações criminosas em contratos públicos.
O caso Milton Leite, porém, possui um elemento objetivo que distingue a discussão polÃtica da investigação criminal. O ex-presidente da Câmara foi alvo de mandado de prisão temporária na Operação Vectura Corrupta e se apresentou à polÃcia em 18 de setembro. A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro e participação do PCC em empresas de transporte coletivo. Milton Leite nega as acusações e afirma ser inocente.
Ser aliado polÃtico, aparecer em um evento de campanha ou possuir relações com alguém posteriormente investigado não estabelece participação em crime. Essa distinção vale para as acusações lançadas pelos dois lados durante o debate.
PCC e o contrato de R$ 157 milhões de wi-fi entram no confronto
Haddad também retomou durante o embate um contrato da Prefeitura de São Paulo com o Instituto Conhecer Brasil destinado à implantação e operação de pontos gratuitos de acesso à internet.
Documentos oficiais da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia mostram que a parceria começou em junho de 2024 com valor de R$ 108 milhões para a implantação e operação de 5 mil pontos de wi-fi público em comunidades da capital. Em dezembro de 2025, um novo aditamento acrescentou R$ 49,18 milhões e prorrogou a parceria até dezembro de 2026.
Somados, os valores chegam a aproximadamente R$ 157,18 milhões.
O dado confirma a dimensão financeira citada no debate, embora a existência de um contrato desse valor, isoladamente, não demonstre irregularidade. Eventuais responsabilidades dependem das investigações e dos procedimentos de fiscalização correspondentes.
TarcÃsio reagiu à s acusações voltando a mencionar episódios envolvendo pessoas associadas politicamente ao PT e explorando a presença de Haddad em eventos nos quais também estiveram personagens posteriormente vinculados a investigações. Haddad contestou as associações.
A sequência mostrou como o combate ao PCC se transformou não apenas em tema de segurança pública, mas também em arma eleitoral na reta final da campanha paulista.
Educação produz embate sobre o Selo Ouro do MEC
Um dos momentos mais especÃficos do debate ocorreu quando Haddad questionou os resultados da educação paulista e TarcÃsio respondeu perguntando por que São Paulo havia recebido o Selo Ouro do Ministério da Educação se, como afirmava o adversário, a polÃtica estadual de alfabetização não estava funcionando.
Haddad disse não conhecer o selo.
A certificação existe e foi efetivamente concedida a São Paulo. O Estado recebeu em 2026 a categoria ouro da segunda edição do Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização, iniciativa do Ministério da Educação destinada a reconhecer polÃticas e ações das redes públicas para garantir a alfabetização das crianças na idade adequada.
Mas o selo e o percentual de crianças alfabetizadas medem aspectos que não devem ser tratados como se fossem exatamente a mesma coisa.
A premiação considera, além dos resultados de aprendizagem, iniciativas de gestão, formação de professores, distribuição de materiais e cumprimento de compromissos estabelecidos pelo programa federal.
São Paulo registrou 58% de crianças alfabetizadas no indicador referente a 2024, superando a meta atribuÃda ao Estado naquele ciclo. Em 2025, o percentual paulista aumentou para 61%.
O avanço ocorreu, mas o resultado estadual de 2025 permaneceu abaixo do Ãndice nacional, que chegou a 66%, segundo o Indicador Criança Alfabetizada do Inep.
Assim, duas afirmações aparentemente contraditórias feitas no debate podem coexistir: São Paulo recebeu efetivamente o Selo Ouro do MEC e, ao mesmo tempo, seu percentual de crianças alfabetizadas em 2025 ficou abaixo da média brasileira.
A discussão ilustra o risco de transformar certificações e indicadores diferentes em uma única medida de qualidade educacional.
Haddad diz não conhecer Integra Tietê
Outro momento de cobrança ocorreu quando TarcÃsio perguntou a Haddad qual seria o destino do Integra Tietê caso o petista assumisse o governo. Haddad afirmou não conhecer o programa.
O Integra Tietê é uma polÃtica do governo paulista destinada à recuperação ambiental do rio e de sua bacia, reunindo projetos de saneamento, desassoreamento, controle de enchentes, monitoramento da qualidade da água e recuperação ambiental.
Documentação oficial do governo estadual prevê investimentos superiores a R$ 23 bilhões até 2029 nas diferentes frentes do programa.
A falta de conhecimento declarada por Haddad sobre uma polÃtica estadual de grande porte forneceu a TarcÃsio um argumento para questionar o domÃnio do adversário sobre programas atualmente em execução. O episódio, entretanto, não resolve a discussão sobre os resultados concretos alcançados pelo Integra Tietê nem sobre qual seria a polÃtica ambiental mais eficaz para o rio.
A questão central é mensurável: quanto da carga poluidora foi efetivamente reduzida, qual parcela dos investimentos previstos já foi executada e quais metas poderão ser verificadas até 2029. Essas respostas dependem de indicadores ambientais e financeiros, e não apenas da continuidade nominal do programa.
Privatizações colocam CPTM no centro da disputa
O modelo de concessões adotado por TarcÃsio foi outro eixo do confronto.
Haddad acusou o governador de conduzir uma polÃtica de privatizações que, em sua avaliação, transfere serviços públicos sem garantir melhoria proporcional para os passageiros. O petista citou problemas registrados na operação ferroviária e prometeu interromper novas privatizações caso seja eleito.
TarcÃsio defendeu a participação privada e afirmou que as concessões são utilizadas para ampliar investimentos e melhorar os serviços.
A disputa não é apenas retórica. O governo paulista avançou durante a atual gestão na transferência de linhas ferroviárias à iniciativa privada. O projeto do Lote Alto Tietê, por exemplo, envolve as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade e prevê contrato de 25 anos, investimentos estimados em R$ 14,3 bilhões e ampliação da malha.
A Assembleia Legislativa também aprovou em agosto uma lei autorizando o governo estadual a absorver empregados da CPTM vinculados às linhas 10, 11, 12 e 13 por outros órgãos da administração pública, uma medida relacionada à reorganização da companhia diante do avanço das concessões.
Haddad vinculou sua crÃtica à s privatizações à proposta de criar um Bilhete Único Metropolitano e afirmou que procuraria uma alternativa de financiamento para integrar tarifas entre diferentes municÃpios e sistemas de transporte.
TarcÃsio sustentou que a integração tarifária também pode ser estudada dentro do atual modelo.
O ponto de divergência, portanto, não se limita à existência de uma tarifa integrada. Os candidatos apresentam visões distintas sobre o papel que o Estado deve exercer na operação direta dos transportes e sobre quanto dessa estrutura deve ser transferido para concessionárias privadas.
Saúde expõe disputa sobre filas e financiamento do SUS
Saúde produziu outro confronto de dados.
Haddad afirmou que São Paulo enfrenta problemas nas filas por consultas, exames e cirurgias e defendeu a criação de hospitais-dia, estruturas destinadas a concentrar atendimentos e procedimentos que não exigem internação prolongada. Também criticou a organização da regulação estadual e cobrou maior participação do Estado no financiamento de determinados serviços.
TarcÃsio respondeu apresentando a Tabela SUS Paulista como uma das principais medidas de sua gestão.
O programa existe e complementa com recursos estaduais os valores pagos pelo Sistema Único de Saúde a hospitais conveniados. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, aproximadamente 354 hospitais podem ser beneficiados pelo mecanismo, incluindo Santas Casas, instituições filantrópicas e unidades autárquicas.
A existência da Tabela SUS Paulista, contudo, não encerra a discussão sobre filas.
Auditoria do Tribunal de Contas da União sobre o programa federal Agora Tem Especialistas identificou problemas nacionais na mensuração e redução da espera por procedimentos especializados. A fiscalização também encontrou limitações importantes na integração dos sistemas de informações utilizados pelos diferentes entes federativos.
No caso paulista, o debate mistura pelo menos três questões distintas: quanto o Estado acrescenta aos valores pagos pelo SUS, quantos procedimentos adicionais esse dinheiro efetivamente produz e quanto tempo o paciente espera entre o encaminhamento e a realização do atendimento.
Sem separar esses indicadores, comparações genéricas sobre aumento ou redução das filas podem produzir conclusões imprecisas.
Lula e Bolsonaro entram repetidamente no debate paulista
Embora a disputa fosse pelo Palácio dos Bandeirantes, Lula e Bolsonaro estiveram presentes em boa parte do confronto.
Haddad utilizou sua experiência como ministro da Fazenda e integrante dos governos petistas para defender medidas econômicas e sociais do governo federal. Também atacou a participação de TarcÃsio no governo Bolsonaro e voltou a mencionar a condução federal da pandemia de Covid-19.
TarcÃsio, ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro, criticou o desempenho econômico do governo Lula, cobrou responsabilidade fiscal e defendeu realizações da administração anterior.
O governador também procurou contrastar sua gestão estadual com o perÃodo em que Haddad administrou a cidade de São Paulo, enquanto o petista respondeu comparando indicadores econômicos e polÃticas públicas de diferentes administrações federais.
Essa nacionalização não é nova na eleição paulista. TarcÃsio construiu sua projeção polÃtica dentro do governo Bolsonaro e Haddad possui trajetória diretamente vinculada ao PT e a Lula. No debate final antes da votação, os dois voltaram a usar essas referências para definir suas próprias candidaturas.
O resultado foi um encontro no qual temas tipicamente estaduais — transporte metropolitano, saneamento, escolas, hospitais e segurança — frequentemente desembocaram em discussões sobre BrasÃlia.
Último confronto antes das urnas
O debate ocorreu a cinco dias do primeiro turno e foi o último encontro direto televisionado entre TarcÃsio e Haddad antes da votação.
Crime organizado, privatizações, educação, saúde e transporte estiveram entre os temas concretos apresentados, mas boa parte do confronto foi ocupada por acusações envolvendo aliados, comparação entre governos anteriores e tentativas de associar o adversário a personagens investigados.
Algumas afirmações puderam ser confrontadas imediatamente com registros oficiais.
São Paulo realmente recebeu o Selo Ouro do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, embora o Ãndice estadual de alfabetização de 61% em 2025 tenha ficado abaixo dos 66% registrados no paÃs. O contrato do Instituto Conhecer Brasil para wi-fi público possui valores que, considerando o termo inicial e o aditamento posterior, chegam a aproximadamente R$ 157 milhões. O Integra Tietê existe e prevê investimentos bilionários até 2029. A Tabela SUS Paulista também está em vigor e complementa pagamentos a centenas de hospitais.
Em relação à s acusações envolvendo o PCC, entretanto, é necessário distinguir relação polÃtica, investigação e responsabilidade criminal. Milton Leite foi preso em uma investigação sobre possÃvel infiltração da facção no transporte público, mas nega as acusações. Relações polÃticas citadas durante o debate não constituem, isoladamente, prova de participação nos fatos investigados.
Com a campanha entrando nos últimos dias, as diferenças apresentadas pelos candidatos ficaram concentradas principalmente no modelo de gestão: maior participação direta do Estado defendida por Haddad em áreas como transporte, contra a polÃtica de concessões e parcerias privadas ampliada por TarcÃsio. Nas demais áreas, o debate expôs propostas e números que agora serão submetidos à escolha do eleitor paulista no domingo.
Fontes:
Ministério da Educação e Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais AnÃsio Teixeira — Compromisso Nacional Criança Alfabetizada e Indicador Criança Alfabetizada.
Secretaria da Educação do Estado de São Paulo — resultados de alfabetização e Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização.
Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo — Termo de Colaboração nº 01/SMIT/2024 e respectivos aditamentos.
Governo do Estado de São Paulo — Programa Integra Tietê.
Secretaria de Parcerias em Investimentos do Estado de São Paulo — concessões das linhas metropolitanas.
Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo — Lei nº 18.497/2026.
Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo — Tabela SUS Paulista.
Tribunal de Contas da União — Acórdão nº 1.622/2026.
PolÃcia Civil de São Paulo e Ministério Público de São Paulo — Operação Vectura Corrupta.









