São Paulo, SP — Uma transação imobiliária de alto valor chamou a atenção de autoridades e analistas do mercado financeiro: o empresário Ricardo Castellar de Faria, conhecido como “Rei do Ovo”, adquiriu por meio de uma empresa no exterior um triplex de R$ 50 milhões no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. O imóvel pertencia a uma sociedade ligada a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master — instituição que foi liquidada pelo Banco Central pouco tempo depois da operação, em meio a uma investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de fraude e lavagem de dinheiro.
A negociação foi formalizada em outubro de 2025, período em que a instituição financeira já estava sob forte escrutínio regulatório e judicial. O triplex milionário passa a ser um ponto de interseção entre o agronegócio, o
mercado imobiliário de luxo e o sistema financeiro, levantando questões sobre estrutura de operações, origem de recursos e rastreabilidade patrimonial.
Detalhes da transação e valores praticados
O apartamento de 914 m² fica no Edifício Páteo Leopoldo, uma das construções mais valorizadas da região. A compra foi feita pela Golden Castle Real Estate, empresa registrada em Delaware, nos Estados Unidos, que utilizou a brasileira SF 1030X Participações Societárias S.A. como veículo para concluir o negócio no Brasil.
Anteriormente, o imóvel pertencia à Super Empreendimentos, sociedade ligada a Vorcaro, que o havia comprado em 2022 por R$ 38 milhões. Segundo dados do mercado imobiliário, unidades de padrão semelhante no mesmo condomínio eram anunciadas à época por valores entre R$ 18 milhões e R$ 20 milhões — menos da metade do preço pago na transação recente.
Trajetórias que se cruzam
Ricardo Faria construiu seu império a partir do Sul do Brasil e se tornou uma das maiores referências do setor de produção de ovos no país. Ao longo da carreira, expandiu os
negócios para o mercado internacional, com destaque para a aquisição de uma das principais produtoras dos Estados Unidos por cerca de US$ 1,1 bilhão. Sua trajetória, porém, não se restringiu ao campo: ele também acumulou contratos de crédito público e já foi alvo de questionamentos sobre sua atuação
política e econômica.
Do outro lado, Daniel Vorcaro comandou o Banco Master por anos, até que a instituição entrou na mira de órgãos de controle. A aquisição do triplex milionário aconteceu poucos dias após a criação da empresa offshore, o que levanta interpretações sobre o planejamento da operação, comum em negócios de grande porte, mas que ganha contornos especiais por coincidir com o momento crítico da instituição financeira.
Negócio antecede fase decisiva de apurações
A transação foi registrada em outubro de 2025, cerca de um mês antes de o Banco Central decretar a liquidação do Banco Master. Pouco depois, a Polícia Federal deu início à fase mais intensa da Operação Compliance Zero, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, que apura suspeitas de gestão fraudulenta, organização criminosa, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro.
Na ação, foram cumpridos mandados de busca e apreensão e determinado o bloqueio de bens e valores que somam mais de R$ 5,7 bilhões. O Tribunal de Contas da União também passou a acompanhar o caso, com o objetivo de preservar os ativos da instituição e evitar que eles fossem transferidos ou dispersos durante o processo de encerramento das atividades.
Questões jurídicas e de governança
Até o momento, não há acusação formal contra Ricardo Faria relacionada diretamente à compra do triplex milionário. A estrutura da operação, no entanto, chama a atenção por envolver uma empresa constituída em jurisdição com regras de sigilo mais flexíveis, o que torna a rastreabilidade da origem dos recursos mais complexa.
Para Vorcaro, o imóvel faz parte do conjunto de ativos que estava sob gestão de suas
empresas. Em processos de liquidação bancária, qualquer movimentação de bens e valores de pessoas ligadas à administração costuma ser analisada com rigor, para verificar se há desvio de recursos ou tentativa de proteger patrimônio em detrimento de credores.
Repercussão no mercado e posição das partes
A negociação mostra como o capital de grandes grupos do
agronegócio se conecta a investimentos imobiliários e operações financeiras, muitas vezes estruturadas com camadas societárias para fins de proteção patrimonial e eficiência tributária. Para analistas, o caso serve de exemplo de como essas operações são vistas em períodos de instabilidade regulatória.
Procurado pela
Gazeta Mercantil, o grupo ligado a Ricardo Faria informou apenas que não comentaria o assunto, acrescentando que o empresário estava fora do país. A representante da SF 1030X Participações disse que o imóvel foi adquirido como investimento, mediante oferta de uma corretora, e que não há qualquer irregularidade, mas não apresentou detalhes sobre a procedência dos valores utilizados.
Acompanhamento regulatório e perspectivas
Autoridades e investidores seguem atentos ao desdobramento do caso. O triplex milionário entra na lista de ativos que podem ser analisados à medida que as investigações sobre o Banco Master avançam, especialmente para verificar se há relação entre os recursos da operação e os valores movimentados pela instituição financeira.
Além disso, o episódio reforça o debate sobre a necessidade de maior transparência em operações de alto valor, independentemente do setor, e como regras de governança e rastreabilidade devem ser aplicadas mesmo em estruturas que envolvem empresas no exterior.
O desfecho da apuração deve definir também se a transação seguirá seu curso normal ou se passará a integrar o rol de movimentações analisadas no âmbito da liquidação e das investigações criminais em andamento.