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Trisul (TRIS3) multiplica lançamentos por 12 e vendas crescem 64% no 2T26

Incorporadora lançou R$ 602,9 milhões em projetos e vendeu R$ 465,2 milhões; ações subiram 2,74%, mas distratos viraram ponto de atenção.

por Alice Nascimento
23/07/2026 às 17h28
em Empresas
Trisul - Gazeta Mercantil

A Trisul (TRIS3) encerrou o pregão desta quinta-feira, 23 de julho, em alta de 2,74%, cotada a R$ 4,13, após divulgar uma prévia operacional marcada pela expansão de 63,9% das vendas líquidas e pela forte retomada dos lançamentos no segundo trimestre de 2026. A incorporadora colocou no mercado três empreendimentos com valor geral de vendas de R$ 602,9 milhões, quase 12 vezes o volume lançado no mesmo período do ano passado, em uma combinação de projetos do Minha Casa, Minha Vida, imóveis compactos e alto padrão.

A reação ocorreu em uma sessão negativa para o mercado acionário brasileiro. Enquanto as ações da companhia avançaram, o Ibovespa recuou, pressionado pelo ambiente internacional, pela alta dos juros globais e pela queda das bolsas de Nova York.

Os números operacionais indicam que a Trisul conseguiu ampliar as vendas mesmo diante de um cenário de crédito imobiliário caro e juros elevados. A prévia, no entanto, também mostrou crescimento dos cancelamentos, que chegaram a R$ 64,7 milhões no trimestre.

Os distratos avançaram 91,6% na comparação anual e representaram 12,2% das vendas brutas, ante 10,6% no segundo trimestre de 2025. O aumento não anulou a expansão comercial, mas será um dos pontos observados no balanço financeiro que a companhia divulgará em 13 de agosto.

A prévia operacional antecipa lançamentos, vendas, entregas e velocidade de comercialização, mas não informa receita líquida, margem bruta, Ebitda, lucro, endividamento ou geração de caixa. Esses indicadores dependerão do reconhecimento contábil das obras, dos custos de construção e da evolução financeira dos projetos.

Vendas líquidas chegam a R$ 465,2 milhões

A Trisul registrou R$ 529,9 milhões em vendas brutas entre abril e junho, crescimento de 66,9% em relação ao mesmo trimestre de 2025.

Depois dos cancelamentos, as vendas líquidas totalizaram R$ 465,2 milhões. O valor representa avanço de 63,9% na comparação anual e de 18,5% diante do primeiro trimestre de 2026.

No acumulado do primeiro semestre, as vendas líquidas atingiram R$ 857,9 milhões, alta de 48,9% sobre os seis primeiros meses do ano passado. As vendas brutas chegaram a R$ 963,4 milhões, expansão de 46,7%.

O desempenho mostra que a incorporadora entrou no segundo semestre com uma base comercial maior. Para o resultado financeiro, entretanto, o efeito das vendas ocorre de forma gradual, conforme o andamento das obras e as regras contábeis aplicadas ao setor imobiliário.

Uma venda realizada no trimestre não se converte imediatamente em receita e lucro no mesmo período. O reconhecimento acompanha a evolução física dos empreendimentos e a proporção dos custos incorridos.

Por isso, a expansão das vendas aumenta a receita contratada e oferece maior previsibilidade, mas o impacto sobre o balanço dependerá da fase de cada projeto, da margem prevista e da capacidade dos compradores de manter os pagamentos.

Lançamentos saltam de R$ 51 milhões para R$ 602,9 milhões

O maior avanço da prévia ocorreu nos lançamentos. A Trisul apresentou três projetos com VGV próprio de R$ 602,9 milhões, aumento de 38,2% sobre os R$ 436 milhões lançados no primeiro trimestre.

Na comparação com o segundo trimestre de 2025, quando os lançamentos somaram R$ 51,1 milhões, o volume cresceu mais de 1.000%. A diferença reflete uma base de comparação reduzida, mas também evidencia a mudança de ritmo da companhia.

Os três projetos somam 729 unidades e atendem a perfis distintos de compradores.

A primeira fase do Elev Anhaia Mello, vinculada ao segmento Minha Casa, Minha Vida, possui 424 unidades e VGV de R$ 126,3 milhões.

O Auren Studios Vila Clementino reúne 276 unidades compactas e VGV de R$ 103,1 milhões.

Já o Atílio 870, de alto padrão, tem apenas 29 unidades, mas concentra R$ 373,5 milhões em VGV. O projeto representou aproximadamente 62% de todo o valor lançado pela Trisul no trimestre.

A composição mostra uma estratégia de diversificação. O segmento econômico oferece maior volume de unidades e acesso a mecanismos de financiamento habitacional. Os compactos atendem investidores e consumidores interessados em imóveis menores e bem localizados. O alto padrão concentra tíquetes elevados e margens potencialmente maiores, embora dependa de um público mais restrito.

Atílio 870 concentra maior parcela do VGV

A relevância do Atílio 870 não está na quantidade de unidades, mas no valor individual dos imóveis. Com 29 unidades e VGV de R$ 373,5 milhões, o projeto possui valor médio superior a R$ 12 milhões por unidade.

A exposição ao alto padrão pode favorecer as margens quando os projetos possuem localização valorizada e demanda suficiente. Esse segmento também tende a ser menos dependente do financiamento bancário tradicional, pois parte dos compradores possui maior disponibilidade de capital.

A velocidade de comercialização, porém, pode ser mais lenta. O universo de potenciais clientes é menor, e a venda de poucas unidades pode produzir variações relevantes nos indicadores trimestrais.

O risco comercial também se concentra em valores maiores. Um cancelamento em empreendimento de alto padrão representa impacto financeiro superior ao distrato de uma unidade econômica.

A Trisul equilibrou essa exposição com projetos voltados ao Minha Casa, Minha Vida e ao segmento de compactos. Essa combinação reduz a dependência de um único perfil de renda, mas exige capacidade de operar modelos comerciais, financiamentos e estruturas de custos diferentes.

No segmento econômico, o acesso ao crédito subsidiado e aos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço ajuda a sustentar a demanda. Em contrapartida, limites de preço, custos de terreno e despesas de construção exigem controle rigoroso das margens.

Velocidade de vendas melhora diante do primeiro trimestre

A velocidade sobre oferta, indicador conhecido como VSO, ficou em 12,5% no segundo trimestre.

O resultado representa avanço de 1,1 ponto percentual em relação aos 11,4% registrados entre janeiro e março. Na comparação anual, porém, houve redução de 1,8 ponto percentual.

A VSO mede a proporção do estoque disponível que foi comercializada durante o período. Uma velocidade mais alta indica absorção mais rápida dos imóveis colocados à venda.

O indicador precisa ser interpretado em conjunto com os lançamentos. Como a Trisul adicionou R$ 602,9 milhões em novos projetos ao estoque, a manutenção da VSO acima do primeiro trimestre mostra que as vendas acompanharam parte relevante do aumento da oferta.

Ainda assim, o nível ficou abaixo do registrado um ano antes. A queda anual pode refletir a maior base de produtos disponíveis e as condições financeiras mais restritivas para o comprador.

A Selic elevada encarece o financiamento imobiliário, aumenta o valor das prestações e reduz a capacidade de comprometimento de renda. O efeito costuma ser mais intenso nos segmentos de média e alta renda, nos quais o crédito utiliza recursos de mercado e possui menor exposição a subsídios.

Distratos avançam e chegam a R$ 64,7 milhões

O aumento dos cancelamentos foi o principal contraponto à expansão das vendas.

Os distratos somaram R$ 64,7 milhões no segundo trimestre, alta de 91,6% em relação ao mesmo período de 2025. Na comparação com o primeiro trimestre, o crescimento foi de aproximadamente 59%.

A proporção dos cancelamentos sobre as vendas brutas subiu de 9,4% no primeiro trimestre para 12,2% entre abril e junho.

O percentual permanece distante de eliminar o avanço comercial, mas indica maior volume de contratos que não chegaram à conclusão ou foram desfeitos durante o período.

No setor imobiliário, os distratos podem ocorrer por dificuldade de aprovação do financiamento, perda de renda, mudança de decisão do comprador ou incapacidade de arcar com parcelas e custos relacionados ao imóvel.

O impacto financeiro varia conforme o estágio do empreendimento e as condições contratuais. A companhia pode reter parte dos valores pagos, mas precisa recolocar a unidade no mercado e assumir novos custos comerciais.

Em um ambiente de juros altos, o comportamento dos cancelamentos ganha relevância porque sinaliza a qualidade das vendas. Uma expansão baseada em contratos com baixa capacidade de conversão para financiamento bancário pode gerar volatilidade nos trimestres seguintes.

Entrega na Vila Madalena pode favorecer entrada de caixa

A Trisul também concluiu no trimestre a entrega do Península Vila Madalena, empreendimento de alto padrão com 324 unidades e VGV próprio de R$ 382,9 milhões.

A entrega é relevante para a geração de caixa porque permite concluir etapas contratuais, receber parcelas finais e transferir unidades aos compradores.

Nos projetos financiados, a conclusão da obra também pode liberar recursos bancários vinculados aos contratos dos clientes.

O efeito líquido dependerá do volume já vendido, dos recebimentos antecipados, dos custos ainda pendentes e da quantidade de unidades mantidas em estoque.

Empreendimentos entregues com unidades não vendidas deixam de carregar risco de construção, mas passam a gerar despesas de manutenção, condomínio, impostos e comercialização até a venda.

O balanço do segundo trimestre deverá indicar quanto a entrega contribuiu para a receita, a margem e o fluxo de caixa. Também permitirá avaliar o volume de estoque concluído e a necessidade de capital para os novos lançamentos.

Juros altos continuam como maior obstáculo do setor

O crescimento operacional da Trisul ocorreu apesar de uma política monetária ainda restritiva.

Mesmo após cortes promovidos pelo Banco Central, a Selic permaneceu em 14,25% ao ano no fim do segundo trimestre. O nível elevado afeta tanto os compradores quanto as incorporadoras.

Para o consumidor, juros altos encarecem as prestações e reduzem o valor que pode ser financiado com a mesma renda.

Para a empresa, o impacto aparece no custo da dívida, no financiamento da construção, na compra de terrenos e na manutenção dos estoques.

As incorporadoras também competem com a renda fixa pela poupança dos investidores. Com títulos públicos e privados oferecendo retornos elevados, a compra de imóveis para investimento precisa apresentar perspectiva de valorização ou renda suficiente para justificar o risco e a menor liquidez.

A exposição crescente da Trisul ao segmento econômico oferece proteção parcial, porque o Minha Casa, Minha Vida possui fontes específicas de financiamento e subsídios. O alto padrão, por sua vez, tende a depender menos do crédito convencional, mas apresenta vendas menos homogêneas.

Ações TRIS3 continuam negociadas com desconto patrimonial

Apesar da alta desta quinta-feira, as ações da Trisul permanecem negociadas abaixo do valor patrimonial por ação.

Esse desconto pode indicar que o mercado atribui valor inferior ao patrimônio contábil da empresa por causa dos riscos do setor, do custo de capital, da liquidez reduzida do papel e das incertezas sobre a conversão dos projetos em lucro e caixa.

O múltiplo baixo não representa, isoladamente, uma oportunidade de investimento. Incorporadoras podem negociar abaixo do patrimônio por longos períodos quando o mercado espera redução de margens, aumento de dívida ou desaceleração das vendas.

A prévia do segundo trimestre reduz parte dessas preocupações ao mostrar expansão comercial e retomada dos lançamentos. O próximo passo será confirmar se esse crescimento ocorreu com rentabilidade.

A valorização de 2,74% no pregão mostra uma reação positiva, mas o volume financeiro negociado permaneceu limitado em comparação com empresas de maior capitalização.

A baixa liquidez pode ampliar movimentos de alta e queda, já que um número menor de ordens é suficiente para alterar a cotação.

Balanço de agosto mostrará qualidade do crescimento

A Trisul divulgará o resultado financeiro do segundo trimestre em 13 de agosto e apresentará os números a investidores no dia seguinte.

O balanço permitirá verificar se o crescimento das vendas veio acompanhado de avanço da receita, preservação das margens e geração de caixa.

Os principais indicadores serão margem bruta, lucro líquido, Ebitda, dívida líquida, consumo de caixa e evolução dos recebíveis.

Também será necessário observar o custo dos novos projetos. Terrenos, materiais, mão de obra e despesas comerciais podem reduzir o benefício de um volume maior de vendas se os preços dos imóveis não compensarem a inflação dos custos.

A expansão dos lançamentos aumenta o potencial de receita futura, mas também exige capital para obras e marketing. O equilíbrio entre crescimento e endividamento será decisivo para a avaliação da companhia.

A prévia mostrou que a Trisul terminou o primeiro semestre vendendo mais, lançando projetos de perfis variados e acelerando a absorção diante do trimestre anterior. Mostrou também que os cancelamentos cresceram e que a velocidade de vendas ainda está abaixo da observada há um ano.

O resultado de agosto definirá se os R$ 465,2 milhões em vendas líquidas representam apenas uma forte expansão comercial ou o início de um ciclo capaz de elevar margens, lucro e geração de caixa para os acionistas.

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