O UBS BB rebaixou a recomendação das ações da Lojas Renner (LREN3) de compra para neutra e reduziu o preço-alvo de R$ 18 para R$ 13,50, um corte de 25%, após a varejista diminuir sua projeção de crescimento de receita para 2026 e apresentar avanço limitado das vendas no segundo trimestre. O banco também reduziu suas estimativas de lucro para 2026 e 2027.
A mudança ocorre oito dias depois de a Renner divulgar o balanço do segundo trimestre, período em que a receita líquida de varejo avançou 1,1%, para R$ 3,689 bilhões, enquanto as vendas em mesmas lojas cresceram 0,5%. O desempenho ficou abaixo das projeções internas da companhia e levou a administração a reduzir o guidance anual de receita líquida de uma faixa entre 9% e 13% para um intervalo de 4% a 8%.
A revisão altera de forma relevante a referência utilizada pelo mercado para 2026. Considerando o ponto médio das duas faixas, a expectativa implícita caiu de 11% para 6%. A diferença de 5 pontos percentuais corresponde a uma redução de 45,5% no ponto médio da projeção original. Como a receita líquida de varejo cresceu 2,5% no primeiro semestre, a nova faixa ainda pressupõe aceleração entre julho e dezembro.
UBS reduz lucro projetado em R$ 200 milhões por ano
A estimativa do UBS para o lucro líquido ajustado, excluídos créditos tributários, caiu de R$ 1,6 bilhão para R$ 1,4 bilhão em 2026, redução de R$ 200 milhões ou 12,5%. Para 2027, a projeção passou de R$ 1,7 bilhão para R$ 1,5 bilhão, também um corte de R$ 200 milhões, equivalente a 11,8%.
O banco também reduziu suas estimativas de lucro por ação. Para 2026, o valor projetado caiu de R$ 1,59 para R$ 1,46, retração de 8,2%. Para 2027, passou de R$ 1,75 para R$ 1,59, queda de 9,1%. A combinação entre lucro esperado menor e menor convicção sobre a capacidade de a companhia acelerar participação de mercado ajuda a explicar a redução de 25% no preço-alvo.
A leitura do UBS é que a Renner mantém vantagens como escala, posição de caixa líquido e capacidade de devolver capital aos acionistas, mas ainda precisa demonstrar que esses atributos podem se converter em crescimento mais forte de vendas e produtividade. Segundo o material de referência, o banco considera insuficientes os catalisadores visíveis para sustentar recomendação de compra no curto prazo.
Receita avança 1,1% enquanto área de vendas cresce 2,2%
Os dados operacionais divulgados pela Renner ajudam a dimensionar o desafio. A receita líquida de varejo somou R$ 3,689 bilhões no segundo trimestre, avanço de 1,1% sobre igual período de 2025. A área média de vendas aumentou 2,2%, para 822 mil metros quadrados, enquanto a receita líquida de varejo por metro quadrado caiu 1,1%, para R$ 4,49 mil.
Na principal categoria da companhia, vestuário, a receita avançou 2,5%, para R$ 3,345 bilhões, e as vendas em mesmas lojas cresceram 1,5%. No consolidado, o indicador de vendas em mesmas lojas ficou em 0,5%, muito abaixo dos 17,3% registrados um ano antes.
A administração reconheceu que o trimestre ficou abaixo das expectativas. A empresa atribuiu o resultado a um ambiente de consumo mais fraco, à redução dos juros em ritmo mais lento, ao maior endividamento das famílias e ao impacto da Copa do Mundo sobre o fluxo de consumidores nas lojas físicas. Segundo a Renner, o efeito sobre visitas e padrão de compra foi mais intenso do que o observado em eventos anteriores.
Digital cresce quase 12 vezes o ritmo do varejo
O GMV digital atingiu R$ 837,6 milhões, avanço de 13,1% sobre o mesmo período de 2025. A participação do canal nas vendas totais do varejo subiu de 15,2% para 16,9%, ganho de 1,7 ponto percentual.
Comparado ao crescimento de 1,1% da receita líquida do varejo, o avanço percentual do GMV digital foi quase 12 vezes maior. O dado reforça o comércio eletrônico como principal vetor de expansão no trimestre, embora sua participação ainda seja insuficiente para compensar integralmente o baixo crescimento das lojas físicas. No primeiro semestre, o GMV digital acumulou R$ 1,465 bilhão, alta de 10,6%.
Margem recorde protege varejo, mas Realize pressiona consolidado
Apesar da desaceleração das vendas, o lucro bruto do varejo cresceu 1,8%, para R$ 2,121 bilhões, e a margem bruta alcançou 57,5%, alta de 0,4 ponto percentual e recorde para um segundo trimestre. Na categoria de vestuário, a margem chegou a 58,7%.
A companhia atribuiu a melhora a maior participação de vendas a preço cheio, gestão mais eficiente de estoques e câmbio favorável. As despesas operacionais pós-IFRS 16 aumentaram 1,5%, para R$ 1,341 bilhão. O Ebitda do varejo chegou a R$ 791,2 milhões, crescimento de 2,3%, com margem de 21,4%.
O resultado consolidado foi pressionado pela operação financeira. A Realize registrou resultado de serviços financeiros de R$ 53,5 milhões, ante R$ 118,5 milhões no segundo trimestre de 2025. A diferença negativa foi de R$ 65 milhões, ou 54,9%. O Ebitda total ajustado recuou 5,3%, para R$ 844,6 milhões, e a margem caiu de 24,4% para 22,9%.
O lucro líquido contábil ficou praticamente estável em R$ 404,6 milhões. Excluídos efeitos extraordinários apontados pela empresa, o lucro líquido comparável foi de R$ 397,3 milhões, alta de 8%. O lucro por ação contábil cresceu 3,5%, para R$ 0,4165.
Fluxo de caixa livre cai 59,4%
O fluxo de caixa livre somou R$ 135,1 milhões no segundo trimestre, frente a R$ 333,1 milhões no mesmo período do ano anterior. A queda foi de R$ 198 milhões, ou 59,4%. No primeiro semestre, o fluxo de caixa livre acumulou R$ 393,2 milhões, 2,7% abaixo de 2025.
Ao fim de junho, a companhia tinha R$ 1,917 bilhão em caixa, equivalentes de caixa e aplicações financeiras e caixa líquido de R$ 1,159 bilhão. Essa posição permite à empresa manter investimentos, recompras e distribuição de proventos mesmo em um trimestre de menor geração de caixa.
No primeiro semestre, a Renner destinou R$ 313,1 milhões à recompra de ações e deliberou R$ 438 milhões em juros sobre capital próprio. A soma, de aproximadamente R$ 751 milhões, correspondeu a 113% do lucro líquido do período. A empresa mantém para 2026 a 2030 a projeção de distribuição de capital equivalente a 50% a 80% do lucro líquido anual.
Segundo semestre precisa mostrar reaceleração
Para alcançar a nova faixa de crescimento, a Renner aposta em base comparativa mais favorável, expansão da área de vendas, reinauguração de unidades reformadas e avanço de iniciativas comerciais e digitais. A companhia manteve inalterada a previsão de crescimento anual de receita entre 9% e 13% para 2027 a 2030.
Ao final do segundo trimestre, o grupo operava 723 lojas. A administração pretende abrir entre 50 e 60 unidades em 2026 e mantém objetivos de expansão para Renner e Youcom até 2030. O avanço de área, porém, já superou o crescimento da receita no trimestre, colocando produtividade e vendas em mesmas lojas no centro da avaliação dos próximos resultados.
A preservação da margem bruta mostra que a companhia segue obtendo ganhos em estoques e vendas a preço cheio, mas a mudança de recomendação do UBS desloca a atenção para a velocidade da receita. O terceiro trimestre será o primeiro teste da nova referência: uma reaceleração daria suporte à leitura de que o corte do guidance foi concentrado em 2026; a manutenção do ritmo atual ampliaria a distância entre a execução corrente e as metas preservadas para os anos seguintes.








