A Vale (VALE3) decidiu aplicar uma sanção de destituição ao conselheiro Marcelo Gasparino da Silva após uma investigação externa concluir, segundo a companhia, que ele foi responsável pelo vazamento de informações confidenciais relacionadas a uma reunião do conselho de administração realizada em 19 de junho. A medida foi anunciada na noite de quarta-feira (22), no Rio de Janeiro, e ainda precisará ser aprovada pelos acionistas em uma nova assembleia geral.
O conselho também afastou Gasparino dos dois comitês de assessoramento dos quais participava: o Comitê de Indicação e Governança e o Comitê de Pessoas e Remuneração. A retirada dessas funções produz efeito imediato, enquanto a perda definitiva da cadeira no conselho depende de votação dos acionistas.
A decisão foi divulgada poucas horas depois de Gasparino ser derrotado na eleição para a presidência do conselho da Vale (VALE3). Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como Ollie, foi escolhido para comandar o colegiado em assembleia extraordinária realizada na manhã do mesmo dia.
A sequência dos acontecimentos amplia a pressão sobre a governança da maior mineradora brasileira. Em poucas semanas, a Vale (VALE3) recebeu um pedido de mudança no comando apresentado pela Previ, assistiu à renúncia do então presidente Daniel Stieler, realizou uma eleição disputada e abriu o procedimento para retirar do conselho o candidato derrotado.
A companhia não divulgou o conteúdo exato das informações vazadas nem identificou publicamente os destinatários. Também não informou a data da assembleia que decidirá se Gasparino continuará ou não no colegiado.
Investigação externa confirmou vazamento, diz Vale
A Vale (VALE3) informou que a decisão foi baseada nos fatos e nas conclusões de uma apuração conduzida por um escritório externo independente, contratado por deliberação do próprio conselho.
Segundo o fato relevante, a investigação confirmou o vazamento e classificou a conduta como um desvio nos termos da Política de Gestão de Desvios de Conduta da mineradora.
O conselho acompanhou as recomendações do Comitê de Auditoria e Riscos e da Diretoria de Auditoria e Conformidade. Essas estruturas são responsáveis por auxiliar o colegiado na supervisão dos controles internos, dos riscos empresariais e do cumprimento das políticas da companhia.
A empresa não apresentou no comunicado o relatório completo da investigação, a cronologia dos contatos analisados, os documentos utilizados ou a natureza precisa das informações consideradas confidenciais.
Essa ausência limita a avaliação externa sobre a gravidade do episódio. O mercado sabe que a apuração atribuiu o vazamento a Gasparino, mas ainda não conhece os elementos probatórios, a extensão da divulgação nem os possíveis impactos causados pela informação.
Gasparino não havia apresentado manifestação pública sobre a acusação até as últimas informações disponíveis. O conselheiro terá direito a se defender e poderá apresentar sua posição antes da assembleia convocada para deliberar sobre sua saída.
Destituição ainda não está concluída
Embora o conselho tenha aprovado a aplicação da sanção, Marcelo Gasparino permanece formalmente como membro do conselho de administração até que os acionistas decidam sobre sua destituição.
A diferença é relevante. O conselho possui competência para afastá-lo dos comitês de assessoramento, mas não pode, sozinho, encerrar um mandato conferido pela assembleia geral.
A Vale (VALE3) informou que convocará uma nova assembleia assim que forem concluídos os trâmites necessários. A companhia deverá publicar edital, proposta da administração, orientações para votação e demais documentos exigidos pela legislação.
Os acionistas poderão aprovar ou rejeitar a destituição. Caso a proposta seja aceita, também será necessário definir como a cadeira será preenchida até o encerramento do mandato atual, previsto para a assembleia ordinária de 2027.
A votação poderá reabrir a disputa entre diferentes grupos de investidores sobre a composição do colegiado. Como a Vale não possui um acionista controlador tradicional, decisões dessa natureza dependem da articulação entre fundos de pensão, gestoras nacionais, investidores estrangeiros e detentores de recibos negociados no exterior.
A necessidade de uma segunda assembleia prolonga o episódio e mantém a governança no radar do mercado. Até a votação, a mineradora conviverá com um conselheiro cuja saída foi recomendada pelo próprio colegiado.
Reunião de 19 de junho está no centro do caso
O vazamento apontado pela Vale (VALE3) estaria relacionado à reunião extraordinária realizada em 19 de junho, entre 15h10 e 19h40, na sede da companhia no Rio de Janeiro.
O encontro foi convocado para discutir o pedido apresentado pela Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil, a Previ, que solicitou uma assembleia para deliberar sobre a retirada de Daniel Stieler do conselho, a escolha de um substituto e a eleição de um novo presidente.
Naquele momento, Stieler ainda presidia o colegiado. Gasparino ocupava a vice-presidência e Ollie atuava como diretor independente líder, função criada para reforçar a interlocução entre os membros independentes e a presidência.
A ata mostra que o conselho aprovou a convocação da assembleia e reconheceu as candidaturas de Ollie e Gasparino à presidência. Os documentos também registraram divergências sobre a participação de Stieler em uma reunião que discutia um pedido relacionado à sua própria destituição.
Gasparino apresentou uma manifestação questionando a regularidade da deliberação. Em sua avaliação, existiria conflito de interesses porque Stieler participou de uma discussão que envolvia diretamente sua permanência no cargo.
A Vale não esclareceu se o vazamento investigado se limitou a esse posicionamento, se alcançou outros trechos da reunião ou se envolveu documentos que não foram divulgados aos acionistas.
Reportagens posteriores relacionaram a apuração a informações sobre discussões internas ocorridas no encontro. Essa ligação, contudo, não foi detalhada oficialmente pela companhia.
Ollie vence Gasparino na eleição para presidente
A apuração foi concluída em meio à eleição que definiu o novo comando do conselho. Na assembleia de quarta-feira, Ollie recebeu 1.977.262.848 votos favoráveis, enquanto Gasparino obteve 1.065.493.489 votos de aprovação.
O resultado mostrou uma vantagem expressiva para Ollie, que recebeu apoio público da Previ. Gasparino também enfrentou 1.189.753.648 votos contrários, além de um volume elevado de abstenções.
O novo presidente integra o conselho da Vale (VALE3) desde 2021 e exercia a função de diretor independente líder desde 2023. Sua trajetória profissional inclui quase cinco décadas de experiência em mineração, finanças corporativas, estratégia, gestão de riscos e mercado de capitais.
Ollie já atuou em empresas internacionais como Anglo American, De Beers, Antofagasta, Polymetal International e Jubilee Metals. Na Vale, integrou o Comitê de Auditoria e Riscos e o Comitê de Sustentabilidade.
Sua eleição encerrou uma disputa que mobilizou investidores nacionais e estrangeiros. A presidência do conselho é estratégica porque coordena as reuniões, organiza a agenda de deliberações e conduz a supervisão da diretoria executiva.
O presidente não administra diretamente as operações, tarefa atribuída ao CEO e aos demais executivos. Ainda assim, exerce influência relevante sobre temas como investimentos, dividendos, projetos de expansão, sucessão, remuneração e política de riscos.
Previ impulsionou mudança no comando
A disputa começou em 11 de junho, quando a Previ, detentora de aproximadamente 7% do capital da Vale (VALE3), solicitou a convocação de uma assembleia extraordinária.
O fundo de pensão pretendia votar a destituição de Daniel Stieler, indicar José Maurício Pereira Coelho para o conselho e apoiar Ollie para a presidência.
A companhia submeteu o pedido à análise do colegiado e convocou a reunião. Ao mesmo tempo, o próprio conselho recomendou Ieda Gomes Yell para disputar a cadeira que poderia ser aberta.
Stieler renunciou em 6 de julho, antes da assembleia. Com isso, perdeu o objeto a proposta de destituição, mas foram mantidas as votações para preencher sua vaga e escolher o novo presidente.
Wilfred Theodoor Bruijn assumiu interinamente o comando do conselho até a realização da AGE. A solução preservou o funcionamento do órgão durante o período entre a renúncia e a escolha dos acionistas.
A Previ obteve uma vitória ao apoiar Ollie para presidente, mas não conseguiu eleger José Maurício Coelho para o conselho. Os acionistas escolheram Ieda Gomes Yell, candidata recomendada pelo colegiado da Vale.
O resultado dividiu o poder entre as articulações. O fundo de pensão influenciou a presidência, enquanto a administração conseguiu aprovar sua candidata para a cadeira disponível.
Ieda Gomes Yell ocupa vaga deixada por Stieler
Ieda Gomes Yell foi eleita para completar o mandato até a assembleia ordinária de 2027. A executiva possui experiência nos setores de energia, infraestrutura, gás natural e governança corporativa.
Ela foi presidente da BP no Brasil e da Comgás, além de ter participado de conselhos de empresas nacionais e internacionais.
A Vale (VALE3) defendeu sua eleição com base na complementaridade de competências, na experiência internacional e na contribuição para a diversidade do colegiado.
A chegada ocorre em uma fase em que o conselho enfrenta temas de grande peso estratégico. A mineradora precisa administrar investimentos de longo prazo, preços do minério de ferro, expansão da produção de cobre, licenciamento ambiental e compromissos relacionados às reparações de Mariana e Brumadinho.
O conselho também deverá acompanhar a divulgação dos resultados do segundo trimestre, prevista para o fim de julho, e as decisões sobre alocação de capital.
As disputas internas não interrompem essas agendas. O risco, para os acionistas, é que conflitos de governança desviem a atenção de decisões operacionais e financeiras que afetam diretamente o valor da companhia.
Vazamento ameaça confiança dentro do conselho
Reuniões de conselho exigem confidencialidade porque envolvem projeções, operações financeiras, negociações, riscos jurídicos, decisões sobre executivos e informações ainda não divulgadas ao mercado.
O acesso indevido a esses dados pode criar assimetria entre investidores. Uma pessoa que recebe informação relevante antes de sua publicação pode tomar decisões de compra ou venda em vantagem sobre os demais participantes.
Nem todo vazamento representa uso indevido no mercado, mas a quebra de sigilo prejudica o funcionamento do colegiado. Conselheiros podem reduzir a franqueza dos debates se acreditarem que suas manifestações serão divulgadas fora dos canais previstos.
A confidencialidade também protege a companhia durante negociações. Projetos de aquisição, venda de ativos, contratos comerciais e decisões de capital podem perder valor quando se tornam públicos antes da conclusão.
No caso da Vale (VALE3), o episódio ganha peso adicional porque ocorreu em uma reunião marcada por disputa de poder. A informação vazada teria saído de um encontro que discutiu a tentativa da Previ de alterar o comando do conselho.
Por isso, a resposta da companhia será observada como um teste de seus mecanismos de integridade. A independência da investigação, a transparência possível sobre o procedimento e o direito de defesa serão relevantes para a credibilidade da decisão.
Gasparino acumulava posição influente na Vale
Marcelo Gasparino integra o conselho da Vale (VALE3) como membro titular desde 2020 e ocupa a vice-presidência desde 2023. Também participou anteriormente do colegiado como suplente.
Antes do afastamento, coordenava o Comitê de Pessoas e Remuneração e integrava o Comitê de Indicação e Governança.
O conselheiro possui experiência em governança de empresas dos setores de mineração, petróleo, energia, siderurgia e serviços financeiros. Também participa ou participou de colegiados de companhias como Petrobras (PETR4), Axia Energia (AXIA3), Oncoclínicas (ONCO3), Usiminas (USIM5) e Metalfrio.
Sua trajetória é ligada à representação de acionistas minoritários e a disputas de governança em companhias abertas. Na Vale, Gasparino participou de diferentes fases da transformação do conselho depois da dispersão do capital.
A tentativa de assumir a presidência indicava que ele pretendia ampliar sua influência sobre a condução estratégica da mineradora. A derrota na assembleia e a recomendação de destituição alteraram abruptamente essa posição.
Caso os acionistas confirmem sua saída, o episódio poderá afetar também sua reputação no mercado de conselheiros profissionais. As consequências sobre outros mandatos, contudo, dependerão das decisões de cada companhia e das informações que venham a ser divulgadas.
CVM pode acompanhar desdobramentos
Como companhia aberta, a Vale (VALE3) está sujeita à fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários e às regras da B3. A mineradora também possui recibos negociados nos Estados Unidos e envia documentos à Securities and Exchange Commission.
A divulgação do fato relevante cumpre a obrigação de informar ao mercado decisões capazes de influenciar a avaliação dos investidores.
A CVM poderá solicitar esclarecimentos adicionais caso identifique dúvidas sobre o conteúdo vazado, o tratamento dado à informação ou a observância das normas aplicáveis aos administradores.
Não há, nas informações divulgadas, indicação de que a autarquia tenha responsabilizado Gasparino ou aberto um processo sancionador específico sobre o episódio.
A apuração interna e uma eventual investigação regulatória possuem naturezas diferentes. A primeira verifica o cumprimento das políticas da companhia. A segunda pode examinar possíveis infrações às regras do mercado de capitais.
A atuação regulatória dependerá da materialidade das informações, da forma de divulgação e da eventual utilização dos dados por terceiros.
Nova assembleia mantém governança da Vale sob pressão
A eleição de Ollie encerrou a disputa imediata pelo comando, mas a crise de governança ainda não terminou.
O novo presidente assume com a tarefa de recompor a confiança entre os conselheiros, preservar a independência do colegiado e impedir que as divergências internas contaminem decisões empresariais.
A futura assembleia sobre Gasparino será o primeiro grande teste desse processo. Os acionistas precisarão avaliar a recomendação do conselho sem acesso, até agora, ao conteúdo integral da investigação.
A Vale (VALE3) terá de equilibrar confidencialidade, transparência e direito de defesa. Divulgar poucos elementos pode gerar questionamentos sobre a sustentação da punição. Expor detalhes excessivos pode ampliar o dano causado pelo próprio vazamento.
O mercado acompanhará também quem será indicado para uma eventual vaga e como ficará a vice-presidência do conselho. Mudanças adicionais poderão alterar a composição dos comitês e a distribuição de responsabilidades dentro do órgão.
Para os investidores, a prioridade é que o conflito seja resolvido sem comprometer a supervisão dos negócios. A Vale permanece exposta a decisões estratégicas sobre produção, projetos de cobre e minério de ferro, disciplina financeira e remuneração dos acionistas.
A destituição proposta transforma a confidencialidade das reuniões em um tema central da companhia. O desfecho dependerá agora dos mesmos acionistas que, poucas horas antes do anúncio, haviam rejeitado Gasparino para a presidência e escolhido Ollie para conduzir o conselho.










