A Vale (VALE3) encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido proforma de US$ 1,566 bilhão, queda de 26% em relação ao mesmo período do ano passado, ao mesmo tempo que elevou a receita, ampliou o Ebitda e gerou mais caixa. O desempenho permitiu ao Conselho de Administração aprovar US$ 1,701 bilhão em dividendos e juros sobre capital próprio, equivalentes a R$ 2,0307 por ação, em uma distribuição sustentada pelos resultados acumulados no primeiro semestre.
No conceito contábil atribuído aos acionistas, que incorpora despesas extraordinárias e outros efeitos não recorrentes, o lucro líquido ficou em US$ 1,375 bilhão. A retração foi de 35% na comparação anual e de 27% em relação aos três primeiros meses de 2026. A receita líquida, em direção oposta, alcançou US$ 10,498 bilhões, crescimento de 19% sobre o segundo trimestre de 2025 e de 13% ante o trimestre imediatamente anterior.
O balanço mostra uma Vale operacionalmente mais forte, mas ainda exposta à volatilidade de fatores financeiros e tributários que não acompanham, necessariamente, o desempenho físico de suas minas. A companhia produziu e vendeu mais, recebeu preços superiores por parte de seu portfólio e reduziu a dívida líquida expandida. Ainda assim, a marcação a mercado de derivativos e o aumento dos tributos comprimiram a última linha do resultado.
Para o acionista, o dado central não está apenas na queda do lucro. A combinação entre Ebitda proforma de US$ 4,066 bilhões, fluxo de caixa livre de US$ 1,505 bilhão e redução do endividamento forneceu a base financeira para a nova remuneração, além de preservar recursos para investimentos e recompra de ações.
Geração de caixa sustenta pagamento de R$ 2,03 por ação
A remuneração aprovada será dividida entre R$ 1,5687 por ação em juros sobre capital próprio e R$ 0,4620 por ação em dividendos. O desembolso total previsto para setembro representa a aplicação da política de remuneração da Vale aos resultados obtidos no primeiro semestre de 2026.
O pagamento ocorre apesar da redução anual do lucro porque a capacidade de distribuir recursos não depende exclusivamente do resultado líquido de um trimestre. A companhia considera a geração operacional, os investimentos necessários, a posição financeira, a dívida e o caixa disponível antes de definir a remuneração aos acionistas.
A Vale terminou junho com fluxo de caixa livre de US$ 1,505 bilhão, montante 49% superior ao apurado um ano antes e 85% acima do primeiro trimestre. A melhora veio principalmente do crescimento do Ebitda e da redução dos pagamentos de tributos, embora parte do avanço tenha sido absorvida pelas necessidades de capital de giro.
Os derivativos também tiveram efeito positivo sobre o caixa, ainda que tenham exercido pressão contábil sobre o lucro. A liquidação financeira desses instrumentos gerou entrada de US$ 337 milhões no trimestre. A diferença evidencia como um mesmo mecanismo de proteção pode provocar efeitos distintos na demonstração de resultados e no fluxo financeiro da companhia.
Além dos proventos, a Vale manteve a recompra de ações como instrumento de retorno ao investidor. A mineradora desembolsou US$ 140 milhões para adquirir aproximadamente 8,77 milhões de ações durante o trimestre. O Conselho de Administração também aprovou um novo programa para a recompra de até 100 milhões de ações ordinárias, ou dos respectivos ADRs, com duração máxima de 18 meses.
Receita cresce, mas custos limitam avanço das margens
O Ebitda proforma subiu 19% na comparação anual, para US$ 4,066 bilhões. O crescimento refletiu preços realizados mais altos e maiores volumes de vendas em todos os segmentos, fatores que adicionaram escala e receita ao resultado da Vale.
A margem Ebitda proforma permaneceu em 39%, mesmo nível do segundo trimestre de 2025. Em relação aos primeiros três meses deste ano, porém, houve queda de três pontos percentuais. O recuo trimestral mostra que o aumento da receita não foi convertido integralmente em expansão de rentabilidade.
A apreciação do real pressionou as despesas denominadas na moeda brasileira quando convertidas em dólares. Ao mesmo tempo, a alta do petróleo e do bunker, combustível utilizado no transporte marítimo, elevou o frete e atingiu o custo de levar minério de ferro aos principais mercados consumidores.
Também pesaram maiores gastos com concentração de minério, a suspensão de atividades nas unidades de Fábrica e Viga e a manutenção programada das instalações de processamento de Sudbury, no Canadá. A soma desses fatores reduziu parte do benefício proporcionado pelo aumento dos preços e das vendas.
Os custos e despesas totais, excluídos Brumadinho e a descaracterização de barragens, avançaram 20%, para US$ 7,969 bilhões. O movimento foi ligeiramente superior ao crescimento de 19% da receita, o que ajuda a explicar a estabilidade da margem operacional mesmo diante do desempenho comercial mais forte.
Minério de ferro registra maior produção para o período desde 2018
A produção de minério de ferro atingiu 84,3 milhões de toneladas no segundo trimestre, alta de 0,8% sobre o mesmo intervalo de 2025 e o maior volume para o período desde 2018. O desempenho foi sustentado pelo recorde de produção do S11D e pelas entregas adicionais dos projetos Capanema e VGR1.
As vendas de minério de ferro cresceram 3,1%, para 79,7 milhões de toneladas. O aumento refletiu tanto a maior produção quanto a comercialização de estoques, aproximando o volume vendido da capacidade física entregue pelas operações.
O preço médio realizado dos finos de minério de ferro ficou em US$ 95 por tonelada, avanço de 11,6% em relação ao ano anterior. Na comparação com o primeiro trimestre, houve ligeira queda de 0,8%, influenciada por mecanismos de precificação, ajustes provisórios e redução de prêmios.
A recuperação anual do preço foi decisiva para o crescimento da receita, mas não impediu a pressão sobre os custos. O custo caixa C1 chegou a US$ 24,10 por tonelada, alta de 9%, principalmente em razão do câmbio. O custo total do minério, incluindo frete e demais despesas, atingiu US$ 61,60 por tonelada, aumento de 18%.
A Vale revisou para cima suas projeções de custos para 2026. A faixa esperada para o C1 passou a US$ 22,50 a US$ 23,50 por tonelada, ante estimativa anterior de US$ 20 a US$ 21,50. Para o custo total, a nova previsão ficou entre US$ 58 e US$ 62 por tonelada, acima dos US$ 52 a US$ 56 projetados anteriormente.
A mudança decorreu principalmente da adoção de uma premissa cambial mais valorizada para o real e da elevação da estimativa para o petróleo Brent. A mineradora agora considera câmbio médio de R$ 5,13 por dólar e petróleo a US$ 86 por barril em 2026, parâmetros que tornam mais cara a estrutura operacional quando expressa em dólares.
Proteção contra o petróleo reduz parte da pressão do frete
A Vale conseguiu neutralizar parcialmente a alta dos combustíveis por meio de contratos de proteção. Cerca de 70% do consumo previsto de bunker para 2026 havia sido protegido com instrumentos vinculados ao petróleo Brent contratados no ano anterior.
As operações produziram ganho econômico de US$ 99 milhões no segundo trimestre, equivalente a aproximadamente US$ 1,60 por tonelada de minério de ferro vendida. Sem considerar contabilmente essa proteção no cálculo reportado, o custo total ficou em US$ 61,60 por tonelada. Incorporado o benefício econômico, seria equivalente a US$ 60.
A estratégia diminui a exposição imediata da mineradora às oscilações do petróleo, mas não elimina o risco. O resultado depende dos preços de mercado, da estrutura dos contratos e do volume efetivamente consumido. Em períodos de forte alta, o hedge protege margens; em cenários de queda, pode limitar parte do benefício proporcionado pelo combustível mais barato.
Para a Vale, essa gestão ganhou relevância porque a maior parte das vendas de finos ocorre na modalidade em que a companhia assume o transporte marítimo até o cliente. No segundo trimestre, 62,5 milhões de toneladas foram vendidas sob esse modelo, o equivalente a 89% das vendas totais de finos.
Cobre e níquel ganham peso no resultado da Vale
O minério de ferro continuou como principal fonte de receita e geração operacional, mas os metais básicos tiveram participação crescente no resultado. A divisão Vale Base Metals registrou Ebitda de aproximadamente US$ 1,3 bilhão, avanço de 79% na comparação anual.
No cobre, a produção alcançou 98,4 mil toneladas, aumento de 6,3% e melhor desempenho para um segundo trimestre desde 2017. As vendas cresceram 9,7%, enquanto o preço médio realizado avançou 56,5%, para US$ 14.062 por tonelada.
O Ebitda do cobre praticamente dobrou, chegando a US$ 1,026 bilhão. A expansão refletiu a valorização do metal, maiores volumes e receitas superiores com subprodutos, sobretudo ouro. A contribuição desses subprodutos foi suficiente para levar o custo total do cobre a um valor negativo de US$ 257 por tonelada.
No níquel, a produção cresceu 4,2%, para 42 mil toneladas, o melhor resultado para o período desde 2020. As vendas aumentaram 7,2%, para 44,4 mil toneladas, e o preço realizado subiu 14,3%, alcançando US$ 18.061 por tonelada.
O Ebitda do negócio de níquel avançou 46%, para US$ 294 milhões. Já o custo total recuou 17% em relação ao ano passado, para US$ 10.340 por tonelada, beneficiado pela eficiência operacional e pelo maior valor dos metais produzidos conjuntamente nos ativos polimetálicos.
O desempenho reforça a estratégia de ampliar a exposição da Vale a minerais utilizados na eletrificação, nas redes de energia e em processos industriais associados à transição energética. Ao elevar a contribuição do cobre e do níquel, a mineradora reduz gradualmente sua dependência econômica do minério de ferro, embora esse processo ainda esteja em estágio de construção.
Derivativos e tributos derrubam lucro apesar do Ebitda maior
A queda do lucro ocorreu principalmente abaixo do resultado operacional. A Vale registrou uma variação negativa de US$ 798 milhões na marcação a mercado de derivativos em relação ao segundo trimestre do ano passado, quando a base de comparação havia sido favorável.
O resultado financeiro ficou negativo em US$ 473 milhões, ante saldo positivo de US$ 167 milhões no mesmo trimestre de 2025. A diferença de US$ 640 milhões absorveu praticamente todo o acréscimo de US$ 642 milhões obtido no Ebitda proforma.
Os tributos sobre o lucro também exerceram pressão. A despesa tributária chegou a US$ 368 milhões, enquanto o segundo trimestre de 2025 havia registrado efeito positivo de US$ 32 milhões. Parte relevante da variação decorreu do impacto cambial sobre prejuízos fiscais acumulados por subsidiárias.
A companhia reconheceu ainda US$ 289 milhões em despesas não recorrentes. Somados aos gastos relacionados a Brumadinho e à descaracterização de barragens, esses itens contribuíram para reduzir o lucro contábil atribuído aos acionistas a US$ 1,375 bilhão.
No primeiro semestre, o lucro líquido proforma acumulou US$ 3,459 bilhões, retração mais moderada de 4%. O Ebitda proforma avançou 20%, para US$ 7,961 bilhões, e o fluxo de caixa livre cresceu 53%, chegando a US$ 2,318 bilhões. O contraste entre essas linhas ajuda a explicar por que a Vale manteve uma remuneração relevante mesmo com o lucro trimestral menor.
Dívida recua enquanto Vale preserva investimentos
A dívida líquida expandida encerrou junho em US$ 16,677 bilhões, redução de US$ 1,115 bilhão em relação ao fim de março e de 4% na comparação anual. O recuo refletiu a geração de caixa do período e melhorou o espaço financeiro para investimentos e remuneração dos acionistas.
Os investimentos totalizaram US$ 1,128 bilhão no trimestre, avanço de 7%. A maior parte, US$ 931 milhões, foi destinada à manutenção das operações, incluindo usinas de pelotização, sistemas ferroviários e estruturas necessárias para sustentar a produção de cobre.
A Vale manteve a previsão de investir entre US$ 5,4 bilhões e US$ 5,7 bilhões em 2026. O compromisso coloca a companhia diante de uma combinação delicada: entregar caixa aos acionistas sem comprometer projetos de expansão, manutenção de ativos, segurança operacional e obrigações de reparação.
O projeto Serra Sul +20 atingiu 88% de execução física e iniciou operação em julho. Quando estiver integralmente desenvolvido, deverá acrescentar 20 milhões de toneladas anuais de capacidade ao complexo S11D, em conjunto com o projeto do Britador de Compactos, previsto para entrar em operação no quarto trimestre.
No cobre, o projeto Bacaba chegou a 39% de avanço físico e teve sua entrada em operação antecipada para o terceiro trimestre de 2027. A previsão anterior indicava o primeiro semestre de 2028. O empreendimento integra o plano da Vale de dobrar sua produção de cobre até 2035.
Balanço mantém VALE3 ligada a preços, câmbio e execução operacional
O segundo trimestre reforçou a capacidade da Vale de ampliar produção, vendas e caixa mesmo em um ambiente de custos mais altos. O resultado também demonstrou que o lucro líquido pode se afastar do desempenho operacional quando derivativos, câmbio e tributos produzem variações expressivas.
Para os acionistas de Vale (VALE3), a distribuição de R$ 2,0307 por ação confirma que a companhia segue utilizando geração de caixa, redução da dívida e recompra de papéis como pilares de sua política de alocação de capital. A continuidade desse retorno dependerá, porém, da trajetória das commodities, dos custos logísticos e da execução dos projetos de crescimento.
A revisão das projeções de custos do minério de ferro é o principal ponto de atenção deixado pelo balanço. A Vale vendeu mais e recebeu preços melhores, mas passou a trabalhar com uma estrutura mais cara diante do real valorizado e do petróleo em nível superior ao previsto no começo do ano.
Ao mesmo tempo, o desempenho do cobre e do níquel adicionou uma segunda fonte de crescimento à companhia. Se essa contribuição ganhar escala enquanto Serra Sul +20 amplia a capacidade dos ativos mais competitivos de minério, a Vale poderá sustentar geração de caixa elevada mesmo em períodos de maior volatilidade financeira.







