A Vale (VALE3) encerrou o segundo trimestre de 2026 com produção de 84,3 milhões de toneladas de minério de ferro, o maior volume para o período desde 2018. O resultado representa uma alta de 20,9% em relação aos três primeiros meses do ano e de 0,8% na comparação com o mesmo trimestre de 2025. As vendas avançaram ainda mais: chegaram a 79,7 milhões de toneladas, crescimento trimestral de 16,1% e anual de 3,1%.
Os números confirmam a recuperação operacional esperada após um início de ano marcado pela sazonalidade das chuvas, mas não encerram o debate sobre o cumprimento da meta anual. A mineradora produziu 153,9 milhões de toneladas no primeiro semestre e precisará entregar entre 181,1 milhões e 191,1 milhões de toneladas de julho a dezembro para alcançar o guidance de 335 milhões a 345 milhões de toneladas em 2026.
Isso exige uma produção média de 90,5 milhões a 95,5 milhões de toneladas em cada um dos dois próximos trimestres. É um ritmo compatível com segundos semestres historicamente mais fortes, embora dependa da estabilidade de Carajás, do avanço dos projetos em Minas Gerais e da recuperação de unidades que permanecem paralisadas.
O relatório divulgado na noite de terça-feira, 21 de julho, também desloca a atenção dos investidores para uma segunda etapa da análise. A Vale recuperou volume, ampliou vendas e capturou preços superiores aos de um ano antes. Resta saber quanto desse desempenho será convertido em margem, EBITDA e fluxo de caixa. As respostas virão com o balanço financeiro marcado para 30 de julho.
Produção acelera após trimestre afetado pelas chuvas
A diferença entre os dois primeiros trimestres ajuda a dimensionar a retomada. Entre janeiro e março, a Vale havia produzido 69,7 milhões de toneladas de minério de ferro. Embora o volume já representasse crescimento anual, a operação enfrentou níveis elevados de precipitação, menor disponibilidade de minério bruto e uma interrupção ferroviária de cinco dias no Sistema Sudeste.
Com a normalização das condições operacionais, a produção avançou quase 14,6 milhões de toneladas em apenas três meses. A recuperação veio de diferentes frentes, evitando que o resultado dependesse exclusivamente do Sistema Norte.
O desempenho mais forte foi registrado no Sistema Sudeste, que produziu 24,3 milhões de toneladas, avanço de 15,6% em relação ao segundo trimestre de 2025. O crescimento foi sustentado pelo aumento da produção em Capanema, pela maior produtividade em Alegria e pela retomada de Água Limpa.
Dentro do sistema, as operações de Mariana — grupo que inclui Capanema, Timbopeba e outros ativos — produziram 9,9 milhões de toneladas. O aumento anual foi de 41,5%, fazendo da região uma das principais responsáveis pela expansão consolidada da companhia.
Capanema ocupa uma posição central nesse movimento. Retomado após mais de duas décadas de paralisação, o projeto amplia a flexibilidade do portfólio em Minas Gerais e reduz parte da dependência da Vale dos volumes produzidos em Carajás. A unidade permanece em processo de ramp-up, elevando gradualmente sua contribuição para o Sistema Sudeste.
Brucutu também sustentou o avanço. A produção das Minas Centrais atingiu 8,4 milhões de toneladas, aumento de 6,7% em um ano e de 23% diante do primeiro trimestre. O desempenho reforça a recuperação dos ativos mineiros depois de um começo de ano mais exposto às condições climáticas.
Recorde do S11D compensa perda em Serra Norte
No Pará, o quadro foi menos uniforme. O Sistema Norte produziu 39,6 milhões de toneladas, queda anual de 4%, apesar da forte aceleração em relação ao trimestre anterior.
A redução foi provocada principalmente por Serra Norte e Serra Leste, onde a produção caiu 20,5%, para 16,1 milhões de toneladas. A Vale atribuiu o movimento à menor disponibilidade, já esperada, de minério bruto nas operações.
O S11D, por outro lado, estabeleceu um novo recorde para um segundo trimestre. O complexo produziu 23,4 milhões de toneladas, alta de 11,9% na comparação anual e de 18% em relação aos três primeiros meses de 2026. O ativo respondeu sozinho por quase 28% de toda a produção de minério da companhia no período.
O desempenho mostra que a expansão em Carajás está cada vez mais concentrada em Serra Sul. A Vale trabalha para iniciar, no segundo semestre, os projetos Serra Sul +20 e Britador de Compactos, destinados a ampliar a flexibilidade operacional do sistema. A contribuição mais relevante para a produção deverá aparecer a partir de 2027.
A expansão do S11D é importante não apenas pelo volume. O minério de Carajás possui teor de ferro superior e menor presença de contaminantes, características que favorecem a composição de produtos com maior valor comercial e menor necessidade de processamento pelas siderúrgicas.
Ainda assim, o recuo de Serra Norte demonstra que a capacidade de cumprir o guidance não depende apenas da entrada de novos projetos. Disponibilidade de minério, manutenção de equipamentos, processamento e logística ferroviária precisam funcionar de maneira coordenada para sustentar trimestres acima de 90 milhões de toneladas.
Paralisações limitam recuperação do Sistema Sul
O principal ponto de fragilidade permaneceu no Sistema Sul, que produziu 12,1 milhões de toneladas. O volume ficou 7,7% abaixo do registrado no mesmo trimestre de 2025.
A queda refletiu a paralisação integral das operações de Fábrica e Viga desde janeiro. Na região de Paraopeba, onde esses ativos estão inseridos, a produção recuou 54,3%, para 1,8 milhão de toneladas.
A perda foi parcialmente compensada pelo Complexo de Vargem Grande. A região produziu 10,3 milhões de toneladas, crescimento anual de 12,4%, beneficiada pelo avanço da planta VGR1.
O resultado expõe uma das características do atual portfólio da Vale. A companhia conta com novos projetos capazes de adicionar produção, mas ainda convive com restrições relevantes em unidades tradicionais. Para o cumprimento da meta anual, o ganho obtido em Capanema, S11D e VGR1 terá de continuar superando as perdas provocadas por paralisações e menor disponibilidade de minério.
Vendas crescem mais que a produção
A Vale vendeu 79,7 milhões de toneladas de minério de ferro no segundo trimestre, 2,4 milhões a mais que no mesmo período do ano passado. O crescimento refletiu tanto o aumento da produção quanto a comercialização de estoques acumulados anteriormente.
As vendas de finos chegaram a 69,9 milhões de toneladas, alta trimestral de 17,7%. As vendas de pelotas totalizaram 7,7 milhões de toneladas, enquanto outros 2,1 milhões corresponderam a minério bruto.
O preço médio realizado dos finos ficou em US$ 95 por tonelada. Houve queda de US$ 0,80 diante do primeiro trimestre, mas avanço de 11,6% na comparação anual. No segundo trimestre de 2025, a Vale havia realizado US$ 85,10 por tonelada.
O dado é positivo quando observado contra o ano anterior, mas a composição do preço revela uma perda de qualidade no trimestre. O prêmio all-in, indicador que reúne os ganhos comerciais obtidos com qualidade dos finos e participação das pelotas, recuou de US$ 6,20 para US$ 4,40 por tonelada.
A redução de 29% ocorreu porque produtos de teor intermediário ganharam espaço no mix. A Vale vendeu mais Mid-Grade Carajás e minério concentrado em instalações chinesas, enquanto diminuiu a contribuição relativa de produtos de maior prêmio.
A companhia informou que os prêmios pagos pelo mercado para minérios com baixo teor de alumina permaneceram firmes. O efeito positivo, porém, não foi suficiente para compensar a mudança do portfólio e a menor participação das pelotas nas vendas totais.
Essa diferença será importante no balanço financeiro. Produzir e vender mais sustenta receita, mas a conversão em EBITDA dependerá do custo caixa, do frete marítimo e do valor efetivamente capturado em cada produto.
Omã derruba produção de pelotas
A produção de pelotas caiu 7% em relação ao segundo trimestre de 2025, para 7,3 milhões de toneladas. Na comparação com os três primeiros meses do ano, a retração foi de 10,6%.
A principal pressão veio de Omã. As plantas da Vale no país produziram apenas 200 mil toneladas, queda anual de 88,5%, após a suspensão temporária das atividades diante do agravamento do conflito no Oriente Médio e das restrições logísticas associadas.
Parte do material que seria processado em Omã foi redirecionada para as plantas de Tubarão, no Espírito Santo, e para a venda direta como finos. A companhia também antecipou manutenções enquanto as unidades permaneceram paradas. A produção foi parcialmente retomada no fim de junho.
A reação de Tubarão evitou uma queda mais acentuada. As plantas do Sistema Sudeste produziram 5,8 milhões de toneladas de pelotas, crescimento anual de 22,4%.
Mesmo com menor produção consolidada, as vendas de pelotas cresceram 3,5%, para 7,7 milhões de toneladas, indicando consumo de estoques. O preço médio realizado avançou para US$ 137 por tonelada, alta trimestral de 2,4% e anual de 2,2%.
Cobre ganha espaço na tese de diversificação
Enquanto o minério voltou ao ritmo esperado, o cobre apresentou o resultado mais consistente do portfólio. A Vale produziu 98,4 mil toneladas no trimestre, alta anual de 6,3% e maior marca para o período desde 2017.
No primeiro semestre, a produção alcançou 200,7 mil toneladas, avanço de 9,4% em relação a 2025. A companhia já cumpriu mais da metade do guidance anual, estabelecido entre 350 mil e 380 mil toneladas.
Salobo produziu 52,4 mil toneladas e registrou seu melhor segundo trimestre. Sossego entregou 25,9 mil toneladas, crescimento anual de 26,3%, após a Vale acelerar o processamento antes da reforma programada do moinho SAG.
A intervenção deverá começar em agosto e terá duração estimada de 110 dias. Durante o período, a companhia pretende utilizar um britador móvel para compensar parte da perda de capacidade.
O preço realizado do cobre atingiu US$ 14.062 por tonelada, alta de 56,5% em um ano. O movimento refletiu a valorização do metal, menores descontos de tratamento e refino e ajustes favoráveis na liquidação de vendas realizadas anteriormente.
É nesse segmento que a diversificação começa a produzir um efeito mais perceptível. O minério de ferro continua dominante na geração de resultados, mas o crescimento do cobre amplia a exposição da Vale a investimentos em redes elétricas, infraestrutura energética, eletrificação e expansão de data centers.
Níquel avança apesar da manutenção no Canadá
A produção de níquel totalizou 42 mil toneladas, crescimento anual de 4,2%. O volume foi o maior para um segundo trimestre desde 2020, embora tenha recuado 14,8% em relação ao início do ano.
A redução trimestral decorreu principalmente da manutenção bienal das instalações de processamento de Sudbury, no Canadá. A produção própria da unidade caiu 22,1%, para 6,7 mil toneladas.
Onça Puma seguiu na direção oposta. O ativo localizado no Pará produziu 9,4 mil toneladas, quase o dobro do volume registrado um ano antes, impulsionado pelo desempenho do segundo forno. Foi o melhor segundo trimestre da história da operação.
Voisey’s Bay também cresceu. A produção chegou a 10,4 mil toneladas, alta anual de 20,9%, sustentada pela expansão das minas subterrâneas e pelo desempenho da refinaria de Long Harbour.
As vendas de níquel alcançaram 44,4 mil toneladas e superaram a produção em 2,4 mil toneladas, após a Vale utilizar estoques para cumprir compromissos comerciais durante as manutenções. O preço realizado avançou para US$ 18.061 por tonelada.
Volume melhora, mas rentabilidade será o teste para VALE3
O relatório operacional reduz o risco de uma frustração imediata com a produção de minério, mas ainda não autoriza uma leitura completa sobre a rentabilidade da Vale. O documento não apresenta custo C1, frete marítimo, despesas, investimentos, EBITDA ou fluxo de caixa.
Esses indicadores serão divulgados no balanço de 30 de julho. A teleconferência com investidores está marcada para o dia seguinte.
Para quem acompanha VALE3, o ponto central será verificar se o aumento de volume compensou a redução dos prêmios comerciais e eventuais pressões de custo. A produção cresceu 20,9% no trimestre, mas o preço realizado dos finos recuou e o mix passou a incluir uma parcela maior de produtos intermediários.
O desempenho de cobre e níquel oferece uma segunda camada de proteção. Os metais básicos registraram crescimento anual de produção, vendas e preços, ampliando sua capacidade de contribuir para o resultado consolidado.
Essa diversificação, contudo, ainda não elimina a exposição da Vale ao minério de ferro. O produto continua determinante para receita, geração de caixa, dividendos e desempenho das ações.
O segundo trimestre entregou uma normalização operacional clara, mas não uma folga confortável. Para alcançar o guidance, a companhia precisará produzir no segundo semestre um volume superior ao registrado nos primeiros seis meses do ano.
O desafio agora deixa de ser apenas recuperar a produção. A Vale terá de combinar trimestres mais fortes, controle de custos e melhora do portfólio para transformar o avanço operacional em caixa para o acionista.










