O UBS BB elevou o preço-alvo para as ADRs da Vale (VALE3) negociadas em Nova York de US$ 16 para US$ 16,50, mas manteve recomendação neutra para os papéis, mesmo depois da recente queda das ações da mineradora. O novo valor representa potencial de valorização de aproximadamente 13% em relação ao fechamento utilizado pelo banco como referência.
A revisão, porém, não significa que a instituição tenha se tornado mais otimista com a tese de investimento. Para o UBS BB, três fatores continuam dificultando uma reprecificação mais consistente da Vale: a ausência de ventos macroeconômicos suficientemente favoráveis, fundamentos ainda frágeis para o minério de ferro e um suporte limitado de valuation nos níveis atuais.
O banco reconhece avanços operacionais importantes, especialmente na Vale Base Metals (VBM), divisão que reúne os negócios de cobre e níquel e vem assumindo participação crescente na narrativa de longo prazo da companhia. A dificuldade é que, para acessar essa tese por meio das ações da Vale, o investidor continua exposto a um negócio cuja geração de caixa permanece fortemente dependente do minério de ferro.
Essa combinação ajuda a explicar a aparente contradição entre um preço-alvo mais alto e a manutenção da recomendação neutra. Na avaliação do UBS BB, a melhora operacional existe e parte dela está sendo entregue, mas o equilíbrio entre risco e retorno ainda não seria suficientemente atraente para justificar uma recomendação de compra.
Vale deixou de ser apenas uma aposta no minério de ferro
Uma das principais mudanças identificadas pelo UBS BB é a forma como investidores passaram a enxergar a Vale. Durante muitos anos, a companhia foi tratada essencialmente como uma exposição ao minério de ferro e, consequentemente, ao ciclo siderúrgico chinês.
Essa correlação continua relevante, mas perdeu parte de sua predominância. Segundo a avaliação do banco, as ações passaram a funcionar cada vez mais como uma “aposta dupla”, combinando a possibilidade de entrada de capital em mercados emergentes com a exposição ao ciclo global dos metais.
A Vale Base Metals ocupa posição central nessa transformação. O desempenho de cobre e níquel passou a receber mais atenção nas interações com investidores e ganhou espaço na estratégia divulgada pela própria companhia, que pretende ampliar significativamente sua produção de cobre ao longo da próxima década.
No balanço oficial do segundo trimestre de 2026, a Vale informou que o Ebitda da divisão de metais básicos alcançou US$ 1,289 bilhão, crescimento de 79% sobre o mesmo período de 2025. Dentro desse resultado, somente o negócio de cobre apresentou Ebitda ajustado de US$ 1,026 bilhão, avanço anual de 91%.
Os números reforçam por que o UBS BB considera a VBM uma das partes mais interessantes da companhia. O problema, na visão dos analistas, está menos na qualidade da operação de metais básicos e mais na dificuldade de separar essa história da exposição estrutural ao minério de ferro.
Minério de ferro a US$ 95 continua sendo o primeiro freio
O primeiro grande entrave está justamente na commodity que historicamente sustenta a maior parcela da geração de caixa da Vale.
No segundo trimestre, o preço médio realizado dos finos de minério de ferro pela companhia ficou em US$ 95 por tonelada, praticamente o mesmo patamar mencionado pelo UBS BB ao avaliar os fundamentos atuais da commodity.
Embora esse nível ainda permita geração relevante de caixa para uma produtora de grande escala e ativos competitivos como a Vale, o banco considera que o minério não apresenta, neste momento, uma combinação suficientemente forte de fundamentos para impulsionar uma expansão significativa dos múltiplos da ação.
A própria Vale mostrou no balanço que houve pressão sobre custos. O custo caixa C1 do minério de ferro chegou a US$ 24,10 por tonelada, enquanto os custos all-in alcançaram US$ 61,60, influenciados pelo câmbio e pelo aumento do custo do frete.
A mineradora revisou seu guidance de custo caixa C1 para uma faixa entre US$ 22,50 e US$ 23,50 por tonelada e passou a trabalhar com custos all-in entre US$ 58 e US$ 62 por tonelada em 2026, incorporando principalmente uma expectativa de real mais valorizado e petróleo mais caro.
Isso não significa que o negócio de minério esteja estruturalmente comprometido. No segundo trimestre, a companhia registrou sua maior produção de minério de ferro para esse período do ano desde 2018. O ponto do UBS BB é diferente: os fundamentos atuais da commodity não oferecem um catalisador suficientemente forte para justificar uma visão mais agressiva sobre a ação.
Falta de impulso macro limita reprecificação
O segundo obstáculo apontado pelo UBS BB está fora das operações da companhia.
Segundo a leitura dos analistas, parte do bom desempenho relativo recente da Vale esteve associada não apenas à execução operacional, mas também à percepção de que suas ações ofereciam uma maneira de capturar fluxos direcionados a metais e a mercados emergentes.
Essa combinação ganhou relevância diante das mudanças no ambiente internacional e no comportamento das commodities, mas o banco avalia que não há garantia de continuidade desses fluxos com a mesma intensidade.
A Vale, portanto, passou a depender de uma combinação mais ampla de variáveis. Além da oferta e demanda por minério de ferro, o desempenho das ações pode refletir movimento de capitais para emergentes, preços do cobre e do níquel, trajetória do dólar, economia chinesa e percepção global de risco.
Para uma recomendação mais positiva, o UBS BB gostaria de enxergar um ambiente macroeconômico oferecendo suporte adicional à tese. Sem esse impulso, os avanços operacionais podem continuar aparecendo nos resultados sem necessariamente produzir a mesma intensidade de valorização nas ações.
Valuation é o terceiro obstáculo apontado pelo UBS BB
O terceiro freio está na própria avaliação da companhia.
Apesar da fraqueza recente dos papéis, o UBS BB considera que o valuation ainda oferece suporte limitado para uma recomendação de compra. A avaliação leva em conta não somente múltiplos tradicionais, mas também a capacidade de geração de caixa da Vale nos preços atuais das commodities.
Segundo o relatório atribuído ao banco, as ações negociavam com um rendimento de fluxo de caixa livre spot próximo de 7%, nível que, na visão dos analistas, não seria suficiente para compensar integralmente os riscos relacionados ao minério de ferro e à ausência de catalisadores macro mais fortes.
Esse ponto diferencia a análise do UBS BB de casas que passaram a enxergar uma assimetria mais favorável depois da correção recente dos papéis.
Para o banco, a queda isolada da ação não resolve a equação. Seria necessário que o preço incorporasse uma margem de segurança maior ou que surgissem catalisadores adicionais capazes de aumentar a geração de caixa e reduzir a dependência do minério de ferro.
Vale Base Metals é a parte mais atraente da tese
Se existe um componente claramente mais positivo na avaliação, ele está na Vale Base Metals.
O UBS BB considera que a divisão está se aproximando de uma fase mais estável depois de um longo processo de recuperação operacional. O negócio de níquel já apresenta melhora importante na geração de caixa, enquanto a operação de cobre demonstra maior estabilidade e perspectivas de crescimento.
Os resultados oficiais do segundo trimestre reforçam essa percepção. O preço médio realizado do cobre pela Vale atingiu US$ 14.062 por tonelada, alta de 57% na comparação anual, enquanto o Ebitda ajustado do segmento aumentou 91%, para pouco mais de US$ 1 bilhão.
A companhia também reduziu de forma expressiva seus custos no segmento. O custo all-in de cobre ficou negativo em US$ 257 por tonelada no trimestre, beneficiado pela receita de subprodutos, e a Vale revisou para baixo seu guidance anual de custos all-in da commodity, de uma faixa anterior de US$ 1.000 a US$ 1.500 para US$ 0 a US$ 500 por tonelada.
No níquel, o custo all-in caiu 17% em relação ao segundo trimestre de 2025, para US$ 10.340 por tonelada. A companhia também reduziu a faixa projetada para 2026, que passou para US$ 10 mil a US$ 11,5 mil por tonelada.
Vale quer dobrar produção de cobre até 2035
A perspectiva de crescimento é outro fator que aumenta o interesse dos investidores pela divisão de metais básicos.
A Vale reiterou no balanço do segundo trimestre sua ambição de dobrar a produção de cobre até 2035. Entre os projetos que sustentam essa estratégia está Bacaba, cuja construção atingiu 39% de avanço físico ao final de junho e está adiantada em relação ao cronograma original.
O início da operação de Bacaba, anteriormente previsto para o primeiro semestre de 2028, passou a ser esperado para o terceiro trimestre de 2027, segundo a companhia.
Para 2026, a Vale estreitou suas projeções de produção de cobre e níquel depois do desempenho registrado no primeiro semestre. O guidance para cobre passou para 360 mil a 380 mil toneladas, enquanto o de níquel ficou entre 185 mil e 200 mil toneladas.
A tese apresentada pelo UBS BB considera que a companhia possui projetos capazes de gerar valor e uma trajetória clara de expansão do cobre. O material analisado pelo banco trabalha com a possibilidade de a produção se aproximar de 700 mil toneladas anuais até 2035, caso os projetos previstos avancem conforme planejado.
Possível IPO da Vale Base Metals continua no radar
Uma eventual abertura de capital da Vale Base Metals é outro tema que aparece com frequência nas discussões sobre como destravar o valor da divisão.
Na avaliação do UBS BB apresentada no material-base, se a VBM fosse negociada separadamente, poderia figurar entre as histórias mais atraentes disponíveis aos investidores interessados em cobre e metais básicos.
A possibilidade de uma oferta pública inicial, porém, continua sendo tratada como uma alternativa e não como uma operação definida. Por esse motivo, o banco não incorpora uma separação imediata da unidade como elemento suficiente para mudar sua recomendação sobre a Vale.
A questão é importante porque o mercado poderia atribuir múltiplos diferentes aos dois negócios caso eles fossem avaliados de forma independente. O minério de ferro é uma operação de grande escala, elevada geração de caixa e crescimento mais moderado, enquanto cobre e outros metais ligados à eletrificação possuem uma perspectiva estrutural de demanda diferente.
Sem uma separação, quem compra VALE3 para acessar o crescimento da VBM continua assumindo conjuntamente a exposição à operação de minério de ferro.
Resultados do 2T26 mostram dois motores em velocidades diferentes
Os números divulgados pela Vale ajudam a visualizar essa estrutura.
A companhia encerrou o segundo trimestre com receita líquida de US$ 10,498 bilhões, crescimento de 19% em relação ao mesmo período de 2025. O Ebitda ajustado avançou 9%, para US$ 3,676 bilhões, enquanto o Ebitda proforma aumentou 19%, alcançando US$ 4,066 bilhões.
O fluxo de caixa livre recorrente atingiu US$ 1,505 bilhão, alta de 49% em um ano, enquanto a dívida líquida expandida recuou para US$ 16,677 bilhões, ante US$ 17,792 bilhões no primeiro trimestre.
O lucro líquido atribuível aos acionistas, entretanto, caiu 35% na comparação anual, para US$ 1,375 bilhão, refletindo principalmente fatores financeiros, tributários e itens extraordinários que compensaram parte do avanço operacional.
Dentro desse conjunto, os metais básicos cresceram mais rapidamente, enquanto o minério continuou desempenhando seu papel de grande gerador de caixa. É justamente essa configuração que sustenta a expressão de uma Vale com “dois motores”: um negócio consolidado de minério de ferro e uma plataforma de crescimento em cobre e níquel.
UBS BB projeta Ebitda acima de US$ 16 bilhões
Depois dos números do segundo trimestre, o UBS BB atualizou suas projeções para incorporar novos preços de commodities e o desempenho operacional recente da Vale.
Segundo o material analisado, a instituição estima Ebitda de US$ 16,1 bilhões em 2026, aproximadamente 1% acima da projeção anterior, e US$ 16,4 bilhões em 2027, revisão positiva de cerca de 2%.
A melhora das premissas para metais básicos foi parcialmente compensada por custos mais elevados, limitando alterações maiores nas estimativas consolidadas.
Esse equilíbrio ajuda novamente a explicar a recomendação neutra. O UBS BB reconhece que a Vale está entregando recuperação operacional e possui uma plataforma de crescimento considerada atraente em metais básicos, mas entende que parte dessa melhora já está refletida nos preços.
O novo preço-alvo de US$ 16,50 para as ADRs reconhece essa evolução e aumenta o valor atribuído à companhia, porém os três obstáculos permanecem: fundamentos pouco estimulantes para o minério de ferro, ausência de um impulso macroeconômico mais forte e valuation que, para o banco, ainda não oferece margem suficiente para transformar a recomendação em compra.









