A Vibra Energia (VBBR3) está tentando mudar uma das lógicas mais tradicionais do mercado de combustíveis para grandes empresas: deixar de vender diesel apenas como uma commodity e passar a cobrar pelo ganho de eficiência que o produto pode entregar ao cliente. A primeira vitrine dessa estratégia está na mineração, onde um novo diesel premium testado em operações da Vale (VALE3) reduziu o consumo de combustível, diminuiu problemas em filtros e ampliou intervalos de manutenção, segundo dados apresentados pela distribuidora.
O produto, batizado de Supera Plus, foi desenvolvido inicialmente para equipamentos pesados utilizados em minas e começou a ser comercializado depois de testes conduzidos pela Vale Base Metals, subsidiária de metais básicos da mineradora. Na operação de Salobo, no Pará, a Vibra afirma ter registrado redução de aproximadamente 5% no consumo e economia anual estimada em R$ 9,27 milhões. Em Onça Puma, também no Pará, a redução informada no consumo chegou a 6%.
Para a Vibra, o lançamento não é apenas uma tentativa de vender um diesel mais caro. Ele faz parte de uma mudança no mix do negócio corporativo, o B2B, no qual a empresa pretende capturar uma parcela maior do valor gerado ao cliente por meio de produtos aditivados, serviços técnicos e contratos de fornecimento de longo prazo.
“A gente deixa de discutir o diesel como uma commodity e passa a ter um produto que agrega valor adicional em relação ao que a concorrência tem”, afirmou Juliano Prado, vice-presidente executivo de B2B da Vibra, em entrevista concedida sobre o lançamento.
Economia de R$ 9,27 milhões coloca eficiência no centro da venda
Os números do teste realizado em Salobo ajudam a dimensionar a proposta comercial. Segundo a Vibra, a utilização do Supera Plus reduziu em cerca de 5% o consumo de combustível da operação e representou economia anual estimada em R$ 9,27 milhões. A companhia também identificou queda de aproximadamente 40% nas obstruções de filtros.
Se a economia de R$ 9,27 milhões estiver diretamente relacionada à redução de 5% do gasto com combustível, uma equivalência linear sugere uma base anual próxima de R$ 185 milhões em despesas associadas ao diesel na operação abrangida pelo teste. O cálculo é apenas uma aproximação, porque preços, volumes, condições operacionais e custos de manutenção podem variar, mas mostra por que pequenas alterações percentuais de consumo ganham relevância em operações minerais de grande escala.
A lógica é diferente daquela encontrada no abastecimento de um automóvel. Minerações utilizam caminhões fora de estrada, escavadeiras, carregadeiras e outros equipamentos pesados por longos períodos, muitas vezes em regime praticamente contínuo. Nesse ambiente, uma redução de poucos pontos percentuais no consumo pode se transformar em milhões de reais ao longo do ano.
Em Onça Puma, a Vibra afirma que o ganho foi ainda maior em termos de combustível: redução de 6% no consumo nas operações de transporte de minério. O intervalo entre trocas de filtros passou de 250 para 500 horas.
Na prática, dobrar o intervalo de 250 para 500 horas significa, em condições equivalentes, reduzir pela metade a frequência de trocas programadas por hora de operação. Para uma mina, o efeito potencial vai além do preço do filtro. Cada parada envolve mão de obra, indisponibilidade do equipamento e organização da manutenção, fatores que ajudam a explicar por que a Vibra está posicionando o produto como solução operacional e não apenas como combustível.
Diesel continua com B15, mas aditivação muda
O Supera Plus mantém o percentual de biodiesel exigido pela regulamentação brasileira. Desde agosto de 2025, o diesel comercializado no país utiliza mistura obrigatória de 15% de biodiesel, o chamado B15.
A diferenciação está na composição e no controle dos componentes utilizados. Segundo a Vibra, o produto utiliza biodiesel selecionado com maior estabilidade e menor presença de contaminantes, além de um pacote de aditivos destinado a melhorar o comportamento do combustível em condições severas.
Entre os componentes estão melhoradores de cetano, empregados para favorecer a eficiência da combustão, inibidores de corrosão e substâncias destinadas a retardar processos de oxidação e degradação durante o armazenamento e a operação.
O tema se tornou mais relevante à medida que o teor de biocombustível no diesel brasileiro aumentou. Biodiesel e diesel mineral apresentam características químicas diferentes e exigem controle de qualidade, armazenamento e manutenção adequados. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis estabelece especificações para o produto e regras de controle de estabilidade e contaminação.
Para grandes consumidores, problemas relacionados ao armazenamento e à filtragem podem representar custo operacional significativo, sobretudo quando o combustível permanece estocado ou é utilizado em ambientes de alta exposição a poeira, umidade e variações de temperatura.
Vibra vende 1,7 bilhão de litros de diesel por ano para mineradoras
A escolha da mineração como primeiro mercado do Supera Plus não foi casual. A Vibra vende aproximadamente 1,7 milhão de metros cúbicos de diesel por ano para o setor mineral. Isso corresponde a 1,7 bilhão de litros, ou uma média próxima de 4,7 milhões de litros por dia.
O volume representa aproximadamente 20% de todo o diesel comercializado pela companhia no negócio B2B. A proporção permite estimar que as vendas anuais de diesel para todos os clientes corporativos da empresa estejam na ordem de 8,5 milhões de metros cúbicos, considerando a relação informada pela própria Vibra.
A distribuidora afirma possuir quase 60% do mercado de combustíveis para mineração. Se essa participação for aplicada ao volume anual de 1,7 milhão de metros cúbicos, o mercado atendido pelas distribuidoras no segmento estaria próximo de 2,8 milhões a 3 milhões de metros cúbicos por ano. Trata-se de uma estimativa, já que a participação divulgada é aproximada.
Entre os grandes clientes da Vibra no setor estão Vale, Gerdau (GGBR4), Alcoa, Mineração Rio do Norte e Jacobina.
Apesar dessa posição, a companhia diz que o objetivo inicial do Supera Plus não é conquistar participação de mercado.
“A gente não está lançando esse produto para ganhar ‘market share’. A gente faz isso para criar mais valor na relação que já existe. O ganho de participação pode vir como consequência”, afirmou Prado.
Volume fica parado, mas Ebitda do B2B dispara
O balanço da Vibra ajuda a explicar por que essa estratégia ganhou espaço.
No segundo trimestre de 2026, o segmento B2B comercializou 3,253 milhões de metros cúbicos, praticamente o mesmo volume registrado um ano antes. A receita líquida ajustada, entretanto, cresceu 41%, para aproximadamente R$ 23,8 bilhões.
O Ebitda ajustado do segmento atingiu R$ 1,729 bilhão, avanço de 142% na comparação anual. A margem Ebitda ajustada alcançou R$ 531 por metro cúbico, também 142% superior à do mesmo período de 2025.
Os números mostram uma mudança importante: a divisão conseguiu elevar fortemente sua geração de resultado sem depender de crescimento equivalente nos litros comercializados.
Aplicando a variação divulgada pela companhia, a margem de aproximadamente R$ 531 por metro cúbico no 2T26 compara-se com algo próximo de R$ 219 por metro cúbico um ano antes. Ou seja, em doze meses, a geração de Ebitda por unidade de volume mais que dobrou.
Esse é justamente o ambiente em que produtos como o Supera Plus se encaixam. Combustíveis aditivados e soluções especializadas permitem tentar obter margens maiores do que as praticadas no fornecimento de diesel convencional, ao mesmo tempo em que aumentam o custo de troca de fornecedor para clientes que passam a associar combustível a desempenho operacional.
No trimestre, aproximadamente 30% do volume de diesel do B2B já era composto por produtos aditivados. A Vibra também assinou mais de 100 novos contratos corporativos entre abril e junho.
Estratégia pode sair das minas e chegar ao agro e à logística
A mineração funciona como laboratório inicial, mas a Vibra pretende levar a mesma lógica para outras atividades econômicas intensivas em diesel.
“O Supera Plus começa na mineração, mas ele vai ser transversal para as diversas indústrias que nós temos”, disse Prado.
Agronegócio, indústria e logística aparecem entre os candidatos naturais. Todos possuem operações em que consumo elevado, armazenamento próprio de combustível e custos de manutenção tornam pequenas melhorias de eficiência financeiramente relevantes.
A Vibra já adota estratégia semelhante no agronegócio com o Agritop Diesel, combustível aditivado para máquinas agrícolas. A companhia divulga para esse produto economia de combustível, redução na tendência de bloqueio de filtros e maior estabilidade durante períodos de armazenamento, com resultados baseados em testes técnicos e de campo.
O movimento indica que o diesel premium está deixando de ser apenas uma extensão da linha destinada a automóveis e caminhões rodoviários para entrar em aplicações industriais específicas.
Para a companhia, isso também cria uma forma de diferenciação em um mercado no qual o produto básico é, por definição, altamente comparável entre fornecedores.
B2B ganha importância enquanto Vibra reduz dívida
A estratégia ocorre em um momento de forte geração de caixa da Vibra. No segundo trimestre, o grupo comercializou 9,053 milhões de metros cúbicos de combustíveis e registrou Ebitda ajustado de R$ 4,5 bilhões. O lucro líquido ficou em aproximadamente R$ 2,35 bilhões.
A companhia encerrou junho com dívida líquida equivalente a 1,3 vez o Ebitda, abaixo das 2 vezes registradas no trimestre anterior. O fluxo de caixa operacional alcançou R$ 3,8 bilhões.
Dentro desse conjunto, o B2B responde por pouco mais de um terço do volume vendido pela empresa. Os 3,253 milhões de metros cúbicos do segmento corporativo representaram aproximadamente 36% dos 9,053 milhões de metros cúbicos comercializados pelo grupo no trimestre.
A diferença é que, para esse cliente, a negociação pode envolver mais do que preço por litro. Garantia de fornecimento, especificação técnica, logística, armazenamento, assistência operacional e desempenho do combustível passam a integrar a relação comercial.
O Supera Plus tenta adicionar mais um elemento a essa equação: transformar economia comprovada no equipamento do cliente em margem para o fornecedor.
Se os resultados obtidos nas operações da Vale forem reproduzidos em outras minas e indústrias, a Vibra poderá ampliar a receita por metro cúbico sem depender proporcionalmente de crescimento no volume físico vendido. É exatamente o movimento que já aparece no balanço: no 2T26, os litros praticamente não cresceram no B2B, mas a rentabilidade avançou mais de 100%.
Para uma distribuidora que já possui quase 60% do mercado de mineração, conquistar mais alguns pontos de participação pode ser menos importante do que ganhar mais em cada litro entregue. A nova aposta da Vibra nasce justamente dessa conta.
Fontes: Vibra Energia — resultados financeiros do segundo trimestre de 2026 e informações corporativas sobre combustíveis premium; Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis — regulamentação e especificações do diesel B15; Vale Base Metals — informações institucionais sobre as operações de Salobo e Onça Puma.








