8 de janeiro no STF: Fachin afirma que ataque foi premeditado e Corte reage para impedir o esquecimento
Três anos após os ataques que marcaram de forma profunda a história institucional brasileira, o 8 de janeiro no STF voltou ao centro do debate público com uma série de atos simbólicos, políticos e jurídicos promovidos pelo Supremo Tribunal Federal. A Corte decidiu transformar a data em um marco permanente de memória democrática, reafirmando o compromisso com a Constituição e com a responsabilização de todos os envolvidos nos episódios que culminaram na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília.
Na abertura da exposição “8 de janeiro: Mãos da Reconstrução”, realizada na sede do tribunal, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, fez um discurso duro e carregado de significado institucional. Ao classificar os atos como “premeditados” e “pautados pela negação do diálogo”, Fachin deixou claro que, para o Supremo, não se tratou de um evento espontâneo, mas de uma ação organizada, articulada e dirigida contra o Estado Democrático de Direito.
A fala do presidente da Corte não foi apenas um registro histórico. Ela sinaliza a posição do STF diante das tentativas recorrentes de relativizar os acontecimentos, minimizar sua gravidade ou tratar os ataques como um desvio pontual de ordem pública. Ao contrário, o tribunal reforça que o 8 de janeiro no STF representa uma afronta direta à democracia e exige resposta contínua das instituições.
Memória institucional como dever constitucional
Durante o discurso, Fachin destacou que o Supremo não é apenas o guardião da Constituição, mas também da memória institucional jurídica do país. Para o ministro, permitir que o tempo dilua a gravidade do que ocorreu seria uma forma indireta de conivência com o malfeito.
Ao recorrer a referências literárias e históricas, Fachin afirmou que cabe à Corte impedir que a sociedade seja “anestesiada” pelo esquecimento. A expressão foi usada para alertar sobre o risco de normalização de ataques às instituições, algo que, segundo ele, pode abrir caminho para novas rupturas democráticas.
Nesse contexto, a exposição “Mãos da Reconstrução” cumpre papel simbólico relevante. Ao reunir registros materiais e visuais dos danos causados, a iniciativa busca preservar a memória dos fatos e valorizar o esforço coletivo de reconstrução física e institucional após os ataques.
Reconhecimento institucional e transição no governo
Na cerimônia de abertura, Edson Fachin também prestou reconhecimento público a duas figuras centrais do atual arranjo institucional. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, foi saudado pelos serviços prestados ao país, em um momento de transição, já que sua saída do governo é esperada ainda neste mês.
Outro destaque foi o advogado-geral da União, Jorge Messias, indicado para ocupar a vaga no Supremo deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso, que anunciou aposentadoria no ano anterior. A menção reforçou o caráter institucional do evento, que, além de rememorar o 8 de janeiro no STF, também marca um período de mudanças na composição e na dinâmica da Corte.
Retomada dos julgamentos após o recesso
Passado o recesso do Judiciário, o Supremo retomou o julgamento das ações penais relacionadas aos atos golpistas. O volume de processos impressiona e revela a dimensão do episódio. Ao todo, foram abertos 1.734 processos no STF, todos originados de denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral da República.
As acusações abrangem crimes graves, como organização criminosa, tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e dano qualificado ao patrimônio público. Trata-se de um conjunto de ações que, segundo o tribunal, visa não apenas punir, mas também afirmar parâmetros claros de responsabilização.
Levantamento do gabinete do ministro Alexandre de Moraes indica que 1.399 réus já foram responsabilizados. Desses, 179 permanecem presos, o que demonstra que o STF adotou critérios diferenciados conforme o grau de envolvimento e a gravidade das condutas.
A dimensão penal e os números do julgamento
Os dados revelam uma atuação intensa da Corte. Até o momento, o STF já determinou 810 condenações relacionadas aos atos de 8 de janeiro. Paralelamente, autorizou 564 acordos de não-persecução penal, instrumento jurídico que permite a substituição da ação penal por medidas alternativas, desde que os investigados assumam compromissos formais.
Esses acordos incluem reparação de danos, cumprimento de medidas restritivas e outras obrigações legais. Como resultado, mais de R$ 3 milhões já foram arrecadados para ressarcir prejuízos causados pela destruição do patrimônio público. Para o Supremo, essa estratégia combina punição, responsabilização e recomposição dos danos materiais.
Ainda tramitam 346 ações penais em fase final de julgamento. Além disso, há 98 denúncias em fase de defesa prévia, a maioria envolvendo financiadores das ações ilegais. Esse ponto é considerado crucial pela Corte, que busca avançar sobre os elos econômicos e logísticos que sustentaram os ataques.
A chamada trama golpista
Para além dos participantes diretos da invasão, o 8 de janeiro no STF está conectado a um conjunto mais amplo de investigações que tratam da chamada trama golpista. Esses processos envolvem indivíduos acusados de integrar uma organização criminosa voltada à ruptura democrática.
Segundo a Procuradoria-Geral da República, as ações desse grupo têm ligação direta com os ataques, seja na fase de planejamento, financiamento ou estímulo político. Quatro ações penais desse núcleo já foram julgadas no ano passado, resultando em 29 condenações e duas absolvições.
O processo referente ao núcleo considerado crucial foi encerrado, com sete réus já cumprindo pena. Entre eles está o ex-presidente Jair Bolsonaro. Outras três ações ainda devem avançar para a fase de recursos, mantendo o tema no centro do debate jurídico e político nacional.
Eventos reforçam simbolismo da data
Além da exposição, a programação organizada pelo STF inclui a exibição do documentário “Democracia Inabalada: Mãos da Reconstrução”, no Museu do Tribunal. A obra aborda os impactos do 8 de janeiro e o processo de restauração dos prédios e da normalidade institucional.
Outro destaque é a mesa-redonda “Um dia para não esquecer”, realizada no Salão Nobre da Corte. O encontro reúne ministros e autoridades para refletir sobre os desafios da democracia brasileira e os limites institucionais diante de ameaças autoritárias.
Participam dos eventos o presidente Edson Fachin, o decano Gilmar Mendes e a presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Cármen Lúcia. A presença de membros de diferentes cortes reforça a articulação institucional em torno da defesa do sistema democrático.
O STF e a pedagogia institucional
Internamente, ministros avaliam que a resposta ao 8 de janeiro no STF não pode se limitar à esfera penal. Há uma preocupação clara com o papel pedagógico das decisões judiciais, no sentido de estabelecer precedentes que inibam novas tentativas de ruptura.
A Corte entende que a democracia não se sustenta apenas por normas escritas, mas pela reafirmação constante de seus valores. Nesse sentido, o julgamento dos envolvidos e a preservação da memória dos fatos funcionam como mecanismos de proteção institucional.
O discurso de Fachin reflete essa visão. Ao enfatizar a necessidade de manter viva a lembrança do ocorrido, o ministro aponta para um entendimento segundo o qual o esquecimento pode ser tão perigoso quanto a impunidade.
A simbologia da destruição e da reconstrução
Entre as imagens que marcaram o 8 de janeiro está a da estátua “A Justiça”, de Alfredo Ceschiatti, pichada durante os atos de vandalismo em frente à sede do STF. O monumento, um dos símbolos mais conhecidos da Praça dos Três Poderes, tornou-se representação visual da agressão sofrida pelas instituições.
A restauração da obra e dos prédios atingidos passou a integrar o discurso oficial da Corte como metáfora da resiliência democrática. Para o STF, reconstruir não significa apenas reparar danos materiais, mas reafirmar valores constitucionais e restaurar a confiança pública.
Um marco permanente na história democrática
Ao institucionalizar a lembrança do 8 de janeiro no STF, o Supremo sinaliza que a data não será tratada como um episódio isolado ou superado. Pelo contrário, ela passa a integrar o calendário simbólico da democracia brasileira, como alerta permanente sobre os riscos da radicalização e do autoritarismo.
A estratégia do tribunal combina memória, julgamento e comunicação institucional. Ao mesmo tempo em que avança nos processos penais, o STF busca dialogar com a sociedade, explicando suas decisões e reforçando a legitimidade do sistema democrático.
Três anos depois, o 8 de janeiro continua a produzir efeitos jurídicos, políticos e simbólicos. A posição expressa por Edson Fachin deixa claro que, para o Supremo, não há espaço para relativização. O episódio foi premeditado, grave e exige vigilância permanente para que jamais se repita.






