Arrependimento de voto: Datafolha revela que 91% dos brasileiros manteriam a escolha para presidente
Uma nova rodada de pesquisa nacional indica que o arrependimento de voto continua sendo um sentimento raro entre os eleitores que participaram das eleições presidenciais de 2022. Segundo levantamento Datafolha, divulgado nesta segunda-feira, 91% dos eleitores afirmam que não mudariam a escolha feita nas urnas. Apenas 8% responderam que se arrependeram, enquanto 1% não soube opinar.
Os números revelam um cenário de forte consolidação das identidades políticas, reforçando que a polarização permanece viva, mesmo dois anos após o pleito. Esse fenômeno indica que o eleitorado brasileiro está cada vez mais fiel às suas preferências, mesmo diante de mudanças no cenário econômico, na conjuntura política e no humor do país. Em meio a crises, expectativas e transformações, o que menos se altera é o voto declarado — um dado essencial para compreender a dinâmica eleitoral que se forma para 2026.
Lula e Bolsonaro: fidelidade acima de 90% entre suas bases
O Datafolha mostra que a convicção eleitoral é quase idêntica entre os dois principais grupos que protagonizaram a eleição de 2022. Entre os eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva, 91% dizem que repetiriam o voto. Entre os de Jair Bolsonaro, esse número é ainda mais alto: 92%.
Esse quadro reforça a tese de que a polarização não apenas persiste, como também se cristalizou. A solidez do apoio entre as duas maiores bases eleitorais sinaliza que o debate político de 2026 tende a girar novamente em torno desses polos, independentemente de quem serão os candidatos efetivos da disputa.
Mesmo após episódios relevantes da conjuntura recente — investigações, tensões institucionais, mudanças econômicas e reconfigurações partidárias — o eleitor permanece firme em seu posicionamento inicial. O arrependimento de voto praticamente não se manifesta dentro das bases que sustentaram o PT e o PL nas urnas.
Variações regionais: o Sul concentra o maior índice de arrependidos
Embora o arrependimento seja baixo em termos gerais, algumas regiões apresentam números mais altos. No Sul do país, 11% dos entrevistados disseram que mudariam seu voto se pudessem repetir a eleição. É a região com maior taxa de arrependimento registrada no levantamento.
Historicamente mais alinhado à direita e a candidaturas conservadoras, o Sul mostra agora sinais sutis de desgaste e revisão por parte de parte do seu eleitorado — embora a grande maioria permaneça convicta.
Outras regiões apresentam números dentro da margem nacional, reforçando que a convicção política é um fenômeno generalizado e não restrito a grupos específicos.
Renda influencia a percepção de acerto do voto
A pesquisa identificou diferenças relevantes também quando se analisa a renda dos entrevistados. Entre quem recebe até dois salários mínimos, 10% afirmam que se arrependeram do voto. Já entre os que ganham de cinco a dez salários mínimos, o grau de satisfação é muito maior: 94% dizem que fariam a mesma escolha.
Esse recorte sugere que fatores socioeconômicos interferem na forma como o eleitor avalia sua decisão passada. Eleitores de maior renda tendem a apresentar menor arrependimento de voto, possivelmente por perceberem menor impacto individual de flutuações econômicas ou por estarem mais alinhados com projetos políticos mais estáveis ao longo do tempo.
Eleição de 2026 é vista como “muito importante” pela maioria
Outro ponto decisivo do estudo é a percepção sobre a próxima disputa presidencial. Para 77% dos brasileiros, a eleição de 2026 será “muito importante”. Outros 14% afirmam que ela terá importância moderada e 8% não veem relevância significativa no pleito.
O alto grau de importância atribuído reforça que o engajamento político segue elevado no país e que a mobilização para 2026 tende a começar cedo, especialmente com o acirramento da disputa interna em diferentes partidos e a reorganização dos blocos de apoio.
Essa percepção também contribui para a manutenção da baixa taxa de arrependimento de voto. Quando o eleitor considera a política relevante para seu cotidiano, é menos provável que se distancie de suas escolhas ou que minimize a decisão tomada no processo eleitoral.
Convicção elevada reflete polarização persistente
O ambiente político brasileiro se caracteriza por forte polarização desde 2014, e a pesquisa Datafolha demonstra que esse fenômeno continua presente de maneira robusta. A fidelidade aos votos anteriores revela que os brasileiros não apenas escolhem seus candidatos, mas integram identidades políticas perenes e difíceis de alterar.
Esse comportamento desafia partidos e candidatos que tentam se apresentar como alternativas viáveis para 2026. Com a maioria dos eleitores repartida em blocos bastante consolidados, o espaço para uma candidatura de terceira via continua estreito, exigindo estratégias mais sofisticadas de comunicação e posicionamento.
A manutenção de convicções também pode indicar que o debate eleitoral de 2026 tenderá a reproduzir discursos, alinhamentos e estruturas de campanhas semelhantes às observadas em ciclos anteriores.
A margem de erro e o recorte metodológico do Datafolha
O levantamento foi feito entre os dias 2 e 4 de dezembro e ouviu 2.002 pessoas em 113 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Embora o número absoluto de entrevistados não seja capaz de esgotar a complexidade do eleitorado, a pesquisa representa uma amostra significativa da distribuição populacional brasileira.
O resultado evidencia um conjunto de tendências que há anos se consolidam no comportamento político nacional: estabilidade nas bases eleitorais, baixa volatilidade nas preferências e pequena propensão ao arrependimento de voto.
A influência da memória eleitoral no comportamento político
O Brasil tem enfrentado uma série de crises políticas, econômicas e institucionais. Ainda assim, o voto se mantém fiel. Pesquisadores explicam esse fenômeno por meio de três fatores principais:
1. Identidade política forte
Eleitores se veem representados por valores e narrativas que vão além de candidatos específicos. A relação é mais identitária do que pragmática.
2. Confirmação de crenças
Em contextos polarizados, as pessoas tendem a consumir informações que confirmam sua visão de mundo, reduzindo a chance de revisar escolhas.
3. Rejeição ao adversário
Muitas vezes, o voto é sustentado não apenas pela aprovação ao candidato escolhido, mas pela rejeição ao candidato adversário. Assim, mesmo insatisfeito, o eleitor não muda sua escolha.
Esses componentes reduzem significativamente o arrependimento de voto, mesmo diante de frustrações.
O impacto do arrependimento (ou da falta dele) no cenário político
A estabilidade das escolhas eleitorais tem implicações diretas na formação de alianças, no desenho das campanhas e na definição das estratégias partidárias. Como a base de apoio de Lula e Bolsonaro permanece sólida, a tendência é que o debate público continue a girar em torno dos mesmos eixos temáticos que dominaram os últimos ciclos eleitorais.
Para novos candidatos que buscam espaço, o desafio é romper essa rígida fidelização. Para os partidos tradicionais, o cenário sinaliza a necessidade de reforçar suas narrativas e aprofundar sua comunicação com segmentos específicos do eleitorado.
A baixa taxa de arrependimento de voto também indica que o ambiente político seguirá marcado por disputas intensas, movimentos estratégicos e campanhas fortemente emocionalizadas.
A visão de futuro: o que esperar até 2026
O período que antecede a próxima eleição presidencial tende a ser caracterizado por:
– intensificação da polarização,
– fortalecimento das identidades políticas,
– menor espaço para mudanças bruscas de opinião,
– eleitorado altamente engajado,
– disputa centrada em narrativas.
Com 91% dos brasileiros mantendo o voto e 77% considerando a próxima eleição “muito importante”, a temperatura política deve se elevar nos próximos meses, moldando o debate nacional e mantendo o tema em alta relevância no cotidiano dos cidadãos.
O dado mais simbólico da pesquisa — a quase inexistência de arrependimento de voto — projeta um cenário de forte continuidade na estrutura política brasileira e antecipa uma corrida presidencial marcada por disputas intensas e polarização contínua.






