Safra de laranja 2025/26 tem queda de 3,9% e pressiona oferta de suco no Brasil
A nova estimativa da safra de laranja 2025/26 no cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro trouxe um alerta para o setor agroindustrial brasileiro. Segundo dados atualizados do Fundecitrus, a produção deve alcançar 294,81 milhões de caixas de 40,8 kg, número 3,9% inferior à projeção inicial. A revisão, anunciada neste 10 de dezembro, reflete os efeitos diretos das condições climáticas adversas e do avanço do greening, doença que segue desafiando produtores e especialistas.
Embora a safra de laranja 2025/26 ainda apresente crescimento significativo na comparação com o ciclo anterior — que registrou uma das menores colheitas em quase quatro décadas —, a redução recente reacende preocupações sobre a capacidade de oferta de suco de laranja, segmento no qual o Brasil segue como líder global.
Clima adverso e greening comprimem o potencial produtivo
O Fundecitrus destacou dois fatores centrais para o corte na estimativa da safra de laranja 2025/26: o menor tamanho dos frutos, consequência da escassez de chuvas em momentos críticos do desenvolvimento das plantas, e o aumento da taxa de queda, agora revisada de 22% para 23%. Esse cenário reforça a vulnerabilidade das lavouras diante da combinação entre estiagem prolongada e avanço do greening, doença que reduz drasticamente a produtividade dos pomares.
A condição preocupa porque, mesmo com um ciclo inicialmente promissor, as oscilações climáticas impediram que a safra atingisse o potencial previsto. A irregularidade das chuvas impactou diretamente o crescimento, a retenção dos frutos e o rendimento industrial, que tende a variar conforme o teor de sólidos solúveis e a qualidade da matéria-prima.
Para a indústria, a reestimativa significa menor disponibilidade de fruta para processamento. Estudos do setor indicam que a redução de quase 4% na safra de laranja 2025/26 representa cerca de 20 milhões de caixas a menos, número suficiente para alterar o volume ofertado e recalibrar previsões de estoques e exportações.
Demanda internacional deve pressionar o mercado
A retração na safra de laranja 2025/26 ocorre num momento em que o mercado internacional se mantém sensível às condições do cinturão citrícola brasileiro. Após anos marcados por oscilações produtivas e cotações recordes no suco de laranja concentrado, a indústria global ainda ajusta seus estoques diante dos choques recentes.
Mesmo assim, os contratos futuros em Nova York operavam em leve baixa no início da tarde desta quarta-feira, refletindo ajustes técnicos e a volatilidade natural de um mercado fortemente influenciado por expectativas de oferta. Ainda que os preços não tenham mostrado reação imediata ao corte da safra, analistas apontam que novas revisões negativas podem gerar impacto mais visível nos próximos meses.
A indústria brasileira exporta para mais de uma centena de países e depende diretamente da estabilidade produtiva. Com menor fruta disponível, a expectativa é de redução no volume processado, o que tende a secar a oferta final de suco. A CitrusBR estima que a quebra registrada pode reduzir entre 65 mil e 70 mil toneladas do produto industrializável, considerando o rendimento atual.
Produção ainda supera safra anterior, mas desafios persistem
Embora a revisão tenha causado preocupação, a safra de laranja 2025/26 ainda apresenta avanço expressivo de 27,7% em relação ao ciclo anterior, que figurou como o segundo pior em 37 anos. A recuperação era esperada, considerando que em 2024/25 o setor sofreu com fenômenos climáticos severos, estiagens intensas e incidência elevada de greening.
A melhora no volume colhido, entretanto, não elimina o alerta estrutural. A cada temporada, produtores reforçam a dificuldade crescente em manejar pomares sob estresse hídrico e ataque de pragas. A doença que não tem cura continua se expandindo, exigindo práticas rigorosas de manejo, controle biológico e renovação de áreas afetadas.
A oscilação anual confere grande incerteza ao setor, tanto para agricultores quanto para indústrias processadoras e exportadores. A dependência climática, somada à expansão do greening, faz com que a previsibilidade produtiva seja cada vez menor.
Colheita avança, mas rendimento preocupa
Até meados de novembro, cerca de 65% da safra de laranja 2025/26 já havia sido colhida. As variedades precoces — hamlin, westin e rubi — apresentaram colheita de 99%, enquanto outras variedades precoces atingiram 95%. A pera, considerada estratégica para o processamento, apresentava 85% da colheita concluída. Já as variedades tardias, como valência e folha murcha, estavam em 40%, e a natal, em 30%.
As diferenças entre as variedades influenciam diretamente o rendimento industrial. Frutos menores tendem a apresentar menor porcentagem de suco, o que aumenta a quantidade necessária para produzir a mesma tonelada equivalente. Caso o rendimento não se recupere nos próximos meses, a indústria pode registrar queda ainda maior na disponibilidade final.
Mercado externo enfrenta desaceleração da demanda
Além da redução na produção brasileira, outro desafio significativo ao longo da safra de laranja 2025/26 é a retração nas exportações. De julho a novembro, as vendas externas foram 12,29% menores do que no mesmo período do ciclo anterior, totalizando 367 mil toneladas. O recuo é atribuído principalmente à queda da demanda europeia, historicamente o maior destino do suco brasileiro.
A Europa ainda reage ao forte encarecimento ocorrido no último ano, quando o suco de laranja registrou cotações recordes que ultrapassaram US$ 5 por libra-peso. Com o consumo retraído, os estoques puderam se recompor, reduzindo a urgência das compras no mercado internacional.
Os Estados Unidos assumiram recentemente a liderança como principal destino das exportações brasileiras. Contudo, analistas apontam que esse movimento não é suficiente para compensar integralmente a perda europeia.
Em termos de receita, a queda é ainda mais acentuada: 25%, alcançando US$ 1,2 bilhão no acumulado da temporada.
Elasticidade do consumo limita reação imediata dos mercados
A volatilidade das cotações e a retração da demanda europeia refletem a elevada elasticidade do consumo de suco de laranja. Quando o preço sobe rapidamente, como ocorreu no final do ano passado, o consumidor tende a reduzir as compras ou substituí-las por alternativas mais baratas.
Mesmo com o recuo recente das cotações, o setor ainda debate a velocidade de reação do consumo. A expectativa é que a queda dos preços estimule uma normalização gradual ao longo de 2026, mas o ritmo dessa recuperação permanece incerto.
Impacto da safra reduzida sobre indústrias e produtores
A revisão da safra de laranja 2025/26 implica ajustes em toda a cadeia produtiva. Para indústrias processadoras, menor oferta de fruta representa menor volume de suco e necessidade de reequilíbrio nas operações de esmagamento e logística.
Produtores também são afetados pela volatilidade do clima e pelas doenças. A necessidade de investimentos em irrigação, controle sanitário e tecnologias de manejo tem crescido ano após ano, pressionando custos de produção.
O setor debate, ainda, a urgência de políticas públicas mais robustas para combate ao greening e incentivo à renovação de pomares, estratégia considerada essencial para garantir sustentabilidade a longo prazo.
Perspectivas para o setor citrícola
A combinação entre os desafios climáticos, o avanço do greening e a volatilidade da demanda internacional indica que o setor citrícola brasileiro pode enfrentar mais um ciclo complexo. A safra de laranja 2025/26 confirma, mais uma vez, que a previsibilidade é cada vez menor no campo.
Especialistas do setor afirmam que melhorias tecnológicas no manejo, ampliação das áreas irrigadas e reforço às práticas de controle fitossanitário são caminhos fundamentais para estabilizar a produtividade nos próximos anos.
Apesar das adversidades, o Brasil mantém posição de destaque no mercado global de suco de laranja e segue como principal responsável pelo abastecimento internacional. A capacidade de adaptação de produtores e indústrias tende a ser determinante para definir os rumos da atual e das próximas safras.






