Defesa de Walter Delgatti aciona STF e pede redução de pena com base em indulto natalino
A batalha jurídica em torno da condenação de Walter Delgatti Neto, figura central em episódios recentes de violação cibernética e disputas políticas no Brasil, ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (14/1). A defesa do hacker protocolou um pedido formal ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), solicitando a aplicação de um desconto de 25% sobre o tempo remanescente de sua pena. O argumento central dos advogados baseia-se no indulto natalino editado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro do ano passado.
A movimentação da equipe jurídica de Walter Delgatti ocorre em um momento estratégico, apenas dois dias após ele ter conquistado a progressão para o regime semiaberto. A petição visa acelerar o retorno do condenado à liberdade plena, utilizando mecanismos previstos no decreto presidencial que regula o perdão parcial de penas no sistema carcerário brasileiro. O caso, que envolve a invasão aos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), continua a reverberar nas cortes superiores e na opinião pública.
O pedido da defesa e o decreto presidencial
O requerimento apresentado ao Supremo Tribunal Federal detalha que Walter Delgatti preenche todos os requisitos objetivos e subjetivos estipulados no decreto assinado pelo presidente da República em 23 de dezembro. A norma estabelece a possibilidade de comutação — ou seja, redução — de um quarto (25%) da pena para sentenciados que tenham cumprido, no mínimo, 25% da condenação total até a data de 25 de dezembro de 2025.
Segundo a argumentação técnica apresentada pelos advogados de Walter Delgatti, o cálculo do tempo de cumprimento de pena é favorável ao hacker. A defesa sustenta que a marca exigida de cumprimento de pena, equivalente a dois anos e 22 dias, teria sido alcançada por ele em 24 de agosto de 2025. Dessa forma, na data-limite estabelecida pelo decreto de indulto (o Natal de 2025), Walter Delgatti já estaria apto a receber o benefício legal.
A estratégia da defesa é clara: aproveitar o momento de flexibilização do regime prisional para reduzir o montante total da dívida de Walter Delgatti com a Justiça. Caso o ministro Alexandre de Moraes acolha o pedido, o tempo que o hacker ainda deve ao Estado será significativamente abreviado, o que pode antecipar novas progressões de regime ou até mesmo o fim do cumprimento da sanção penal.
A progressão para o regime semiaberto
O pedido de redução de pena chega na esteira de uma vitória importante para Walter Delgatti. Na última segunda-feira (12/1), ele obteve a autorização judicial para migrar para o regime semiaberto. Esta modalidade de cumprimento de pena representa um passo fundamental na ressocialização de detentos no Brasil, permitindo que o condenado deixe as dependências do presídio durante o dia para exercer atividades laborais ou frequentar cursos de estudo, retornando à unidade prisional apenas para dormir.
Para Walter Delgatti, a entrada no regime semiaberto altera drasticamente sua rotina. Além da possibilidade de trabalho externo, o regime prevê o benefício das saídas temporárias — as conhecidas “saidinhas” — em datas comemorativas específicas, desde que mantido o bom comportamento carcerário. A defesa utiliza essa recente concessão como um reforço ao argumento de que Walter Delgatti possui boa conduta e está apto a receber também o benefício do indulto natalino.
A progressão de regime é um direito assegurado pela Lei de Execução Penal (LEP) a presos que cumprem uma fração da pena e demonstram bom comportamento. No caso de Walter Delgatti, a transição para o semiaberto sinaliza que o sistema judiciário reconhece o cumprimento das etapas iniciais de sua punição, o que fortalece, em tese, o pleito pela redução de 25% da pena via indulto.
O contexto da condenação: CNJ e STF
É impossível analisar a situação atual de Walter Delgatti sem revisitar os motivos que o levaram à prisão. O hacker foi condenado a uma pena total de oito anos e três meses de reclusão. O crime central que motivou essa sentença severa foi a invasão sofisticada aos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Durante a operação cibernética ilícita, Walter Delgatti não apenas acessou dados restritos, mas também inseriu documentos falsos no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP). O episódio mais notório e grave dessa invasão foi a expedição de um mandado de prisão falso contra o próprio ministro Alexandre de Moraes, que também preside o inquérito no STF. O documento fraudulento, inserido por Walter Delgatti, continha ironias e ataques à corte, o que foi interpretado como um ataque direto às instituições democráticas.
As investigações apontaram que a ação de Walter Delgatti não foi um ato isolado de ativismo digital, mas sim parte de uma trama política. Segundo os autos, a invasão teria sido realizada a pedido da então deputada federal Carla Zambelli. A conexão política do caso elevou a gravidade da conduta de Walter Delgatti, transformando-o em peça-chave de inquéritos que apuram tentativas de desestabilização do Poder Judiciário.
A relação com Carla Zambelli e as investigações
A figura de Walter Delgatti tornou-se central para entender os bastidores de operações que visavam desacreditar o sistema de justiça brasileiro. Em seus depoimentos, o hacker confessou ter mantido encontros com a parlamentar Carla Zambelli e afirmou ter recebido pagamentos para executar as invasões. Essa colaboração com as autoridades, embora tenha elucidado partes do esquema, não isentou Walter Delgatti da responsabilidade penal pelos seus atos.
a condenação de oito anos e três meses reflete a multiplicidade de crimes cibernéticos e a ousadia da ação contra o CNJ. O caso de Walter Delgatti serviu como um alerta para a vulnerabilidade dos sistemas digitais do governo e impulsionou uma revisão nos protocolos de segurança cibernética do Judiciário. Agora, ao buscar o indulto, Walter Delgatti tenta virar a página desse capítulo, mas as implicações de seus atos ainda reverberam em processos conexos que envolvem outras figuras políticas.
A defesa tenta desvincular o pedido técnico de redução de pena do contexto político explosivo que envolve o nome de Walter Delgatti. Para os advogados, trata-se de uma questão matemática e legal: se o requisito de tempo foi cumprido e o decreto presidencial existe, o benefício deve ser concedido, independentemente da notoriedade do réu ou da natureza política de suas conexões passadas.
O papel da PGR e os próximos passos
No requerimento enviado ao STF, a defesa de Walter Delgatti também solicitou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) seja ouvida antes que o ministro Alexandre de Moraes tome uma decisão final. Esse é um trâmite processual comum, mas ganha relevância dada a sensibilidade do caso. O parecer da PGR será fundamental para validar ou contestar os cálculos apresentados pelos advogados sobre o tempo de pena cumprido por Walter Delgatti.
Caberá a Alexandre de Moraes, relator do caso e vítima direta da fraude perpetrada por Walter Delgatti, decidir sobre a concessão do desconto na pena. A posição do ministro será observada com atenção por juristas, uma vez que envolve a aplicação de um indulto presidencial a um réu condenado por crimes contra a própria administração da Justiça.
Se o pedido for aceito, Walter Delgatti poderá ver sua pena reduzida em mais de dois anos, o que aceleraria drasticamente seu processo de retorno à sociedade. Caso negado, ele continuará cumprindo a sentença no regime semiaberto, sujeito às regras estritas de monitoramento e disciplina.
Quem é Walter Delgatti Neto?
Para compreender a dimensão do pedido, é necessário relembrar a trajetória de Walter Delgatti. Conhecido nacionalmente como o “Hacker de Araraquara”, ele ganhou notoriedade inicialmente com a “Vaza Jato”, episódio em que acessou mensagens de procuradores da Operação Lava Jato e do ex-juiz Sergio Moro. Aquele evento mudou os rumos da política nacional e demonstrou a capacidade técnica de Walter Delgatti em vulnerar sistemas de comunicação.
No entanto, foi a invasão ao CNJ e a associação com figuras da extrema-direita que levaram Walter Delgatti à sua atual condenação. De “herói” para alguns setores da esquerda durante a Vaza Jato, a “vilão” ou “instrumento” da direita no episódio do CNJ, a figura de Walter Delgatti é complexa e controversa.
Agora, no sistema prisional, Walter Delgatti é apenas mais um detento buscando benefícios legais. A sua defesa trabalha para que ele seja tratado como tal, afastando o peso de seu histórico midiático das decisões técnicas de execução penal. A concessão do indulto natalino seria a prova de que, para a lei, os critérios objetivos se sobrepõem às narrativas políticas.
Análise jurídica do Indulto Natalino
O indulto natalino é um ato de clemência privativo do Presidente da República, previsto na Constituição Federal. Historicamente, ele é utilizado para descongestionar o sistema carcerário e premiar o bom comportamento, não se aplicando a crimes hediondos ou de grave ameaça. No caso de Walter Delgatti, os crimes cibernéticos e de falsidade ideológica, embora graves, não são classificados como hediondos, o que, em tese, permite a aplicação do benefício.
A discussão sobre o indulto para Walter Delgatti passa pela análise minuciosa do decreto de Lula. A defesa assegura que não há impedimentos legais. O texto do decreto é genérico e abrange todos que se enquadram nos requisitos temporais e disciplinares. A decisão de Moraes, portanto, deverá se ater à verificação desses requisitos. Se Walter Delgatti cumpriu 25% da pena até o Natal de 2025 e não cometeu faltas graves, o direito ao desconto é, segundo a jurisprudência, subjetivo ao apenado.
O impacto da decisão na vida do hacker
A eventual redução de 25% da pena terá um impacto profundo no futuro de Walter Delgatti. Com uma condenação original de mais de oito anos, o desconto de um quarto representa a eliminação de cerca de dois anos de reclusão. Isso significa que Walter Delgatti poderia atingir o requisito para o livramento condicional ou para o regime aberto muito antes do previsto.
Para um réu que já passou por prisões preventivas e agora está no semiaberto, cada mês a menos na sentença é crucial. A defesa de Walter Delgatti sabe que a manutenção do bom comportamento no regime semiaberto é essencial para que o STF veja com bons olhos o pedido de indulto. Qualquer deslize disciplinar agora poderia colocar tudo a perder.
A sociedade observa se a Justiça aplicará a Walter Delgatti o mesmo rigor técnico dispensado a outros detentos ou se o caráter emblemático de seus crimes influenciará na interpretação do decreto presidencial. O desfecho desse pedido servirá como termômetro para a aplicação da lei de execução penal em casos de alta visibilidade.
O pedido de redução de pena protocolado pela defesa de Walter Delgatti coloca novamente o STF diante de uma decisão técnica com fortes repercussões. Ao invocar o indulto natalino concedido pelo presidente Lula, os advogados buscam garantir que os direitos de execução penal alcancem o hacker, independentemente da gravidade política de seus atos passados.
Com a recente progressão para o semiaberto e a alegação de cumprimento dos requisitos temporais, Walter Delgatti caminha para a fase final de seu acerto de contas com a Justiça. Resta saber se o ministro Alexandre de Moraes e a PGR concordarão com a matemática apresentada pela defesa. Enquanto isso, Walter Delgatti segue cumprindo sua pena, agora com a possibilidade de trabalhar e estudar, aguardando uma decisão que pode encurtar significativamente sua estadia sob a tutela do Estado.
A saga de Walter Delgatti, que começou com vazamentos de mensagens e passou por mandados de prisão falsos, entra agora em uma fase burocrática, porém decisiva. O “Hacker de Araraquara” busca, através da lei, o que a tecnologia não pode lhe dar: a liberdade antecipada.









