quarta-feira, 19 de agosto de 2026
contato@gazetamercantil.com
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
Home Economia

Câmara aprova PEC do Sistema Único de Assistência Social com piso de 1% da RCL

por Antônio Lima
29/04/2026 às 09h55
em Economia
Camara Dos Deputados - Gazeta Mercantil

O Novo Paradigma Fiscal do Bem-Estar: PEC do Sistema Único de Assistência Social e a Rigidez Orçamentária

O cenário fiscal brasileiro ingressou, nesta terça-feira, 28 de abril de 2026, em uma fase de redefinição estrutural com a aprovação, em segundo turno pela Câmara dos Deputados, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece um piso permanente para o Sistema Único de Assistência Social. O texto, que agora segue para o crivo do Senado Federal, representa uma vitória histórica para as frentes de proteção social, ao mesmo tempo em que acende alertas nos gabinetes técnicos do Ministério do Planejamento devido à elevação da rigidez do Orçamento Geral da União.

A medida obriga a União, os Estados e os municípios a destinarem, de forma vinculada, no mínimo 1% de suas Receitas Correntes Líquidas (RCL) para o financiamento de políticas públicas de assistência. Trata-se da constitucionalização do suporte financeiro a uma rede que, até então, dependia de negociações orçamentárias cíclicas. Para o governo, o desafio foi equilibrar a necessidade política de expandir o Sistema Único de Assistência Social com a realidade de um arcabouço fiscal sob constante escrutínio.

O Papel de Bruno Moretti e a Flexibilidade Interpretativa

A aprovação no primeiro turno, ocorrida no início de abril, serviu como um prelúdio para uma negociação intensa de bastidores liderada pelo ministro do Planejamento, Bruno Moretti. O governo federal, embora favorável ao mérito da proteção social, buscou tempo adicional para refinar o texto redacional. A principal preocupação residia na classificação estrita do que constitui “política de assistência social.

Sob a articulação de Moretti, o escopo das ações passíveis de serem incluídas no cálculo do piso foi ampliado. Esta mudança é estratégica: ao permitir que um conjunto maior de ações governamentais — como programas de capacitação e certas transferências de renda — seja contabilizado dentro do percentual de 1%, o governo ganha a flexibilidade necessária para manejar o Orçamento sem ferir o novo preceito constitucional. Sem essa interpretação ampliada, o Sistema Único de Assistência Social poderia drenar recursos de outras áreas vitais, criando um desequilíbrio setorial insustentável no longo prazo.

A Transição Gradual: O Escalonamento da Pressão Fiscal

Um dos pontos de maior fricção durante a tramitação na Câmara foi a aplicabilidade imediata da nova regra. Estados e municípios, representados por fortes frentes municipalistas, exerceram pressão para evitar um choque fiscal súbito. O texto original previa que os entes subnacionais aplicassem o percentual integral já na promulgação da emenda, o que geraria uma crise de liquidez em cerca de mil municípios brasileiros, especialmente os de pequeno porte.

A solução encontrada foi a extensão da regra de transição gradual para todos os entes federativos. O cronograma aprovado define um escalonamento de quatro anos para a implementação total do piso do Sistema Único de Assistência Social:

  • Primeiro ano: 0,3% da Receita Corrente Líquida;

  • Segundo ano: 0,5% da Receita Corrente Líquida;

  • Terceiro ano: 0,75% da Receita Corrente Líquida;

  • Quarto ano em diante: 1,0% da Receita Corrente Líquida.

Esse modelo de progressão permite que as prefeituras e governos estaduais reorganizem suas prioridades financeiras. Embora a maioria dos municípios já execute gastos acima de 1% com assistência, a institucionalização do piso retira a margem de manobra discricionária dos prefeitos, obrigando-os a manter o nível de investimento mesmo em períodos de queda de arrecadação.

Impacto de R$ 36,3 Bilhões: As Contas do Ministério do Planejamento

Os números projetados pelo governo para a implementação desta PEC evidenciam a magnitude do compromisso assumido. Considerando o escalonamento que se inicia em 2027, o impacto fiscal acumulado em quatro anos será de R$ 36,3 bilhões. No primeiro ano, o gasto adicional em relação ao que já está empenhado no Orçamento para o Sistema Único de Assistência Social será de R$ 2,2 bilhões.

A curva de gastos, no entanto, torna-se íngreme nos anos seguintes. Em 2028, a elevação será de R$ 5,96 bilhões; em 2029, o montante adicional salta para R$ 11,138 bilhões. No ápice da transição, em 2030, a União precisará desembolsar R$ 17 bilhões extras para alcançar o piso de 1%. Este cenário impõe uma reflexão profunda sobre as fontes de receita e a necessidade de reformas administrativas que compensem a perda de flexibilidade do gasto público.

A Constitucionalização da Renda Mínima e a Segurança Jurídica

Para além dos percentuais, a PEC traz um avanço civilizatório ao constitucionalizar a garantia de renda mínima às famílias em situação de vulnerabilidade. Ao inserir esse direito no corpo da Constituição, o legislador blinda programas de transferência de renda contra flutuações ideológicas de governos futuros. O Sistema Único de Assistência Social deixa de ser apenas uma política de governo para se tornar uma política de Estado indissociável.

Essa blindagem jurídica oferece segurança para os beneficiários, mas exige do setor público uma eficiência administrativa sem precedentes. A gestão dos dados do Cadastro Único e a fiscalização da aplicação desses recursos passam a ser ferramentas centrais para evitar que o aumento do gasto resulte em ineficiência. A assistência social passa a ter o mesmo status jurídico e orçamentário que a Saúde e a Educação, completando o tripé da seguridade social previsto desde 1988, mas nunca totalmente financiado de forma vinculada.

Desafios para Estados e Municípios de Pequeno Porte

O impacto da PEC não é uniforme pelo território nacional. Mil municípios, em sua maioria localizados em regiões com baixa atividade econômica e alta dependência do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), terão que realizar ajustes drásticos. Para essas localidades, o Sistema Único de Assistência Social é frequentemente o principal balizador da economia local, mas o financiamento obrigatório pode pressionar os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

O escalonamento foi o oxigênio necessário para evitar uma onda de rejeição de contas pelas cortes de fiscalização. No entanto, o desafio estrutural permanece: como manter um piso de 1% em municípios onde a RCL é volátil? A solução passará, invariavelmente, por um repasse mais robusto e equânime por parte da União, que detém a maior parte do bolo tributário. A PEC, ao estabelecer o piso, também força um novo debate sobre o pacto federativo e a divisão de responsabilidades.

O Debate sobre a Eficiência do Gasto Público Social

Críticos da proposta argumentam que a criação de novos pisos constitucionais engessa excessivamente a gestão das contas públicas. Com mais de 90% do Orçamento da União já comprometido com despesas obrigatórias, a inclusão do Sistema Único de Assistência Social nesse rol reduz a capacidade do governo de realizar investimentos em infraestrutura, essenciais para o crescimento econômico que, em última análise, sustenta a arrecadação.

Por outro lado, os defensores da medida — incluindo economistas heterodoxos e frentes de assistência — sustentam que o gasto social possui um efeito multiplicador. Famílias assistidas pelo Sistema Único de Assistência Social tendem a consumir integralmente esses recursos no mercado local, estimulando a economia regional e reduzindo custos futuros em segurança pública e saúde. A PEC, portanto, não seria um gasto, mas um investimento em capital humano e estabilidade social.

O Próximo Passo: A Tramitação no Senado Federal

Com a aprovação na Câmara, a PEC agora entra em território senatorial. A expectativa é que o Senado mantenha a espinha dorsal do texto, dado o amplo acordo federativo alcançado após as modificações de Bruno Moretti. No entanto, os senadores podem aprofundar o debate sobre as fontes de custeio, especialmente em um cenário de busca pelo déficit zero.

O papel das comissões técnicas do Senado será fundamental para avaliar se o escalonamento proposto é suficiente ou se serão necessários mecanismos de compensação fiscal adicionais. O Sistema Único de Assistência Social ganha fôlego novo, mas sua sustentabilidade dependerá da harmonia entre a política fiscal e as demandas sociais. A tramitação deve ocorrer em rito célere, dado o caráter prioritário conferido pelo Executivo e pela cúpula do Congresso.

Vigilância Fiscal em Tempos de Expansão de Direitos

O desfecho desta votação na Câmara dos Deputados encerra um ciclo de incertezas para os gestores da assistência social. O Brasil avança na consolidação de uma rede de proteção que é referência internacional. Contudo, a Gazeta Mercantil ressalta que a vigilância fiscal deve ser redobrada. A criação de obrigações permanentes em um ambiente de receitas variáveis é uma equação que exige equilíbrio fino.

A institucionalização do Sistema Único de Assistência Social sob a égide constitucional é o reconhecimento de que a pobreza no Brasil exige soluções estruturais e não paliativas. O sucesso desta PEC não será medido apenas pelo volume de recursos transferidos, mas pela capacidade do Estado brasileiro em transformar esse repasse mínimo de 1% em redução efetiva da desigualdade e promoção da dignidade humana. O futuro das contas públicas e o destino da população vulnerável estão, agora, irrevogavelmente ligados.

Tags: aprovaassistênciaassistência socialBruno MorettiCâmaraCâmara dos DeputadosEconomiagastos públicosmínimoOrçamento UniãoPacto FederativoparaPEC 1 por centoPiso ConstitucionalreceitaReceita Corrente LíquidarepasseSistema Único de Assistência SocialsocialsuasTransição Fiscal.União

LEIA MAIS

Risco-País Da Argentina Volta Aos 511 Pontos E Mercado Aumenta Cautela Com Milei - Gazeta Mercantil - Economia
Economia

Risco-país da Argentina volta aos 511 pontos e mercado aumenta cautela com Milei

A Argentina encerrou esta terça-feira (18) com uma mudança importante no humor dos mercados. O risco-país avançou para 511 pontos-base, alta de 4,5% em relação aos 489 pontos...

Leia MaisDetails
Deputado Gilvan Da Federal - Gazeta Mercantil
Política

STF torna Gilvan da Federal réu por injúria contra Lula

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta terça-feira (18) receber denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o deputado federal Gilvan da Federal (PL-ES) pelo...

Leia MaisDetails
Projeto Permite Deduzir Academia E Personal Trainer Do Imposto De Renda - Gazeta Mercantil
Economia

Projeto permite deduzir academia e personal trainer do Imposto de Renda

Mensalidades de academia, contratação de personal trainer e até a compra de esteiras, bicicletas ergométricas, halteres e outros equipamentos para exercícios físicos poderão ser abatidas da base de...

Leia MaisDetails
Governo Volta A Discutir Tributação De Lci E Lca E Reacende Alerta Sobre Custo Do Crédito Imobiliário-Gazeta Mercantil
Economia

Governo volta a discutir tributação de LCI e LCA e reacende alerta sobre custo do crédito imobiliário

O debate sobre o fim da isenção de Imposto de Renda para Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) voltou ao centro da...

Leia MaisDetails
Brasil Pode Ter Deflação Em Agosto; Entenda Por Que Inflação Ainda Deve Fechar 2026 Em 5,02% - Gazeta Mercantil - Economia
Economia

Brasil pode ter deflação em agosto; entenda por que inflação ainda deve fechar 2026 em 5,02%

O Brasil pode registrar deflação em agosto de 2026, com queda média dos preços ao consumidor pela primeira vez em um ano. O movimento, porém, não significa que...

Leia MaisDetails

GAZETA MERCANTIL ENCERRADO

01:20:06
IBOV

IBOVESPA

B3
Consultando... buscando última cotação
$

DOLAR

USD/BRL
Consultando... buscando última cotação
€

EURO

EUR/BRL
Consultando... buscando última cotação
₿

BITCOIN

BRL
Consultando... buscando última cotação
Gazeta Mercantil · dados de mercado

Veja Também

Crise Na Propaganda Eleitoral: Dança Das Cadeiras Atinge Marqueteiros Políticos Em 2026 - Gazeta Mercantil
Política

Crise na propaganda eleitoral: dança das cadeiras atinge marqueteiros políticos em 2026

Leia MaisDetails
Risco-País Da Argentina Volta Aos 511 Pontos E Mercado Aumenta Cautela Com Milei - Gazeta Mercantil - Economia
Economia

Risco-país da Argentina volta aos 511 pontos e mercado aumenta cautela com Milei

Leia MaisDetails
3 Funções Do Celular Que Você Deve Desligar Quando Não Estiver Usando - Gazeta Mercantil - Economia
Tecnologia

3 funções do celular que você deve desligar quando não estiver usando

Leia MaisDetails
Renan Santos - Gazeta Mercantil
Política

Renan Santos defende fim da Justiça do Trabalho e diz que CLT ‘já era’

Leia MaisDetails
Valuation: O Que É, Como Calcular E Quais Métodos Definem O Valor De Uma Empresa - Gazeta Mercantil
Negócios

Valuation: o que é, como calcular e quais métodos definem o valor de uma empresa

Leia MaisDetails

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco
Gazeta Mercantil Logo White

contato@gazetamercantil.com

Gazeta Mercantil — marca jornalística fundada em 1920, com continuidade editorial contemporânea no ambiente digital por meio do domínio oficial gazetamercantil.com.

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

Veja Também:

Crise na propaganda eleitoral: dança das cadeiras atinge marqueteiros políticos em 2026

Risco-país da Argentina volta aos 511 pontos e mercado aumenta cautela com Milei

3 funções do celular que você deve desligar quando não estiver usando

Renan Santos defende fim da Justiça do Trabalho e diz que CLT ‘já era’

Valuation: o que é, como calcular e quais métodos definem o valor de uma empresa

Dólar hoje fecha a R$ 5,22 com tensão no Oriente Médio e ata do Fed no radar

  • Anuncie Conosco
  • Política de Correções
  • Política Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso
  • Sobre a Gazeta Mercantil
  • Expediente
  • Política de Conflitos de Interesse

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP