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Casas Bahia (BHIA3) aposta em crediário e eficiência para voltar ao lucro

CFO Élcio Ito afirma que varejista não depende de queda da Selic, apesar de prejuízo de R$ 1,06 bilhão no 1º trimestre.

por Alice Nascimento - Repórter de Negócios
03/06/2026 às 08h11
em Empresas, Destaque, Notícias
Elcio Ito Casas Bahia (1)

A Casas Bahia (BHIA3) mantém o plano de voltar ao lucro apoiada em aumento de rentabilidade, expansão do crediário, ganhos de eficiência operacional e redução gradual das despesas financeiras, mesmo em um ambiente de Selic elevada e endividamento das famílias. A varejista registrou prejuízo líquido de R$ 1,06 bilhão no primeiro trimestre de 2026, pressionada principalmente pelo resultado financeiro negativo de R$ 1,2 bilhão, apesar do crescimento de 6,1% na receita líquida, que chegou a R$ 7,4 bilhões no período.

O diretor financeiro da Casas Bahia (BHIA3), Élcio Ito, afirmou que a companhia não trabalha com um cenário de dependência de queda da Selic para cumprir seus objetivos. Segundo o executivo, o foco segue na execução do plano de transformação iniciado há cerca de três anos, com ajustes na estrutura de capital, disciplina de crédito e melhora operacional.

A empresa ainda enfrenta um cenário difícil para o varejo brasileiro, marcado por juros altos, consumo pressionado nas classes de menor renda, endividamento das famílias e menor dinamismo das lojas físicas. Ainda assim, a companhia avalia que a combinação entre crediário, serviços, canais digitais e parcerias com marketplaces pode sustentar a recuperação nos próximos trimestres.

Resultado financeiro ainda pesa sobre a Casas Bahia

O principal fator de pressão no balanço da Casas Bahia (BHIA3) segue sendo o custo financeiro. No primeiro trimestre, o CDI médio subiu de 12,94% no mesmo período de 2025 para 14,86% em 2026, elevando o peso dos juros sobre a dívida e sobre as operações financeiras da companhia.

Com isso, o resultado financeiro líquido ficou negativo em R$ 1,2 bilhão, valor 27% superior ao registrado um ano antes. Esse impacto explica boa parte da piora do prejuízo líquido, que passou de R$ 408 milhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 1,06 bilhão neste ano.

Apesar da pressão, a gestão sustenta que o plano de recuperação não depende exclusivamente do Banco Central. Para a companhia, uma eventual queda da Selic seria positiva, mas não é tratada como condição necessária para a execução da estratégia.

A leitura da Casas Bahia (BHIA3) é que há alavancas internas ainda em andamento, especialmente ligadas à rentabilidade, ao controle de despesas, à eficiência operacional e à reorganização da estrutura financeira.

Crediário segue como peça central da estratégia

O crediário continua sendo uma das principais fortalezas da Casas Bahia (BHIA3). Em um varejo voltado a bens duráveis, móveis, eletrodomésticos e produtos de maior valor, a oferta de crédito próprio permite ampliar o acesso de consumidores que não conseguem comprar à vista ou que enfrentam restrição em outras linhas.

O desafio está em crescer sem elevar excessivamente o risco de inadimplência. Segundo Élcio Ito, a companhia adotou postura conservadora na concessão de crédito e chegou a abrir mão de vendas para preservar a qualidade da carteira.

Essa disciplina é relevante porque o público de menor renda, historicamente importante para a Casas Bahia (BHIA3), segue pressionado pelo endividamento e pelos juros elevados. Uma concessão de crédito mais agressiva poderia impulsionar receita no curto prazo, mas aumentar perdas futuras.

Além de gerar vendas, o crediário também impulsiona produtos e serviços de maior margem. Garantia estendida, seguros e instalação de produtos costumam ter rentabilidade elevada e ajudam a melhorar o resultado operacional da varejista.

Receita cresce, mas lojas físicas recuam

No primeiro trimestre de 2026, a receita líquida da Casas Bahia (BHIA3) cresceu 6,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, alcançando R$ 7,4 bilhões. O desempenho mostra avanço operacional em meio a um cenário macroeconômico adverso.

A margem bruta ficou praticamente estável, em 30,3%, ante 30,2% um ano antes. As despesas com vendas, gerais e administrativas avançaram 5,4%, para R$ 1,7 bilhão.

O Ebitda ajustado somou R$ 597 milhões, alta de 4,7% na comparação anual. A margem Ebitda ajustada passou de 8,2% para 8,1%, indicando estabilidade operacional, ainda que o lucro líquido siga fortemente impactado pelo custo financeiro.

As lojas físicas, por outro lado, tiveram desempenho mais fraco. A receita bruta desse canal somou quase R$ 5,6 bilhões, queda de 1,8% na comparação anual. A companhia atribui parte desse resultado à base de comparação elevada e ao consumo mais fraco entre clientes de menor renda.

Online avança e ganha participação

Enquanto as lojas físicas recuaram, o canal digital manteve crescimento forte. A receita bruta das vendas online da Casas Bahia (BHIA3) avançou 24% no trimestre, para quase R$ 3,3 bilhões.

Dentro desse resultado, o canal próprio, conhecido como 1P, cresceu 26,4%, para R$ 3 bilhões. O desempenho reforça a importância do comércio eletrônico na estratégia da companhia.

A Casas Bahia (BHIA3) também vem ampliando sua presença em plataformas parceiras. A varejista atua em marketplaces como Mercado Livre, Amazon e Shopee, em uma estratégia que busca aumentar alcance, tráfego e exposição de seus produtos.

Segundo a companhia, as parcerias funcionam como canais complementares, sem canibalização relevante das vendas próprias até o momento. O objetivo declarado é ser uma das principais vendedoras de eletrodomésticos e móveis do país em todos os canais, mantendo rentabilidade.

Parceria com Mercado Livre ganha relevância

Entre as parcerias digitais, o acordo com o Mercado Livre é considerado o mais relevante até agora pela Casas Bahia (BHIA3). A integração começou em novembro do ano passado e ganhou tração rapidamente, segundo o CFO.

A estratégia permite que consumidores encontrem produtos da Casas Bahia em grandes marketplaces, especialmente em categorias como eletrodomésticos, móveis e bens duráveis. Ao mesmo tempo, a varejista usa sua estrutura logística como diferencial competitivo para entrega de itens volumosos.

Um dos efeitos positivos observados pela companhia foi o aumento do tráfego no site próprio. Parte dos consumidores pesquisa os produtos nas plataformas parceiras e depois acessa os canais da Casas Bahia (BHIA3) para comparar preço, prazo e condições de pagamento.

Esse comportamento pode beneficiar a varejista ao ampliar a jornada de compra e reforçar a marca em diferentes pontos de contato. Em um setor de margens apertadas, a eficiência na conversão entre canais será decisiva para sustentar crescimento com rentabilidade.

Plano depende de execução em ambiente adverso

A recuperação da Casas Bahia (BHIA3) depende de uma combinação de fatores internos e externos. Do lado interno, a empresa precisa seguir avançando em eficiência, rentabilidade, disciplina de crédito, monetização de serviços e expansão digital.

Do lado externo, o ambiente ainda é desafiador. A Selic elevada encarece a dívida, reduz o apetite do consumidor por compras parceladas e pressiona a renda disponível das famílias. O alto endividamento também limita a capacidade de expansão do crédito no varejo.

A companhia reconhece que a queda de juros seria favorável, mas afirma que não condiciona o plano de recuperação a esse movimento. A estratégia é reduzir a dependência do cenário macroeconômico e ampliar o peso das alavancas operacionais.

Para investidores, os próximos balanços serão importantes para medir se o crescimento de receita, o avanço do online e o crediário mais seletivo serão suficientes para compensar o custo financeiro e aproximar a companhia do lucro.

Varejista tenta transformar melhora operacional em lucro

O caso da Casas Bahia (BHIA3) mostra a diferença entre evolução operacional e resultado líquido. A companhia conseguiu crescer receita, ampliar vendas digitais e manter Ebitda positivo, mas o peso dos juros ainda impede a recuperação do lucro.

A trajetória de volta ao azul dependerá da capacidade de converter crescimento em geração de caixa, reduzir despesas financeiras e preservar a qualidade da carteira de crédito. A companhia também precisa manter competitividade frente a marketplaces, concorrentes digitais e varejistas tradicionais.

O crediário segue como um ativo estratégico, mas exige cautela em um cenário de inadimplência potencialmente elevada. As parcerias digitais ampliam alcance, mas precisam gerar vendas rentáveis. A loja física continua relevante, mas enfrenta pressão do consumo e da migração para canais online.

A Casas Bahia (BHIA3) tenta avançar nessa combinação em um momento de juros ainda altos. O plano de recuperação está em execução, mas a volta ao lucro dependerá de disciplina financeira, eficiência operacional e capacidade de sustentar crescimento sem elevar risco de crédito.

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