A Universidade de São Paulo (USP), por meio da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), e o Instituto Nacional de Pesquisa para a Agricultura, a Alimentação e o Ambiente da França (INRAE) iniciaram em Piracicaba as atividades de gestão do Planetary Health International Research Center (PHIRC), centro internacional voltado à pesquisa em saúde planetária.
A iniciativa busca integrar ciência agrícola, segurança alimentar, saúde humana, biodiversidade, clima e inovação tecnológica em um mesmo ecossistema de pesquisa. O centro terá sede no campus Luiz de Queiroz, da Esalq/USP, e nasce como uma das principais apostas de cooperação científica entre Brasil e França em temas ligados ao futuro da produção de alimentos.
O PHIRC foi formalizado pela USP e pelo INRAE em 2025 como um centro internacional dedicado ao estudo das conexões entre saúde humana, animal, vegetal e ambiental. Segundo o INRAE, o centro está baseado em Piracicaba, será codirigido por pesquisadores das duas instituições e foi estruturado em torno de uma estratégia científica comum.
Agora, a etapa em Piracicaba marca o início da operação prática do novo ecossistema, com reuniões de gestão, definição de prioridades científicas e articulação de projetos conjuntos. A agenda também integra as comemorações dos 125 anos da Esalq.
Centro reunirá pesquisadores do Brasil e da França
O PHIRC começa suas atividades com uma rede de mais de 200 pesquisadores brasileiros e franceses, organizados em cinco eixos de atuação. A proposta é combinar a experiência brasileira em sistemas tropicais com o conhecimento francês em agricultura, alimentação e meio ambiente.
Essa integração é considerada estratégica porque muitos dos problemas enfrentados pelos dois países são comuns, mas aparecem em contextos produtivos e climáticos diferentes. A comparação entre ecossistemas tropicais e temperados deve permitir o desenvolvimento de soluções mais amplas para agricultura sustentável, segurança alimentar, redução de emissões e adaptação às mudanças climáticas.
O INRAE afirma que o novo centro mobiliza pesquisadores de áreas como ciências naturais, médicas, sociais e políticas, com foco em agricultura sustentável, ambiente e saúde humana. A instituição também destaca que a parceria se apoia em uma colaboração científica de longa duração com a USP.
Cinco pilares vão orientar a pesquisa
O programa científico do PHIRC está organizado em cinco pilares. O primeiro trata de sistemas de produção sustentável, com foco em agricultura, pecuária, agroecologia, biodiversidade funcional e biocontrole.
O segundo pilar aborda adaptação e mitigação das mudanças climáticas na agricultura, nas florestas e no setor de alimentos. A frente inclui temas como genética, modelagem, manejo de carbono e resiliência produtiva.
O terceiro eixo envolve o uso responsável de recursos naturais, especialmente água e solo, em ambientes saudáveis. A proposta é desenvolver tecnologias e práticas que reduzam desperdícios, aumentem eficiência e contribuam para a conservação dos ecossistemas.
O quarto pilar trata de sistemas alimentares saudáveis e nutrição preventiva. Entre os temas previstos estão dietas sustentáveis, proteínas alternativas, reaproveitamento de resíduos agroindustriais e economia circular.
O quinto eixo reúne agricultura digital e sistemas alimentares, com uso de inteligência artificial, automação, sensores inteligentes, robótica e modelos digitais aplicados ao campo. Esses cinco eixos também constam do desenho internacional divulgado pelo INRAE para o centro.
Encontro marca início da governança do PHIRC

Para marcar o início das atividades em parceria, pesquisadores brasileiros e franceses se reuniram entre os dias 6, 7 e 8 de julho em São Paulo, Pirassununga e Piracicaba. O núcleo científico e deliberativo da programação ocorreu no campus da Esalq/USP, durante o 1st PHIRC High-Level Meeting.
A agenda incluiu reunião institucional na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), visita ao campus da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP, em Pirassununga, e abertura oficial do escritório do INRAE na instituição.
Em Piracicaba, representantes da USP e do INRAE apresentaram os programas de pesquisa dos cinco pilares do PHIRC e realizaram a primeira reunião do conselho de administração. Foram discutidos o plano de gestão, oportunidades de financiamento e o plano de ação científica para os próximos 12 meses.
A programação também incluiu sessão de debates com o Conselho Consultivo Externo e visitas técnicas a laboratórios estratégicos da Esalq, como o Centro de Pesquisa em Carbono na Agricultura Tropical (CCarbon), o Laboratório de Biotecnologia Animal e estruturas ligadas ao LIA Learn/PHIRC no Departamento de Entomologia e Acarologia.
USP vê centro como resposta a desafio global
O reitor da USP, Aluísio Segurado, afirmou que o centro nasce para atuar em uma das frentes mais críticas do mundo contemporâneo: a produção de alimentos em um contexto de mudanças climáticas, pressão ambiental e necessidade de dietas mais saudáveis.
Segundo ele, a parceria fortalece a missão da universidade de gerar conhecimento, formar pessoas e transformar ciência em inovação aplicável à sociedade.
“A Universidade de São Paulo é a universidade líder da América Latina na geração do conhecimento inovador e as parcerias acadêmicas internacionais fortalecem o cumprimento dessa missão”, afirmou Segurado.
A diretora da Esalq, professora Thais Vieira, destacou que desafios como segurança alimentar, resiliência dos sistemas agroalimentares, mudanças climáticas e saúde planetária não podem mais ser enfrentados de forma isolada por instituições ou países.
Para ela, o PHIRC traduz uma nova forma de produzir conhecimento: integrada, interdisciplinar e internacional.
França amplia cooperação científica com o Brasil
Do lado francês, o presidente do INRAE, Philippe Mauguin, afirmou que o PHIRC dá continuidade a uma cooperação científica já consolidada entre Brasil e França em temas como clima, agricultura, alimentação e biodiversidade.
O próprio INRAE informa que USP e INRAE produziram mais de 430 publicações científicas conjuntas desde 2017 em áreas como ecologia, ambiente, microbiologia, ciência de alimentos e florestas.
A cooperação institucional também foi fortalecida por memorandos de entendimento e pela criação de laboratórios internacionais associados. Em 2025, a USP já havia informado que a unidade do INRAE em Piracicaba deveria operar vinculada ao campus da Esalq, em articulação com outras unidades da universidade.
Anne-Nathalie Volkoff, diretora de pesquisa do INRAE e especialista em pragas agrícolas, coordena o PHIRC pelo lado francês. Segundo ela, Brasil e França compartilham problemas semelhantes e têm competências complementares para ampliar o impacto da pesquisa em saúde planetária.
Na USP, a coordenação está a cargo do professor Fernando Cônsoli, do Departamento de Entomologia e Acarologia da Esalq. Ele afirma que o centro deverá concentrar esforços em soluções orientadas a problemas concretos da sociedade, como produção de alimentos, preservação da biodiversidade e equidade nutricional.
Saúde planetária conecta clima, alimento e vida humana
A saúde planetária parte da ideia de que a saúde humana depende da integridade dos sistemas naturais. Isso significa que alimentação, clima, uso da terra, biodiversidade, água, solo e saúde pública não podem ser tratados como agendas separadas.
O tema ganhou relevância diante da aceleração das mudanças climáticas. A Organização Meteorológica Mundial estima que há 86% de chance de pelo menos um ano entre 2025 e 2029 superar temporariamente 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. A entidade também alerta que cada fração adicional de aquecimento aumenta riscos de ondas de calor, chuvas extremas, secas intensas, derretimento de geleiras, aquecimento dos oceanos e elevação do nível do mar.
No campo, esses efeitos afetam produtividade, pragas, disponibilidade de água, qualidade do solo e estabilidade das cadeias de abastecimento. Por isso, o PHIRC pretende atuar na fronteira entre ciência básica, inovação tecnológica e formulação de políticas públicas.
Centro pode atrair recursos e formar jovens cientistas
O plano de ação do PHIRC prevê intercâmbios de curta duração para pesquisadores e estudantes de pós-graduação das duas nações. A partir de 2027, a expectativa é ampliar bolsas de pós-doutorado e submeter projetos conjuntos a grandes fundos internacionais.
Segundo o desenho institucional divulgado pelo INRAE, o reconhecimento do centro pela FAPESP poderá abrir caminho para um financiamento de R$ 30 milhões ao longo de cinco anos, voltado ao lançamento operacional em 2026, projetos conjuntos, mobilidade científica, escolas de verão e simpósios internacionais.
A meta dos organizadores é gerar publicações de alto impacto, formar jovens cientistas e criar uma plataforma de pesquisa capaz de dialogar com governos, empresas, produtores rurais e instituições multilaterais.
Impacto esperado vai além dos laboratórios
O PHIRC foi desenhado para produzir impacto econômico, ambiental, social e tecnológico. Na área de inovação, o centro deve estimular pesquisas em biodefensivos, agricultura digital, robótica, circularidade de resíduos agroindustriais e novas cadeias de valor ligadas ao mercado verde.
No campo ambiental, a expectativa é contribuir para redução da pegada de carbono da agropecuária, diminuição do uso de pesticidas, melhor manejo de água e solo e fortalecimento de sistemas produtivos mais resilientes.
Na área de políticas públicas, o centro pretende gerar dados científicos para apoiar decisões sobre rotulagem de alimentos, subsídios, agricultura sustentável, segurança alimentar e adaptação climática.
A criação do PHIRC coloca Piracicaba em posição de destaque na agenda internacional de pesquisa em saúde planetária. Ao reunir USP, Esalq, INRAE, FAPESP e uma rede de pesquisadores dos dois países, o centro tenta responder a uma pergunta central para as próximas décadas: como produzir mais e melhor sem comprometer a saúde das pessoas, dos ecossistemas e do próprio planeta?










