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Dinheiro esquecido em bancos cai 39,5% e soma R$ 6,24 bilhões, diz Banco Central

Pessoas físicas têm R$ 4,43 bilhões disponíveis, enquanto transferência ao fundo do Desenrola explica redução de mais de R$ 4 bilhões no saldo.

por Maria Helena Costa
14/07/2026 às 16h32
em Economia
Governo Usa Dinheiro Esquecido Em Bancos Para Bancar Garantias Do Desenrola 2.0 - Gazeta Mercantil

O dinheiro esquecido por clientes em bancos, administradoras de consórcios e outras instituições financeiras somava R$ 6,24 bilhões em maio de 2026, informou o Banco Central nesta terça-feira (14). O montante, disponível para cerca de 24 milhões de pessoas físicas e 2,3 milhões de empresas, caiu 39,5% em relação a abril, principalmente após a transferência de R$ 5,7 bilhões para o Fundo de Garantia de Operações, usado para dar cobertura às renegociações do Novo Desenrola Brasil.

Do total que ainda aparece no Sistema de Valores a Receber, R$ 4,43 bilhões pertencem a pessoas físicas. Outros aproximadamente R$ 1,8 bilhão são de pessoas jurídicas.

A atualização produz uma mudança importante na leitura dos números. A queda do dinheiro esquecido em bancos não significa que mais de R$ 4 bilhões tenham sido necessariamente sacados pelos titulares entre abril e maio.

Grande parte da redução ocorreu porque recursos informados ao Banco Central até 31 de dezembro de 2024 foram retirados da base do sistema e encaminhados ao FGO, conforme determinação da Medida Provisória 1.355, que instituiu o Novo Desenrola Brasil.

O saldo disponível havia encerrado abril em aproximadamente R$ 10,32 bilhões. Em maio, recuou R$ 4,08 bilhões, para os atuais R$ 6,24 bilhões. Na comparação com janeiro, quando havia R$ 10,27 bilhões, a queda acumulada chega a 39,2%.

Pessoas físicas concentram 71% do dinheiro disponível

As pessoas físicas respondem por aproximadamente 71% de todo o dinheiro esquecido que permanece disponível no sistema do Banco Central. Os R$ 4,43 bilhões estão distribuídos entre mais de 24 milhões de consumidores.

O número de beneficiários, entretanto, não corresponde ao número de contas ou registros. Uma mesma pessoa pode ter mais de um valor a receber, mantido por diferentes instituições financeiras.

As empresas concentram aproximadamente 29% do saldo. Cerca de 2,3 milhões de pessoas jurídicas possuem, juntas, pouco mais de R$ 1,8 bilhão ainda registrado no sistema.

O valor médio obtido pela divisão do saldo pelo número de titulares não representa necessariamente quanto cada beneficiário receberá. A distribuição é fortemente desigual e inclui desde quantias inferiores a R$ 1 até recursos superiores a R$ 1 mil.

Segundo os dados do Banco Central, 67,6% dos beneficiários possuem até R$ 10 para retirar. Outros 19,5% têm entre R$ 10,01 e R$ 100.

A faixa entre R$ 100,01 e R$ 1 mil representa 10,5% dos casos. Apenas 2,5% dos titulares possuem mais de R$ 1 mil em dinheiro esquecido.

Embora a maioria dos registros envolva valores pequenos, a consulta continua economicamente relevante. O sistema reúne saldos de contas encerradas, cobranças indevidas, sobras de cooperativas e recursos de consórcios que podem ter permanecido parados durante anos.

Consórcios respondem pela maior parcela do saldo

As administradoras de consórcios concentram R$ 2,9 bilhões, equivalentes a cerca de 46,5% do dinheiro esquecido ainda disponível. A liderança está associada principalmente a recursos não procurados de grupos de consórcio encerrados.

Os bancos aparecem em seguida, com aproximadamente R$ 2,25 bilhões. O valor pode ter origem em contas correntes ou de poupança encerradas com saldo, tarifas cobradas indevidamente e parcelas de operações de crédito que deveriam ter sido devolvidas.

As cooperativas de crédito possuem R$ 586,3 milhões. Nesse segmento, o sistema pode identificar cotas de capital e rateios de sobras líquidas pertencentes a antigos cooperados.

Instituições de pagamento concentram R$ 311,47 milhões. Financeiras respondem por R$ 106,29 milhões, enquanto corretoras e distribuidoras mantêm aproximadamente R$ 70,95 milhões.

Outras instituições autorizadas pelo Banco Central somam R$ 8,76 milhões.

A composição ajuda a explicar por que uma pessoa que não reconhece ter deixado dinheiro em uma conta bancária ainda pode aparecer como beneficiária. O Sistema de Valores a Receber inclui relações com consórcios, cooperativas, corretoras, financeiras e plataformas de pagamento.

Também podem surgir quantias decorrentes de tarifas cobradas sem respaldo contratual ou parcelas de empréstimos e financiamentos que foram pagas além do valor devido.

Transferência de R$ 5,7 bilhões altera série do Banco Central

O recuo registrado em maio está diretamente relacionado à transferência de aproximadamente R$ 5,7 bilhões ao Fundo de Garantia de Operações. A operação foi autorizada pela Medida Provisória 1.355, publicada em 4 de maio.

A norma determinou que instituições financeiras e demais entidades supervisionadas transferissem ao FGO os recursos informados ao Banco Central, até o fim de 2024, como valores disponíveis para devolução.

Com a transferência, esses registros deixaram de compor o saldo corrente do Sistema de Valores a Receber. Por isso, a queda mensal não deve ser interpretada apenas como aumento dos saques realizados por pessoas físicas e empresas.

O FGO funciona como instrumento de compartilhamento de risco. No Novo Desenrola Brasil, o fundo oferece garantia às instituições financeiras que concederem novos empréstimos destinados à reestruturação de dívidas de consumidores.

A garantia reduz parte do risco de inadimplência assumido pelos bancos e cria condições para que os débitos sejam renegociados com juros menores, descontos e prazos mais longos.

O Novo Desenrola é voltado a pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos e contempla determinadas operações de crédito contratadas até 31 de janeiro de 2026, com atraso entre 91 e 720 dias.

Entre as dívidas abrangidas estão cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem consignação. O programa também admite outras modalidades definidas pela regulamentação do Ministério da Fazenda.

Prazo para contestação separa recursos disponíveis dos transferidos

A Medida Provisória estabeleceu procedimento específico para os titulares dos valores enviados ao FGO. O Ministério da Fazenda publicou edital com informações sobre os montantes transferidos e concedeu prazo de 30 dias para contestação administrativa.

Os valores contestados dentro do período poderiam ser devolvidos aos titulares, após a conferência das informações pelas instituições responsáveis.

Encerrado o prazo administrativo, os recursos sem contestação foram incorporados ao patrimônio do FGO. A norma preservou, contudo, a possibilidade de reivindicação judicial dentro do prazo previsto na legislação.

Essa diferença é essencial para o cidadão. Os R$ 6,24 bilhões divulgados agora são valores que permanecem disponíveis no sistema normal do Banco Central e podem ser solicitados pelos procedimentos regulares.

Já os recursos transferidos ao FGO não aparecem mais como saldo disponível no SVR. Eventuais questionamentos sobre esses valores seguem regras e prazos diferentes dos aplicáveis ao dinheiro que ainda consta no sistema.

A retirada dos registros também evita uma distorção estatística. Depois da transferência, o Banco Central passou a contabilizar no saldo apenas os recursos que podem ser prontamente solicitados às instituições.

Valores incorporados ao FGO não são considerados devolvidos aos clientes, mas deixam de ser classificados como disponíveis para retirada no sistema.

TCU analisa tratamento fiscal dado aos recursos

A transferência do dinheiro esquecido para o FGO passou a ser examinada pela área técnica do Tribunal de Contas da União.

O ponto central da análise é a natureza dos recursos e o tratamento orçamentário adotado pelo governo. Os técnicos avaliam se o dinheiro deveria ter transitado pelo Orçamento da União antes de ser utilizado para fortalecer um fundo garantidor ligado a uma política pública federal.

A classificação tem implicações fiscais. Recursos executados diretamente no Orçamento estão sujeitos a regras de autorização legislativa, transparência, programação financeira e limites estabelecidos pelo arcabouço fiscal.

A transferência ao FGO ocorreu fora do orçamento tradicional. Como o fundo concede garantias, a saída financeira efetiva depende do desempenho das operações e da ocorrência de inadimplência dos beneficiários do programa.

O governo sustenta que o procedimento possui respaldo na medida provisória e que os recursos foram transferidos a uma estrutura financeira destinada a garantir renegociações, e não utilizados como despesa pública convencional.

O TCU ainda não havia emitido decisão definitiva sobre a regularidade da operação. Até a conclusão da análise, a discussão permanece concentrada na classificação contábil, no impacto sobre os limites fiscais e na preservação dos direitos dos antigos titulares.

Como consultar o dinheiro esquecido no Banco Central

A consulta deve ser feita exclusivamente no Sistema de Valores a Receber do Banco Central. O serviço é gratuito e permite verificar recursos pertencentes a pessoas físicas, empresas e pessoas falecidas.

Na consulta inicial, a pessoa física precisa informar CPF e data de nascimento. Para empresas, são exigidos o CNPJ e a data de abertura.

Caso o sistema identifique dinheiro esquecido, o usuário será encaminhado para uma área protegida. O acesso exige conta Gov.br de nível prata ou ouro, com a verificação em duas etapas habilitada.

Para receber diretamente pelo sistema, o titular precisa selecionar uma chave Pix. Quando a instituição responsável aderiu ao mecanismo de devolução do Banco Central, o pagamento deve ser realizado em até 12 dias úteis.

A chave Pix precisa pertencer ao próprio beneficiário. O Banco Central não permite que o dinheiro seja direcionado pelo sistema para uma chave cadastrada em nome de terceiro.

Quando a opção de solicitação direta não estiver disponível, o SVR exibirá os dados de contato da instituição. Nesse caso, o cliente deverá combinar a forma e o prazo de pagamento diretamente com o banco, a financeira, a cooperativa ou a administradora de consórcios.

Quem não possui chave Pix também pode procurar a instituição indicada e negociar outra modalidade de devolução. Outra alternativa é criar uma chave e retornar ao sistema.

Herdeiros precisam procurar diretamente a instituição

O Sistema de Valores a Receber também permite consultar recursos pertencentes a pessoas falecidas. O acesso é restrito a herdeiros, testamentários, inventariantes ou representantes legais.

O responsável deve entrar com sua própria conta Gov.br, aceitar um termo de responsabilidade e informar o CPF e a data de nascimento da pessoa falecida.

Nesse caso, o Banco Central apresenta a faixa do valor, sua origem, o nome da instituição responsável e os canais de atendimento. O pagamento não pode ser solicitado diretamente pelo sistema.

O herdeiro ou representante deverá procurar a instituição e apresentar os documentos exigidos para comprovar o direito aos recursos. Podem ser solicitados certidão de óbito, documentos do inventário, testamento, procuração ou decisão judicial.

A definição dos documentos e da forma de pagamento cabe à instituição que mantém o dinheiro.

Banco Central alerta para golpes envolvendo falsos resgates

O volume de dinheiro esquecido e a ampla procura pelo sistema estimulam tentativas de fraude. Criminosos enviam mensagens por e-mail, SMS, aplicativos e redes sociais prometendo liberar valores mediante pagamento de taxa ou fornecimento de dados bancários.

O Banco Central não envia links para solicitar resgates, não entra em contato para confirmar dados pessoais e não cobra qualquer valor pelo serviço.

Também não é necessário contratar intermediários. A consulta e a solicitação são gratuitas e devem ser feitas pelo próprio titular ou por seu representante legal.

Senhas, códigos de autenticação e credenciais da conta Gov.br não devem ser enviados a terceiros. A instituição identificada no sistema pode entrar em contato para concluir a devolução, mas não deve solicitar a senha do cliente.

A recomendação é ignorar mensagens com senso de urgência, promessas de valores elevados ou exigência de pagamento antecipado. Em caso de dúvida, o usuário deve acessar diretamente os canais oficiais do Banco Central.

Saldo de R$ 6,24 bilhões mantém milhões de clientes à espera

Mesmo após a transferência ao FGO, o dinheiro esquecido disponível permanece elevado. Os R$ 6,24 bilhões representam recursos reconhecidos pelas próprias instituições como pertencentes a clientes, empresas, cooperados, consorciados ou investidores.

A predominância de valores inferiores a R$ 10 ajuda a explicar por que milhões de titulares ainda não solicitaram a devolução. Em muitos casos, o custo de atenção e o desconhecimento sobre a origem do saldo superam a percepção de benefício financeiro.

O quadro é diferente para os 2,5% que possuem mais de R$ 1 mil. Nesse grupo, a ausência de consulta pode significar a manutenção de recursos relevantes em contas encerradas, consórcios ou relações financeiras antigas.

A atualização de maio também inaugura uma nova base de comparação. A partir da retirada dos valores encaminhados ao FGO, as próximas estatísticas refletirão com maior precisão o fluxo de novos registros e pagamentos efetivamente realizados.

Para o cidadão, a orientação permanece direta: consultar periodicamente o sistema oficial, verificar a instituição responsável e solicitar a devolução enquanto o valor estiver disponível. Para o governo, o teste será demonstrar que a transferência ao Desenrola respeitou as regras fiscais e os direitos dos titulares.

Tags: Banco Centralbancosconsórciosdinheiro esquecidoEconomiaFGONovo Desenrola Brasilresgate de dinheirosistema de valores a receberSVRvalores a receber

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