Os Estados Unidos vão impor nova tarifa de 25% sobre certas importações do Brasil a partir de 22 de julho. O anúncio foi feito na noite de quarta-feira pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA, o USTR, e marca a primeira medida da nova estratégia tarifária do governo Donald Trump após a Suprema Corte americana derrubar o eixo central do sistema tarifário anterior. Para o governo Luiz Inácio Lula da Silva, é o início de uma segunda rodada do tarifaço que pode levar a conta total para 37,5%.
A tarifa, segundo o USTR, é resultado de investigações sobre práticas comerciais desleais nos termos da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. O escritório abriu cerca de 80 investigações comerciais, e uma nova onda pode atingir China, União Europeia, Índia, Japão e México. No caso brasileiro, a investigação aberta em julho do ano passado citou desde desmatamento ilegal até o Pix, que Washington alega prejudicar empresas de cartão de crédito. O Brasil rejeitou todas as alegações.
Segundo o governo americano, houve extensas negociações ao longo do último ano que não resolveram as questões, mas Washington segue aberto a negociar. Pelo lado brasileiro, a leitura é oposta. Segundo fontes do Palácio do Planalto, foram mais de 30 contatos presenciais, virtuais ou por telefone desde o tarifaço original, em nível presidencial, ministerial e técnico. Somente com o representante comercial Jamieson Greer e o secretário de Estado Marco Rubio foram 11 contatos.
O que entra e o que escapa da nova tarifa de 25%
O USTR informou que as tarifas se aplicariam a milhares de importações brasileiras, incluindo açúcar, maquinário agrícola, vestuário, maquinário elétrico, papel e aço. É uma lista que atinge diretamente o interior industrial e o agronegócio de maior valor agregado, onde o Brasil compete com México e Sudeste Asiático no mercado americano.
O alívio veio na forma de isenções. Os EUA afirmaram que isentariam todos os produtos propostos para isenção no aviso de junho, exceto itens como polpa de dissolução de alta pureza. As isenções incluem carne bovina, café, terras raras, produtos energéticos, aeronaves e peças de aeronaves. Na atualização de quarta-feira, entraram também mel orgânico, ferro gusa, café instantâneo sem sabor e outros produtos.
Para a Embraer (EMBR3), a exclusão de aeronaves e peças é vital. A empresa tem nos EUA seu principal mercado de jatos executivos e de defesa. Para JBS (JBSS3), Marfrig (MRFG3) e para o complexo cafeeiro, a manutenção da isenção evita um choque imediato de preço em cadeias que já operam com margens pressionadas por frete e clima. Na outra ponta, usinas de açúcar do Centro-Sul, fabricantes de máquinas agrícolas do Rio Grande do Sul e indústrias de papel e celulose de menor porte, que não estão na lista de 700 produtos excluídos da ordem executiva de 30 de julho, entram em zona de maior exposição.
O anúncio segue-se a uma proposta apresentada em junho para impor 25% sobre muitas importações do Brasil após considerar práticas desleais em temas que vão do comércio digital ao desmatamento. Em março, o governo americano já havia elevado para 25% as tarifas sobre aço e alumínio de todos os países e cancelado quotas, medida que afetou US$ 3,2 bilhões em exportações brasileiras em 2024.
De 35,9% a 37,5%: o quebra-cabeça que o MDIC tenta decifrar
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços trabalha com três regimes diferentes que se sobrepõem. É esse emaranhado que explica por que o governo fala em plano de contingência segmentado.
Aproximadamente 44,6% das exportações brasileiras para os EUA estão fora da tarifa adicional de 50% aplicada unilateralmente em 30 de julho. A ordem executiva traz cerca de 700 produtos fora, entre aviões, celulose, suco de laranja, petróleo e minério de ferro. Em valores de 2024, isso equivale a US$ 18 bilhões de um total exportado de US$ 40,4 bilhões.
Em primeira análise, assim ficaram os regimes: produtos sujeitos à ordem executiva de 30/07 com tarifa adicional de 10% mais 40% somam US$ 14,5 bilhões, 35,9% do total; produtos excluídos expressamente, com tarifa adicional de até 10%, somam US$ 18 bilhões, 44,6%; e produtos sujeitos a tarifas específicas globais da Seção 232, com 25% para autopeças e automóveis e 50% para aço, alumínio e cobre, somam US$ 7,9 bilhões, 19,5%.
Sobre esse quadro incide agora a nova tarifa de 25% da Seção 301. E há mais. O Brasil foi incluído em investigação separada da Seção 301 sobre trabalho forçado nas cadeias de suprimentos, com conclusão prevista para 24 de julho. Essa apuração poderia resultar em tarifa adicional de 12,5%, elevando a carga total para 37,5%. É o cenário que o MDIC chama internamente de tarifaço duplo.
Plano de contingência: o que Alckmin promete entregar até terça
O vice-presidente e ministro do MDIC, Geraldo Alckmin, afirmou que o plano de contingência do governo para apoiar setores e empresas mais atingidos pelas tarifas dos EUA deve ser anunciado pelo presidente Lula até a próxima terça-feira. A lógica não será setorial genérica, mas por grau de dependência.
O plano vai categorizar as empresas de acordo com os envios e priorizar companhias cuja maior parte da produção é voltada para exportação aos EUA. Alckmin deu o exemplo do pescado: a tilápia tem consumo interno maior, enquanto o atum é majoritariamente exportado. Dentro do mesmo setor há exposição completamente diferente.
Nos bastidores, o governo levou a Washington um mapa de compensações. A estratégia envolve nova reunião com o representante comercial americano e oferta de cortes de alíquotas em setores dominados pelos EUA, como máquinas, equipamentos de saúde e tecnologia da informação. A proposta tenta mostrar boa-fé negociadora e reduzir o argumento americano de barreiras não tarifárias. O governo tem tido reuniões semanais com autoridades americanas sobre o tema, segundo o MDIC, e tenta construir uma pauta que inclua data centers, big techs e minerais estratégicos.
Do ponto de vista fiscal, a ordem é cautela. Se confirmado o tarifaço, o governo avaliará os setores afetados e atuará com compromisso fiscal, evitando que os brasileiros sejam prejudicados, disse o ministro da Fazenda em exercício Dario Durigan. A mensagem foi desenhada para o mercado: não haverá pacote de socorro amplo sem contrapartida e sem cálculo de impacto nas contas públicas. O Tesouro teme repetir o efeito de 2025, quando medidas de apoio ao aço e ao alumínio pressionaram subsídios.
Reciprocidade e OMC: a outra frente de Lula
No campo jurídico, Lula acionou duas alavancas. A primeira é interna. O presidente afirmou que o Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso, e retomará o tema na OMC.
A Lei de Reciprocidade Econômica, regulamentada em 2025, permite ao Brasil impor sobretaxas equivalentes a países que adotem medidas unilaterais contra exportações brasileiras. O governo repudia a decisão americana relativa à imposição de tarifas de 25% com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, segundo nota oficial do Planalto. A segunda alavanca é externa, no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio, onde o Brasil já questionou tarifas de aço no passado.
Lula tem dito que não tem pressa em adotar reciprocidade imediata, tentando preservar espaço de negociação direta com Trump. A avaliação do Itamaraty é que uma retaliação automática alimentaria a narrativa americana e prejudicaria justamente os setores que importam máquinas e insumos dos EUA. A Camex, que reúne MDIC, Fazenda, Agricultura e Itamaraty, foi acionada para calibrar qualquer resposta.
Quem paga a conta no Brasil
O impacto econômico se desdobra em três canais.
Para empresas exportadoras, o efeito é de compressão de margem e redirecionamento de mercado. Quem exporta açúcar, máquinas agrícolas e papel para os EUA terá de decidir entre absorver 25% de tarifa, repassar preço ou buscar Europa e Oriente Médio. O MDIC atualizou 211 códigos NCM da Tarifa Externa Comum recentemente, incluindo 101 e excluindo 75, o que mostra o esforço para mapear produto a produto onde o Brasil ainda tem competitividade mesmo tarifado.
Para investidores, o tarifaço muda a conta do câmbio e da Bolsa. Setores isentos, como café, carne bovina e aeroespacial, tendem a ter prêmio relativo. Setores expostos, como siderurgia e bens de capital, ficam mais voláteis. O dólar tende a refletir o risco de menor entrada de divisas. Em 2024, os EUA compraram US$ 40,4 bilhões do Brasil. Se 35,9% desse fluxo for sobretaxado em 50% e outra parcela em 25%, o preço médio de exportação cai. O Banco Central monitora o repasse cambial para inflação, especialmente em cadeias que dependem de máquinas importadas que podem ficar mais caras se o Brasil retaliar.
Para consumidores brasileiros, o efeito direto é menor no curto prazo, porque as tarifas são sobre exportações, não importações. O risco está na segunda ordem. Se o governo cortar Imposto de Importação de produtos americanos como gesto de compensação, bens de capital e equipamentos de saúde podem ficar mais baratos, ajudando indústria e hospitais. Se optar por reciprocidade e elevar tarifas sobre importados dos EUA, o custo de tecnologia da informação e de autopeças pode subir.
O que observar agora
O governo definiu uma sequência de próximos passos para conter danos. Primeiro, fechar até terça-feira o plano de contingência com linhas de crédito, postergação de tributos e apoio à diversificação de mercados via ApexBrasil. Segundo, manter a negociação técnica em Washington, com oferta de redução de alíquotas para produtos americanos como moeda de troca. Terceiro, preparar o decreto de reciprocidade sem publicá-lo, mantendo-o como instrumento de dissuasão. Quarto, protocolar queixa na OMC.
O calendário é apertado. A nova tarifa entra em vigor em 22 de julho. A investigação sobre trabalho forçado termina em 24 de julho e pode adicionar 12,5%. A Casa Branca já sinalizou que a medida é a primeira de uma nova estratégia que poderá atingir dezenas de países. O Brasil, por ter sido incluído no primeiro lote, virou caso-teste.
A Gazeta Mercantil apurou que a equipe econômica avalia o tarifaço não como episódio isolado, mas como mudança estrutural de regime comercial americano. Desde que a Suprema Corte derrubou o eixo central do sistema tarifário de Trump no início do ano, o governo americano migrou para a Seção 301, que exige investigação e justificativa de prática desleal, tornando as tarifas juridicamente mais robustas e politicamente mais difíceis de reverter.
Para o Brasil, a melhor defesa continua sendo a diversificação. Em 2024, 64,1% das exportações para os EUA seguiram concorrendo em condições semelhantes às de outras origens, segundo o MDIC. Preservar os 44,6% isentos e reduzir a exposição dos 35,9% sobretaxados será o trabalho da Camex nas próximas duas semanas. O custo de errar é perder mercado que levou décadas para ser construído.









