O Brasil tornou-se o maior importador de automóveis da China no acumulado de janeiro a maio de 2026, com compras de US$ 5,2 bilhões, alta de 146,9% sobre o mesmo período de 2025. Do total, US$ 4,5 bilhões corresponderam a veículos eletrificados, entre elétricos puros, híbridos plug-in e híbridos convencionais. O movimento colocou o país pela primeira vez no topo do ranking global de destinos das exportações automotivas chinesas, à frente de mercados tradicionais na Europa e na Ásia.
Segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, que consolida dados oficiais de comércio exterior, as importações de veículos eletrificados chineses mantiveram ritmo acelerado no primeiro semestre completo. Somaram US$ 5,35 bilhões de janeiro a junho, com US$ 5,3 bilhões apenas em eletrificados, sendo US$ 2,79 bilhões em híbridos plug-in, com alta de 100% na comparação anual, e cerca de US$ 2 bilhões em elétricos puros, praticamente quadruplicando o valor.
O avanço responde por aproximadamente 15% de tudo que o Brasil importou da China no período e por 88% de todos os veículos eletrificados importados pelo país. O comércio total entre Brasil e China chegou a US$ 96,9 bilhões no primeiro semestre, com exportações brasileiras de US$ 58,3 bilhões, recorde histórico para o intervalo, e importações de US$ 38,5 bilhões, também recorde, conforme relatório divulgado pela entidade em julho.
Antecipação antes da tarifa de 35% infla importações e estoques no Brasil
A aceleração das compras está diretamente ligada ao cronograma de recomposição do Imposto de Importação para veículos eletrificados. De acordo com o Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior, a alíquota para veículos montados e semidesmontados sobe para 35% a partir de julho de 2026 para todos os tipos, elétricos puros, híbridos plug-in e híbridos convencionais. Para veículos desmontados, o salto para 35% ocorre em janeiro de 2027, antecipado em 18 meses em relação ao calendário original que previa julho de 2028.
O cronograma, definido em novembro de 2023, partiu de 10% para elétricos puros em janeiro de 2024 e avançou gradualmente para 18% e 25% ao longo de 2024 e 2025. Em julho de 2025 a alíquota passou a 30% e agora chega ao teto de 35%. Para híbridos, a partida foi de 15% em janeiro de 2024. A elevação busca equilibrar o incentivo à produção local com a abertura comercial.
Para mitigar impactos sobre projetos industriais em instalação, o Gecex aprovou cota adicional de US$ 463 milhões com alíquota zero para veículos desmontados e semidesmontados, válida por seis meses a partir de julho. O valor repete o patamar que vigorou até janeiro deste ano e contempla regimes CKD e SKD que permitem montagem final no Brasil.
A corrida para embarcar antes do aumento explica o salto. Conforme dados da Associação de Carros de Passageiros da China, o Brasil importou 40,9 mil carros elétricos e híbridos chineses apenas em abril, aumento de 13 vezes sobre o mesmo mês de 2024, ultrapassando a Bélgica no ranking de eletrificados e tornando-se o segundo maior importador de todos os tipos de carros chineses, atrás apenas da Rússia, antes de assumir a liderança em maio.
Vendas internas de eletrificados crescem 125% e atingem 215 mil unidades
O reflexo no mercado doméstico é expressivo. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico, as vendas de veículos leves eletrificados atingiram 215.023 unidades no primeiro semestre de 2026, alta de 125% sobre as 95.493 unidades do mesmo período de 2025. Somente em junho foram 47.579 emplacamentos, recorde mensal histórico, com média de 35.837 unidades por mês no semestre.
Com isso, de cada 100 veículos leves vendidos no Brasil entre janeiro e junho, 16 foram eletrificados, considerando elétricos puros, híbridos plug-in e híbridos com tração elétrica. Em junho, a participação chegou a 18%. A entidade atribui o crescimento à ampliação da oferta, que passou de 294 para 350 modelos disponíveis em 12 meses, à expansão da rede de recarga, que superou 25 mil eletropostos, e à maior aceitação da tecnologia.
O mercado total de veículos leves também cresceu, mas em ritmo menor. As vendas totais avançaram 19,4% no primeiro semestre, segundo dados setoriais, o que indica que os eletrificados crescem mais de seis vezes mais rápido que a média da indústria. O avanço ocorre mesmo com juros elevados e com o aumento gradual do imposto de importação.
A oferta chinesa é dominante nesse segmento. De acordo com o Conselho Empresarial Brasil-China, 88% dos eletrificados importados vieram da China. Marcas como BYD, GWM e GAC ampliaram embarques e anunciaram investimentos locais. A GAC anunciou produção no Brasil a partir de 2027 em Goiás, com plano de R$ 6 bilhões em cinco anos, enquanto BYD e GWM já iniciaram montagem no país em regime SKD e CKD.
Locadoras enfrentam risco de depreciação maior com entrada de chineses
A entrada acelerada de veículos chineses, sobretudo modelos de entrada e SUVs médios com preços competitivos, acendeu alerta para o setor de locação. Conforme análise do Bradesco BBI, o apetite das montadoras chinesas pelo mercado brasileiro segue elevado, enquanto o forte fluxo de importações antes do aumento tarifário eleva o estoque disponível e pode intensificar a competição comercial no segundo semestre.
Para o banco, estoques locais elevados e novos lançamentos representam risco adicional para as despesas de depreciação de Localiza (RENT3) e Movida (MOVI3), especialmente em segmentos mais expostos à concorrência de eletrificados e SUVs chineses. O mecanismo é direto: preços mais baixos no mercado primário reduzem o valor de revenda no mercado de seminovos, onde as locadoras realizam parte relevante da receita ao desmobilizar frotas.
O Goldman Sachs estima que, no caso da Localiza, para cada 1% de variação nos preços dos carros novos no Brasil, há impacto de R$ 570 milhões no valor contábil da frota. Considerando ciclo de vida médio de 18 meses, isso implicaria impacto negativo no lucro líquido anual de cerca de R$ 300 milhões, equivalente a 6% do lucro esperado para 2027. Em 2024, a companhia já havia registrado ajuste de impairment de R$ 1,4 bilhão, cerca de 2,5% do valor da frota, após revisão de estimativas de valor de mercado e efeitos da tragédia no Rio Grande do Sul.
Em 2023, durante o programa de descontos para carros populares, a Localiza havia estimado perdas entre R$ 575 milhões e R$ 650 milhões com a reprecificação da frota. O histórico mostra sensibilidade elevada a movimentos abruptos de preços, com perdas contábeis de 4,6% da frota em 2008 após corte de IPI e de 7,1% em 2012 em episódio similar, segundo levantamentos setoriais.
Efeitos podem ser mitigados por SUVs, tarifas e poder de barganha
Apesar do risco, analistas avaliam que os efeitos podem ser administráveis. Segundo o Bradesco BBI, há fatores mitigadores mapeados. O primeiro é o foco das locadoras em SUVs, segmento historicamente mais resiliente à depreciação e menos exposto à entrada inicial de modelos chineses de entrada. A Movida, por exemplo, tem 66% da frota em hatches, contra 47% da Localiza, o que altera a exposição relativa.
O segundo fator é a própria elevação das tarifas de importação para 35% em julho, que limita políticas de descontos muito agressivas por parte das montadoras chinesas e reduz a margem para compressão adicional de preços. O terceiro é o poder de compra das locadoras, que garante condições comerciais mais favoráveis junto às montadoras e preserva parte do poder de barganha do setor, com descontos de frota e acordos de recompra.
Além disso, a migração gradual para produção local tende a reduzir a volatilidade cambial e logística. De acordo com projeções do ex-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, as marcas chinesas podem responder por cerca de 35% do mercado brasileiro até 2035, ante aproximadamente 10% em 2024 e 20% estimado para 2030. Mesmo com produção local, a competitividade deve se manter sustentada por ganhos de escala, integração produtiva e acesso a componentes de baixo custo, especialmente em eletrificados.
O mercado também observa o comportamento do consumidor. A preferência ainda se concentra em híbridos plug-in e elétricos puros, com maior valor agregado, enquanto locadoras operam majoritariamente com veículos a combustão flex. A transição da frota locada para eletrificados ocorre de forma mais lenta, por questões de custo de aquisição, infraestrutura de recarga e valor residual ainda incerto.
Próximos passos incluem produção local e definição de cotas no segundo semestre
O segundo semestre de 2026 será decisivo para dimensionar o impacto efetivo sobre as locadoras. Com a tarifa de 35% em vigor desde o início de julho, as montadoras chinesas devem ajustar estratégia comercial, combinando estoques já internalizados, produção local em regime CKD e SKD dentro da cota de US$ 463 milhões e novos lançamentos.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços monitora o equilíbrio entre importações e produção local, enquanto a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores pressiona por antecipação adicional do cronograma para modelos desmontados, já atendida parcialmente com a antecipação para janeiro de 2027.
Para as locadoras, o ponto de atenção é a velocidade de repasse de preços ao mercado de seminovos e a disciplina na gestão de frota. A divulgação dos balanços do segundo trimestre, com detalhamento de depreciação e preço médio de venda de seminovos, deve trazer sinais mais claros sobre a extensão do ajuste. A Associação Brasileira do Veículo Elétrico divulga mensalmente os emplacamentos, e o Conselho Empresarial Brasil-China atualiza trimestralmente os fluxos bilaterais, permitindo acompanhamento da evolução do market share chinês.
No médio prazo, a expansão da rede de recarga, a redução do custo de baterias e a consolidação de produção local de eletrificados tendem a sustentar a participação chinesa, transformando o choque pontual de oferta em mudança estrutural do mercado automotivo brasileiro.










