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Carros elétricos no Brasil avançam 268% e batem recorde de vendas em julho

Veículos 100% elétricos chegaram a 25.782 emplacamentos no mês, enquanto eletrificados alcançaram participação recorde de 21,1% do mercado brasileiro.

por Daniel Wicker
13/08/2026 às 19h10
em Veículos
Carros Elétricos No Brasil Avançam 268% E Batem Recorde De Vendas Em Julho - Gazeta Mercantil - Veículos

Os carros elétricos no Brasil entraram em uma nova escala em 2026. O país emplacou 25.782 veículos leves 100% elétricos em julho, avanço de 268% sobre as 7.010 unidades registradas no mesmo mês de 2025. Foi o maior volume mensal da série acompanhada pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico e colocou os modelos movidos exclusivamente a bateria próximos de representar um em cada dez veículos leves vendidos no mercado brasileiro.

A expansão dos elétricos ocorre dentro de uma transformação mais ampla. Somados os veículos 100% elétricos, híbridos plug-in, híbridos convencionais e híbridos flex, foram 56.074 eletrificados emplacados em julho. O segmento alcançou 21,1% das vendas nacionais de veículos leves, ante 8,3% um ano antes. Em outras palavras, aproximadamente dois de cada dez automóveis e comerciais leves vendidos no país no mês já possuíam alguma forma efetiva de tração elétrica.

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O avanço não ficou restrito a um mês excepcional. Entre janeiro e julho, foram vendidos 271.091 eletrificados, volume que já supera em 21% todas as 223.896 unidades comercializadas durante 2025. A mudança combina redução dos preços relativos dos elétricos, crescimento da oferta de modelos, expansão da infraestrutura de recarga e início de uma fase industrial em que parte dos veículos antes importados passa a ser produzida no país.

A composição das vendas também mudou. Os veículos que dependem de recarga externa — elétricos puros e híbridos plug-in — responderam por 83% dos eletrificados vendidos em julho. Os modelos 100% elétricos lideraram, com 25.782 unidades, seguidos pelos 20.500 híbridos plug-in. Os híbridos sem tomada ficaram com 9.792 emplacamentos.

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Elétrico puro deixa de ocupar apenas nichos de mercado

A velocidade do crescimento dos veículos exclusivamente a bateria é o principal dado novo de 2026. Em julho do ano passado, os BEV, sigla internacional para veículos elétricos a bateria, somavam pouco mais de sete mil unidades mensais. Doze meses depois, esse número estava 3,7 vezes maior.

A participação calculada sobre o mercado total de veículos leves ficou próxima de 10% em julho. O resultado é significativo porque, até poucos anos atrás, a discussão sobre eletrificação no Brasil era dominada por híbridos de preço elevado e modelos elétricos concentrados em consumidores de renda mais alta. A entrada de automóveis menores e de faixas de preço mais próximas às dos veículos convencionais alterou essa dinâmica.

A Empresa de Pesquisa Energética identificou uma redução de aproximadamente 66% no preço, em valores reais, do modelo elétrico mais vendido entre 2021 e 2025. No levantamento da estatal, a diferença de preço entre o BEV mais vendido e o veículo a combustão mais vendido havia caído para apenas 3% em 2025, embora a própria EPE ressalte que os dois automóveis pertencem a categorias e públicos diferentes.

Essa aproximação de preços modifica o cálculo do consumidor. Autonomia, disponibilidade de recarga e valor de revenda continuam relevantes, mas o custo inicial deixa gradualmente de funcionar como barreira absoluta para determinadas faixas do mercado. A queda ocorreu ao mesmo tempo em que fabricantes aumentaram a quantidade de produtos oferecidos no país.

No primeiro semestre de 2026, havia 350 modelos eletrificados disponíveis no mercado brasileiro, contra 294 no mesmo intervalo de 2025. Entre os elétricos puros, a oferta aumentou de 152 para 192 modelos, expansão de 26%.

Rede de recarga passa de 25 mil pontos

O aumento da frota está sendo acompanhado por uma expansão da infraestrutura, ainda que a distribuição de carregadores permaneça desigual entre cidades e regiões. Em junho, o Brasil tinha pelo menos 25.429 pontos públicos e semipúblicos de recarga, segundo levantamento da ABVE com a Tupi Mobilidade. Eram 21.061 em fevereiro, o que representa crescimento de 21% em quatro meses.

A qualidade dessa rede também começa a ganhar peso. Carregadores rápidos em corrente contínua já representam 34% dos equipamentos contabilizados. Eles permitem maior rotatividade do ponto de recarga e são especialmente importantes em rodovias, corredores intermunicipais e operações profissionais, nas quais permanecer horas conectado a uma tomada reduz a utilidade econômica do automóvel.

O problema deixou de ser apenas quantos carregadores existem. A EPE chama atenção para diferenças importantes de densidade e potência disponível entre os principais centros consumidores. A expansão quantitativa precisa ser acompanhada por maior oferta de carregamento rápido e por distribuição capaz de sustentar deslocamentos fora das grandes capitais.

Esse descompasso ajuda a explicar a força dos híbridos plug-in. Eles podem rodar parte dos trajetos apenas com eletricidade, mas mantêm um motor a combustão para percursos maiores. Em julho, os PHEV alcançaram 20.500 unidades, crescimento de 137% sobre igual mês do ano anterior. O mercado brasileiro, portanto, avança simultaneamente por duas rotas de eletrificação, sem uma substituição imediata de uma tecnologia pela outra.

Importação mais cara não interrompe avanço das vendas

O recorde de julho ocorreu em uma fase de endurecimento da política tarifária brasileira para veículos eletrificados. O governo retomou em 2024 a cobrança gradual do Imposto de Importação, depois de anos de isenção, com cronograma que leva as principais categorias ao patamar de 35% em 2026. O objetivo declarado é combinar a expansão da mobilidade de menor emissão com a formação de uma cadeia industrial dentro do país.

Até agora, o aumento da proteção tarifária não interrompeu o crescimento do mercado. Julho registrou justamente a maior participação dos eletrificados mesmo após o avanço das alíquotas. Isso sugere que a demanda passou a depender menos exclusivamente do benefício fiscal concedido aos importados e mais de fatores como preço dos fabricantes, variedade de modelos, competição e produção local.

A questão industrial tornou-se central porque a primeira fase da expansão brasileira foi impulsionada principalmente por automóveis vindos da China. A EPE registra que fabricantes chineses superaram 60% das vendas de eletrificados no país em 2025 e que o avanço das importações levou o governo a buscar equilíbrio entre disponibilidade de veículos e nacionalização da cadeia produtiva.

O valor total das importações brasileiras de automóveis também cresceu rapidamente. Segundo a EPE, com base em dados do comércio exterior, passou de US$ 3,6 bilhões em 2022 para US$ 7,4 bilhões em 2025, fazendo dos automóveis o quarto principal item da pauta de importações naquele ano.

Produção brasileira começa a mudar a competição

A resposta industrial começou a aparecer em 2025 e ganhou escala em 2026. A EPE registra o início de operações locais ligadas à produção de veículos elétricos e híbridos em Camaçari, na Bahia, e Iracemápolis, em São Paulo. O movimento transforma uma disputa antes baseada majoritariamente em automóveis importados em uma competição que passa a envolver fábricas, fornecedores, empregos e conteúdo nacional.

A BYD, por exemplo, iniciou a produção em Camaçari e entrou em 2026 com aproximadamente 18 mil veículos já fabricados desde a inauguração da operação. A companhia informou em janeiro que a etapa seguinte envolve expansão da produção e entrada em funcionamento de estruturas de soldagem, estamparia e pintura, além da incorporação de fornecedores brasileiros.

A nacionalização ganha importância adicional com o fim gradual da vantagem tarifária dos carros trazidos prontos do exterior. Fabricar no Brasil reduz parte da exposição ao imposto de importação e pode diminuir custos logísticos, mas exige escala suficiente para compensar investimentos industriais e desenvolvimento da cadeia de componentes.

Esse processo está conectado ao programa Mobilidade Verde e Inovação, o Mover. O governo reservou R$ 3,9 bilhões em créditos financeiros para 2026 e prevê mais de R$ 19 bilhões de incentivos entre 2024 e 2028, condicionados a investimentos em descarbonização, eficiência energética, inovação e outros requisitos industriais. O governo federal calcula que os anúncios de investimentos do setor automotivo e de autopeças associados ao novo ciclo industrial somam R$ 190 bilhões.

Brasil desenvolve transição diferente da Europa e da China

A eletrificação brasileira não significa abandono imediato dos motores flex. A matriz automotiva do país possui uma particularidade relevante: o etanol já oferece uma rota de redução das emissões que não existe na mesma escala nos principais mercados desenvolvidos.

Isso explica por que fabricantes também investem em híbridos flex, combinando motor elétrico e combustão abastecida com etanol ou gasolina. Em julho, essa tecnologia respondeu por 5.624 unidades, crescimento de 448% em relação ao mesmo mês de 2025. Os híbridos flex representaram 10% dos eletrificados vendidos no período.

A EPE trabalha com uma transição em que elétricos, híbridos e biocombustíveis coexistem por um período prolongado. O estudo de demanda energética para 2026 a 2035 considera que a renovação da frota brasileira é lenta e que os veículos flex continuarão predominantes, embora a participação das tecnologias eletrificadas avance gradualmente.

Mesmo nesse cenário, o consumo de eletricidade no transporte leve ganha escala. A estatal projeta que a demanda necessária para abastecer veículos 100% elétricos e híbridos plug-in poderá chegar a 3,4 TWh em 2035. Ao mesmo tempo, estima expansão do consumo de etanol hidratado, refletindo uma transição energética com mais de uma tecnologia.

Julho estabelece novo patamar para o mercado

A principal mudança de 2026 está na velocidade. No primeiro semestre, os eletrificados já haviam alcançado 215.023 unidades, alta de 125% sobre o mesmo período de 2025. Julho acrescentou mais 56.074 veículos e elevou o acumulado para 271.091, superando em apenas sete meses todo o resultado do ano anterior.

São Paulo continua como o maior mercado estadual, com 14.902 eletrificados vendidos em julho. Minas Gerais apareceu em seguida, com 4.301, à frente do Distrito Federal, com 3.721, do Paraná, com 3.258, e do Rio Grande do Sul, com 3.235. O crescimento, porém, já não está limitado ao Sudeste: o Nordeste representou mais de um quinto das vendas regionais registradas em julho.

A ABVE calcula que, mantida a média atual, o mercado brasileiro poderá superar 450 mil veículos eletrificados em 2026. Trata-se de uma projeção, não de resultado contratado, e dependerá do ritmo dos próximos cinco meses. Ainda assim, o acumulado até julho já coloca o setor acima de todos os 12 meses de 2025.

O próximo teste será verificar se os carros 100% elétricos conseguem sustentar a aceleração depois da elevação das tarifas de importação e à medida que as fábricas brasileiras assumam parcela maior da oferta. Com 25.782 BEVs vendidos em julho, mais de 25 mil pontos públicos e semipúblicos de recarga e produção local em expansão, a eletrificação deixa de ser apenas uma promessa de longo prazo e passa a alterar, em escala mensurável, a estrutura do mercado automobilístico brasileiro.

Fontes:

  • Associação Brasileira do Veículo Elétrico — dados de emplacamentos de julho de 2026 — 11 de agosto de 2026 — https://abve.org.br/eletrificados-conquistam-21-de-participacao-de-mercado-em-julho-e-devem-passar-de-450-mil-este-ano/
  • Associação Brasileira do Veículo Elétrico — balanço do primeiro semestre e infraestrutura de recarga — 6 de julho de 2026 — https://abve.org.br/de-cada-100-veiculos-leves-vendidos-no-brasil-no-primeiro-semestre-16-foram-eletrificados/
  • Empresa de Pesquisa Energética — Nota Técnica “Demanda de Energia dos Veículos Leves: 2026-2035” — 9 de março de 2026 — https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-331/topico-827/NT-EPE-DPG-SDB-2026-01_Demanda%20de%20energia%20VL_2026-2035.pdf
  • Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover) — https://www.gov.br/mdic/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas-frequentes-faq/secretaria-de-desenvolvimento-industrial-inovacao-comercio-e-servicos/o-que-e-o-programa
  • Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — Nota Técnica sobre política tarifária para veículos eletrificados e CKD/SKD — junho de 2026 — https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/camex/outros-documentos/notas/deferimentos/238a-reuniao-ordinaria-do-comite-executivo-de-gestao-gecex/extrato-publico-da-nota-tecnica-sei-mdic-no-1548_2026-ckd_skd.pdf/@@download/file
  • BYD Brasil — atualização sobre produção no complexo industrial de Camaçari — 8 de janeiro de 2026 — https://www.byd.com/br/noticias-byd-brasil/byd-retoma-producao-em-camacari-e-chega-a-quase-20-mil-veiculos-

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