A Vale (VALE3) encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 6,847 bilhões, queda de 43,3% em relação ao mesmo período de 2025, apesar do crescimento da receita e da melhora operacional em áreas importantes do portfólio. Divulgado na noite de quinta-feira (30), no Rio de Janeiro, o balanço mostrou receita líquida de R$ 53,012 bilhões, alta anual de 6,4%, e Ebitda ajustado de R$ 18,516 bilhões. Ao mesmo tempo, a mineradora anunciou US$ 1,7 bilhão em proventos e um programa de recompra de até 100 milhões de ações, mas elevou suas projeções de custos para o minério de ferro em 2026.
O resultado expôs duas forças que deverão orientar a avaliação da Vale nos próximos meses. De um lado, a companhia ampliou a produção e as vendas, obteve preços realizados mais elevados em produtos relevantes e reforçou a contribuição das operações de cobre e níquel. De outro, os custos do minério de ferro permaneceram próximos dos níveis mais elevados dos últimos anos, reduzindo parte do benefício proporcionado pelo desempenho comercial.
A receita cresceu mesmo diante de uma rentabilidade inferior à do segundo trimestre do ano passado. O lucro operacional recuou de R$ 11,349 bilhões para R$ 10,836 bilhões, enquanto o Ebitda ajustado caiu 3,3%, ante R$ 19,1 bilhões registrados um ano antes.
A diferença entre o avanço do faturamento e a redução do lucro evidencia que o aumento das vendas não foi integralmente convertido em resultado. Para os acionistas, o principal debate deixa de ser apenas a capacidade da Vale de produzir mais e passa a incluir o custo necessário para colocar cada tonelada no mercado.
Produção de minério alcança melhor segundo trimestre desde 2018
A Vale produziu 84,3 milhões de toneladas de minério de ferro entre abril e junho, crescimento de 1% na comparação anual. Foi o maior volume obtido pela companhia em um segundo trimestre desde 2018.
O desempenho foi sustentado pelo recorde trimestral de 23,4 milhões de toneladas no S11D, no Pará, e pelos volumes adicionais dos projetos Capanema e Vargem Grande 1. A expansão no Sistema Sudeste também contou com maior produtividade em Alegria e com a retomada das operações de Água Limpa.
As vendas de minério de ferro avançaram 3%, para 79,7 milhões de toneladas. Além da produção maior, a companhia reduziu estoques formados em períodos anteriores, ampliando o volume comercializado durante o trimestre.
O preço médio realizado dos finos de minério de ferro ficou em US$ 95 por tonelada. A cotação foi ligeiramente inferior à do primeiro trimestre, mas permaneceu em nível capaz de sustentar geração de caixa, especialmente diante do aumento das vendas.
A produção de pelotas, por outro lado, caiu 7%, para 7,3 milhões de toneladas. O recuo refletiu a suspensão temporária das unidades de Omã durante parte do trimestre, em meio ao agravamento do conflito no Oriente Médio e às restrições logísticas na região.
A Vale redirecionou parte do pellet feed que seria enviado a Omã para as plantas de Tubarão e para vendas como finos. As operações nas unidades omanitas começaram a ser parcialmente retomadas no fim de junho.
Custo do minério sobe e leva Vale a revisar projeções
O principal ponto de atenção do balanço foi a revisão das estimativas de custo do minério de ferro. A Vale elevou a faixa esperada para o custo caixa C1 em 2026 de US$ 20 a US$ 21,50 por tonelada para US$ 22,50 a US$ 23,50.
O indicador C1 reúne os custos diretamente ligados à produção do minério antes de despesas como frete, investimentos de manutenção e efeitos relacionados à qualidade do produto. Quanto maior esse valor, menor tende a ser a margem obtida pela mineradora em cada tonelada vendida, especialmente quando os preços internacionais recuam.
A projeção de custo all-in também foi elevada. A faixa passou de US$ 52 a US$ 56 para US$ 58 a US$ 62 por tonelada. Essa métrica oferece uma visão mais ampla do custo total, ao incorporar itens como frete marítimo, investimentos de manutenção e prêmios ou descontos relacionados ao portfólio.
As novas estimativas consideram câmbio médio de R$ 5,13 por dólar e preço do petróleo Brent de US$ 86 por barril. As duas variáveis têm influência direta sobre as despesas da Vale, que recebe grande parte de suas receitas em dólar, mas mantém parcela importante dos custos no Brasil e utiliza combustíveis e transporte marítimo em larga escala.
A revisão representa uma mudança relevante em relação ao plano apresentado no início do ano. No relatório anual de 2025, a companhia projetava alcançar custo all-in de US$ 52 a US$ 56 por tonelada em 2026, apoiada em ganhos de eficiência, aumento de produção e maior flexibilidade do portfólio.
A nova faixa mostra que parte desses ganhos não avançou na velocidade esperada ou foi absorvida por pressões externas e operacionais. A capacidade de reduzir novamente o custo unitário será determinante para proteger as margens caso o minério de ferro perca força no mercado internacional.
Metais básicos compensam pressão no minério de ferro
A Vale Metais Básicos ganhou relevância no resultado e funcionou como contrapeso ao desempenho mais pressionado do minério. A produção de cobre atingiu 98,4 mil toneladas, crescimento de 6% sobre o segundo trimestre de 2025 e o melhor resultado para o período desde 2017.
O Complexo de Salobo produziu 52,4 mil toneladas, recorde para um segundo trimestre. Sossego alcançou 25,9 mil toneladas, beneficiada pelo desempenho da planta antes da reforma programada do moinho SAG, prevista para começar em agosto.
As vendas de cobre pagável avançaram 9,7%, para 97,6 mil toneladas. O preço médio realizado atingiu US$ 14.062 por tonelada, favorecido pela alta das cotações na Bolsa de Metais de Londres, por menores descontos comerciais e por ajustes positivos em vendas realizadas anteriormente com preços provisórios.
A mineradora elevou o intervalo de produção de cobre projetado para 2026. A nova estimativa passou de 350 mil a 380 mil toneladas para 360 mil a 380 mil toneladas, preservando o teto e aumentando o limite inferior.
O níquel apresentou movimento semelhante. A produção aumentou 4%, para 42 mil toneladas, impulsionada principalmente por Onça Puma e pela produção recorde da refinaria de Long Harbour.
As vendas de níquel chegaram a 44,4 mil toneladas, volume 7,2% superior ao do mesmo trimestre de 2025. A diferença em relação à produção foi atendida pela redução de estoques durante as manutenções programadas nas refinarias.
O preço médio realizado do níquel ficou em US$ 18.061 por tonelada. Diante do desempenho operacional, a Vale elevou a projeção de produção anual de 175 mil a 200 mil toneladas para 185 mil a 200 mil toneladas.
Cobre e níquel reduzem dependência histórica do minério
O avanço dos metais básicos vai além do efeito imediato sobre o balanço. A Vale procura reduzir a dependência histórica do minério de ferro e ampliar sua exposição a minerais demandados pela eletrificação, pelas redes de energia e pela transição para tecnologias de menor emissão de carbono.
A companhia estima que a Vale Metais Básicos poderá representar entre 30% e 35% do Ebitda consolidado a partir de 2035, caso os projetos em desenvolvimento avancem conforme as premissas de longo prazo.
No cobre, o plano prevê elevar a produção para aproximadamente 700 mil toneladas anuais até 2035. A estratégia está concentrada principalmente na região de Carajás, onde a Vale já dispõe de minas, infraestrutura ferroviária e acesso aos portos.
A diversificação melhora a capacidade de absorver ciclos menos favoráveis do minério de ferro. Quando cobre e níquel apresentam preços elevados e custos competitivos, a contribuição desses ativos pode compensar parcialmente a redução das margens do negócio principal.
Esse movimento, contudo, exige investimentos elevados e execução operacional. Projetos minerais levam anos para obter licenças, entrar em construção e atingir plena capacidade. A Vale ainda permanecerá fortemente exposta ao minério de ferro durante boa parte desse processo.
Dividendos e recompra reforçam retorno ao acionista
A Vale anunciou US$ 1,7 bilhão em dividendos e juros sobre capital próprio referentes ao desempenho do primeiro semestre. O montante acrescenta retorno direto ao acionista em um trimestre no qual a queda do lucro líquido poderia ter reduzido a expectativa de distribuição.
A companhia também aprovou um novo programa de recompra de até 100 milhões de ações. A operação permite à Vale adquirir papéis no mercado e mantê-los em tesouraria ou cancelá-los posteriormente.
Quando as ações são canceladas, a quantidade de papéis em circulação diminui. Isso amplia, proporcionalmente, a participação dos acionistas remanescentes nos resultados e nos dividendos futuros, desde que as demais condições permaneçam inalteradas.
A recompra também sinaliza que a administração considera possível conciliar investimentos, controle da dívida e remuneração aos investidores. A efetiva criação de valor, porém, dependerá do preço pago pelas ações e da capacidade da companhia de preservar caixa para suas obrigações e projetos.
O retorno ao acionista ganhou espaço depois da redução de riscos no balanço e da consolidação da política de remuneração da Vale. Em 2025, a mineradora aprovou US$ 4,3 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio, além de manter programas de recompra.
Para 2026, a combinação de proventos e recompra poderá ser um dos principais elementos de sustentação da ação, principalmente em períodos nos quais a valorização das commodities não oferecer catalisadores mais fortes.
Dívida e caixa limitam espaço para pagamentos extraordinários
A capacidade de distribuir recursos não depende apenas do lucro contábil. A Vale considera a geração de caixa, os investimentos, a dívida líquida expandida e os compromissos relacionados às reparações de Brumadinho e da Samarco.
Ao final do primeiro trimestre, a dívida líquida expandida estava em US$ 17,8 bilhões. O valor permanecia dentro da faixa de US$ 10 bilhões a US$ 20 bilhões adotada pela companhia como referência para a estrutura de capital.
Uma eventual redução da dívida ao longo do segundo semestre poderá abrir espaço para remunerações adicionais. Em sentido contrário, investimentos mais elevados, aumento dos custos ou queda dos preços do minério podem levar a empresa a preservar recursos.
A revisão do custo all-in torna essa equação mais sensível. Com uma despesa de até US$ 62 por tonelada e preço realizado próximo de US$ 95, a operação continua gerando margem, mas dispõe de uma proteção menor contra oscilações negativas do mercado.
O investidor deverá acompanhar não apenas o preço do minério, mas também o ritmo de redução do custo C1, o frete marítimo, o câmbio e a composição das vendas. Alterações nesses elementos podem produzir efeitos relevantes sobre o caixa mesmo quando o volume de produção permanece elevado.
O que o resultado muda para as ações da Vale
O balanço do segundo trimestre não altera a natureza cíclica de VALE3. A ação continua ligada aos preços das commodities, à demanda da indústria siderúrgica e à capacidade da mineradora de operar com custos inferiores aos de concorrentes globais.
O trimestre trouxe sinais positivos na produção, nos preços realizados de cobre e níquel e na remuneração dos acionistas. A companhia também demonstrou capacidade de aumentar vendas e receita apesar das restrições logísticas em Omã e das paralisações em operações do Sistema Sul.
O contraponto está na revisão de custos. A elevação do C1 e do custo all-in reduz a margem de segurança da tese de investimento, porque aumenta a dependência de preços elevados do minério e de um câmbio favorável.
A queda de 43,3% do lucro líquido chama atenção, mas não deve ser analisada isoladamente. Para uma mineradora, o Ebitda, o fluxo de caixa, o custo por tonelada, a dívida e a política de capital são medidas igualmente importantes para avaliar a capacidade de remunerar o acionista.
Os números também mostram que a Vale está mais diversificada do que em ciclos anteriores. Metais básicos ainda representam uma parcela menor do resultado consolidado, mas começam a exercer influência suficiente para amortecer a pressão no minério de ferro.
Pressão de custos será teste central no segundo semestre
A Vale entra na segunda metade de 2026 com produção elevada, projetos em expansão e um programa relevante de retorno ao acionista. O desafio será converter esse desempenho operacional em margens mais amplas.
Os projetos Serra Sul +20 e Britador de Compactos têm início de operação previsto para o segundo semestre e poderão aumentar a flexibilidade do Sistema Norte. Capanema e Vargem Grande 1 também deverão continuar ampliando gradualmente sua contribuição.
No cobre, a reforma do moinho SAG de Sossego poderá limitar temporariamente a produção, embora a companhia planeje utilizar um britador móvel para compensar parte da parada. No níquel, a evolução de Onça Puma e das minas subterrâneas de Voisey’s Bay deverá permanecer no centro das projeções.
A execução desses projetos poderá sustentar volumes maiores e diluir custos fixos. Ainda assim, o cumprimento das novas projeções exigirá disciplina operacional em um ambiente sujeito a oscilações de câmbio, energia, frete e preços internacionais.
O balanço deixou uma mensagem clara para o mercado: a Vale continua produzindo e vendendo em níveis elevados, mas o custo voltou ao centro da discussão. Depois de reforçar dividendos e anunciar a recompra de ações, a mineradora precisará demonstrar que o aumento das despesas com minério é temporário e que os metais básicos podem assumir uma parcela cada vez maior da geração de caixa.










